
     O Vale do Silncio

     Nora Roberts

     Livro III da Trilogia do Crculo























      Disp. Mariana Ferri
      Traduo: YGMR
      Reviso: Juli Lira
      Reviso Final e Formatao: Eve Dallas
      Projeto Revisoras Tradues

























     A meu prprio crculo, amigos e famlia.
     Os personagens, eventos e sucessos apresentados nesta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou desaparecidas  pura coincidncia.
      Este livro no poder ser reproduzido, nem total nem parcialmente, sem a prvia permisso escrita do editor. Todos os direitos reservados.



      Ttulo original: Valley of silence
      Jove Books, The Berlkey Publisching Group, um selo
      do Penguin Group (USA) Inc., 2006


      (c) Nora Roberts, 2006
      (c) da traduo, Gerardo Dava Masso, 2008
      (c) Editorial Planeta, S. A., 2008
      Avda. Diagonal, 662-664, 08034 Barcelona (Espanha)


      Primeira edio: abril de 2008


      ISBN: 978-84-08-07620-9
      Fotocomposio: Tiffitext, S. L.
     Depsito legal: NA. 765-2008
     Impresso e encadernao: RODESA (Rotativas da Estella, S.L.),
     Villatuerta, Navarra.
     Impresso na Espanha - Printed in Spain



















      O bem e o mal, o sabemos, crescem
     juntos quase de maneira inseparvel no
     campo deste mundo.

     John Milton



     No suponhas que sou aquilo que fui.

     William Shakespeare












     PRLOGO


      Havia figuras no fogo. Drages e demnios e guerreiros. As crianas os viam, assim como ele. O ancio sabia que os muito jovens e os muito mais velhos freqentemente
eram capazes de ver coisas invisveis para outros. Ou que estes no queriam ver.
     Ele j lhes tinha contado grande parte da histria. Sua narrao tinha comeado com o feiticeiro que foi chamado pela deusa Morrigan. Os deuses disseram a Hoyt
dos Mac Cionaoith que devia viajar para outros mundos, para outros tempos, e formar um exrcito para enfrentar  rainha dos vampiros. A grande batalha entre humanos
e demnios se livraria as vsperas de Samhain, no Vale do Silncio, na terra de Geall.
     Tinha-lhes falado do irmo do feiticeiro Hoyt, assassinado e transformado em vampiro pela arteira Lilith, a qual j levava existindo a milhares de anos antes
de converter a Cian em mais um de sua espcie. Teriam que passar quase mil anos mais antes que Cian pudesse unir-se a seu irmo Hoyt e  bruxa Glenna para iniciar
o crculo dos seis. Os seguintes membros do mesmo foram dois geallianos: o shifter e a erudita, que viajaram entre os mundos para reunir-se com eles naqueles primeiros
dias. E a ltima a chegar ao crculo foi a guerreira, uma caadora de vampiros do sangue dos Mac Cionaoith.
     As histrias que lhes tinha contado eram relatos de batalhas e coragem, de morte e amizade. E tambm de amor. O amor que tinha florescido entre o feiticeiro
e a bruxa, e entre o shifter e a guerreira, tinha fortalecido o crculo assim como faz a verdadeira magia.
      Mas havia muito mais a contar. Triunfos e derrotas, medo e valor, amor e sacrifcio... e tudo isso acompanhado da luz e da escurido.
      Enquanto as crianas esperavam a continuao da histria, o ancio se perguntou qual seria a melhor maneira de comear a relatar o final da mesma.
      -Eles eram seis -disse, sem afastar a vista do fogo, enquanto as crianas deixavam de sussurrar e de moverem-se, antecipando o que se aproximava.- E cada um
deles tinha a possibilidade de aceitar ou recusar a misso. Porque inclusive quando os mundos esto em suas mos, pode se escolher entre te enfrentares quilo que
quer destru-los ou escapar. E segundo essa escolha -continuou ele- muitas outras escolhas devem ser feitas.
     -Eles eram valentes e leais -exclamou um dos meninos.- Escolheram lutar.
     O ancio esboou um sorriso.
     -Sim, isso eram. Mas mesmo assim, cada dia, cada noite do tempo que lhes tinham concedido, essa escolha devia ser renovada, tinha que voltar a fazer-se. Um
deles, como recordaro, j no era um ser humano, e sim um vampiro. Cada dia, cada noite do tempo que lhes tinham concedido, ele recordava que j no era humano.
No era mais que uma sombra nos mundos que tinha escolhido proteger.
     -E ento -disse o ancio- o vampiro sonhou.
































     CAPTULO 1


     Sonhou. E, em seu sonho, era ainda um homem. Jovem, amalucado talvez, sem dvida imprudente. Mas ento viu o que acreditou que era uma mulher; enormemente bela
e fascinante.
     Levava um bonito vestido vermelho intenso, mais elegante do que merecia aquele pub no campo, de mangas largas e amplas. Como um bom rose, atava-se a suas formas
realando sua pele branca e brilhante. Seu cabelo era dourado e seus cachos destacavam-se em contraste com o penteado.
     O vestido, seu porte, as jias que resplandeciam em seu pescoo, em seus dedos, confirmavam-lhe que era uma dama acomodada e com estilo.
      luz tnue do pub, ele pensou que aquela mulher era como uma chama que ardia na escurido.
     Dois criados tinham disposto uma habitao privada para que ela jantasse e, quando chegou, s sua presena tinha silenciado as conversas e a msica. Mas seus
olhos, azuis como o cu do vero, se encontraram com os seus. S com os seus.
     Quando um dos criados tinha sado do reservado e se dirigiu a ele para lhe dizer que a dama solicitava que a acompanhasse durante o jantar, ele no tinha duvidado
nem por um instante.
     Por que deveria ter feito?
     Estava passando bem escutando os comentrios bem humorados dos homens com os quais estava bebendo, mas partiu da mesa sem pensar duas vezes.
     Ela estava de p em uma habitao iluminada pela luz das velas e as lenhas acesas e servia vinho em meias taas.
     -Estou contente de que tenha aceitado te reunir comigo -disse ela.- Detesto jantar sozinha, voc no? -aproximou-se dele com uns movimentos to elegantes que
quase parecia flutuar no ar.- Me chamo Lilith.
     E lhe estendeu uma taa cheia de vinho.
     Em sua forma de falar havia algo extico, uma cadncia de sons que remetia a areia quente e videiras exuberantes. S de ouvi-la, ele estava j meio seduzido 
e completamente enfeitiado.
     Ambos compartilharam a simples comida, embora o jovem no tinha apetite precisamente de comida. Eram suas palavras as quais ele devorava. Lilith lhe falou das 
terras s que tinha viajado, lugares sobre os quais ele s tinha lido. Tinha passeado entre as pirmides, explicou-lhe que, sob a luz da lua, tinha subido as colinas 
de Roma e contemplado os templos em runas da Grcia.
     Ele nunca tinha viajado alm da Irlanda, e suas palavras, as imagens que evocavam, resultavam quase to excitantes como ela.
     Pensou que ela era muito jovem para ter feito tantas coisas, mas quando o disse, a mulher se limitou a sorrir por cima da borda da taa.
     -Para que servem os mundos se no os usarmos? -perguntou ela.- Eu desfruto de muitas coisas. Vinho para beber, comida para saborear, terras para explorar.  
muito jovem -acrescentou com um sorriso lento e provocador- para te conformar com to pouco. No sente desejos, ou curiosidade, de ver o que h alm do que viu?
     -Quando puder, pensei possivelmente em tomar um ano para ver mais do mundo.
     -Um ano? -Ela fez estalar os dedos com um sorriso -Isto  um ano. Nada, uma piscada. O que faria se tivesse uma eternidade de tempo? -Seus olhos pareciam dois 
insondveis mares azuis quando se inclinou para ele.- O que faria com ele?
     Sem esperar a que lhe respondesse, ela se levantou, deixando um rastro de perfume enquanto se aproximava da pequena janela.
     -Ah, a noite,  to suave. Como o roce da seda sobre a pele. -voltou-se com um brilho especial em seus grandes olhos azuis.- Eu sou uma criatura noturna. E 
acredito que voc tambm o . Ns, os que so como ns, encontramo-nos melhor na escurido.
     Ele se tinha posto de p quando ela o fez e quando Lilith retornou  mesa, seu perfume e o vinho que tinha bebido lhe alagaram os sentidos. E algo mais, havia 
algo denso e brumoso que ofuscava sua mente como uma droga.
     Ela elevou a cabea, jogou-a para trs e logo aproximou sua boca a dele.
     -E por que, quando mais a gosto encontramos na escurido, deveramos passar essas horas sozinhos?
     E no sonho, tudo era como em um sonho, brumoso e confuso. Ele estava na carruagem de Lilith, com seus peitos brancos e voluptuosos nas mos, sua boca quente 
e vida sobre a sua. Ela se ps a rir quando ele comeou a jogar com sua saia, e abriu as pernas em um gesto de sedutor convite.
     -Mos fortes -murmurou.- Um rosto agradvel.  o que necessito, e o que necessito, tomo. Obedecers minhas ordens? -Com outra risada ligeira, lhe mordeu brandamente 
a orelha.- O far? Far, jovem e atrativo Cian de fortes mos?
      -Aye,  obvio. Aye.
      No podia pensar em outra coisa que no fosse enterrar-se nela. Quando o fez, com a carruagem balanando-se furiosamente, a cabea de Lilith caiu para trs 
em um completo abandono.
     -Sim, sim, sim! To duro, to quente. Me d mais e mais! E te levarei alm de tudo o que conhece.
     Quando ele se afundou profundamente nela, e estava quase sem flego ao aproximar-se do clmax, Lilith levantou novamente a cabea.
     Seus olhos j no eram azuis e limpos, e sim vermelhos e selvagens. A comoo que experimentou fez que tentasse apartar-se dela, mas seus braos lhe rodearam 
o corpo subitamente como algemas de ferro. Suas pernas se fecharam ao redor de sua cintura, lhe mantendo dentro dela, apanhado. Enquanto Cian lutava contra uma fora 
implacvel, Lilith sorria, e umas grandes presas brilharam na escurido.
     -O que  voc? -No havia preces em sua cabea; o medo no deixava espao para elas.- O que  voc?
     Os quadris de Lilith continuaram subindo e baixando, levando-o inexoravelmente perto do ponto culminante. Ento lhe agarrou uma mecha de cabelo obrigando-o 
assim a jogar a cabea para trs para deixar exposta sua garganta.
     -Magnfica -respondeu ela.- Eu sou magnfica, e voc tambm o ser.
     Ento atacou e suas presas perfuraram a carne. Cian ouviu seu prprio grito; em alguma parte, em meio da loucura e da dor.
     A queimadura que sentiu foi indescritvel, rasgou-lhe a pele, alcanou o sangue e at o osso. E mesclada com essa sensao, deslizando-se junto com ela, experimentou 
um terrvel, terrvel prazer.
     Ejaculou, em meio da sonora e envolvente escurido, trado por seu corpo enquanto se precipitava para a morte. Debateu-se, entretanto; uma parte dele se aferrava 
 luz e fazia um enorme esforo para sobreviver. Mas a dor, o prazer, arrastavam-no cada vez mais profundamente para o abismo.
      -Voc e eu, meu belo moo. Voc e eu. -Ela voltou a afundar os dentes nele, agora embalando-o entre seus braos. Com a unha, fez-se um pequeno corte no peito 
de modo que o sangue comeou a brotar igual ao fazia, horrivelmente, de seus lbios.- Agora beba. Bebe de mim e viver para sempre.
     No. Sua boca no pde formar a palavra, mas a gritou atravs de sua mente. Ao sentir que a vida lhe escapava, lutou fracamente para aferrar-se a essa negativa. 
Inclusive quando Lilith lhe atraiu a cabea para seu peito, ele resistiu com as poucas foras que ficavam.
     Ento a provou, o sabor rico e embriagador que flua dela. A vida que pulsava nela. E, como se fosse um beb sugando o peito de sua me, ele bebeu sua prpria 
morte.
     
     O vampiro despertou em meio de uma escurido absoluta, de um silncio total. Assim tinha sido desde que o transformaram, fazia j tanto tempo; despertava ao 
pr-do-sol sem nem sequer o som dos batimentos de seu prprio corao agitando o ar.
     Embora tinha tido esse sonho em inumerveis ocasies ao longo de inumerveis anos, perturbava-o voltar a precipitar-se de novo a esse precipcio. O fato de 
ver-se como tinha sido, ver a seu prprio rosto -um rosto que desde aquela noite no tinha podido ver estando acordado-, punha-o nervoso e irritvel.
     Ele no meditava a respeito de seu destino. Era uma ocupao absolutamente intil. Aceitava e usava o que era e, atravs de sua eternidade pessoal, tinha acumulado 
riquezas, mulheres, bem-estar, liberdade. Que mais podia desejar um homem?
     Carecer de pulsao era um pequeno preo que devia pagar por isso no grande esquema das coisas. Um corao que pulsava envelhecia e se debilitava e, em qualquer 
caso, e com o tempo acabava por parar-se, como um relgio quebrado.
     Quantos corpos tinha visto deteriorar-se e morrer em seus mais de novecentos anos? No podia cont-los. E, embora no podia ver o reflexo de seu prprio rosto, 
sabia que era exatamente o mesmo que tinha a noite em que Lilith o tinha levado. Seus ossos ainda eram fortes, e a pele que os cobria seguia sendo firme, elstica 
e sem rugas. Tinha uma vista excelente e seus olhos no tinham perdido sua cor. Em seu cabelo no havia, nem haveria jamais, nenhum vestgio cinza, nem rugas em 
seu pescoo.
     s vezes, na escurido, em privado, utilizava os dedos para apalpar o rosto. Ali estavam os mas do rosto, altas e pronunciadas, a fenda do queixo, os olhos 
afundados que sabia que eram intensamente azuis. Seu nariz reto, a firme curva dos lbios.
     O mesmo. Sempre o mesmo. Mas mesmo assim, concedia-se a pequena indulgncia de uns momentos para recordar como era.
     Levantou-se da cama na escurido, o corpo nu, esbelto e musculoso, e virou para trs o cabelo negro que emoldurava seu rosto. Tinha nascido como Cian Mac Cionaoith, 
embora depois tinha tido muitos nomes. E agora havia voltado a chamar-se Cian... graas ao seu irmo. Hoyt no o chamaria de nenhum outro modo e, posto que essa 
guerra em que tinha acessado a participar podia acabar com ele, Cain decidiu que era justo que levasse o nome que lhe tinham posto ao nascer.
     Certamente, preferiria no morrer na luta. Em sua opinio, s os loucos ou os muito jovens consideravam a morte como uma aventura. Mas se esse era seu destino, 
nesse momento e esse lugar, ao menos desapareceria com estilo. E se havia alguma justia em algum mundo, levaria a Lilith com ele ao p.
     Sua viso era to fina como o resto de seus sentidos, de modo que podia mover-se facilmente na escurido, e se aproximou de uma cmoda em busca de uma das bolsas 
de sangue que havia trazido consigo da Irlanda. Pelo visto, os deuses tinham decidido permitir que o sangue, assim como o vampiro que a necessitava como alimento, 
viajassem atravs das ginjeiras desde seu crculo de pedras.
     Por outra parte, tratava-se de sangue de porco. Fazia sculos que Cian no se alimentava de seres humanos. Uma escolha pessoal, refletiu enquanto abria a bolsa 
e vertia o contedo em uma taa. Uma questo de vontade, e tambm de boas maneiras o tinham levado a isso. Ele vivia entre os humanos, fazia negcios com eles, dormia 
com eles quando estava de nimo para faz-lo. Parecia-lhe descorts alimentar-se deles.
     Em qualquer caso, tinha descoberto que lhe resultava mais simples viver como gostava de faz-lo, mantendo-se fora de foco, se no matava alguma alma desafortunada 
todas as noites. A alimentao com seres vivos acrescentava uma excitao e um sabor que nada podia igualar, mas era por natureza um assunto desagradvel.
     Pouco a pouco tinha se acostumando ao sabor mais andino do sangue de porco e  comodidade de t-lo ao alcance da mo, em lugar de ver-se obrigado a sair e 
caar algo cada vez que tinha fome.
     Tomou o sangue do mesmo modo em que um humano o faria com seu caf da manh... por hbito e pela necessidade de um estmulo ao despertar. O sangue lhe clareava 
mente e punha em funcionamento seu sistema.
     Enquanto se lavava, no se preocupou com o fogo nem as velas. No podia dizer que estivesse encantado com as comodidades que lhe brindava Geall. Com castelo 
ou sem ele, sentia-se totalmente deslocado naquela atmosfera medieval, o mesmo que Glenna e Blair.
     Ele j tinha vivido nessa poca uma vez, e uma vez era mais que suficiente para qualquer um. Ele preferia - preferia muito - a comodidade cotidiana dos encanamentos 
internos, da eletricidade e da fodida comida Chinesa que lhe levavam a domiclio.
      Sentia falta de seu carro, sua cama, o maldito microondas. Tinha saudades da vida e dos sons da cidade e tudo o que esta oferecia. O destino lhe daria um bom 
chute no traseiro se morria ali, na mesma poca em que sua vida tinha comeado.
      Uma vez vestido abandonou seu quarto para dirigir-se s cavalarias em busca de seu cavalo.
      Havia gente l fora -criados, guardas, cortesos-, todos os que viviam e trabalhavam dentro do castelo. A maioria o evitou, esquivando seu olhar ou acelerando 
o passo. Alguns faziam o sinal contra o diabo a suas costas. Mas isso Cian no se preocupava absolutamente.
      Todos sabiam o que era... e tinham sido testemunhas do que eram capazes as criaturas como ele desde que Moira, a gladiadora erudita, tinha lutado contra um 
deles no campo de jogos.
      Tinha sido uma boa estratgia, pensou agora, que Moira lhe pedisse que, junto a Blair e Larkin, caasse aos dois vampiros que tinham matado a sua me, a rainha. 
Moira tinha entendido a importncia, o valor de trazer os vampiros com vida para que as pessoas pudessem ver o que realmente eram. E para que vissem a ela prpria.
      Moira lutaria contra um deles e lhe mataria, demonstrando assim era uma combatente.
     Ao cabo de umas semanas, ela conduziria o seu povo  guerra. E quando uma terra como Geall que viveu em paz tanto tempo, necessita de um lder forte e decidido 
para converter em soldados aos camponeses e comerciantes, a damas da corte e a decrpitos assessores.
     Ele no estava seguro de que Moira estivesse  altura da tarefa a qual devia enfrentar-se. Mas era uma moa valente, pensou enquanto se deslizava fora do castelo 
e atravessava um ptio empedrado em direo s cavalarias. Alm de muito inteligente. E no cabia dvida de que tinha aperfeioado uma considervel habilidade para 
o combate ao longo dos dois ltimos meses. Por outra parte, era evidente que tinha sido instruda desde seu nascimento em questes de Estado e protocolo, e sua mente 
era engenhosa e aberta.
     Imaginou que, em tempos de paz, Moira seria capaz de governar muito bem seu pequeno e bonito mundo. Mas em tempos de guerra, um governante tinha que ser um 
general alm de um lder decorativo.
     Se dele tivesse dependido, teria deixado a Riddock, seu tio, a cargo do governo. Mas havia muito poucas coisas em todo aquele assunto que dependessem dele.
     Ouviu-a antes de v-la e percebeu seu aroma inclusive antes de ouvi-la. Cian esteve a ponto de dar a volta e retornar por onde tinha vindo. Era um chateio topar-se 
com uma mulher em que algum tinha estado pensando.
     O problema era que, com muita freqncia, pensava s nela.
     Evitar a Moira no era algo factvel, do momento em que estavam inexoravelmente unidos naquela guerra. Entretanto, afastar-se naqueles momentos sem ser visto 
seria muito simples. E um gesto covarde. O orgulho, como sempre, lhe impediu de escolher o caminho mais fcil.
     Os moos de quadra tinham agasalhado seu cavalo no extremo do estbulo, separado do resto dos cavalos por duas cavalarias. Cian entendia e tolerava que os 
moos de quadra e os ferradores se mostrassem resistentes a atender o cavalo de um demnio. Do mesmo modo que sabia que Larkin ou Hoyt eram quem se encarregavam 
de assear e alimentar a seu temperamental Vlad todas as manhs.
     Por outra parte, tudo parecia indicar que Moira tinha assumido a tarefa de mimar ao animal. Sustentava um molho de cenouras em uma mo, comprovou Cian, e balanava 
uma ante o focinho do cavalo, tentando-o para que a agarrasse.
      -Voc sabe que a quer -murmurou Moira.-  to apetitosa. A nica coisa que tem que fazer  agarr-la.
      Ele pensava o mesmo a respeito da mulher, refletiu Cian.
      Ia vestida com uma tnica sobre uma simples saia de linho, por isso deduziu que qualquer treinamento que tivesse estado realizando esse dia j tinha terminado. 
Seu traje era extremamente simples para tratar-se de uma princesa; de um azul discreto, com apenas um indcio de renda no peito. Em seu pescoo brilhava a cruz de 
prata, uma das nove cruzes que Glenna e Hoyt tinham encantado. Levava o cabelo solto, uma sedosa cascata cor castanha que lhe caa sobre as costas e lhe chegava 
 cintura, e estava coroada com o fino smbolo de seu cargo.
      No era linda. Cian o recordava a si mesmo freqentemente, quase to freqentemente como pensava nela. Moira era, no melhor dos casos, uma garota bonita. Pequena, 
magra, de caractersticas tambm pequenas. S seus olhos eram grandes. Cor cinza claro quando estava tranqila e pensativa, escutando. Como fumaa do inferno quando 
estava excitada.
     Ele podia escolher entre grandes belezas... como o faria qualquer homem com certo sentido e habilidade que j levasse uns quantos sculos nas costas. Moira 
no era linda, mas apesar de todos os esforos que fazia, no podia afast-la de sua mente.
     Sabia que podia t-la se dedicava um pouco de esforo a seduzi-la. Moira era jovem e curiosa, e inocente e, portanto, muito vulnervel. Que era a razo pela 
qual, por cima de todo o resto, ele sabia que, se procurava entretenimento, companhia e alvio a suas necessidades, seria muito melhor que seduzisse a qualquer uma 
de suas damas.
     Cian se tinha fartado de inocncia fazia j muito tempo, do mesmo modo que se fartou de beber sangue humano.
     Seu cavalo, entretanto, parecia ter muita menos fora de vontade. S demorou um momento em inclinar a cabea e morder a cenoura que Moira lhe oferecia.
     Ela se ps-se a rir e acariciou as orelhas de Vlad enquanto este mastigava. 
     -V? No era to difcil, verdade? Voc e eu somos amigos. Sei que se sente sozinho de vez em quando. No nos passa isso a todos?
     Estava levantando outra cenoura quando Cian saiu de entre as sombras.
     -Conseguir convert-lo em um cachorrinho mimado, e ento que tipo de cavalo de guerra ser Vlad quando chegar o Samhain?
     Moira deu um coice e logo ficou rgida. Mas quando se voltou para Cian seu rosto se serenou.
     -No te incomoda, verdade? Ao Vlad gosta de desfrutar de um pequeno presente de vez em quando.
     -No nos passa isso a todos? -murmurou ele.
     Apenas um leve rubor em suas bochechas delatou sua confuso ao ter sido ouvida sem dar-se conta.
     -O treinamento esteve muito bem hoje. Est chegando gente de todo Geall. So tantos os que desejam lutar que decidimos que instalaremos uma segunda zona de 
treinamento nas terras de meu tio. Tynan e Niall trabalharo ali.
     -E o alojamento?
     -Sim, esse aspecto se est convertendo em um problema. Alojaremos no castelo a todos os que possamos, e tambm na casa de meu tio. Alm disso, contamos com 
a estalagem, e muitos dos camponeses e agricultores j esto albergando a familiares e amigos. Ningum ser dispensado. Encontraremos uma maneira de faz-lo.
     Moira brincava com sua cruz enquanto falava. No porque lhe temesse, pensou Cian, mas sim como uma espcie de tic.
      -Tambm ter que pensar na comida. So muitos os que tm que abandonar seus cultivos e seu gado para vir aqui. Mas nos arrumaremos. Comeste?
      Moira se ruborizou intensamente logo que as palavras tiveram sado de sua boca.
      -O que queria dizer  que haver janta no salo se...
      -Sei o que quiseste dizer. No. Pensava lhe jogar uma olhada ao cavalo primeiro, mas parece estar bem cuidado e alimentado. -Assim que ele acabou de dizer 
essas palavras, Vlad golpeou com sua cabea o ombro de Moira.- E estragado -acrescentou Cian.
      Moira franziu o cenho, um gesto que Cian sabia que fazia quando estava zangada ou pensativa.
      -S so cenouras e lhe fazem bem.
      -Falando de comida, dentro de uma semana necessitarei de sangue. Poderia te encarregar de que no se desperdice a dos prximos porcos que vo ser sacrificados?
     - obvio.
     - muito amvel.
     Agora um ligeiro gesto de irritao cruzou o rosto de Moira.
     -Pode pegar do porco tudo o que necessite. Quero dizer que ningum desprezaria uma boa fatia de bacon, no?
     Deixou a ltima cenoura em mos de Cian e comeou a afastar-se, mas se deteve a poucos passos.
     -No sei por que me irrita com tanta facilidade. Nem se o faz ou no a propsito. -Levantou uma mo.- E no, no acredito que queira saber a resposta por agora. 
Em troca eu gostaria de falar contigo quando tiver um momento a respeito de outro assunto.
     Evit-la no era possvel, recordou-se a si mesmo.
     -Tenho um momento.
     Ela jogou uma olhada ao redor. Ali no s os cavalos tinham orelhas.
     -Pergunto-me se poderia dedicar esse momento a dar um passeio comigo. Eu gostaria que isto fosse em privado.
     Cian se encolheu de ombros e, dando a Vlad a ltima cenoura, reuniu-se com Moira e saram juntos das cavalarias.
     -Segredos de Estado, sua alteza?
     -Por que tem que te burlar de mim?
     -Em realidade no estava me burlando. Est um pouco suscetvel esta noite, no achas?
     - possvel que o esteja. -virou-se para trs o cabelo que caa sobre seus ombros.- Com tudo isto da guerra e o fim dos dias, alm das questes prticas relacionadas 
com a lavagem da roupa e a proviso de mantimentos para um exrcito,  possvel que esteja um tanto irritvel.
     -Pode delegar.
     -Delego. Mas mesmo assim requer tempo e ateno pr as tarefas em outras mos, encontrar as mais adequadas, explicar como devem levar-se a cabo. Mas no era 
disto do que queria falar contigo.
     -Sente-se.
     -O que?
     -Sente-se. -Agarrou-a pelo brao, ignorando a maneira em que seus msculos se esticaram contra sua mo, e a obrigou a sentar-se em um banco.- Sente-se, deixe 
ao menos descansar um pouco os ps j que ao que parece no quer apagar durante cinco minutos esse crebro inquieto que tem.
     -No posso recordar quando foi a ltima vez que tive uma hora s para mim e um livro. Bom, em realidade sim posso record-lo. Foi quando estvamos na Irlanda, 
em sua casa. Sinto falta de... dos livros, a quietude que h neles.
      -Tem que tomar essa hora para ti de vez em quando. De outro modo te esgotar, e isso no ser bom para ti e tampouco para outros.
      -Sinto as mos to cheias que me doem os braos. -olhou as mos, que descansavam em seu colo, e suspirou.- J estou de novo com o mesmo. O que  o que diz 
Blair? Merda, merda, merda.
      Surpreendeu-se para ouvir a risada de Cian e voltou a cabea para no rir.
      -Certamente que Geall nunca teve uma rainha como voc.
      O sorriso de Moira se desvaneceu.
      -No, tem direito a pens-lo. Embora logo veremos se sou a rainha ou no. Amanh, quando amanhecer, iremos  pedra.
      -Entendo.
      -Se consigo tirar a espada dela, como o fez minha me em sua poca, e seu pai na sua, Geall ter uma rainha como eu. -Olhou para as portas do castelo por cima 
dos arbustos.- Nesse caso, Geall no ter outra alternativa. E eu tampouco.
      -Desejaria que fosse de outra maneira?
      -No sei o que  que desejaria, de modo que no desejo nada absolutamente... exceto que termine o quanto antes. Ento poderei fazer, bom, o que seja necessrio 
fazer a seguir. Lhe queria dizer isso -Ela afastou a vista do que fosse que visse em sua mente e voltou a lhe olhar aos olhos.- Teria gostado que encontrssemos 
alguma maneira de celebrar a cerimnia de noite.
     Olhos doces, pensou ele, e to srios...
     - muito perigoso celebrar qualquer tipo de cerimnia depois do pr-do-sol alm das muralhas do castelo.
     -Eu sei. Todos os que desejem presenciar o ritual podem assistir. Voc no pode, sei. E lamento que seja assim. Parece-me errado. Acredito que ns seis, nosso 
crculo, deveramos estar juntos em um momento como esse.
     Sua mo voltou a procurar a cruz que pendurava de seu pescoo.
     -Geall no  teu assunto, isso tambm sei, mas esse momento ser importante pelo que passe depois. H mais do que imaginava. Mais do que nunca poderia ter imaginado.
     Moira inspirou profundamente com um ligeiro estremecimento.
     -Eles mataram a meu pai.
     -O que est dizendo?
     -Tenho que seguir caminhando. No posso ficar sentada.
     Levantou-se rapidamente, esfregando os braos para esquentar-se ante o frio sbito no ar e em seu sangue. Atravessou o ptio em direo a um dos jardins.
     - algo que no contei a ningum, e tampouco tinha intenes de contar isso a ti. Que sentido tem? Alm disso, no tenho nenhuma prova, s se trata de algo 
que eu sei.
     -O que  que sabe?
     Moira se deu conta de que falar com Cian, explicar a ele, era mais fcil do que tinha pensado, porque tambm lhe incumbia.
     -Um dos dois vampiros que mataram a minha me, os que trouxeram aqui. O vampiro contra o qual lutei. -Levantou uma mo e ele observou como recuperava a compostura.- 
Antes que o matasse, disse algo a respeito de meu pai e da forma em que morreu.
     -Provavelmente estava tratando de conseguir que perdesse a calma, romper sua concentrao.
     -Fez um bom trabalho nesse sentido, mas havia algo mais. Sei, em meu interior. -Olhou-o fixamente e levou a mo ao corao.- Soube quando olhei a esse vampiro. 
No s minha me, mas sim tambm meu pai. Acredito que Lilith os enviou para matar a minha me porque j tinha tido xito antes. Quando eu era uma menina.
      Moira continuou caminhando, a cabea inclinada pelo peso de seus pensamentos, sua fina coroa brilhando  luz das tochas.
      -Todos acreditaram que tinha sido um urso. Meu pai estava caando nas montanhas. Mataram a ele e ao irmo mais novo de minha me. Meu tio Riddock no os tinha 
acompanhado nessa ocasio porque minha tia estava a ponto de dar a luz. Eu...
      Moira voltou a interromper-se para ouvir passos perto deles, e se manteve em silncio at que o som das pegadas se perdeu na distncia.
     -Os que os encontraram e trouxeram os corpos ao castelo acreditaram que tinha sido obra de animais. E assim foi -afirmou com voz acerada.- Mas esses animais 
caminham como um homem. Lilith lhes enviou para que matassem a meu pai, para que eu fosse a nica filha.
     Nesse momento, voltou-se para ele, a luz da tocha tingia de vermelho seu rosto intensamente plido.
     -Talvez, naquela poca, ela s soubesse que o soberano de Geall seria um dos integrantes do crculo. Ou, possivelmente fosse mais fcil matar a ele e no a 
mim naquele momento, j que eu era pouco mais que um beb e estava muito protegida. Tinha muito tempo pela frente para enviar aos assassinos em minha busca. Mas 
em troca mataram a minha me.
     -Os que o fizeram esto mortos.
     -Acaso  isso um consolo? -perguntou-se em voz alta, e pensou que, por parte dele, provavelmente fosse uma maneira de oferec-lo -No sei o que pensar. Mas 
sei que Lilith levou os meus pais do meu lado. Os levou para deter algo que no pode deter-se. Quando chegar Samhain nos encontraremos cara a cara no campo de batalha, 
porque assim est escrito. E lute eu como rainha ou no, lutarei. Quer dizer, matou-os por nada.
     -E no h nada que pudesse ter feito para impedi-lo.
     Sim, consolo, pensou ela outra vez. Estranhamente, sua concisa afirmao lhe dava precisamente isso.
     -Rezo para que isso seja verdade. Mas sei que, devido ao que se fez, ao que no se fez, ao que devia fazer-se, o que acontea amanh  muito mais importante 
que um mero ritual. Quem quer que sustente amanh essa espada, dirigir esta guerra, e a empunhar com o sangue de meus pais assassinados. Ela no pde impedi-lo 
e no poder impedi-lo. -Moira retrocedeu uns passos e assinalou para cima.- V essas bandeiras? O drago e o claddaugh. Os smbolos de Geall desde o comeo de sua 
existncia. Antes que isto comece, pedirei que seja iada uma bandeira com um novo smbolo.
     Cian pensou em todos os smbolos entre os quais ela podia escolher: uma espada, uma estaca, uma flecha. Mas ento soube. No seria uma arma, um instrumento 
de guerra e morte, e sim um smbolo de esperana e resistncia.
     -Um sol. Para que estenda sua luz sobre o mundo -disse ele.
     A surpresa mesclada com o prazer que a percorreu iluminou o rosto da Moira.
     -Sim. Voc  capaz de entender meu pensamento, e a necessidade. Um sol dourado em uma bandeira branca para que represente a luz, os manhs pelos que lutaremos. 
Esse sol, dourado como a glria, ser o terceiro smbolo de Geall, um que eu trago para meu mundo. E maldita seja Lilith. Malditos sejam ela e o que ela trouxe aqui.
      Moira, agora com o rosto ruborizado, inspirou profundamente.
      -Sabe escutar... e eu falo muito. Entremos. Outros devem estar j se reunindo para o jantar.
      Cian lhe tocou um brao para det-la.
      -Antes acreditava que no seria uma rainha adequada para tempos de guerra. Acredito que  uma das poucas vezes em que me equivoquei.
     -Se a espada for minha -disse ela.- De momento no sou a rainha, ainda no sabe se te equivocastes.
     Quando puseram-se a andar para as portas do castelo, a Cian lhe ocorreu pensar que Moira e ele acabavam de manter a conversao mais larga das sustentadas nos 
dois meses que tinham transcorrido desde que se conheceram.
     -Tem que dizer aos outros. Tem que lhes dizer o que acha que aconteceu a seu pai. Se isto for um crculo, no deveriam existir segredos que pudessem debilit-lo.
     -Tem razo. Sim, tem razo.
     Ao entrar no castelo, tinha a cabea erguida, e seus olhos eram cor cinza claro.
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 2
      
     
     
     Ela no dormiu. Como podia dormir uma mulher em que era, na mente de Moira, a ltima noite de sua vida?  manh seguinte se converteria na nova rainha de Geall 
se seu destino era que conseguisse liberar a espada de sua bainha de pedra. E, como rainha, deveria governar e reinar, tarefas ambas para as quais tinha sido preparada 
desde o nascimento. Mas como rainha, nesse iminente amanhecer e nos seguintes, conduziria a seu povo  guerra. Se no era seu destino que extrara a espada da pedra, 
ela seguiria a outro, de boa vontade,  batalha.
     Podiam acaso semanas de intenso treinamento preparar a algum para semelhante ao, tamanha responsabilidade? De modo que essa noite era a ltima em que podia 
ser a mulher que ela tinha acreditado que seria, inclusive a rainha que tinha esperado chegar a ser algum dia.
     Moira sabia que nada voltaria a ser igual, no importava o que o amanhecer trouxesse consigo.
     Antes da morte de sua me, tinha acreditado que esse amanhecer que agora estava a ponto de despontar se encontrava a anos de distncia. Sempre tinha suposto 
que desfrutaria durante muitos anos da companhia, o consolo e o conselho de sua me, anos de paz e estudo de modo que, quando chegasse o momento, no s estaria 
preparada para levar a coroa mas tambm seria digna dela.
      Em parte, Moira tinha suposto que sua me reinaria durante vrias dcadas e que ela mesma se casaria. No nebuloso e distante futuro, um de seus filhos levaria 
a coroa em seu lugar.
      Tudo isso tinha mudado na noite em que sua me morreu. No, Moira se corrigiu, tinha mudado antes, muitos anos antes, quando seu pai tinha sido assassinado.
      Possivelmente nada tinha mudado absolutamente, mas sim se tratava simplesmente de passar as pginas  medida que o livro do destino se escrevia.
      Agora s podia desejar ter a sabedoria de sua me e procurar em seu prprio interior o valor para levar tanto a coroa como a espada.
      Estava de p, em uma das torres mais elevadas do castelo, sob uma pequena lua. Quando voltasse a estar cheia, j estaria longe daqui, na fria terra de um campo 
de batalha.
      Moira tinha subido s torres porque dali podia ver as tochas que ardiam no campo de jogos. Observar o treinamento noturno e ouvir os sons que produzia. Cian, 
pensou, empregava horas de sua noite em ensinar a homens e mulheres como lutar contra algo que era mais forte e rpido que os humanos. Ele os pressionaria, estava 
segura disso, at que estivessem preparados para matar. Como a tinha pressionado a ela e a outros membros do crculo, noite ps noite durante as semanas que tinham 
permanecido na Irlanda.
     Nem todos confiavam nele, isso era algo que Moira tambm sabia. Alguns lhe temiam sem dissimul-lo, mas isso talvez fosse positivo. Ela entendia que Cian no 
estava ali para fazer amigos, e sim guerreiros. Em realidade, grande parte de sua formao de guerreira devia a ele.
     Moira acreditava entender por que Cian lutava junto a eles ou, ao menos, tinha um indcio da razo pela qual ele arriscava tanto pela humanidade. Em parte era 
por orgulho, de que sabia que Cian tinha de sobra. Ele no se inclinaria ante Lilith. Em parte, admitisse Cian ou no, era por lealdade a seu irmo. E o resto, bom, 
tinha a ver com a coragem e suas prprias emoes em conflito.
     Porque ela sabia que Cian tinha emoes. Era incapaz de imaginar como, depois de mil anos de existncia, lutavam e se enfrentavam em seu interior. As dela estavam 
to confusas e alteradas depois de s dois meses de morte e sangue que nem era capaz de reconhecer-se. Como seria para ele, depois de tudo o que tinha visto e feito, 
de tudo o que tinha ganhado e perdido? Cian sabia do mundo muito mais que qualquer um deles; de seus prazeres, de suas dores, de suas possibilidades. No, Moira 
era incapaz de imaginar o que significava saber tudo o que Cian sabia e mesmo assim arriscar a prpria sobrevivncia.
     Que ele o fizesse, que agora inclusive estivesse dedicando seu tempo e sua habilidade para treinar tropas, merecia todo o seu respeito. Ao tempo que o mistrio 
que o rodeava, os como e os por que, continuavam fascinando-a.
     Moira no podia estar segura do que Cian pensava dela. Embora a tivesse beijado -esse nico ardente e desesperado momento-, no sabia com segurana. E nunca 
tinha podido resistir de meter-se na medula das coisas.
     Ouviu passos que se aproximavam, e ao voltar-se viu que era Larkin.
     -Deveria estar em sua cama -disse ele.
     -Ali s estaria olhando o teto. A vista  melhor daqui. -Procurou a mo de seu primo, seu amigo, e se sentiu imediatamente confortada.- E por que no est voc 
na tua?
     -Vi-te. Blair e eu fomos a dar uma mo a Cian -assim como tinha feito o de Moira, o olhar de Larkin passeou pelo campo que se estendia debaixo deles- e te vi 
aqui, sozinha.
      -Esta noite no sou boa companhia, nem sequer para mim mesma. S queria que isto j tivesse acabado, ento viria o seguinte. De modo que decidi vir aqui para 
refletir sobre essas coisas. -Apoiou a cabea em seu ombro.- Ajuda a passar o tempo.
      -Poderamos baixar sala de jantar familiar. Deixarei-te ganhar no xadrez.
      -Me deixar? Oh, lhe escutem. -Lhe olhou. Os olhos de Larkin eram de um castanho dourado, com pestanas largas, como os seus. O sorriso que danava neles no 
alcanava a mascarar sua preocupao.- E suponho que me deixaste ganhar as centenas de partidas que disputamos todos estes anos.
      -Pensava que seria bom para te dar confiana.
      Ela se ps-se a rir ao tempo que lhe dava um pequeno empurro.
      -Estou segura de que posso ganhar no xadrez nove de cada dez vezes que joguemos.
      -Ento o comprovaremos.
      -No, no o faremos. -Lhe deu um beijo na bochecha e lhe separou da cara uma mecha de cabelo castanho.- Voc ir a sua cama e a sua dama, e no passar estas 
horas me distraindo de meu estado de nimo desanimador. Vamos, entremos. Depois de tudo, talvez a limitada vista do teto de minha habitao me aborrea ao ponto 
de fazer que durma.
     -Se quiser companhia, s tem que chamar a minha porta.
     -Eu sei.
     Do mesmo modo que Moira sabia que tentaria descansar at a primeira luz do dia.
     Mas no dormiu.
     Conforme mandava a tradio, Moira seria vestida e atendida por suas damas na ltima hora prvia ao amanhecer. Apesar de que lhe insistiram para que o pusesse, 
rechaou o vestido vermelho. Ela sabia muito bem que o vermelho no era uma cor que a favorecesse, no importava quo rgio pudesse ser. Escolheu, em troca, vestir-se 
com as cores do bosque, verde escuro sobre uma saia verde plido.
     Aceitou a levar jias, depois de tudo, eram as jias de sua me. De modo que permitiu que as pesadas pedras de citrino fossem colocadas ao redor do pescoo. 
Mas sob nenhuma circunstncia tiraria a cruz de prata.
     Levaria o cabelo solto e descoberto, e permaneceu sentada, deixando que o bate-papo das mulheres a rodeasse, enquanto Dervil lhe escovava o cabelo uma e outra 
vez.
     Ceara, uma de suas damas, voltou a insistir em que comesse um prato de bolos de mel.
     -Depois -lhe disse Moira.- Me sentirei mais tranqila mais tarde.
     Moira se levantou e sentiu um profundo alvio ao ver que Glenna entrava no quarto.
     -Que maravilhoso aspecto tem!
     Moira estendeu ambas as mos. Ela tinha escolhido pessoalmente o traje que levariam Blair e Glenna, e agora comprovava que sua escolha tinha sido acertada. 
Por outra parte, pensou, Glenna era uma mulher to atrativa que no havia nada que no a favorecesse.
     Mesmo assim, a escolha do veludo azul escuro contribua para realar sua pele cremosa e o fogo de seu cabelo.
     -Sinto-me como se fosse uma princesa -disse Glenna.- Muito obrigada. E voc, Moira, parece uma rainha.
     -De verdade? - voltou-se para seu espelho, mas s se viu si mesma. Sorriu quando Blair entrou no quarto. Para ela tinha escolhido um vestido cor cobre em p, 
com sobre-saia dourado plido.- Nunca te tinha visto com um vestido.
      -E que vestido! -Blair estudou a suas amigas e logo seolhou.- Me parece que tudo isto  como um conto de fadas.
      Penteou-se com os dedos o cabelo curto e escuro.
      -No te importa ento? A tradio exige o traje mais formal.
      -Eu gosto de ser uma garota. No me incomoda me vestir como uma, inclusive como uma que no vai na moda de meu tempo. -Blair descobriu os bolos de mel e agarrou 
um.- Nervosa?
      -Muito. Eu gostaria de estar a ss um momento com Blair e Glenna -disse Moira a suas damas. Uma vez que estas partiram do quarto, Moira se deixou cair na poltrona 
que havia diante da lareira acesa.- Levam dando voltas a meu redor h uma hora.  cansativo.
      -Parece cansada. -Blair se sentou no brao da poltrona.- No dormiste nada.
      -Minha mente estava inquieta.
      -No bebeu a poo que te dei. -Glenna suspirou.- Tem que estar descansada para isto, Moira.
     -Precisava pensar. No  a maneira habitual de faz-lo, mas quero que vocs duas, junto a Hoyt e Larkin, caminhem a meu lado at a pedra onde est a espada.
      -Acaso no era esse o plano? -perguntou Blair com a boca cheia.
     -Vocs formaro parte da comitiva, claro, e, segundo manda a tradio, eu devo caminhar sozinha, diante de todos, como sempre se tem feito. Atrs de mim, s 
deveriam estar os membros de minha famlia: meu tio, minha tia, Larkin e meus outros primos. E atrs deles, segundo seu grau e posio, outros. Mas eu quero que 
Vocs caminhem com minha famlia, porque so minha famlia. Fao isto por mim, mas tambm pelo povo de Geall. Quero que eles vejam o que so. Ciam no poder estar 
na cerimnia, como me teria gostado.
     -No pode fazer-se de noite, Moira. -Blair apoiou a mo sobre seu ombro.-  um risco muito grande.
     -Eu sei. Mas embora o crculo no se encontre completo no lugar onde est a pedra, Cian estar em meus pensamentos. -levantou-se e foi at uma das janelas.- 
J est amanhecendo -murmurou.- E lhe seguir o dia. -voltou-se enquanto se apagavam as ltimas estrelas.- Estou preparada para o que venha.
     Sua famlia e suas damas j estavam reunidas abaixo. Moira aceitou a capa que lhe oferecia Dervil e ela mesma se ajustou o broche com o drago.
     Quando elevou a vista, viu Cian. Sups que devia haver-se detido um momento de caminho a sua habitao, at que comprovou que levava posta a capa que Glenna 
e Hoyt tinham encantado para que impedisse o passo dos, para ele, mortais raios do sol.
     Moira se afastou do lado de seu tio e se aproximou de Cian.
     -Pensa em vir? -perguntou-lhe. 
     -Raras vezes tenho oportunidade de dar um passeio pelas manhs. 
     Apesar do desenvolto de suas palavras, Moira percebeu o que se escondia debaixo delas.
     -Agradeo-te que tenha escolhido esta manh para dar seu passeio.
     -J amanheceu -disse Riddock.- As pessoas esperam.
     Moira se limitou a assentir brevemente, logo se levantou o capuz como mandava o costume antes de sair  brumosa luz do dia.
     O ar era frio e nebuloso, e nem corria uma brisa que agitava os dedos da bruma. Atravs dessa cortina de nvoa, Moira cruzou sozinha o ptio at chegar s portas 
do castelo, com seu squito caminhando atrs dela. No amortecido silncio, ouviu o canto dos pssaros e o leve sussurro do ar mido.
      Pensou em sua me, que uma vez tinha percorrido esse mesmo caminho em uma manh fria e brumosa. E em todos aqueles que o tinham feito antes que ela, cruzando 
as portas do castelo, atravs do caminho de terra, sobre a erva verde to carregada de rocio que era como estar vadeando um rio. Sabia que muitos a seguiam, comerciantes 
e artesos, harpistas e bardos. Mes e filhas, soldados e filhos.
      O cu se tingia de rosa no este e a neblina que cobria a terra lanava brilhos chapeados.
      Moira podia cheirar o rio e a terra e continuou subindo pela suave colina, com o rocio lhe molhando a borda do vestido.
      O lugar da pedra se encontrava em uma colina em que havia um pequeno bosque. Sobre as rochas que havia perto do poo sagrado, cresciam o musgo e o lquen amarelo 
plido e verde. Quando chegasse a primavera apareceria o vivaz alaranjado dos lrios, as cabeas danantes dos rannculos e, mais tarde, as formosas campainhas das 
dedaleiras, todas elas crescendo no lugar que lhes correspondia.
     Mas no momento as flores permaneciam dormidas e as folhas das rvores tinham essa primeira pincelada de cor que pressagiava sua morte.
     A pedra onde estava a espada era grande e branca, como um altar sobre um antigo dlmen de pedra lisa e cinza.
     Os raios do sol atravessavam as folhas e a nvoa, alcanando essa pedra branca e arrancando reflexos de prata do punho da espada enterrada nela.
     As mos de Moira estavam frias, muito frias. Ela conhecia a histria desde que era pequena. Como os deuses tinham forjado a espada com um raio, com o mar, a 
terra e o vento. Como Morrigan tinha levado a espada e o altar de pedra at esse lugar, e tinha enterrado ali a espada at o punho, e gravado as palavras na pedra 
com seu dedo ardente.
     
     FINCADA PELA MO DOS DEUSES
     LIBERADA PELA MO DE UM MORTAL
     COM ESTA ESPADA
     ESSA MO GOVERNAR GEALL
     
     Moira se deteve na base da pedra para ler novamente as palavras. Se os deuses assim o dispunham, essa mo seria a sua.
     Com a capa agitando-se sobre a erva coberta de rocio, caminhou atravs do sol e a nvoa at o topo da colina mgica. E ocupou seu lugar atrs da pedra.
     Pela primeira vez olhou e viu. Centenas de pessoas, seu povo, com o olhar posto nela, ocupavam os campos, o atalho de terra do caminho. Se a espada ficava em 
suas mos cada um deles seria sua responsabilidade. Estremeceu-se e acreditou desfalecer.
     Conseguiu tranqilizar-se enquanto examinava os rostos e esperava a que o trio de homens Santos ocupassem seus lugares atrs dela. Alguns ainda continuavam 
subindo a costa da colina, apressando-se para no perder esse momento. Moira desejava soar acalmada quando lhes falasse, de modo que esperou um pouco mais e deixou 
que seu olhar se posasse nos olhos daqueles a quem mais amava.
     -Minha senhora -disse um dos homens Santos.
     -Sim. Um momento.
     Abriu lentamente o broche do drago, tirou-se a capa e a entregou atrs dela. O amplo vo das mangas do vestido ondeou para trs quando levantou os braos, 
mas no sentiu o frio na pele. Ao contrrio, sentia calor
     -Sou uma serva do Geall -exclamou.- Sou uma criatura dos deuses. Vim a este lugar para me inclinar ante a vontade de ambos. Por meu sangue, por meu corao, 
por meu esprito. -Deu o ltimo passo que a separava da pedra. No havia um s som no ar. Era como se a prpria natureza estivesse contendo o flego. Moira estendeu 
a mo e curvou os dedos ao redor do punho de prata.
     "OH -pensou, ao sentir seu calor, enquanto em algum lugar de sua mente ouvia o suave murmrio de sua msica.-  obvio, sim,  obvio.  minha e sempre foi."
     Com o sussurro do ao contra a pedra, Moira liberou a espada e a elevou apontando ao cu.
     Sabia que seu povo a aclamava e alguns choravam. Sabia que, como um s homem, todos tinham fincado o joelho em terra. Mas seus olhos estavam fixos na ponta 
da espada e no raio de luz que chegava do cu para incidir nela. 
      Moira sentiu essa luz em seu interior, uma quebra de onda de calor e cor e fora. Notou uma sbita queimadura no brao e, como se os prprios deuses o tivessem 
gravado, o smbolo do claddaugh se formou nele para assinal-la como rainha de Geall. Transportada, emocionada e humilde, olhou a seu povo. E seus olhos encontraram 
os de Cian.
     Todo o resto pareceu desaparecer ento, por um momento. S estava ele, o rosto escurecido pelo capuz da capa, e seus olhos brilhantes e azuis.
     Como podia ser, perguntou-se, que ela estivesse sustentando o destino de todos eles na mo e s o visse ele? Como era possvel que, ao olhar seus olhos, fosse 
como estar olhando mais e mais profundamente em seu prprio destino?
     -Sou uma serva de Geall -repetiu, incapaz de apartar seus olhos de Cian.- Sou uma criatura dos deuses. Esta espada e tudo o que ela protege me pertence. Sou 
Moira, rainha guerreira de Geall. Levantem-se e saibam que vos amo.
     Ela permaneceu de p, tal como estava, a espada ainda apontada para o cu enquanto as mos do homem santo colocavam a coroa em sua cabea.
     A magia no era algo que lhe resultasse estranho, j fosse branca ou negra, mas Cian pensou que jamais em sua vida tinha visto nada mais poderoso. O rosto de 
Moira, que se via to plido quando tirou a capa, tinha florescido quando sua mo tinha arrancado a espada da pedra. Seus olhos, to preocupados, to sombrios, eram 
agora to brilhantes como a folha da espada. E tinham atravessado os seus de parte para parte, afiados como uma espada, quando o tinha colocado.
     Ali estava, pensou ele, leve e magra, e to magnfica como qualquer amazona. Subitamente rgia, subitamente ardente, subitamente bonita.
     O que moveu dentro dele no tinha espao ali, naquele momento.
     Retrocedeu uns passos e se voltou para partir. Hoyt o agarrou de um brao.
     -Deve esperar por ela, pela rainha.
     Cian arqueou uma sobrancelha.
     -Esquece que eu no tenho nenhuma rainha. E j estive suficiente tempo debaixo desta fodida capa.
     Moveu-se depressa. Queria afastar-se da luz, do aroma de humanidade. Afastar do poder daqueles olhos cinzas. Necessitava o frio e a escurido, e o silncio.
     Estava apenas a uma lgua de distncia quando Larkin se aproximou trotando para ele.
     -Moira me h dito que te pergunte se queria que te leve a cavalo at o castelo.
      -Estou bem, mas obrigado de todos os modos.
     -Foi algo assombroso, no acha? E Moira estava... bom, brilhante como o sol. Sempre soube que seria ela a escolhida, mas v-lo quando acontece  algo completamente 
diferente. Converteu-se em rainha no momento de tocar a espada. Voc tambm o viu.
     -Se Moira quer seguir sendo rainha, ter a algum a quem governar, ser melhor que use essa espada.
     -E o far. Vamos, Cian, este no  um dia para a tristeza e a fatalidade. Ganhamo-nos umas quantas horas de alegria e celebrao. E comida. -Com outro sorriso, 
Larkin deu a Cian uma leve cotovelada no flanco.- Ela  a rainha, mas posso te prometer que, hoje, o resto de ns comer como reis.
     -Bom, os exrcitos viajam sobre o estmago.
     -Sim?
     -Isso disse ao menos... algum. Podem desfrutar de sua celebrao e seu banquete. Ser melhor que amanh rainha, reis e camponeses se preparem por igual para 
a guerra.
     - como se no tivssemos estado fazendo outra coisa. No me queixo -continuou Larkin antes que Cian pudesse falar.- Suponho que a questo  que estou cansado 
de me preparar para a guerra, e que quero que chegue o quanto antes.
     - que no tiveste suficiente atividade ultimamente?
     -Tenho que lhes fazer pagar pelo que fizeram a Blair. Ainda tem as costelas doloridas, e se cansa mais depressa do que est disposta a admitir. -Sua expresso 
era dura e sombria enquanto recordava.- Suas feridas curam rapidamente, mas no esquecerei o dano que lhe fizeram.
     - muito perigoso entrar em batalha levando nas costas assuntos pessoais.
     -Ah, tolices. Todos ns temos algo pessoal que arrumar, ou que sentido tem se no? E no me dir agora que uma parte de ti no ir combater tendo na mente e 
no corao o que essa cadela fez a King. 
     Cian no podia neg-lo, de modo que trocou de tema.
     -Est... me escoltando de retorno ao castelo, Larkin?
     -De fato, algum mencionou que devo me lanar sobre ti para te proteger da luz do sol em caso de que a magia de sua capa se esgote.
     -Isso estaria bem. Ambos arderamos como tochas.
     Cian disse quase com indiferena, mas teve que reconhecer que se sentiu aliviado quando chegou s sombras que projetava o castelo de Geall.
     -Tambm me pediram que v ao salo familiar se no te encontrar muito cansado. Teremos um caf da manh privado ali. Moira se sentiria agradecida se pudesse 
ficar uns poucos minutos.
     A Moira teria gostado de desfrutar de uns instantes para ela sozinha. Mas estava rodeada. O caminho de volta ao castelo era uma mancha de movimento e vozes 
envoltas na nvoa. Sentia o peso da espada na mo, a coroa na cabea apesar de que era levada quase em voando por sua famlia e seus amigos. As aclamaes de alegria 
ressonavam sobre as colinas e os campos, uma celebrao da nova rainha de Geall.
      -Ters que te exibir -lhe disse Riddock.- Do balco real.  o que se espera que faa.
      -Sim. Mas no sairei sozinha. Sei que  a forma em que sempre se fez -continuou dizendo antes de que seu tio pudesse protestar.- Mas estes so tempos diferentes. 
Meu crculo estar comigo. - Agora olhou a Glenna, logo a Hoyt e Blair.- As pessoas no s vero sua rainha, mas tambm queles que foram escolhidos para dirigir 
esta guerra.
      - voc quem deve decidi-lo e faz-lo -disse Riddock com uma ligeira reverncia.- Mas em um dia assim, Geall deveria estar livre da sombra da guerra.
      -At que Samhain tenha passado, Geall estar sempre sob a sombra da guerra. Cada gealliano deve saber que, at esse dia, eu governarei com a espada. E que 
formo parte de um crculo de seis escolhidos pelos deuses.
      Apoiou uma mo sobre a de seu tio quando atravessaram as portas.
     -Agora teremos uma celebrao e comeremos e beberemos. Valorizo seu conselho, como sempre o tenho feito, e me mostrarei ante meu povo e falarei para todos eles. 
Mas hoje os deuses escolheram em mim  rainha e  guerreira. E isso  o que serei. Isso  o que entregarei a Geall, at meu ltimo flego. No te envergonharei. 
     Riddock agarrou a mo que ela tinha apoiado em seu brao e a levou aos lbios.
     -Minha doce menina. Voc s me trouxe orgulho e  o que sempre far. E, desde este dia e at que a vida me abandone, sou um homem da rainha.
     Os criados estavam todos reunidos, e se ajoelharam quando o cortejo real entrou no castelo. Moira conhecia seus rostos, seus nomes. Muitos deles tinham servido 
a sua me antes que ela nascesse.
     Mas j nada era igual. Agora ela no era a filha da casa, e sim, sua senhora. E a de todos eles.
     -Levantem-se -disse Moira- e saibam que me sinto profundamente agradecida por sua lealdade e seus servios. E quero que saibam tambm que Vocs e toda Geall 
contam com minha lealdade e entrega enquanto seja sua rainha.
     Mais tarde, enquanto subia a escada, disse a si mesma que falaria com cada um deles individualmente. Era importante que o fizesse. Mas agora tinha outras obrigaes 
a cumprir.
     No salo familiar, o fogo na lareira. Os floreiros e terrinas transbordavam de flores frescas cortadas nos jardins e na estufa. A mesa estava posta com a melhor 
baixela e cristaleria, com vinho que esperava a que o crculo ntimo de Moira brindasse pela nova rainha.
     Inspirou uma vez profundamente, logo uma segunda, tratando de encontrar as palavras que diria, suas primeiras palavras como rainha, a aqueles a quem mais amava.
     Ento Glenna simplesmente a envolveu em seus braos.
     -Estiveste magnfica. -Beijou a Moira em ambas as bochechas.- Luminosa.
     A tenso que lhe atendia os ombros se afrouxou.
     -Eu me sinto a mesma de sempre, mas distinta, sabe?
     -S posso imagin-lo.
     -Bom trabalho. -Blair se aproximou de Moira e a abraou brevemente.- Posso v-la?
     De guerreira a guerreira, pensou Moira, e entregou a espada a Blair.
     -Excelente -disse esta baixinho.- Bom peso para ti. Esperava que estivesse engastada em jias ou o que fosse.  bom que no seja assim.  bom e adequado que 
seja uma espada de guerra, no somente um smbolo.
     -Sinto como se o punho tivesse sido desenhada para minha mo. logo que a hei tocado, hei sentido que era... minha.
     -Ela . -Blair a devolveu.-  tua.
      Moira deixou a espada sobre a mesa durante um momento para receber o abrao de Hoyt.
      -O poder que emana de ti  quente e estvel -lhe sussurrou ao ouvido.- Geall  afortunada ao te ter como sua rainha.
      -Obrigada.
      Logo se ps a rir quando Larkin a levantou do cho e a fez girar trs vezes no ar.
      -Te olhe. Majestade.
      -Burla-te de minha dignidade real.
      -Sempre. Mas nunca de ti, a str.
      Quando Larkin voltou a deposit-la no cho, Moira se voltou para Cian.
      -Obrigada por ter vindo. Significa muito para mim.
      Cian no a abraou, nem tampouco a tocou, mas sim se limitou a inclinar a cabea.
      - um momento que no teria perdido por nada do mundo.
      -Um momento mais importante para mim porque vieste. Porque todos vieram -continuou dizendo, e comeou a girar olhando-os a todos, quando sua pequena prima 
lhe puxou a saia.- Aideen. -Elevou  pequena e aceitou seu beijo mido.- Est muito bonita hoje.
     -Bonita -repetiu Aideen, elevando a mo para tocar a adornada coroa de Moira. Logo voltou a cabea para Cian com um sorriso tmido.- Bonito -disse outra vez.
     -Uma mulher ardilosa -observou Cian, e viu que a pequena fixava a vista no pendente que ele levava no pescoo e, com gesto distrado, elevou-o para que ela 
pudesse toc-lo.
     Quando Aideen estirava a mo, sua me praticamente voou atravs do salo.
     -Aideen, no o faa!
     Sinann afastou  menina de Moira e a apertou com fora contra seu ventre, volumoso pelo terceiro filho que estava esperando.
     No incmodo silncio que seguiu  cena, Moira no pde mais que sussurrar o nome de sua prima.
     -Nunca gostei de crianas -disse Cian com voz gelada.- Se me desculparem.
     -Cian. -depois de lanar um olhar recriminatrio para Sinann, Moira correu atrs de Cian.- Por favor, espera um momento.
     -J tive suficientes momentos por esta manh. Quero ir  cama.
     -Quero me desculpar. -Agarrou-o pelo brao e o sujeitou com fora at que Cian se deteve e se voltou para ela. Seus olhos eram duas pedras azuis.- Minha prima 
Sinann  uma mulher simples. Eu falarei com ela.
     -No se incomode por mim.
     -Senhor. -Com o rosto plido como a cera, Sinann se aproximou deles.- Vos rogo que me perdoem, sinceramente. Insultei-lhes, a voc, a minha rainha e a seus 
nobres convidados. Peo-lhes que desculpem a estupidez de uma me.
      Ela lamentava o insulto, pensou Cian, mas no o ato. A menina se encontrava agora no extremo mais afastado do salo, nos braos de seu pai.
      -Aceito suas desculpas. -despediu-se dela com apenas um olhar.- Agora, se tiverem a bondade de me soltar o brao, majestade.
      -Um favor -comeou a dizer Moira.
      -Ests acumulando-os -disse ele.
      -E estou em dvida contigo -replicou ela brandamente.- Tenho que sair l fora, ao balco. As pessoas precisam ver sua rainha, e acredito que tambm a todos 
aqueles que formam seu crculo. Agradeceria-te se me concedesse uns minutos a mais de seu tempo.
      -Sob o implacvel sol.
      Ela conseguiu esboar um sorriso e se relaxou ao reconhecer que a frustrao em sua voz significava que faria o que lhe tinha pedido.
     -Um instante to somente. Logo pode ir em busca de um pouco de solido, com a satisfao de saber que te estarei invejando por isso.
     -Ento faa que seja rpido. Eu gostaria de desfrutar de um pouco de solido e de satisfao. 
     Moira o disps assim de maneira deliberada: Larkin a um lado dela -uma figura que era respeitada e amada em todo Geall- e Cian ao outro. O estrangeiro ao que 
muitos deles temiam. Esperava que o fato de que ambos a flanqueassem, servisse para mostrar a seu povo que lhes considerava iguais, e que ambos contavam com sua 
confiana.
      A multido comeou a lanar aclamaes e a fazer coro seu nome, com os gritos de jbilo convertidos em um rugido ensurdecedor quando Moira elevou a espada. 
Tambm foi um gesto deliberado de sua parte passar a espada a Blair para que a sustentara enquanto ela pronunciava seu discurso. As pessoas tinham que ver que a 
mulher com a qual Larkin se comprometeu para casar-se merecia sustentar a espada.
      -Povo de Geall!
      Moira gritou com todas suas foras, mas os gritos de jbilo no se apagaram. Chegavam em sucessivas quebras de onda que no diminuram at que ela no se aproximou 
da balaustrada de pedra e levantou as mos.
     -Povo de Geall, venho a Vocs como rainha, como cidad, como protetora. Apresento-me ante Vocs como o fez minha me, como o fez seu progenitor, e como o fizeram 
todos os reis anteriores at os primeiros dias. E estou ante Vocs formando parte de um crculo que foi escolhido pelos deuses. No s um crculo de governantes 
de Geall, mas tambm um crculo de guerreiros.
     Agora abriu os braos para abranger aos cinco que a acompanhavam.
     -O crculo est formado por estas pessoas que se encontram a meu lado. So as pessoas mais queridas por mim e em quem mais confio. Como cidad, peo-lhes para 
eles sua lealdade, sua confiana e seu respeito, igual aos tm para mim. Como sua rainha, ordeno-lhes isso.
     Moira teve que interromper-se vrias vezes at que os gritos e as expresses de jbilo cessassem.
     -Hoje o sol brilha sobre Geall. Mas nem sempre ser assim. O que se aproxima busca a escurido e enfrentaremos a isso. E o derrotaremos. Hoje celebraremos, 
comeremos e agradeceremos. Amanh continuare-mos com nossos preparativos para a guerra. Todo aquele gealliano que possa dirigir uma arma, o far. Logo partiremos 
todos a Ciunas. Partiremos todos para o Vale do Silncio. Alagaremos esse lugar com nossa fora e nossa vontade, e acabaremos com aqueles que querem nos destruir.
      Estendeu a mo em busca da espada e voltou a elev-la no ar.
      -Esta espada, como aconteceu desde os primeiros tempos, no permanecer fria e imvel durante meu reinado. Arder e cantar em minhas mos enquanto luto por 
Vocs, por Geall, e por toda a humanidade. 
     Os rugidos de aprovao ascenderam como uma corrente. Ento se ouviram gritos quando uma flecha atravessou o ar. Antes que Moira pudesse reagir, Cian a lanou 
ao cho. Entre a gritaria e o caos, Moira pde ouvir suas maldies em voz baixa. E sentiu seu sangue clido na mo.
      -Oh, meu Deus, meu Deus, ests ferido.
      -No me alcanaram no corao.
      Cian falou com os dentes apertados. Ela podia ver a dor refletida em seu rosto enquanto se afastava para sentar-se.
     Quando agarrou a flecha com inteno de arrancar-lhe do flanco, Glenna se agachou a seu lado e lhe afastou a mo.
      -Deixa que lhe jogue uma olhada.
      -No me alcanaram no corao -repetiu Cian, e voltou a agarrar a flecha entre os dedos. Puxou-a at extra-la de sua carne.- Malditos! Malditos sejam!
      -Pra dentro. -Glenna se moveu depressa.- Levem-no pra dentro.
      -Esperem. -Embora sua mo tremia ligeiramente, Moira agarrou a Cain de um ombro.- Pode te levantar?
      - obvio que posso me levantar. Por quem me toma? 
      -Por favor, deixa que eles lhe vejam. -Sua outra mo roou sua bochecha apenas durante um instante, como o roce de umas asas.- Deixa que nos vejam, por favor.
      Quando entrelaou seus dedos com os dele, Moira acreditou ver que algo se agitava nos olhos de Cian, e sentiu que o mesmo se agitava dentro de seu corao.
      Logo, a sensao desapareceu e a voz de Cain irrompeu brusca pela impacincia.
      -Ento me deixe um pouco de fodido espao.
      Moira voltou a ficar de p. Abaixo reinava o caos. O homem que sups que era o frustrado assassino, era golpeado e chutado por cada mo e p que podia chegar 
at ele.
     -Se detenham! -gritou com todas suas foras.- Lhes ordeno isso! Se detenham! Guardas, levem a esse homem ao grande salo. Povo de Geall! Viram que inclusive 
em um dia como hoje, inclusive quando o sol brilha no cu, a escurido trata de nos destruir. E fracassa. -Agarrou a mo de Cian e a levantou junto com a sua.- Fracassa 
porque neste mundo h paladinos que arriscam suas vidas por outros.
     Apoiou a mo no flanco ferido de Cian e sentiu que este se encolhia de dor. Logo elevou a mo coberta de sangue.
     -Ele sangra por ns. E por este sangue que est derramando por mim, por todos Vocs, eu o nomeio sir Cian, Lorde de Oiche.
     -Oh, pelo amor de Deus -murmurou Cian.
     -Silncio -disse Moira brandamente, com firmeza e com os olhos fixos na multido.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 3
     
     
     
      -Meio vampiro -anunciou Blair quando retornou ao salo.- Mltiplas cicatrizes de mordidas. A multido lhe moeu a pauladas -acrescentou.- Depois da surra que 
recebeu, um ser humano estaria morto. Embora no se sente muito bem.
     -Podemos lhe tratar depois de que tenha falado com ele-disse Moira.- Cian precisa ser atendido primeiro.
     Blair olhou por cima do ombro de Moira para onde Glenna estava enfaixando o flanco ferido de Recuam.
     -Como vai?
     -Est zangado e pouco cooperativo, de modo que eu diria que bastante bem.
     -Todos podemos estar agradecidos a seus reflexos. Voc soubeste como dirigir muito bem a situao -acrescentou Blair olhando a Moira.- No perdestes a calma, 
mantivestes o controle. Um primeiro dia de trabalho muito duro; quase lhe assassinam inclusive, mas o tem feito francamente bem.
     -No o bastante para ter antecipado que se produziria um ataque em plena luz do dia; para recordar que nem todos os ces de Lilith necessitam de um convite 
para entrar dentro destas muralhas. -Pensou em como se derramou o sangue de Cian sobre sua mo, quente e vermelho.- No voltarei a cometer esse engano.
      -Nenhum de ns o far. Agora o que precisamos  obter informao deste bastardo enviado por Lilith. Embora haja um problema. O cara no fala ou no quer falar 
ingls. Ou galico.
     - mudo?
     -No, no. Pode falar, mas nenhum de ns  capaz de entender o que diz. Soa a algum idioma do Leste da Europa. Tcheco, possivelmente.
     -Entendo.
     Moira olhou a Cian. Estava nu at a cintura, o torso coberto s com a vendagem. Seu rosto estava escurecido, mais pelo desgosto que pela dor, enquanto bebia 
de uma taa que ela sups que continha sangue. Embora no parecia ter um de seus melhores dias, Moira estava a ponto de lhe pedir um novo favor.
     -Me permita um momento -disse a Blair. Logo se aproximou de Cian, ordenando a si mesma a no encolher-se ante seu olhar azul e irado.- H alguma outra coisa 
que possamos fazer por ti, para que se sinta mais cmodo?
     -Paz, silncio, intimidade.
     Embora cada uma das palavras teve nela o efeito de uma chicotada, Moira manteve um tom tranqilo e agradvel.
     -Sinto muito, mas esses artigos escasseiam neste momento. Ordenarei que subam isso  habitao logo que esteja em minha mo faz-lo.
     -Espertinha -murmurou ele.
     -Efetivamente. O homem cuja flecha interceptaste com seu corpo fala um idioma estranho. Em uma ocasio, seu irmo me disse que falava vrias lnguas.
      Cian bebeu um longo gole com os olhos deliberadamente fixos nos dela.
      -No foi suficiente que interceptasse a flecha? Agora pretende que interrogue a seu assassino?
      -Sentiria-me muito agradecida se o tentasse ou, ao menos, se atuasse como intrprete. Embora seja provvel que haja algumas coisas no mundo que voc ignore, 
de modo que talvez no me seja de nenhuma ajuda.
      A diverso bateu as asas fugazmente em seus olhos azuis.
      -Agora est sendo desagradvel.
      -V o um pelo outro.
      -Est bem, est bem. Glenna, querida, deixa j de revoar.
      -Perdeste muito sangue -comeou a dizer ela, mas Cian se limitou a levantar a taa.
      -O estou recuperando enquanto falamos. -Com um leve sorriso, levantou-se da cama.- Necessito uma fodida camisa.
      -Blair -disse Moira em um tom aprazvel-, quer procurar uma fodida camisa para Cian?
      -Isso parece.
      -Converteste em costume isso de me salvar a vida -lhe disse Moira a Cian.
      -Isso parece. Estou pensando em deix-lo.
      -No poderia te culpar se o fizer.
      -Aqui tem, campeo. -Blair deu a Cian uma camisa branca limpa.- Acredito que esse cara  tcheco ou, possivelmente, blgaro. Sabe algo de um desses idiomas?
     -D a casualidade de que sim.
     Todos foram ao grande salo onde estava o assassino, ferido, sangrando, encadeado e fortemente vigiado. A guarda inclua a Hoyt e Larkin. Quando entrou Cian, 
Hoyt se afastou de seu posto.
     -Ests bem? -perguntou-lhe a Cian.
     -Estarei. E me reconforta grandemente que ele se encontre malditamente pior que eu. Afasta aos guardas -disse a Moira.- No ir a nenhuma parte.
     -Podem se retirar. Sir Cian se far cargo agora.
     -Sir Cian, uma ova. -Mas s foi um sussurro enquanto se aproximava do prisioneiro. 
     Cian caminhou ao redor dele, medindo o terreno. O homem era de compleio magra e enchia as roupas grosseiras de um campons ou um pastor. Tinha um olho completamente 
fechado devido aos golpes recebidos no rosto, e o outro j estava adquirindo uma tonalidade negra e azul. Tinha perdido um par de dentes.
     Cian lhe deu uma ordem em tcheco. O homem deu um coice e seu nico olho so se abriu com um gesto de surpresa.
     Mas no abriu a boca.
     -Entendeste perfeitamente o que hei dito -continuou Cian no mesmo idioma.- Te perguntei se havia outros contigo. No voltarei a pergunt-lo.
     Quando o prisioneiro se manteve em silncio, Cian o golpeou com fora suficiente para envi-lo contra a parede, junto com a cadeira a qual estava encadeado.
     -Por cada trinta segundos de silncio, causarei-te dor.
     -No lhe temo  dor.
     -Oh, temer. - Cian elevou ao homem junto com a cadeira e manteve seu rosto a escassos centmetros do seu.- Sabe o que sou?
     -Sei o que . -O homem fez um gesto depreciativo com a boca ensangentada.- Um traidor.
     -Esse  um ponto de vista. Mas o verdadeiramente importante que deve recordar  que posso te infligir uma dor mais intensa que a algum como voc  capaz de 
suportar. Posso te manter vivo durante dias ou semanas, j postos. E em constante agonia. -Baixou o tom de voz at convert-lo em um vaio.- Eu gostaria. De modo 
que comecemos outra vez.
      Cian no se incomodou em repetir a pergunta, j que lhe tinha advertido que no o faria.
      -Poderia usar uma colher -comentou com tom quase indiferente.- Esse olho esquerdo parece estar em muito mal estado. Se tivesse uma colher  mo, poderia arranc-lo 
de sua concha por ti. Tambm poderia,  obvio, usar meus dedos -continuou quando o olho comeou a girar de forma enlouquecida.- Mas ento me deixaria as mos feitas 
um asco, no achas?
      -Faa o que queira -cuspiu o homem, mas tinha comeado a tremer ligeiramente.- Nunca trairei a minha rainha.
      -Tolices. -Os tremores e o suor lhe indicaram a Cian que se quebraria rpida e facilmente.- Antes que tenha acabado contigo no s ter trado a sua rainha, 
mas tambm o far ao som de uma gaita de fole se eu lhe ordenar isso. Mas sejamos rpidos e diretos, porque temos melhores coisas a fazer.
      Quando Cian se moveu, o homem jogou a cabea para trs. Mas em lugar de ir atrs de seu rosto, como sua presa antecipava, Cian baixou a mo e lhe agarrou o 
pnis com fora. Comeou a apertar at que o salo se encheu de gritos.
      -No h ningum mais! Estou sozinho, estou sozinho!
      -Ser melhor que seja verdade. - Cian aumentou a presso.- Se mentes, descobrirei-o. E ento comearei a te cortar isto, centmetro a centmetro.
      -Ela me enviou s. -Agora o homem soluava, as lgrimas e os mucos lhe escorregavam pela cara.- S a mim.
      Cian afrouxou ligeiramente a presso.
      -Por que?
     A nica resposta foram uns ofegos afogados, e Cian voltou a fechar a prensa de seus dedos.
     -Por que?
     -Um s podia deslizar-se com maior facilidade dentro do castelo, sem ser detectado. In... inadvertido.
     -A lgica do que diz impediu, ao menos no momento, que te converta em um eunuco. - Cian procurou uma cadeira. Depois de coloc-la diante do prisioneiro, sentou-se 
escarranchado nela. E comeou a falar em um tom informal enquanto o homem no deixava de gemer de dor.- Bem, assim est melhor, verdade? Mais civilizado. Quando 
tivermos acabado com isto, jogaremo-lhe uma olhada a essas feridas.
     -Quero gua.
     -Estou seguro de que sim. Iremos procurar um pouco... depois. Mas agora quero que falemos de Lilith.
     Levou-lhe trinta minutos -e outras duas sesses de dor- para dar-se por satisfeito em relao ao que o homem podia lhe contar. Cian o ps em p.
     Agora o aspirante a assassino chorava desconsoladamente. Possivelmente a causa da dor, pensou Cian. Talvez por acreditar que tudo tinha terminado.
     -O que foi antes que ela te convertesse?
     -Professor.
     -Tinha esposa, uma famlia?
     -Eles no serviam mais que como alimento. Eu era pobre e dbil, mas a rainha viu algo mais em mim. Deu-me foras e um propsito. E quando ela te matar, e a 
estas... formigas que esto contigo, eu serei recompensado. Terei uma formosa casa e todas as mulheres que deseje, riqueza e poder.
     -Ela te prometeu que teria tudo isso, verdade?
     -Isso e mais. H dito que podia beber um pouco de gua.
     -Sim, hei-o dito. Deixa que te explique uma coisa a respeito de Lilith. -moveu-se atrs do homem, cujo nome jamais lhe tinha perguntado, e lhe falou em voz 
muito baixa ao ouvido-: Mente. E eu tambm.
     Sujeitou-lhe com fora a cabea entre as mos e, com um movimento rpido, partiu-lhe o pescoo.
     -O que tem feito? -Moira, terrivelmente impressionada, correu para ele.- O que tem feito?
     -O que teria que fazer. Ela enviou s a um de seus esbirros... desta vez. Se isto afeta sua sensibilidade, possivelmente queira dizer a seus guardas que o levem 
daqui antes de que analisemos a situao.
     -No tinha direito. Nenhum direito. -Seu estmago queria rebelar-se do mesmo momento em que Cian tinha comeado a tortura do interrogatrio.- O assassinaste. 
No que te diferencia dele depois de lhe haver matado sem julgamento nem sentena? 
     -A diferena? - Cian arqueou as sobrancelhas friamente.- Ele era humano em sua major parte.
     - to pouco para ti? A vida?  to pouco?
     -Ao contrrio.
     -Moira, Cian tem razo. -Blair se colocou entre ambos.-Tem feito o que teria que fazer.
     -Como pode dizer isso?
     -Porque eu teria feito exatamente o mesmo. Ele era o co de Lilith e, se tivesse conseguido escapar, o teria tentado outra vez. Se no tivesse conseguido chegar 
at ti, teria matado a qualquer um.
     -Um prisioneiro de guerra... -comeou a dizer Moira.
     -Nesta guerra no h prisioneiros -a interrompeu Blair.- De nenhum dos dois bandos. Se o tivesse encerrado, teria que ter afastado homens do treinamento e das 
patrulhas para que lhe vigiassem. Era um assassino, um espio enviado atrs das linhas inimigas em tempos de guerra. E humano em sua major parte  uma maneira generosa 
de descrev-lo -acrescentou olhando a Cian.- Ele nunca teria voltado a ser humano. Se nessa cadeira tivesse estado sentado um vampiro, voc lhe teria cravado uma 
estaca no corao sem duvid-lo um segundo. Isto no  diferente.
     "Um vampiro no deixa seu corpo quebrado -pensou Moira-, encadeado ainda  cadeira."
     Moira se voltou por volta de um dos guardas.
     -Tynan, leve o corpo do prisioneiro. Se encarregue de que seja enterrado.
     -Majestade.
     Moira advertiu o rpido olhar que Tynan dirigiu a Cian... nesse olhar reconheceu uma inconfundvel aprovao.
     -Retornaremos ao salo -continuou ela.- Ningum comeu. Podemos falar enquanto tomamos o caf da manh. 
     -Um pistoleiro solitrio -disse Cian e desejou quase com saudades uma xcara de caf.
     -Isso tem sentido -conveio Blair enquanto se servia ovos e uma grossa fatia de presunto frito.
     -Por que? -Moira dirigiu a pergunta a Blair.
     -Pois ver, eles tm a alguns meio vampiros treinados para o combate. -Fez um gesto por volta de Larkin.- Como os que Larkin e eu enfrentamos naquele dia nas 
covas, mas isso implica tempo e esforo. E exige muito trabalho e vontade mant-los em estado de servido.
     -E se essa servido se rompe?
     -Demncia -respondeu Blair brevemente.- Um colapso mental total. Ouvi histrias de meio vampiros que comeram suas prprias mos para libertarem-se e retornar 
a seu criador.
     -Ele estava condenado antes que o enviassem aqui -murmurou Moira.
     -Do momento em que Lilith lhe ps as mos em cima. Minha opinio  que se supunha que devia ser um golpe relmpago, uma misso suicida. Para que desperdiar 
a mais de um? Se as coisas sassem bem, com um  suficiente.
      -Sim, um homem, uma flecha. -Moira pensou nisso.- Se for o bastante hbil e afortunado, o crculo fica quebrado, e Geall fica sem governante durante um tempo. 
Teria sido um golpe certeiro e eficaz.
      -Exato.
      -Mas por que esperou at que retornemos ao castelo? Por que no tentar me matar quando estava na pedra?
      -No chegou a tempo -disse Cian simplesmente.- Calculou mal a distncia que devia percorrer e chegou depois de que a cerimnia tinha concludo. Quando retornou 
ao castelo, estava rodeada pela multido e ele no podia fazer um disparo limpo. De modo que decidiu unir-se ao desfile, por diz-lo de algum jeito, e esperar sua 
oportunidade.
      -Coma algo. -Hoyt serviu um pouco de comida no prato de Moira.- Ou seja, que Lilith sabia que Moira iria hoje  pedra.
      -Ela tem espies em todas partes -confirmou Cian.- No sabemos se j tinha planejado enviar a algum para tentar interromper o ritual e o resultado do mesmo 
antes que Blair se enfrentasse com Lora, mas o que  seguro  que, depois disso, Lilith estava furiosa -disse.- Fora de si, segundo nosso defunto e no chorado arqueiro. 
Como j lhes hei dito, a relao que Lilith mantm com Lora  estranha e complicada, mas muito profunda, muito sincera. Escolheu a um arqueiro para esta misso enquanto 
ainda estava meio louca de raiva. Enviou-o a cavalo para que chegasse mais rpido... e eles dispem de um nmero muito limitado de cavalos.
     -E como est seu pequeno pozinho francs? -perguntou Blair.
     -Quando o homem partiu, ferida e gritando de dor, e atendida pessoalmente por Lilith.
     -O que  mais importante agora -interrompeu Hoyt-  onde est Lora e onde est o resto deles?
     -Nosso informante, embora destro no manejo do arco, no era um homem particularmente observador ou ardiloso. O mximo que pude obter dele foi que a base principal 
de Lilith se encontra a poucos quilmetros do campo de batalha. H descrito o que aparentemente seria um pequeno assentamento, dominado por uma granja de grande 
tamanho com numerosas cabanas e uma grande manso de pedra, onde eu diria que viviam os donos das terras. Lilith est instalada na manso.
     -Ballycloon. -Larkin olhou a Moira e viu que tinha o rosto muito plido e os olhos muito escuros.- Tem que ser Ballycloon e as terras de O'Neill. A famlia 
a qual ajudamos no dia que Blair e eu estvamos comprovando as armadilhas, quando Lora lhe tendeu uma emboscada, vinha da zona de Drombeg, e isso fica ao oeste de 
Ballycloon. Teramos continuado mais para o oeste para comprovar a ltima armadilha, mas...
      -Eu estava ferida -concluiu Blair a frase.- Chegamos to longe como foi possvel. E fomos afortunados. Se Lilith j tivesse estabelecido sua base quando ns 
chegamos a essa zona, nos teriam superado amplamente em nmero.
      -E estariam amplamente mortos -acrescentou Cian.- Eles chegaram a noite anterior a seu enfrentamento com Lora.
      -Ali ainda devia haver gente, ou no caminho. -Larkin sentiu um n no estmago ao pensar nisso.- E os O'Neill. Conseguiriam ficar a salvo? Como podemos saber 
quantos deles...
      -No podemos -o cortou Blair categoricamente.
      -Voc, Cian e voc -interveio Moira-, Vocs, pensaram que devamos tirar todo mundo das aldeias e as granjas que rodeiam o campo de batalha, obrig-los a irem 
se fosse necessrio. Queimar as casas e as cabanas vazias para que Lilith e seu exrcito no tivessem onde encontrar refgio. Pensei que era cruel e frio de sua 
parte. Desumano. E agora... Mas isso j no se pode mudar. E eu no teria ordenado, no poderia ter ordenado -se corrigiu Moira- que queimassem suas casas. Possivelmente 
teria sido mais inteligente, e valente, faz-lo. Mas as pessoas cujos lares teramos destrudo teriam perdido o nimo que necessitam para lutar. De modo que no 
o fizemos desse modo.
      Ela no sentia nenhum apetite pela comida que tinha no prato, mas agarrou a xcara de ch para esquentar as mos. Prosseguiu dizendo:
      -Vocs, Blair e Cian sabem de estratgia, Hoyt e Glenna sabem de magia, mas Larkin e eu conhecemos Geall e a sua gente. Lhes teramos quebrado o corao e 
o esprito.
      -Eles queimaro o que no queiram ou necessitem -lhe recordou Cian.
      -Sim, mas no tero sido nossas mos as que acenderiam as tochas. Isso  importante. Assim, acreditam saber onde esto. Sabemos quantos so?
      -O assassino comeou dizendo que eram multides, mas estava mentindo. No sabia-informou Cian.- Embora Lilith utilize a mortais, nunca os incluir em seu crculo 
ntimo, e tampouco lhes confiar nenhuma informao importante. S so comida, serventes, entretenimento.
      -Podemos jogar uma olhada. -Glenna falou pela primeira vez.- Hoyt e eu, agora que dispomos de uma rea concreta, podemos realizar um conjuro de localizao. 
Poderamos obter dados mais confiveis. Alguma idia a respeito de quantos so. Pela viagem de Larkin s covas e pela inspeo que pde fazer do arsenal sabemos 
que dispem de armas para mais de mil de soldados.
     -O faremos. -Hoyt apoiou a mo sobre a de Glenna.- Mas o que acredito que Cian no nos est dizendo  que, qualquer que seja o nmero de nossos inimigos, e 
qualquer que seja o nmero de nossas foras, ao final eles sero mais. E tero mais armas. Lilith teve dcadas, possivelmente sculos, para planejar este momento. 
Ns s dispusemos que uns meses.
     -E mesmo assim ganharemos.
     Cian arqueou uma sobrancelha ante o comentrio de Moira.
     -Porque vocs so o bem e eles representam o mal?
     -No, as coisas no so to singelas. Voc mesmo  a prova, porque no  como ela, mas tampouco como ns, e sim algo completamente diferente. Ns triunfaremos 
porque seremos mais inteligentes e mais fortes. E porque Lilith no tem a seu lado a ningum como ns seis.
     Voltou-se para o irmo de Cian.
     -Hoyt, voc  o primeiro de ns. Voc nos uniu.
     -Morrigan nos escolheu.
     -Ela, ou o destino, selecionou-nos -conveio Moira.- Mas foi voc quem comeou o trabalho. Foi voc quem acreditou nisso, quem teve o poder e a fora para criar 
este crculo. Isso  assim. Eu governo Geall, mas no dirijo esta companhia.
     -Tampouco eu.
     -No, nenhum de ns o faz -conveio Moira.- Temos que ser um, apesar de todas nossas diferenas. De modo que cada um deve procurar nos outros o que lhe falta. 
Eu estou muito longe de ser o guerreiro mais forte aqui, e minha magia no  mais que uma sombra. No possuo as habilidades de Larkin e tampouco a solidez mental 
para matar a sangue frio. Mas disponho de conhecimento e autoridade, ou seja, que isso  o que ofereo.
     -Voc tem mais que isso -comentou Glenna.- Muito mais.
     -Terei mais antes que tudo isto tenha acabado. H algumas coisas que devo fazer. -levantou-se.- Voltarei ao trabalho logo que possa.
     -Bastante rgia -comentou Blair depois de que Moira abandonasse a habitao.
     - um cargo que supe um peso muito grande. -Glenna se voltou para Hoyt.- Ordem do dia?
     -Ser melhor que vejamos tudo o que possamos do inimigo. Logo estou pensando em fogo. Segue sendo uma de nossas armas mais formidveis, de modo que deveramos 
encantar mais espadas.
      - bastante arriscado pr espadas em algumas das mos que estamos treinando -interveio Blair.- E muito mais se tratar-se de espadas flamejantes.
      -Tem razo. -Hoyt considerou a questo durante um momento e assentiu.- Ento depender de ns a quem d essa aula de arma. Os melhores combatentes deveriam 
ocupar as posies que se encontrem as mais prximas possveis  base de Lilith. E necessitaro um refgio seguro para depois de se pr o sol.
      -Refere-se a barraces? H choas e cabanas,  obvio. -Larkin entrecerrou os olhos enquanto pensava.- Se for necessrio, podemos construir outros refgios 
durante o dia. Entre sua base e a seguinte aldeia h tambm uma estalagem.
     -Por que no jogamos uma olhada? -Blair afastou o prato.- Glenna e voc podem olhar com seus meios, e Larkin e eu podemos efetuar um reconhecimento areo. Est 
preparado para te converter em drago? 
     -Estou. -Larkin lhe sorriu.- Especialmente quando te tenho montada em meu lombo.
     -Sexo, sexo, sexo. Este cara  uma mquina. 
     -Com esse ltimo comentrio -disse Cian secamente- vou  cama.
     Glenna apertou brevemente a mo de Hoyt e este disse:
     -Um momento. -E logo seguiu a seu irmo.
     -Tenho que falar contigo.
      Cian o olhou.
     -J tive minha quota de palavras por esta manh.
     -Pois ter que te tragar umas quantas mais. Minha habitao est mais perto, eu gostaria que isto fosse privado.
     -Considerando que me perseguiria at a minha e me chatearia at que me desse vontade de te arrancar a lngua, sua habitao est bem.
     Os criados trabalhavam em excesso entre o salo e os aposentos privados. Preparativos para o banquete, pensou Cian, e se perguntou se tinha sido o fato de que 
Hoyt falasse do fogo o que havia trazido para sua mente a Nern e sua lira.
     Hoyt entrou em seu quarto e imediatamente estendeu o brao para impedir a entrada de Cian.
     -O sol -foi tudo o que disse, e logo se moveu rapidamente para cobrir as janelas com as cortinas.
     A habitao ficou em penumbra. Sem transio, Hoyt assinalou um grupo de candelabros. As velas se acenderam imediatamente.
     - um recurso muito eficaz -comentou Cian.- Eu perdi a prtica de acender isqueiros.
     - uma habilidade bsica, que voc tambm possuiria se alguma vez tivesse dedicado tempo e concentrao a aperfeioar seu poder.
     -Muito aborrecido.  usque o que tem ali? - Cian foi diretamente a um grande frasco cheio de lquido e se serviu um copo.- Oh, quanta sobriedade e desaprovao. 
-Viu claramente a expresso de seu irmo enquanto bebia o primeiro gole quente.- Te recordo que  o final de meu dia... bastante mais tarde do final de meu dia, 
para falar a verdade.
     Cian jogou uma olhada ao redor e comeou a vagar pela estadia.
     -Cheira a mulher. As mulheres como Glenna sempre deixam para trs algo de si mesmas para que um homem no as esquea. -Logo se deixou cair em uma poltrona e 
estirou as pernas.- Bem, o que  isso com o que est decidido a me aborrecer?
     -Houve um tempo em que desfrutava de minha companhia, inclusive a buscava.
     Os ombros de Cian se moveram de um modo to preguioso que nem sequer podia dizer-se que os tinha encolhido.
      -Suponho que isso significa que novecentos anos de ausncia no fazem que o corao se volte mais carinhoso. 
     Uma expresso de pena se refletiu no rosto de Hoyt antes que se voltasse para acrescentar um pouco de carvo ao fogo que ardia na lareira.
      - que temos que voltar a estar enfrentados?
      -Diga-me isso voc.
      -Queria falar a ss contigo a respeito do que tem feito ao prisioneiro.
      -Mais humanidade. Sim, sim, teria que lhe haver dado uns tapinhas na cabea a esse assassino e deixar que se apresentasse a julgamento, ou ante o tribunal, 
ou como  o fodido nome da justia neste lugar. Teria que ter respeitado a maldita Conveno de Genebra. Bom, a merda com isso.
     -No conheo essa conveno, mas no estou falando de julgamentos nem tribunais. Isso  o que estou tratando de te explicar, maior e maldito idiota. Executaste 
a um assassino, como eu o teria feito... s que eu com mais tato e, bom, discrio.
     -Ah, de modo que voc teria se deslizado at a cela onde o teriam encerrado e lhe teria parecido uma faca entre as costelas. - Cian arqueou as sobrancelhas 
?Isso est muito bem.
      -No, no est bem. Nada disto est bem.  um maldito pesadelo, isso  o que , e todos ns o estamos tendo. O que estou dizendo  que tem feito o que era 
necessrio. E porque tratava de matar a Moira, a quem amo como amei a minhas irms, e por te haver cravado uma flecha a ti, eu tambm o teria matado. Nunca matei 
a um homem, porque essas coisas que destrumos nestas ltimas semanas no eram homens e sim demnios. Mas eu teria matado a este assassino se voc no tivesse adiantado 
isso. -Hoyt fez uma pausa e recuperou o flego, embora no a compostura.- Queria te dizer estas coisas para que soubesse quais eram meus sentimentos a respeito. 
Mas, ao parecer, ambos perdemos o tempo, j que isso no te importa absolutamente.
     Cian no se moveu. Sua nica mudana foi desviar a vista do rosto furioso de seu irmo para o copo de usque que sustentava na mo.
     -D a casualidade de que me importa quais sejam seus sentimentos. Agitaste dentro de mim muitas coisas que tinha conseguido acalmar faz j muito tempo para 
record-lo. Tornaste a fazer aparecer a famlia ante mim, uma famlia que eu j tinha enterrado.
     Hoyt cruzou a habitao e se sentou em uma poltrona diante de seu irmo.
     -Voc  minha famlia.
     Quando Cian elevou a vista para seu irmo, essa vez seus olhos estavam vazios.
     -Eu no sou a famlia de ningum.
     -Talvez no o eras desde que morreu at que te encontrei. Mas isso j no  verdade. De modo que se te importa algo o que digo, sinto-me orgulhoso do que est 
fazendo. Estou dizendo que fazer isto  muito mais difcil para ti que para qualquer um de ns.
     -Obviamente, como ficou demonstrado, matar vampiros ou humanos para mim no  difcil.
      -Achas que no me dou conta de como desaparecem alguns dos criados quando voc est perto? Que no vi a Sinann quando correu para agarrar a sua filha como 
se fosses partir-lhe o pescoo do mesmo modo que o tem feito com esse assassino? Esses insultos que recebe no passam inadvertidos.
      -A alguns os teme sem necessidade de lhes insultar. No tem importncia. No a tem -insistiu quando Hoyt o olhou fixamente.- Isto, para mim,  apenas uma frao 
de tempo. Menos que isso. Quando tudo tiver acabado, a menos que uma estaca afortunada me atravesse o corao, seguirei meu caminho.
      -Espero que, de vez em quando, seu caminho te leve a nos visitar a Glenna e a mim.
      - possvel. Eu gosto de olhar a sua esposa. -O sorriso de Cian se fez maior.- E, quem sabe, possivelmente ela recupere finalmente o sentido comum e descubra 
que escolheu ao irmo equivocado. Tempo  a nica coisa que tenho.
      -Glenna est louca por mim. -Com um tom novamente distendido, Hoyt estirou a mo, agarrou o copo de usque de Cian e bebeu um gole.
      -Louca devia estar, certamente, para compartilhar seu destino contigo, mas as mulheres so criaturas estranhas.  afortunado de ter a Glenna, Hoyt, se no 
lhe havia dito isso antes.
     -Ela  a magia agora. -Devolveu-lhe o copo.- Sem ela no tenho nada que realmente importe. Meu mundo se transformou quando Glenna entrou nele. Quem dera voc...
     -Isso no est escrito em meu livro do destino. O poeta pode dizer que o amor  eterno, mas eu posso te dizer que a coisa varia completamente quando voc  
eterno e a mulher no.
     -Amaste a uma mulher alguma vez?
     Cian contemplou novamente o copo de usque e pensou nos sculos passados.
     -No do modo em que voc pensa. No como se amam Glenna e voc. Mas me preocupei por alguma o suficiente para saber que no  uma opo para mim.
     -O amor  uma opo?
     -Tudo o . - Cian bebeu o resto de usque que ficava no copo e logo o deixou sobre a mesa.- Agora escolho ir  cama.
     -Esta manh escolheu receber essa flecha em lugar de Moira -disse Hoyt quando Cian j partia para a porta. Seu irmo se deteve e, ao voltar-se, seus olhos se 
viam cansados.
     -Assim .
     -Acredito que essa foi um tipo de escolha muito humana.
     -Isso achas? -E as palavras foram acompanhadas de um encolhimento de ombros.- Para mim foi simplesmente um impulso, e muito doloroso por certo.
     Partiu e se encaminhou para sua habitao, na parte norte do castelo. Um impulso, pensou novamente, e, agora podia admiti-lo, um instante de medo puro. Se ele 
tivesse visto a flecha um segundo mais tarde, ou se tivesse movido a menor velocidade, nesse momento, Moira estaria morta. E nessa frao de segundo de impulso e 
medo, Cian a havia visto morta. A flecha ainda tremendo cravada em sua carne, a vida escapando dela com o sangue que emanava sobre o vestido verde escuro e as lajes 
do cho, duras e cinzas.
      Ele tinha temido isso: o final de Moira; ela longe dele. Moira em um lugar onde ele no poderia v-la nem toc-la. Com essa flecha, Lilith lhe teria arrebatado 
uma ltima coisa, uma que ele jamais poderia recuperar.
      Porque Cian tinha mentido a seu irmo. Sim, tinha amado a uma mulher, apesar de suas melhores -ou piores- intenes, ele amava a recm coroada rainha de Geall.
      Algo que era ridculo e impossvel, algo que conseguiria superar com o tempo. Dentro de uma ou duas dcadas j nem sequer seria capaz de recordar o tom exato 
de seus grandes olhos cinzas. Aquele aroma aprazvel j no excitaria seus sentidos. O teria esquecido o som de sua voz, o aspecto de seu sorriso lento e srio. 
Essas coisas se desvaneciam, recordou. S tinha que permitir que assim fosse.
      Entrou em seu quarto, fechou a porta e correu o ferrolho. As janelas estavam cobertas e no havia nenhuma luz acesa. Moira, sabia, tinha dado ordens muito 
especficas quanto  forma em que teria que tratar essa habitao. Do mesmo modo em que a tinha escolhido pessoalmente; a certa distncia das demais, de frente para 
o norte. Menos luz solar, pensou. Uma anfitri realmente considerada.
      Despiu-se na escurido, pensou fugazmente na msica que gostaria de escutar antes de dormir, ou ao despertar. Msica, pensou, que enchesse o silncio. Mas 
nesse lugar e nessa poca no havia cd players nem rdio nem nada fodidamente parecido.
     Deitou-se nu na cama. E na absoluta escurido, o absoluto silncio, disps-se a dormir.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 4
      
     
     
     Moira roubou o tempo que necessitava. Se escapuliu de suas damas de companhia, de seu tio, de suas obrigaes. J se sentia culpada, j estava preocupada pensando 
que seria um fracasso como rainha por causa de seu enorme desejo de solido.
     Teria trocado a comida de dois dias, ou o sono de duas noites, para poder passar uma hora a ss com seus livros. Egosta, disse-se enquanto se afastava rapidamente 
do rudo, da gente, das perguntas. Egosta por desejar sua prpria comodidade quando havia tantas coisas em jogo.
     Mas embora no se permitiria o luxo de entregar-se  leitura em algum rinco ensolarado, sim se tomaria seu tempo para fazer uma visita.
     Nesse dia em que seria coroada rainha, ela queria e necessitava de sua me. De modo que, elevando as saias, baixou velozmente a colina e logo atravessou a pequena 
abertura no muro de pedra que contornava o ptio. Quase imediatamente, sentiu que seu corao se apaziguava. Primeiro se aproximou da lpide que tinha ordenado gravar 
e colocar quando retornou a Geall. Tinha colocado j uma para King na Irlanda, junto  tumba que guardava os restos dos antepassados de Cian e Hoyt. Mas tinha jurado 
que haveria uma tambm ali, em Geall, em honra de um amigo.
     Depois de ter deixado um buqu de flores sobre a terra mida, ergueu-se e leu as palavras que tinha ordenado que gravassem na pedra polida.
     
     King
     Este bravo guerreiro que no jaz aqui,
     e sim em uma terra longnqua,
     entregou sua vida por Geall
     e por toda a humanidade
     
     -Espero que voc goste, da lpide e das palavras. Parece que passou muito tempo desde a primeira vez que te vi. Tudo parece to longnquo e, entretanto, logo 
que transcorreu mais que uma piscada. Lamento te dizer que hoje Cian resultou ferido por minha causa. Mas se est recuperando bem. Ontem  noite ele e eu falamos 
quase como se fssemos amigos. E hoje, bom, no de todo amigavelmente.  difcil de dizer. -Apoiou uma mo sobre a lpide.- Agora sou a rainha de Geall. Isso tambm 
 difcil de dizer. Espero que no te incomode que tenha colocado este monumento aqui, no lugar onde jaz minha famlia. Porque isso  o que foi para mim durante 
o pouco tempo que compartilhamos. Voc foi minha famlia. Espero que agora esteja descansando.
     Afastou-se uns passos e logo retornou rapidamente.
     -Oh, quase o esqueci, mantenho a esquerda levantada, como voc me ensinou. -Adotou uma pose de boxe elevando ambos os braos junto  tumba.- Assim, por todas 
as vezes que no recebi um murro na cara, obrigada.
     Com o resto das flores entre os braos se dirigiu s tumbas de seus pais atravs das lpides e a erva crescida.
     Deixou umas flores na base da lpide de seu pai.
     -Sir. Apenas me lembro de voc, e acredito que as lembranas que tenho, a maior parte delas, so as que me transmitiu minha me. Ela lhe amava com todo seu 
corao e falava freqentemente de voc. Sei que fostes um homem bom, porque se no ela no lhe teria amado. E todos aqueles que falam de ti dizem que fostes forte 
e bondoso, e de risada fcil. Eu gostaria de poder recordar o som dessa risada. -Seu olhar se dirigiu alm das lpides, para as colinas e as longnquas montanhas.- 
Soube que no morrestes, como sempre pensamos, mas sim fostes assassinado. Voc e seu irmo mais novo. Assassinados pelos demnios que agora se encontram em Geall 
preparando-se para a guerra. Eu sou tudo o que fica de voc e espero que seja suficiente.
     Logo se ajoelhou entre as tumbas para deixar o resto das flores sobre a tumba de sua me.
     -Sinto falta de ti todos os dias. Tive que viajar muito longe, como sabe, para poder voltar mais forte. Mathair.
     Fechou os olhos com a palavra e com a imagem que esta lhe trazia, clara como a vida.
     -No pude impedir o que lhe fizeram e ainda posso ver aquela noite como coberta de um vu nebuloso. Os que lhe mataram foram castigados, um por minha prpria 
mo.  tudo o que pude fazer por ti. A nica coisa que posso fazer  lutar, conduzir a meu povo ao combate. A alguns deles  morte. Levo a espada e a coroa de Geall. 
No as rebaixarei.
     Permaneceu sentada durante uns minutos, acompanhada s pelo som da brisa atravs das altas ervas e os cambiantes raios de sol.Quando se levantou e se voltou 
para o castelo, viu que a deusa Morrigan estava no muro de pedra. Esse dia, a deusa se vestia de azul, suave e plido, adornado com tons mais intensos. Sua cabeleira 
de fogo estava solta e lhe caa livremente sobre os ombros. Com as mos j vazias de flores e o corao triste, Moira caminhou atravs da erva para reunir-se com 
ela.
     -Minha senhora.
     -Majestade.
     Desconcertada pela reverncia de Morrigan, Moira entrelaou as mos para as manter quietas.
     -Os deuses reconhecem aos reis?
     - obvio. Ns criamos este lugar e decidimos que os de seu sangue reinariam nele e o serviriam. Estamos satisfeitos contigo. Filha -Morrigan apoiou ambas as 
mos ligeiramente sobre os ombros de Moira e a beijou nas bochechas-, conta com nossas bnos
     -Eu preferiria que benzessem a meu povo e o mantivessem a salvo.
     -Isso corresponde a ti. A espada est fora de sua bainha. J quando estava sendo forjada se sabia que um dia cantaria em meio da batalha. Isso tambm corresponde 
a ti.
     -Lilith j derramou sangue de Geall.
     Os olhos de Morrigan eram profundos e tranqilos como um lago.
     -Minha menina, o sangue que Lilith derramou poderia formar um oceano.
     -E meus pais so s duas gotas nesse oceano?
     -Cada gota  preciosa e cada gota serve a um propsito. Voc eleva a espada s pelos de seu sangue?
     -No. -Moira mudou de posio e fez um gesto.- Aqui h outra lpide, colocada para um amigo. Eu levanto a espada por ele e seu mundo, e por todos os mundos. 
Todos somos uma parte de outros.
     -Saber isso  muito importante. O conhecimento  um grande dom, e a sede de busc-lo  outro ainda maior. Usa o que sabe e Lilith jamais te derrotar. Cabea 
e corao, Moira. No deve conceder mais peso a um que ao outro. Sua espada lanar chamas, prometo-lhe isso, e sua coroa brilhar. Mas o verdadeiro poder  o que 
se aloja em sua cabea e em seu corao.
     -Parece que ambos esto invadidos pelo medo.
     -No h coragem sem medo. Tenha confiana e conhecimento. E mantenha sempre a espada a seu lado.  sua morte o que Lilith mais deseja.
     -A minha? Por que?
     -Ela no sabe. E o conhecimento  seu poder.
     -Minha senhora -comeou a dizer Moira, mas a deusa tinha desaparecido.
     O banquete supunha outro vestido e outra hora de gente revoando a seu redor. Com tantas coisas entre as mos, Moira tinha deixado a cargo de sua tia a questo 
do vesturio, e adorou descobrir que o vestido era formoso, e que a cor azul plida lhe sentava muito bem. Gostava dos vestidos bonitos e tomar um pouco de tempo 
para tentar luzir seu melhor aspecto.
     Mas lhe parecia que lhe punham um novo cada vez que se dava a volta, e que estava submetida ao bate-papo de suas damas de companhia a metade do dia. Reconhecia 
que sentia falta da liberdade que lhe conferiam os jeans e as camisas amplas que tinha usado na Irlanda. Ao dia seguinte, no importava a comoo que provocasse 
nas mulheres, ficaria o traje mais conveniente para um guerreiro que se dispe  batalha.
     Mas durante esse dia levaria ainda veludos, sedas e jias.
     -Ceara, como esto seus filhos?
     -Muito bem, minha senhora, obrigada.
     De p atrs dela, Ceara continuou fazendo finas e sedosas tranas com o cabelo da Moira.
     -Suas obrigaes e seu treinamento te afasta deles mais do que eu queria -disse Moira.
      Seus olhos se encontraram no espelho. Ela sabia que Ceara era uma mulher sensata, a mais centrada, em sua opinio, das trs que a serviam.
      -Minha me se encarrega de cuidar deles e se sente muito feliz de poder faz-lo. O tempo que me tomei  tempo bem empregado. Prefiro perder essas horas deles 
a v-los sofrendo.
      -Glenna me h dito que  muito aguerrida no combate corpo a corpo.
      -Sou. -O rosto da Ceara se esticou com um sorriso turvo.- No sou muito hbil em troca com a espada, mas ainda h tempo. Glenna  uma boa professora.
     -Rigorosa -interveio Dervil.- No tanto como a senhora Blair, mas igualmente exigente. Cada dia corremos e lutamos e damos cambalhotas e esculpimos estacas. 
E cada dia acabamos com as pernas cansadas, com machucados e com lascas cravadas.
     - melhor estar cansada e machucada que morta.
     Dervil se ruborizou ante o comentrio categrico de Moira.
     -No era minha inteno lhe faltar o respeito, majestade. Aprendi muito.
     -E, conforme me ho dito, est-te convertendo em um demnio com a espada. Estou orgulhosa. E voc, Isleen, parece que tem muito boa mo com o arco.
     -Assim . -Isleen, a menor das trs, ruborizou-se intensamente ante as palavras de Moira.- Eu gosto mais do arco que brigar com os punhos e os ps. Ceara sempre 
me derruba.
     -Quando chia como um camundongo e faz revoar as mos, qualquer um pode te derrubar -assinalou Ceara.
     -Ceara  mais alta, e seus braos so mais compridos que os teus, Isleen. De modo que -continuou Moira- tem que aprender a ser mais rpida e escorregadia. Estou 
orgulhosa de todas vocs, de cada machucado. Amanh, e todos os dias posteriores, treinarei com vocs ao menos durante uma hora.
     -Mas majestade -comeou a dizer Dervil-, voc no pode...
     -Sim, posso -a interrompeu Moira.- E o farei. E espero que cada uma de vocs, e o resto das mulheres, faam todo o possvel para me derrubar. No lhes resultar 
fcil. -levantou-se quando Ceara retrocedeu.- Eu tambm aprendi muito. -Agarrou a coroa e a colocou na cabea.- Podem me acreditar quando lhes digo que posso lhes 
derrubar s trs, e a qualquer outra que venha, e lhes fazer morder o p. -Moira se voltou, esplndida com seu vestido de veludo azul.- Qualquer uma que me faa 
morder o p, ou me derrote com as mos nuas ou com a arma que dita usar, receber uma das cruzes de prata que Glenna e Hoyt encantaram. Este  meu melhor presente. 
Digam s demais.
     
     Era como entrar em uma representao teatral, pensou Cian. O grande salo era o cenrio, adornado com bandeiras e flores e iluminado com velas e o fogo da lareira. 
Damas e cavalheiros luziam seus melhores ornamentos. Casacos e vestidos, jias e ouro. Viu que muitos homens e mulheres levavam sapatos de ponteiras largas e levantadas 
e recordou que estavam na moda quando ele estava vivo.
     "Ou seja -pensou-, que inclusive os estilos deplorveis se estendiam de um mundo a outro."
     A comida e a bebida eram to abundantes que imaginou que a enorme mesa gemia debaixo das bandejas e as jarras. Havia tambm um harpista que tangia uma msica 
alegre e festiva. As conversas, com os temas mais diversos, enchiam o salo: moda, poltica, fofocas sexuais, romances e finanas. 
      No era to diferente, refletiu, pelo que ocorria em seu clube noturno em Nova Iorque. Naturalmente, ali as mulheres levavam menos roupa e a msica era mais 
estridente, mas a essncia no tinha mudado muito ao longo dos sculos. s pessoas ainda gostavam de reunir-se em torno da comida, a bebida e a msica.
      Voltou a pensar em seu clube noturno nova-iorquino, e se perguntou se o sentia falta. O ambiente da noite, os sons, a gente. E se deu conta de que no o sentia 
falta absolutamente. O mais provvel era que, cedo ou tarde, tivesse acabado aborrecido do clube e comeado a sentir-se intranqilo, e que se mudasse depois de pouco 
tempo. S tinha sido necessrio que seu irmo se transladasse atravs do tempo e o espao, ter a terra de Hoyt -mais ou menos- ante sua porta, para acelerar a deciso.
      Mas sem Hoyt e sua misso encarregada pelos deuses, transladar-se teria suposto uma mudana de nome e lugar, um transpasse de recursos. Algo sem dvida complicado, 
que exigia tempo... e que era interessante. Cian tinha tido mais de uma centena de nomes e uma centena de casas e ainda lhe excitava todo o processo.
     Aonde poderia ter ido? Perguntou-se. A Sydney, talvez, ou ao Rio do Janeiro. Ou talvez Roma ou Helsinki. Era essencialmente uma questo de cravar uma agulha 
em um mapa. Havia muito poucos lugares nos quais no teria estado e nenhum onde no tivesse podido estabelecer sua base de operaes se quisesse faz-lo. Em seu 
mundo, em qualquer caso. Geall era uma histria completamente distinta. Ele j tinha vivido uma vez nessa moda e nessa cultura, e no tinha nenhum desejo de repetir 
a experincia. Sua famlia tinha sido gente acomodada e ele j tinha tido sua rao de festas pomposas.
     Em realidade, o que gostava de era uma taa de brandy e um bom livro. No tinha intenes de ficar muito tempo e s tinha ido  celebrao porque, do contrrio, 
sabia que algum teria ido busc-lo. Embora estava seguro de que poderia ter evitado a qualquer encarregado dessa misso, o que no poderia economizar-se seria o 
sermo de Hoyt no dia seguinte. De modo que era mais fcil aparecer pelo salo, brindar pela nova rainha e logo escapulir-se.
     Quanto ao traje e os acessrios formais que lhe tinham subido a sua habitao, deixava-o claro. Podiam hav-lo metido em uma poca medieval, mas no pensava 
colocar essa roupa. Assim, vestiu-se de negro. Calas e pulver. No tinha includo em sua bagagem um traje e uma gravata para essa peculiar viagem.
     Em que pese a tudo, sorriu com certa calidez a Glenna quando se aproximou dele com um vestido verde esmeralda, com o qual em uma poca Cian acreditava que se 
denominou une robe deguise. Muito formal, muito elegante e com um decote baixo e arredondado que exibia seus muito encantadores seios.
     -V, v, hei aqui uma viso que prefiro a de qualquer deusa.
     -Quase me sinto como uma delas. -Glenna estendeu os braos de modo que as amplas mangas campanadas se balanaram no ar.- Pesado, entretanto. Deve pesar uns 
quatro quilos. Vejo que te decidiste por um conjunto mais leve.
     -Acredito que eu mesmo me cravaria uma estaca antes que me embainhar outra vez em um desses trajes.
     Glenna se ps-se a rir.
     -No te culpo, mas eu estou encantada de ver Hoyt vestido desse jeito. Para mim, e talvez tambm para ti, depois de todo este tempo,  como um baile de fantasia. 
Moira escolheu um traje em ouro e negro para o feiticeiro da casa. Senta-lhe maravilhosamente, como a ti sua escolha mais contempornea. No obstante, todo o dia 
foi como um sonho muito estranho.
      -Eu estava pensando melhor em uma pea de teatro.
      -Sim, isso tambm. De todos os modos, a festa desta noite  uma breve e colorida pausa. Hoje Hoyt e eu nos arrumamos isso para conseguir uma pequena explorao 
atravs da magia, e Blair e Larkin o tm feito do ar. Te poremos a par dos detalhes quando...
      Glenna se interrompeu quando comearam a soar as trombetas.
      Moira fez sua entrada, arrastando a cauda do vestido atrs dela e sua coroa brilhando  luz de uma centena de velas. Resplandecia como devem fazer as rainhas, 
como podem faz-lo as mulheres.
      Enquanto seu corao imvel se encolhia dentro de seu peito, Cian pensou: "Maldito, fodido inferno".
      No ficava mais remdio que unir-se aos outros na mesa principal para o banquete. Abandonar o lugar antes do tempo teria sido considerado como um grave insulto. 
No era que isso lhe preocupasse muito, mas teria chamado a ateno. De modo que outra vez estava apanhado.
     Moira ocupava o centro da mesa, flanqueada por Larkin e seu tio. Cian, ao menos, tinha a Blair ao seu lado, que era uma companheira entretida e, de uma vez, 
informativa. 
     -Lilith ainda no queimou nada, o que no deixa de ser uma surpresa -lhe comunicou ela.- Provavelmente se encontra muito ocupada cuidando de Fifi. Oh, uma pergunta. 
Essa puta francesa esteve dando voltas por a durante uns quatrocentos anos, verdade? E voc quase o dobro desse tempo. Como  que os dois conservam o acento?
     -E por que os norte-americanos acreditam que todo mundo deve falar como eles?
     -Boa observao. Isto  veado? Sim, acredito que  carne de veado. -levou-se uma parte  boca.- No est ruim.
     Blair levava um vestido vermelho vivo que deixava ao descoberto uma generosa poro de seus fortes e bem torneados ombros. No cabelo curto no levava adorno 
algum, mas de suas orelhas pendiam uns medalhes de ouro quase to grandes como o punho de um beb.
     -Como faz para manter a cabea erguida com esses brincos?
     -Sofrendo -respondeu ela com tom ligeiro.- Alm disso, tm cavalos -continuou.- Um par de dzias repartidos em vrios currais.  provvel que haja mais nas 
cavalarias. Me ocorreu descer com Larkin e espantar aos animais. J sabe, nos pr um pouco pesados, e, possivelmente, acender alguns fogos se podia convenc-lo. 
Se os vampiros ficavam dentro da cabana se queimariam. Se saam, queimariam-se.
     -Bem pensado. A menos,  obvio, que Lilith teria guardas com arcos postados dentro.
     -Bom, sim, tambm pensei nisso, por isso lancei umas quantas flechas acesas para chamar sua ateno. O alvo escolhido foi uma cabana prxima ao curral maior. 
Estava segura de que ali deviam estar alojados uns quantos soldados, era o mais lgico. Imagina minha surpresa e desgosto quando as flechas ricochetearam no ar como 
se houvesse uma parede.
     Cian se voltou para ela com os olhos entreabertos.
     -Est falando de um campo de fora? O que  isto, a fodida Star Trek?
     -Isso  o que me hei dito. -Em harmonia com ele, deu-lhe um ligeiro murro no ombro.- Lilith tem com ela a esse mago, esse tal Midir, trabalhando horas extras. 
E seu acampamento de apoio est dentro de uma bolha protetora. Larkin desceu para que pudssemos jogar uma olhada de mais perto, e ambos recebemos uma sacudida. 
Como uma descarga eltrica. Muito desagradvel.
     -Sim, me imagino.
     -Ento, o tal Midir em pessoa saiu que a casa grande, a manso? Um cara com um aspecto inquietante, deixa que lhe diga isso. Uma ampla tnica negra e uma mata 
de cabelo cinza. E ficou ali, de modo que ns o olhvamos e ele nos olhava. Finalmente o entendi. Um ponto morto. Ns no podamos atravessar essa barreira e eles 
tampouco. Quando o escudo est colocado, ficam presos dentro e ficamos fora.  como uma fodida fortaleza. Melhor.
     -Lilith sabe como tirar o melhor proveito da gente que tem a suas ordens -disse Cian.
     -Isso parece. De modo que descemos e lhes temos feito alguns gestos obscenos, para que no fosse uma total perda de tempo. Lilith ter que tirar o escudo de 
noite, no achas?
     -Possivelmente. Embora tenham comida suficiente, a natureza da besta  caar. Ela no querer que suas tropas estejam muito inativas ou fiquem muito nervosas.
     -Ou seja, que talvez possamos realizar uma incurso noturna. No sei.  algo no qual devemos pensar. Isso  haggis1 verdade? -Franziu o nariz.- Acredito que 
acontece. -inclinou-se um pouco mais para ele e sussurrou-: Larkin diz que se correu a voz sobre como tratou ao cara que tentou matar a Moira. Agora tem aos guardas 
do castelo e aos cavalheiros de seu lado.
     -No me importa muito.
     -Voc sabe muito bem que no  assim. Sabe o importante que  que a primeira linha deste exrcito no s te aceite, mas sim que tambm te respeite. Sir Cian.
     Ele se removeu em seu assento.
     -No comece com isso.
     -A mim seu flamejante ttulo soa bem. Esta espcie de gelatina  um pouco arenosa. Sabe o que ?
     Deliberadamente, Cian esperou a que ela tivesse comido uma segunda parte.
     -rgos internos gelatinosos... provavelmente de porco.
     Quando Blair se engasgou, ele ps-se a rir.
     Era um som to estranho, pensou Moira. Lhe ouvir rir. Estranho, um tanto perverso, e muito atrativo. Ela tinha dado um passo em falso com a roupa que lhe tinha 
enviado a sua habitao. Cian era uma criatura muito de sua poca -ou o que tinha chegado a ser sua poca- para levar a roupa que ela tinha escolhido.
     Mas tinha ido  celebrao; no estava segura de que o fizesse. Cian no lhe havia dito uma s palavra. Nenhuma. Tinha matado por ela, pensou, mas no lhe falava. 
De modo que o apagaria de seus pensamentos, do mesmo modo em que ele, obviamente, tinha apagado a ela dos seus.
     Moira s desejava que a noite acabasse de uma vez. Queria ir-se a sua cama, queria dormir. Queria tirar-se aquele pesado vestido de veludo e deslizar-se felizmente 
-por uma noite- para a escurido.
     Mas tinha que mostrar que comia apesar de sua falta de apetite. Tinha que fingir, ao menos, que prestava ateno s conversas, embora seus olhos pugnavam por 
fechar-se.
     Tinha bebido muito vinho, sentia-se muito acalorada. E ainda faltavam horas para que pudesse apoiar a cabea no travesseiro.
     Ela,  obvio, tinha que levantar-se, sorrir e beber cada vez que um dos cavalheiros decidia propor um brinde em sua honra. E ao ritmo que se aconteciam os brindes, 
o mais provvel era que de um momento a outro, a cabea lhe casse rodando.
     Com um enorme alvio, anunciou finalmente que o baile podia comear.
     Ela teve que levantar-se para o primeiro baile, tal como se esperava da flamejante rainha. E descobriu que se sentia melhor ante a perspectiva de mover-se, 
da msica.
     Ele,  obvio, no danava, mas sim seguia em seu assento. Como um rei desptico, pensou ela, bobamente irritada porque queria danar com ele. Suas mos sobre 
as dela, os olhos dele nos seus. Mas Cian seguia ali sentado, observando  multido e bebendo seu vinho. Ela girou com Larkin, saudou seu tio e chocou as palmas 
com Hoyt.
     E quando voltou a olhar, Cian se tinha ido.
     Ele desejava ar, e mais ainda, desejava a noite. A noite seguia sendo seu momento. O que vivia atrs de sua mscara humana sempre a desejaria, e sempre a buscaria.
     Subiu a sua habitao e logo se foi a um dos parapeitos, onde a escurido era densa e a msica que chegava do salo era apenas um eco suave. As nuvens haviam 
coberto a lua, e apagado as estrelas. Choveria antes do amanhecer; podia cheir-lo.
     Abaixo havia tochas que iluminavam os ptios e guardas postados nas portas e nos muros.
     Ouviu que um deles tossia e cuspia, e tambm o batido das asas das bandeiras em cima de sua cabea ante uma sbita rajada de vento. Se afinava o ouvido, podia 
ouvir o rangido dos ratos em sua toca, escondida em uma greta entre as pedras, ou o sussurro das asas de um morcego voando na escurido.
     Ele podia ouvir o que outros no podiam.
     Podia farejar aos humanos, o sal na pele e o rico discorrer do sangue debaixo dela. Havia uma parte dele que sempre vibrava de necessidade. De caar, de matar, 
de comer.
     O estalo de sangue na boca, na garganta. A vida que esse fluido continha e que jamais poderia saborear-se nas frias bolsas de plstico. Quente, recordava-o, 
o primeiro sorvo sempre quente. Esquentava todas as partes frias e mortas, e durante um momento, a vida -ou sua sombra- se agitava no interior desse frio e dessa 
morte.
     De vez em quando era bom recordar o indescritvel prazer que havia nisso. Era bom recordar contra o que enfrentava sua vontade. Era vital recordar o que ansiavam 
aqueles contra quem lutava.
      Os humanos no o entendiam, no podiam faz-lo. Nem sequer Blair, que entendia mais que a maioria. Mesmo assim, eles lutariam e morreriam. Atrs deles viriam 
outros a lutar e a morrer. Alguns fugiriam,  obvio... alguns sempre o faziam. Outros seriam presas do terror e simplesmente ficariam imveis e os matariam, como 
se fossem lebres apanhadas na luz de um farol.
      Mas a maioria no fugiria, no se esconderia, no ficaria paralisada pelo terror. Em todos os anos que levava vendo viver e morrer aos humanos, Cian sabia 
que, quando estavam contra a espada e a parede, lutavam como demnios.
      Se triunfavam, algum acabaria escrevendo canes e histrias que explicariam sobre todo o assunto. Os ancies se sentariam junto ao fogo e falariam daqueles 
gloriosos dias ao tempo que exibiam suas cicatrizes. E outros despertariam com um suor frio em todo o corpo ao reviver em seus sonhos o horror da guerra. Se conseguia 
seguir com vida, como seria para ele? Perguntou-se. Dias de glria ou de pesadelos? Nenhuma das duas coisas, pensou, porque ele no era o bastante humano para dedicar 
tempo ao que j tinha terminado.
      Se Lilith conseguisse acabar com ele, bom, a verdadeira morte era uma experincia que ainda no tinha tido. Podia ser interessante. E como podia ouvir o que 
outros no ouviam, percebeu os passos nos degraus de pedra. Eram os passos de Moira; conhecia seu andar tanto como seu aroma.
      Esteve a ponto de confundir-se com as sombras e logo se amaldioou por ser to covarde. No era mais que uma mulher, s uma mulher. Ela no podia ser, e no 
seria, nada mais para ele.
      Quando Moira saiu ao ar livre, ele a ouviu suspirar uma vez. Um suspiro comprido e profundo, como se acabasse de tirar um enorme peso de cima. Viu-a aproximar-se 
da borda, apoiar as mos na pedra e jogar a cabea para trs e fechar os olhos. Inspirou.
      Tinha o rosto avermelhado devido ao calor do fogo da lareira e o exerccio do baile, mas havia sombras de fadiga debaixo de seus olhos.
      Algum tinha elaborado finas tranas em sua larga cabeleira, confeccionando uma trama com finos fios de ouro que brilhavam entre seu cabelo castanho sedoso.
      Cian percebeu o momento em que ela se deu conta de que no estava sozinha. A sbita tenso nos ombros e o movimento da mo entre as dobras do vestido.
     -Se tivesse uma estaca a oculta -disse ele- preferiria que no a apontasse em minha direo.
     Embora seus ombros no se relaxaram, Moira deixou cair a mo a um flanco ao tempo que se voltava para ele.
     -No te tinha visto. Queria tomar um pouco o ar. Dentro faz muito calor e bebi muito.
     -Mais do que comeste. Deixarei-te que tome o ar.
     -Oh, fique. Ficarei s um momento, logo pode recuperar o maldito ar outra vez para ti sozinho.
     Moira jogou o cabelo para trs e ergueu a cabea.
     Agora ele podia ver seu rosto, seus olhos, e pensou: "Sim, no cabe dvida, a pequena rainha est preparada para perder sua flor".
     -Vieste aqui para ter pensamentos profundos? -perguntou ela.- No sei se os pensamentos profundos requerem um espao como este, ou  melhor pens-los em lugares 
fechados. Imagino que voc deve ter muitos pensamentos com tudo o que viu.
     Moira se cambaleou ligeiramente e ps-se a rir quando Cian a agarrou pelo brao. Soltou-a imediatamente.
     - to cuidadoso de no me tocar -comentou ela.- A menos que me esteja salvando da morte ou de ser machucada. Ou me golpeando durante o treinamento. Penso que 
isso  muito interessante.  um homem interessante, o que opina voc?
     -No o fao.
     -Exceto em uma ocasio -continuou ela como se ele no tivesse falado, e se aproximou um pouco mais.- Aquela ocasio em que me tocou muito bem. Aquela vez em 
que me ps as mos em cima, e a boca. Perguntei-me a respeito disso.
     Cian esteve a ponto de retroceder um passo, e isso o mortificou.
     -S queria te dar uma lio.
     -Sou uma estudiosa e eu adoro as lies. Me d outra ento.
     -O vinho te faz dizer tolices. -Irritou-o o som pomposo e afetado de sua prpria voz.- Deveria entrar e fazer que suas damas de companhia lhe levem para a cama.
     -Sim, faz-me dizer tolices. Amanh o lamentarei, mas bom, isso ser amanh, verdade? Oh, longo dia. -Deu um pequeno giro que fez que sua saia ondeasse sobre 
as pedras.- Foi esta manh quando fui at a pedra? Sinto-me como se tivesse carregado com a espada e a pedra durante todo o dia. Agora as estou deixando descansar; 
at manh, estou-as deixando descansar. Sou um desastre para a bebida, e o que? -Moira se aproximou um pouco mais, e o orgulho impediu que ele retrocedesse.- Esperava 
que esta noite danasse comigo. Esperava e me perguntava como seria que me tocasse fora do treinamento ou por boa educao ou por engano.
      -No estava de nimo para danar.
      -Oh, e sem dvida voc tem muitos estados de nimo. -Lhe observou o rosto atentamente, estudando-o, pensou Cian, como o faria com as pginas de um livro.- 
E eu tambm. Quando me beijou naquela ocasio, eu estava irritada. E tambm um pouco assustada. Agora no estou irritada nem assustada. Mas acredito que voc sim 
o est.
      -Est acrescentando o ridculo s tolices.
      -Demonstra-o ento. -Ela cobriu a mnima distncia que os separava e elevou o rosto para ele.- Me ensine uma lio.
      Dificilmente poderiam conden-lo por isso. Ele j tinha sido condenado fazia muito tempo. Ele no foi suave; no foi tenro, mas sim a atraiu contra si e quase 
a elevou do cho antes que sua boca descesse para cobrir a dela.
      Degustou o vinho e o calor... e algo que no tinha antecipado. Esse, soube nesse momento, foi seu engano.
      Dessa vez, ela estava preparada para lhe receber. As mos de Moira se enredaram no cabelo dele, sua boca estava aberta e vida. Ela no se rendeu em atitude 
de entrega, e tampouco se estremeceu ante sua furiosa investida. Queria mais.
     A necessidade o rasgava, outro demnio enviado para tortur-lo.
     Ela se perguntou por que o ar entre eles estava fumaando, como era possvel que ambos simplesmente no estalassem em chamas. Aquilo era fogo, no sangue, nos 
ossos.
     Como tinha podido viver toda sua vida sem isso?
     Inclusive quando Cian a soltou, quando a empurrou afastando-a de seu corpo, permaneceu dentro dela como uma febre.
     -H sentido? -Seu sussurro estava cheio de admirao.- H isso sentido?
     O sabor de Moira agora estava em seu interior e tudo nele ansiava mais dela. De modo que no lhe respondeu, no disse absolutamente nada. Deslizou-se na escurido 
e desapareceu antes que ela pudesse recuperar o flego.
     
     
     
     CAPTULO 5
      
     
     
     Moira despertou cedo e cheia de energia. Tudo no dia anterior tinha arrastado um enorme peso, como se o tivesse carregado preso  perna. Agora a cadeia estava 
quebrada. No importava a chuva que caa de um cu cinza escuro e apagava at o mnimo vestgio de sol. Voltava a ter a luz em seu interior.
      Vestiu-se com o que chamava suas roupas da Irlanda: jeans e uma camiseta. O tempo da cerimnia e o recato tinham passado, e ao diabo com as suscetibilidades 
at que pudesse dedicar tempo de mitig-las outra vez.
      Ela podia ser uma rainha, pensou enquanto se penteava fazendo uma larga trana, mas seria uma rainha trabalhadora. Seria uma guerreira. Atou-se as botas e 
sujeitou a espada  cintura. Reconheceu e aprovou a essa mulher que via refletida no espelho. Era uma mulher com um propsito, poder e conhecimentos. 
     Voltou-se e estudou o quarto. A cmara da rainha, pensou. Em uma poca tinha sido o santurio de sua me, e agora era o seu. A cama era grande e estava belamente 
adornada com tapearias de veludo azul escuro e renda branca, porque a sua me tinha gostado de tudo suave e formoso. As colunas eram grossas, de carvalho de Geall 
envernizado, e profusamente esculpidos com smbolos do reino. As pinturas que cobriam as paredes tambm representavam Geall, seus campos e colinas e bosques.
      Em uma mesinha junto  cama, havia um pequeno retrato emoldurado em prata. O pai de Moira tinha velado por sua me todas as noites... agora velaria por sua 
filha.
     Olhou para as portas que davam ao balco de sua me. As cortinas ainda estavam corridas e Moira as deixaria assim. Ao menos no momento. No estava preparada 
para abrir essas portas e pisar nas pedras onde sua me tinha sido assassinada. Recordaria, em troca, todos os momentos felizes que tinha vivido junto a ela nessas 
habitaes.
     Saiu do quarto e se dirigiu para o aposento que ocupavam Hoyt e Glenna, e chamou. Ao cabo de uns poucos minutos, caiu na conta da hora que era. Estava a ponto 
de retirar-se, esperando que no tivessem ouvido o golpe na porta, quando esta se abriu. 
     Hoyt ainda se estava vestindo. Tinha desgrenhada sua larga cabeleira escura e os olhos ainda cheios de sono.
     -Oh, perdo -disse Moira.- No pensei...
     -Aconteceu algo?
     -No, no, nada. No me dei conta do cedo que . Por favor, volta para a cama.
     -O que ocorre? -Glenna apareceu atrs de Hoyt.- Moira? H algum problema?
     -S com minhas maneiras. Despertei-me e levantei muito cedo, e no tive em considerao que outros ainda estariam na cama, especialmente depois da celebrao 
de ontem  noite.
     -No se preocupe. -Glenna apoiou uma mo no brao de Hoyt para lhe indicar que se afastasse.- O que necessitava?
     -S falar um momento contigo. A verdade  que pensava te perguntar se queria tomar o caf da manh comigo nas habitaes de... em minha sala de estar, para 
poder te comentar um assunto.
     -Me d dez minutos.
     -Est segura? No me importa esperar at mais tarde.
     -Dez minutos -repetiu Glenna.
     -Obrigada. Encarregarei-me de que preparem o caf da manh.
     -Moira parece... preparada para algo -comentou Hoyt quando Glenna foi lavar-se.
      -Pode ser.
      Glenna colocou as mos na gua, concentrada. Ali no existiam duchas e, certamente, no pensava banhar-se em gua fria.
      Fez o que pde com o que tinha  mo, enquanto Hoyt se encarregava de avivar o fogo. Logo, cedendo  vaidade, permitiu-se um pequeno conjuro.
      -Pode ser que s deseje falar do programa de adestramento previsto para hoje. -Glenna se colocou uns brincos que teria que recordar tirar-se quando comeassem 
a se exercitar.- Te expliquei que Moira ofereceu um prmio, uma de nossas cruzes,  mulher que consiga derrub-la hoje em um combate.
      -Foi muito esperta ao oferecer um prmio, mas me pergunto se for o melhor uso que lhe pode dar  cruz.
      -Havia nove cruzes -lhe recordou Glenna enquanto se vestia.- Cinco para ns, e a do King,  obvio, que fazia a sexta. Logo as duas que convimos em lhes dar 
 me e  irm grvida de Larkin. H um propsito para a nona. Possivelmente seja este.
     -J veremos o que nos proporciona o dia. -Hoyt sorriu enquanto colocava um pulver cinza pela cabea.- Como , a ghr, que parece mais encantada cada manh?
     -Voc tem amor nos olhos. -refugiou-se entre seus braos quando Hoyt se aproximou dela... e olhou a cama com saudade.- Manh chuvosa. Seria agradvel ficarmos 
abraados durante uma hora e fazer o que quisesse contigo. -Elevou a cabea para que ele a beijasse.- Mas ao parecer tomarei o caf da manh com a rainha.
     Quando Glenna entrou, Moira, como era costume nela, estava sentada junto ao fogo com um livro nas mos. Elevou a vista e sorriu envergonhada.
     -Sinto te haver separado de seu marido e de sua cama quente a uma hora to temprana.
     - o privilgio da rainha.
     Moira se ps-se a rir e assinalou uma poltrona.
     -O caf da manh chegar em um momento. Um dia, se as sementes que trouxe e plantei consigam desenvolver-se, poderei ter suco de laranja cada manh. Sinto falta 
desse sabor.
     -Eu mataria por um caf -admitiu Glenna.- E, j postos, por um caf, um bolo de ma, o TiVo2 e todas as coisas humanas. -sentou-se na poltrona e estudou a 
Moira.- Tem bom aspecto -disse.- Descansada e, como disse Hoyt, preparada.
     -Estou-o. Ontem tinha tantas coisas no corao e a cabea que tudo me resultava muito pesado. A espada e a coroa eram de minha me e agora so minhas s porque 
ela est morta.
     -E no tem tempo para o luto.
     -No, no o tenho. Apesar de tudo, sei que ela teria querido que fizesse as coisas como as tenho feito, por Geall, por todos, e que no me encerrasse em mim 
mesma em alguma parte para chorar sua morte. E tambm tive medo. Que tipo de rainha serei, e em um momento como este. -Moira olhou com sua satisfao gastas calas 
e suas botas.- Bom, sei que tipo de rainha tentarei ser. Forte, inclusive impetuosa. No h tempo para sentar-se no trono e discutir questes de Estado. A poltica 
e o protocolo tero que esperar, no acha? J tivemos nossa cerimnia e nossa celebrao, e eram necessrias. Mas agora chegou o momento do suor e a imundcie.
      Levantou-se quando chegou o caf da manh. Falou com o moo que o havia trazido -que ainda tinha os olhos sonolentos- e com a criada que estava com ele.
     Moira conversava com soltura, observou Glenna. Chamava-os ambos por seus nomes enquanto colocavam os pratos e serviam a comida. E, embora os dois pareciam desconcertados 
pelo traje que tinha escolhido sua rainha, Moira ignorou essa circunstncia, agradeceu-lhes e lhes disse que podiam retirar-se e que sua hspede e ela no deviam 
ser incomodadas.
      Quando se sentaram, Glenna advertiu que Moira, que durante dias nem tinha bicado a comida, comia agora com um apetite capaz de rivalizar com o de Larkin.
     -Estou pensando que hoje ser um dia de treinamento duro e lamacento -comeou Moira- e isso est bem. Uma boa disciplina. Queria te dizer que, embora eu tambm 
participarei dos exerccios, e provavelmente o faa todos os dias desde hoje, Blair e voc seguem estando a cargo de tudo. Quero que todos vejam que estou me preparando 
igual ao resto deles. Que me sujarei e me golpearo.
     -Parece-me que  o que est procurando.
     -Os deuses sabem que sim. -Moira colheu com uma colher os ovos que lhe tinha indicado  cozinheira que preparasse como freqentemente o fazia Glenna. Misturados 
com partes de presunto e rodelas de cebola.- Recorda o dia em que Larkin e eu chegamos a Irlanda atravs do Baile dos Deuses? Podia colocar uma flecha onde quisesse, 
nove de cada dez vezes, mas qualquer de vocs me podia atirar ao cho sem esforo apenas.
     -Voc sempre se levantava.
     -Sim, eu sempre me levantava. Mas agora j no  to fcil me derrubar. E isso  algo que tambm quero que todos vejam.
     -J lhes demonstrou que era uma guerreira quando lutou com esse vampiro e o matou.
     - verdade. E agora mostrarei a um soldado que agenta todo o necessrio. E h algo mais que quero de ti.
     -Isso imaginava. -Glenna serve mais ch para ambas .- Dispare.
     -Nunca explorei a magia que possuo. No  grande coisa, como todos puderam ver. Um ligeiro dom para curar e uma espcie de poder que pode ser trabalhado e estendido 
por outros que possuem mais. Como Hoyt e voc. Sonhos. Estudei os sonhos e li livros a respeito de seus significados. E,  obvio, livros sobre a prpria magia. Mas 
me parecia que no havia um propsito real no qual eu tinha, salvo oferecer um pouco de alivio a quem sofria dor. Ou uma forma de saber que direo tomar para encontrar 
um cervo quando saio de caa. Coisas pequenas. Questes sem importncia.
     -E agora?
     -Agora -repetiu Moira assentindo- acredito que h um propsito e tambm uma necessidade. Acredito que necessito tudo o que tenho, tudo o que sou. Quanto mais 
conhea o que h dentro de mim, melhor poderei us-lo. Quando toquei a espada, quando apoiei a mo no punho, derramou-se sobre mim a certeza de que era minha, de 
que sempre tinha sido minha. E um poder associado a ela, como um vento forte soprando para mim. Mais atravs de mim, acredito. Entende-o?
     -Perfeitamente.
     Moira voltou a assentir e continuou comendo.
     -Neguei esse aspecto porque no tinha um interesse particular nele. Eu queria ler e estudar, sair a caar com Larkin, montar a cavalo.
      -Todas as coisas que desfruta uma moa -a interrompeu Glenna.- Por que no deveria ter feito o que voc gostava? No sabia o que te esperava.
      -No, no sabia. Pergunto-me se o teria sabido se tivesse prestado mais ateno.
      -No poderia ter salvado a sua me, Moira -disse Glenna brandamente.
      Moira elevou a vista com os olhos muito claros.
      -Pode ler meus pensamentos com muita facilidade.
      -Acredito que  porque, se estivesse em seu lugar, eu teria os mesmos. No poderia hav-la salvado. E, alm disso...
      -No estava escrito que eu devesse salv-la. -Moira acabou a frase.- Estou comeando a aceit-lo em meu corao. Mas se eu tivesse explorado o que tenho, poderia 
ter sido capaz de ver algo do que se estava aproximando. No importa qual teria podido ser a diferena. O mesmo que Blair, eu tambm vi o campo de batalha em meus 
sonhos. Mas, a diferena dela, eu no enfrentei a isso. Voltei-lhe as costas. Isso tambm terminou. J no vou... espera. -Moira procurou a expresso correta.- A 
me torturar com isso? Sim?
      -Sim, isso.
      -J no me torturo com isso. Estou tratando de mud-lo. De modo que te peo se pode dedicar algo de seu tempo a me ajudar a aperfeioar qualquer dom que possa 
ter, assim como aperfeioei minhas habilidades para o combate.
     -Posso faz-lo. Eu adoraria.
     -Agradeo-lhe por isso.
     -No me agradea nada ainda. Ter que trabalhar muito. A magia  uma arte e um ofcio. E um dom. Mas se o comparamos com seu treinamento fsico no  muito 
diferente. Tambm , bom, como um msculo. -Glenna lhe deu umas palmadas nos bceps.- Tem que exercit-la e constru-la. A magia que praticamos  como a medicina, 
quer dizer, que nunca se sabe suficiente.
     -Cada arma que leve ao campo de batalha ser outro golpe contra o inimigo. -Moira flexionou o brao com as sobrancelhas arqueadas.- De modo que construirei 
o da magia igual a este, convertendo-o em to forte como posso. Quero esmag-la, Glenna. Mais que derrot-la, quero esmag-la. Por muitas razes. Meus pais, King, 
Cian -acrescentou depois de uma breve pausa.- Isso no gostaria de nada a Cian, verdade, saber que penso nele como uma vtima?
     -Ele no se v a si mesmo dessa maneira.
     -No, no o v, nega-se a faz-lo. Essa  a razo pela qual prospera, a sua maneira. Ele construiu sua... No posso dizer paz, j que no  do tipo pacfico, 
verdade? Mas aceitou sua sorte. Suponho que, de algum modo, Cian a abraou.
     -Eu diria que o conhece tanto como  possvel conhec-lo.
     Agora Moira duvidou um momento, atrasando-se enquanto brincava com a comida que tinha ficado em seu prato.
     -Ele me beijou outra vez.
     -Oh. Oh. -E depois de uma pausa-: Oh.
     -Eu fiz que me beijasse.
     -No  que pretenda menosprezar seu encanto ou seus poderes, mas no acredito que ningum possa conseguir que Cian faa nada que realmente no deseje fazer.
     -Poderia ser que ele o desejasse, mas no o teria feito se eu no o tivesse pressionado. Eu estava um pouco bbada.
     -Hmmm.
     -Mas estar bbada no foi o pior -disse Moira com uma risada que mostrava algum nervosismo.- Em realidade, no. Isso s foi um pouco de relaxamento de maneiras, 
por dizer, e maior deciso. Necessitava de ar e um pouco de tranqilidade, de modo que subi e sa a uma das bancadas. E ali estava Cian.
     Ela voltou a representar a cena em sua mente.
     -Ele poderia ter ido a qualquer parte e, sem dvida, eu poderia ter ido a outra parte, mas nenhum dos dois o fez, de modo que ambos coincidimos no mesmo lugar 
ao mesmo tempo. Na noite -disse tranqilamente.- Com msica e luz tnue.
      -Romntico.
      -Sim, suponho que o era. Com a chuva anunciando-se e que comeava a perfumar o ar, e a fina foice da lua muito branca contra o cu. Cian est rodeado de um 
mistrio que quero seguir estudando at encontrar todas suas peas.
      -No serias humana se no o encontrasse fascinante -comentou Glenna. Ambas sabiam o que ela no havia dito. Ele no o era. Cian no era humano.
      -Ele se estava comportando de um modo muito afetado, como est acostumado a faz-lo comigo, e me resultava irritante. E, bom, reconheo-o, provocador. s vezes 
me ocorre quando estou com ele. O mesmo que me passa com o conhecimento ou a magia.  algo que vai aumentando.
      Moira apoiou com fora uma mo sobre o ventre e logo foi subindo at o corao.
      -Algo que... vai subindo do centro de mim mesma. Nunca tinha tido sentimentos to intensos, desse tipo, por nenhum homem. Pequenos indcios deles, sabe? Sentimentos 
confortveis e interessantes, mas no fortes e quentes. H algo nele que me atrai de um modo irresistvel.  to...
     -Sexy -acabou Glenna a frase.- A um nvel incrvel.
     -Eu queria saber se seria igual  vez anterior, a nica vez, quando os dois estvamos to furiosos e ele me beijou. Disse-lhe que voltasse a faz-lo e que no 
aceitaria um no como resposta. Agora -Moira elevou a cabea, como se estivesse resolvendo uma adivinhao.- Sabe? Acredito que o pus nervoso. Vi que estava ligeiramente 
perturbado, e tratando de demonstrar que no o estava, foi to embriagador como o tinha sido o vinho.
     -Oh, Deus, sim. -Glenna respirou profundamente e levantou sua xcara de ch.-  claro que sim que teve que s-lo.
     -E quando ele me beijou, foi como a vez anterior, s que mais. Porque eu o estava esperando. Nesse momento ele estava to cativado como eu. Soube.
     -O que est procurando dele, Moira?
     -No sei. Talvez s esse calor, s esse poder que ele possui. Esse prazer. Est errado?
     -No posso diz-lo. -Mas lhe preocupava.- Cian nunca poderia te dar mais. Tem que entend-lo. Ele no ficaria aqui e, embora o fizesse durante um tempo, voc 
nunca poderia ter uma vida com ele. Est pisando em um terreno muito perigoso.
     -Cada dia a partir de agora at Samhain ser um terreno perigoso. Sei que o que est dizendo  bom e tem sentido, mas eu o sigo desejando em meu corao e em 
minha mente. Necessito que ambos se assentem um pouco antes de saber o que deveria fazer com este assunto. Mas sei que no quero entrar em combate tendo deixado 
isto de lado s porque temo o que possa chegar ou no a ser.
     Depois de um momento de reflexo, Glenna suspirou.
     -Talvez o que diz tenha sentido, e duvido muito que eu seguisse meu prprio conselho se estivesse em seu lugar.
     Moira se aproximou dela e lhe agarrou a mo.
     -Ajuda poder falar com outra mulher. Ser capaz de dizer a outra mulher o que h em minha mente e meu corao.
      
     Em outra parte de Geall, em uma casa protegida inclusive contra a luz dbil e brumosa, outras duas mulheres estavam sentadas e falavam.
      Era o final de seu dia, no o comeo, mas estavam compartilhando uma tranqila comida.
      -Tinha razo. -Lora se reclinou para trs, limpando-se delicadamente o sangue dos lbios com um guardanapo de linho. O homem estava encadeado  mesa, entre 
elas. Lilith tinha insistido em que sua companheira ferida se sentasse e comesse em lugar de ficar na cama, bebendo o sangue de uma taa.- Me levantar e desfrutar 
de uma matana civilizada era o que necessitava.
      -V?
      Lilith sorriu agradada.
      O rosto de Lora ainda estava gravemente queimado. A gua benta que lhe tinha arrojado a maldita assassina de vampiros lhe tinha causado um dano terrvel. Mas 
estava curando-se, e a comida fresca a ajudaria a recuperar as foras.
     -Mas eu gostaria que comesse um pouco mais.
     -Farei-o. Foste to boa comigo, Lilith. E eu te falhei.
     -No, no falhou. Era um bom plano, e esteve a ponto de dar resultado.  voc quem teve que pagar um preo muito alto por isso. No posso suportar pensar na 
dor que sofreu.
     -Teria morrido se no fosse por ti.
     As duas tinham sido amantes e amigas, rivais e adversrias. Tinham sido tudo para a outra durante quatro sculos. Mas as feridas de Lora, a proximidade de seu 
fim, tinha-as unido mais que nunca.
     -At que no lhe feriram, no sabia quanto te amava e te necessitava. Aqui tem, querida, um pouco mais.
     Lora obedeceu, agarrando o brao flcido do homem e afundando profundamente as presas na munheca.
     Antes de sofrer as queimaduras no rosto, Lora tinha sido muito bonita, uma loira jovem e fresca, elegante. Agora tinha o rosto esfolado e vermelho, prejudicado 
pelas queimaduras quase curadas. Mas o brilho frgil de dor tinha desaparecido de seus grandes olhos azuis e sua voz voltava a exibir a fora de antes.
     -Foi maravilhoso, Lilith. -recostou-se novamente na poltrona.- Mas sou incapaz de beber uma s gota mais.
     -Ento ordenarei que levem o resto e nos sentaremos um momento junto ao fogo antes de nos deitar.
     Lilith fez soar uma campainha de ouro e fez gestos a um dos criados para que levasse o que ficava na mesa. Sabia que os restos de comida no seriam desperdiados.
     Levantou-se para ajudar a Lora a cruzar a habitao para onde j tinha disposta almofadas e uma manta leve sobre um sof.
     - mais confortvel que as covas -comentou Lilith.-Mas, no obstante, alegrar-me abandonar este lugar e dispor de um alojamento adequado.
     Acomodou a Lora no sof antes de sentar-se, rgia com seu vestido vermelho e seu cabelo dourado recolhido para acrescentar um toque de glamour  velada.
     Sua beleza no tinha diminudo nem um pice desde sua morte, fazia mais de dois mil anos.
     -Di-te? -perguntou a Lora.
     -No. Quase me sinto eu mesma outra vez. Lamento haver me comportado como uma menina ontem pela manh, quando essa cadela voou por cima de ns nesse ridculo 
homem-drago. Quando a vi, tudo voltou como uma mar, todo o medo, a agonia.
     -Mas lhe demos uma surpresa, verdade? -Lilith alisou a manta, envolvendo a Lora com ela.- Imagina sua confuso quando suas flechas se chocaram contra o escudo 
de Midir. Teve razo ao me convencer de que no o matasse.
      -Na prxima vez que veja essa cadela, no me porei a chorar nem me esconderei debaixo das mantas como uma menina assustada. Na prxima vez que a veja, matarei-a 
com minhas prprias mos. Juro-o.
      -Ainda sente o desejo de transform-la e convert-la em uma companheira para ti?
      -Nunca concederei semelhante presente a essa puta. -Os lbios de Lora se esticaram com um grunhido.- Ela s receber de mim a morte. -Logo, com um suspiro, 
apoiou a cabea no ombro de Lilith.- Nunca teria sido o que voc  para mim. Pensava me divertir um tempo com ela. E tambm pensei que poderia nos servir como entretenimento 
na cama; toda essa energia e essa violncia que tem em seu interior resultavam muito atrativas. Mas nunca poderia hav-la amado como amo a ti.
     Agora inclinou a cabea e seus lbios se uniram em um beijo comprido e doce.
     -Sou tua, Lilith. Eternamente.
     -Minha doce menina. -Lilith a beijou na tmpora.- Na primeira vez que te vi, sentada s nas escuras e midas ruas de Paris, chorando, soube que me pertenceria.
     -Eu pensava que amava a um homem -sussurrou Lora.- E que ele tambm me amava. Mas me utilizou, desprezou-me e me deixou por outra mulher. Pensei que me tinha 
quebrado o corao. E ento apareceu voc.
     -Recorda o que te disse naquele momento?
     -Nunca esquecerei essas palavras. Disse: "Minha doce e triste menina, est sozinha?". Disse-te que minha vida se terminou, que na manh seguinte estaria morta 
de pena.
     Lilith se ps-se a rir e acariciou o cabelo de Lora.
     -To dramtica. Como podia resistir a ti?
     -Ou eu a ti. Estava to formosa, como a rainha que . Foi vestida de vermelho, como esta noite, e tinha o cabelo brilhante, cheio de cachos. Levou-me a sua 
casa e me deu po e vinho, escutou minha triste historia e enxugou minhas lgrimas.
     -Foi to jovem e encantadora... Parecia to segura de que esse homem que te tinha desprezado era tudo o que podia desejar na vida...
     -J no recordo seu nome. Tampouco seu rosto.
     -Veio gostosamente aos meus braos -murmurou Lilith.- Te perguntei se queria seguir sendo jovem e bela para sempre, se voc gostaria de ter poder sobre homens 
como o que te tinha feito tanto dano. Respondeu-me que sim, uma e outra vez. Inclusive quando te provei, apertou-te para mim e voltou a repetir, sim, sim.
     O branco dos olhos de Lora se tingiu levemente de vermelho ao recordar aquele maravilhoso momento.
     -Nunca havia sentido uma excitao to profunda. E quando voltei a viver, voc me trouxe a ele para que eu pudesse ter como minha primeira presa ao homem que 
se burlou de mim. E o compartilhamos, como compartilhamos tantas coisas desde aquele momento.
     -Quando chegar Samhain, compartilharemos tudo o que existe.
     
     Enquanto os vampiros dormiam, Moira se encontrava no campo de jogos. Estava suja e empapada. O quadril lhe doa por causa de um golpe que se penetrou atravs 
de sua guarda e ofegava depois do ltimo assalto.
     Sentia-se maravilhosa.
     Estendeu- a mo a Dervil para ajud-la a levantar do cho.
     -Tem-no feito muito bem -disse Moira.- Quase o consegue.
      Dervil se esfregou suas amplas ndegas.
     -Acredito que no.
     Com as mos apoiadas nos quadris e a cabea coberta com um chapu de couro de asa larga agora empapada, Glenna observava a ambas.
      -Esta vez agentaste de p mais tempo e te levantaste mais rpido do cho. -Fez um gesto de aprovao para Dervil.- Est progredindo. Por isso me ho dito, 
no outro extremo deste campo h vrios homens aos que poderia derrotar.
     -No outro extremo do campo h muitos homens aos quais ela j derrotou -disse Isleen, e seu comentrio provocou um coro de risadas obscenas.
     -E sei o que fazer com eles quando isso ocorre -replicou Dervil.
     -Te ocupe de pr algo dessa energia em seu prximo combate -sugeriu Glenna- e poder ganh-lo em lugar de acabar no barro. Terminemos o dia com um pouco de 
prtica de arco e flecha.
     Embora as mulheres responderam com gestos de alvio ao feito de que a sesso se desse por acabada, Moira agitou uma mo.
     -Ainda no enfrentei a Ceara corpo a corpo. Estive reservando para o final a quem me ho dito que  a melhor. Desse modo, poderei me retirar do campo como a 
campe.
     -Arrogante. Eu gosto disso -disse Blair enquanto avanava atravs da chuva e o barro.- A fabricao de armas segue adiante -acrescentou.- Aumentamos a produo 
um nvel. -Jogou a cabea para trs.- Me deixem que lhes diga uma coisa, esta chuva senta maravilhosamente bem depois de um par de horas com a bigorna e a forja. 
E bem, qual  o marcador aqui?
     -Moira derrotou a todas com a espada e em combates corpo a corpo. Agora desafiou a Ceara a um assalto antes que acabemos a sesso com os arcos.
     -Muito bem. Posso levar a um grupo at os alvos enquanto vocs terminam aqui.
     Produziu-se um sonoro protesto por parte das mulheres, ansiosas como estavam por presenciar o ltimo combate.
     -Sedentas de sangue. -Blair mostrou sua aprovao.- Isso tambm eu gosto. Muito bem, senhoras, deixem espao. Por quem apostas? -perguntou a Glenna enquanto 
as duas mulheres se dispunham a lutar.
     -Moira est quente e motivada. Ela trabalhou hoje duramente. Eu apostaria por ela.
     -Eu me inclino pela Ceara.  muito manhosa e no teme aos golpes. V? -acrescentou quando Ceara caiu de bruos no barro e se levantou rapidamente para atacar 
a Moira.
     Fez uma finta, girando no ltimo momento, logo lanou o p para cima e alcanou a Moira no peito. A rainha saiu em disparada para trs por causa do forte impacto, 
conseguiu manter o equilbrio e esquivou o seguinte golpe. Investiu com fora e lanou a Ceara por cima do ombro. Mas quando se deu a volta, Ceara no estava cada 
de costas no barro, mas sim se tinha apoiado nas mos para lanar ambos os ps para frente e derrubar a Moira.
     Esta se levantou rapidamente e com os olhos brilhantes.
     -V, vejo que sua reputao no  exagerada.
     -Vou pelo prmio. -Ceara se agachou e comeou a girar ao redor de Moira.- Estas advertida.
     -Venha busc-lo ento.
     -Boa briga -comentou Blair enquanto voavam os punhos e os ps.- Ceara, mantenha os cotovelos levantados! 
     Glenna golpeou a Blair no flanco com o seu.
     -No se pode dar instrues do galinheiro.
     Mas estava sorrindo, no s porque era um bom combate, mas sim porque o resto das mulheres gritavam e aconselhavam s duas opositoras.
      Converteram-se em uma unidade.
      Moira caiu para trs, lanou as pernas para frente em uma chave de tesoura e varreu a Ceara. Mas quando rodou sobre si mesma para imobilizar a sua rival, Ceara 
a agarrou e a lanou por cima de sua cabea.
      Ouviram-se numerosas expresses de compaixo quando Moira aterrissou com um rudo seco. E antes que pudesse voltar a levantar-se, Ceara estava sentada escarranchada 
em cima dela, com um cotovelo no pescoo de Moira e um punho apoiado  altura do corao.
      -Ests estacada.
      -Mas que droga, estou. Te afaste, pelo amor de Deus, est-me esmagando os pulmes.
      Moira respirou profundamente enquanto fazia um esforo para colocar em posio sentada seu corpo ainda tremente. Ceara se sentou no barro junto a ela, e as 
duas permaneceram ofegando e olhando-se mutuamente.
     - uma fodida cadela no combate -disse Moira finalmente.
     -O mesmo lhes digo, com todo respeito, minha senhora. Agora tenho machucados em cima dos machucados e vultos em cima destas.
     Moira se tirou um pouco de barro da cara com o antebrao.
     -No estava descansada -disse.
     -Isso verdade, mas tambm poderia lhes derrotar se o estivessem.
     -Acredito que tem razo. Ganhaste o prmio, Ceara, e em boa lide. Sinto-me orgulhosa de ter sido derrotada por ti.
     Ofereceu-lhe a mo e, depois de estreitar-lhe a elevou no ar.
     -Aqui est a campe do combate corpo a corpo.
     Houve vivas e abraos  maneira das mulheres. Mas quando Ceara lhe estendeu a mo para ajud-la a que se levantasse, Moira a rechaou.
     -Ficarei sentada um momento at recuperar o flego. V procurar seu arco. Disparando no podem me vencer nem voc nem ningum.
     -No poderamos consegui-lo nem em mil anos. Majestade?
     -Sim? Oh, Deus, no poderei me sentar em uma semana -acrescentou, esfregando o quadril dolorido.
     -Nunca estive mais orgulhosa de minha rainha.
     Moira sorriu para si, logo ficou sentada, fazendo um inventrio de seus machucados e dores. Continuando, seu olhar se dirigiu para a bancada onde tinha estado 
com Cian na noite anterior.
     E ali estava ele, de p em metade da penumbra e a chuva, olhando-a. Ela podia sentir sua fora atravs da distncia, a fascinao que exsudava, pensou, como 
nenhum outro homem.
     -O que  o que est olhando? -perguntou-lhe em voz baixa.-Te divertes ver-me com o traseiro no barro? -Provavelmente, decidiu, e quem podia lhe culpar? Imaginou 
que tinha devotado um bom espetculo.
     -Cedo ou tarde, combateremos voc e eu. Ento veremos quem vence a quem -resmungou.
     Ficou em p e apertou os dentes para no coxear. De modo que pde afastar-se erguida e sem voltar a vista para trs. 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 6
     
     
     
     Depois de tirar de cima vrios quilos de barro, Moira se reuniu com o resto do grupo para uma sesso de estratgia. Entrou no salo nesse ponto pela metade 
entre a discusso e o raciocnio.
     -No estou dizendo que voc no possa dirigi-lo. -O tom de Larkin enquanto se dirigia a Blair tinha adquirido um spero matiz de impacincia.- Estou dizendo 
que Hoyt e eu podemos nos encarregar disso.
     -E eu estou dizendo que trs poderiam faz-lo mais depressa que dois.
     -E o que seria isso? -perguntou Moira.
     A resposta lhe chegou de vrias fontes e com vozes altissonantes.
     -No consigo entender muito do que dizem. -Elevou uma mo pedindo tranqilidade enquanto ocupava seu lugar na mesa.- Esto dizendo que vamos enviar a um grupo 
para que estabelea uma base prxima ao campo de batalha e que explorem o terreno  medida que avanam?
     -Com as primeiras tropas partindo atrs deles pela manh -disse Hoyt.- Marcamos alguns pontos onde se pode encontrar refgio. Aqui -prosseguiu, assinalando 
no mapa que tinham estendido em cima da mesa.- Um dia de marcha para o este. Logo outro, a um dia de marcha do primeiro.
     -O fato  que Lilith est entrincheirada aqui. -Blair apoiou o punho sobre o mapa.- Ela aproveitou as melhores posies e instalaes. Ns podemos entrecruzar 
nossas bases, estabelecer uma espcie de linha de frente dentada, mas  necessrio que comecemos a mover as tropas, e devemos assegurar bases para elas antes de 
envi-las. No s com o passar do caminho, mas tambm nos pontos mais adequados perto do vale.
     -Em efeito. -Moira estudou o mapa. Pde ver de que maneira devia funcionar o plano, com saltos de uma posio a outra durante o dia.- Larkin pode cobrir essa 
distncia mais rapidamente que ningum, estamos de acordo nisso?
     -Assim . Mas se incluirmos a outros drages...
     -Blair, j te hei dito que isso  impossvel.
     -Drages? -Moira elevou novamente a mo para silenciar a interrupo de Larkin.- A que te refere?
     -Quando Larkin muda de forma pode comunicar-se, ao menos a um nvel rudimentar, com aquilo no que se converteu -comeou a dizer Blair.
     -Sim. E?
     -De modo que se ele chamar a outros drages quando assumir essa forma, por que no poderia convencer a alguns deles para que o seguissem... com cavaleiros? 
     -Os drages so criaturas amveis e pacficas -a interrompeu Larkin.- No deveramos mescl-los em algo assim, onde poderiam sair machucados.
     -Espera, espera. -Com a idia dando voltas em sua cabea, Moira se apoiou no respaldo de sua cadeira.- Poderia fazer-se? Vi que algumas pessoas tm um drago 
como mascote de vez em quando, mas nunca ouvi que ningum que monte em um drago adulto, exceto nos contos. Se pudesse fazer-se, permitiria-nos viajar mais depressa 
e inclusive de noite. E na batalha... -Moira se interrompeu ao ver a expresso de Larkin.- O sinto, Larkin, de verdade. Mas no podemos nos pr sentimentais nesta 
questo. O drago  um smbolo de Geall, e Geall necessita de seus smbolos. Pedimos ao nosso povo, a nossas mulheres, aos jovens e aos mais velhos, que lutem e 
se sacrifiquem. Se isso pode fazer-se, devemos faz-lo.
      -No sei se pode fazer-se.
     Moira sabia muito bem quando Larkin estava sendo teimoso como uma mula.
      -Pois ter que tent-lo. Ns amamos tambm a nossos cavalos, Larkin -lhe recordou Moira.- Entretanto, os levaremos conosco  guerra. Agora, Hoyt, quero que 
me diga isso sem rodeios,  melhor que Larkin e voc vo sozinhos, ou que o faam os trs?
      Hoyt parecia causar pena.
      -Bom, puseste-me entre a espada e a parede, no acha? A Larkin preocupa que Blair no esteja totalmente recuperada do ataque.
     -Estou bem para ir a essa misso -insistiu ela, e logo golpeou, no muito brandamente, a Larkin no ombro.- Quer brigar comigo, vaqueiro, e averigu-lo?
     -As costelas ainda lhe doem ao acabar o dia e o ombro ferido ainda o deixa dbil.
     -Eu te ensinarei o que  estar dbil.
     -Vamos, vamos, meninos. -Glenna as engenhou para soar frvola e sarcstica.- Eu acredito que Blair est em condies de faz-lo. Sinto muito, carinho -disse 
a Larkin- mas no podemos nos permitir mant-la na lista de invlidos.
     -Seria melhor que ela viesse conosco. -Hoyt olhou a Larkin compassivamente.- Com trs, no seria necessrio estar fora mais de um dia. As primeiras tropas poderiam 
sair ao amanhecer e avanar at o primeiro posto.
     -Isso deixa a trs de ns aqui para seguir trabalhando, treinando e nos preparando. -Moira assentiu.- Isso seria o melhor. Larkin, acha que Tynan deveria dirigir 
essas primeiras tropas?
     -Pergunta-o como um blsamo para meu orgulho ferido ou porque realmente quer saber minha opinio?
     -Ambas as coisas.
     Moira conseguiu lhe arrancar um sorriso desconfiado.
     -Ento, sim, Tynan seria o homem indicado para esse trabalho.
     -Deveramos nos pr em marcha. -Blair passeou o olhar ao redor da mesa.- Com a velocidade que Larkin pode alcanar por ar, podemos ter instalado a primeira 
base, possivelmente as duas primeiras, antes que caia a noite.
     -Levem tudo o que necessitem -lhes disse Moira.- Eu falarei com Tynan e lhe direi que saia ao comando das primeiras tropas ao amanhecer.
     -Ela lhes estar esperando. -Cian falou pela primeira vez desde que Moira tinha entrado no salo.- Se Lilith no pensou nesse movimento, um de seus conselheiros 
o ter feito. Ter soldados postados para lhes interceptar e estender-lhes uma armadilha.
     Blair assentiu.
     - o que tinha suposto. Por isso  melhor que sejamos trs e cheguemos do ar. Eles no nos agarraro por surpresa, mas possivelmente ns a eles sim.
     -Tero mais possibilidades de consegui-lo se o fazem assim. -Cian se levantou para aproximar-se do mapa e mostrar o que dizia.- Dando um rodeio e chegando  
primeira posio pelo oeste ou o norte. Levar mais tempo,  obvio, mas o mais provvel  que estejam vigiando em direo ao castelo.
     -Bom ponto -reconheceu Blair, e logo franziu o cenho olhando a Larkin.- Hoyt e eu podemos baixar a terra fora de vista desses monstros e enviar a nosso menino 
para inspecionar a toca. Possivelmente como um pssaro ou algum outro animal do que no suspeitem ao v-lo por essa zona. Ter que levar provises extras -acrescentou- 
tendo em conta a quantidade de combustvel que queima cada vez que muda de forma, mas  melhor estarem seguros.
     -Que seja algo pequeno -lhe advertiu Cian a Larkin.- Se aparecer como um veado ou qualquer tipo de animal de caa, poderiam te matar por diverso ou para conseguir 
comida extra. Imagino que j devem estar bastante aborrecidos. Se ali fizer o mesmo tempo que est fazendo aqui, o mais provvel  que estejam dentro ou resguardados 
em alguma parte. Ns no gostamos de estar empapados mais que aos humanos.
     -Muito bem, j resolveremos. -Blair se levantou.- Se tiver algum truque que levar na manga -disse a Hoyt-, no se esquea de inclu-lo.
     
     -Tome cuidado.
     Glenna acomodou a capa de Hoyt enquanto se despedia dele s portas do castelo.
     -No deve preocupar-se.
     -Vem com o cargo. -Glenna lhe apoiou ambas as mos no peito enquanto o olhava aos olhos.- Voc e eu estivemos juntos desde que comeou tudo isto. Eu gostaria 
de ir contigo. 
     -Aqui lhe necessitam. -Hoyt tocou a cruz que Glenna levava no pescoo e logo repetiu o gesto com a sua.- Saber onde estou e como estou. Sero dois dias no 
mximo. Retornarei a ti.
     -Te assegure de que assim seja. -Atraiu-o para si e o beijou larga e intensamente enquanto seu corao se estremecia.- Te amo. Te cuide.
     -Amo-te. Deve ser forte. Agora vai pra dentro, se proteja da chuva.
     Mas Glenna esperou enquanto Larkin se transformava em um drago e logo Hoyt e Blair carregavam as armas e os embornais. Esperou a que ambos montassem no lombo 
do drago e se elevassem, voando atravs da cortina de gua cinza.
     - duro ser a que espera -disse Moira a suas costas.
     -Horrvel. -Glenna se voltou e apertou com fora a mo de Moira.- De modo que tem que me manter ocupada. Iremos pra dentro e daremos nossa primeira aula. -Ambas 
se afastaram das portas.- Recorda quando foi a primeira vez que soube que tinha poder?
     -No. No foi nada definido, como o de Larkin. Ocorria que, s vezes, eu sabia coisas. Onde encontrar algo que se perdeu. Ou onde se escondeu algum se estvamos 
jogando. Mas sempre parecia que podia dever-se tanto  boa sorte, ou ao sentido comum, como a qualquer outra coisa.
     -Sua me tambm tinha um dom?
     -Sim. Mas mais suave, j me entende. Uma espcie de empatia poderia dizer-se. Um dom para cultivar coisas. -Afastou a trana e a jogou para as costas.- Os jardins 
que rodeiam o castelo so todos obras dela. Se ajudava em um parto ou a um doente, dava-lhes consolo e alvio. Sempre pensei no que ela tinha e o que eu tenho, como 
uma espcie de magia feminina. Empatia, intuio, cura.
      Atravessaram a galeria coberta em direo  escada.
      -Mas desde que comecei a trabalhar contigo e com Hoyt, senti-o com maior intensidade. Como uma comoo. Parecia-me que era uma espcie de eco ou um reflexo 
do poder mais forte que tendes vocs. Logo tomei posse da espada.
      -Um talism ou um condutor -especulou Glenna.- Ou, mais simplesmente, uma chave que abria uma porta que j estava em ti.
      Glenna entrou primeiro na habitao onde trabalhavam ela e Hoyt. No era muito diferente  habitao da torre que tinham na casa da Irlanda. Maior, pensou 
Moira, e com uma porta em forma de arco que levava a um dos numerosos balces do castelo.
      Mas os aromas eram os mesmos, ervas e cinza, e algo que era uma mescla entre floral e metlico. Havia vrios dos cristais de Glenna colocados em mesas e arcas. 
Moira sups que era tanto uma questo esttica como com fins mgicos.
      Havia tambm terrinas, frascos e livros.
      E cruzes -prata, madeira, pedra, cobre- penduradas em cada abertura ao exterior.
     -Isto est frio e mido -comentou Glenna.- Por que no acende o fogo?
     -Oh, sim,  obvio.
     Mas quando Moira se dirigia para a ampla lareira de pedra, Glenna ps-se a rir e lhe agarrou a mo.
     -No, assim no. Fogo.  algo elementar, uma das habilidades bsicas. Para praticar a magia utilizamos os elementos, a natureza. Respeitamo-los. Acende o fogo 
daqui, comigo.
     -No saberia como comear.
     -Contigo mesma. Mente, corao, estmago, osso e sangue. Visualiza o fogo, suas cores e formas. Sinta seu calor, cheire a fumaa e a turfa ardente. Logo tira 
isso de sua mente, de seu interior, e ponha na lareira.
     Moira fez o que Glenna lhe dizia, e lhe pareceu que algo a percorria sob a pele, embora a turfa permanecesse imvel e fria.
     -Sinto muito.
     -No. Necessita de tempo, energia e concentrao. E f. Recorda quando deu seus primeiros passos, te levantando do cho a agarrar s saias de sua me ou aos 
ps de uma mesa, ou quantas vezes caiu antes de ser capaz de te manter em p? D seu primeiro passo, Moira. Estende a mo direita. Imagina que o fogo se acende dentro 
de ti, quente, brilhante. Flui para fora, desde seu estmago, atravs de seu corao, te percorrendo o brao at as pontas dos dedos. Visualiza-o, sente-o. Envia-o 
aonde deseje.
     Era quase um estado hipntico, a voz tranqila de Glenna e o aumento de calor em seu interior. Nesses momentos a sensao era mais intensa, debaixo da pele, 
em cima dela. E uma dbil lngua de fogo brotou em uma parte de turfa.
     -Oh! Foi como um resplendor dentro de minha cabea. Mas voc tem feito a maior parte.
     -S um pouco -a corrigiu Glenna.- S um pequeno empurro.
     Moira deixou escapar o ar.
     -Sinto-me como se tivesse escalado uma montanha.
     -Logo te resultar mais fcil.
     Moira assentiu enquanto observava como o fogo cobrava fora.
     -Ensine-me.
     
     Ao cabo de duas horas, Moira no s se sentia como se tivesse escalado uma montanha, mas sim como se despencasse por uma... de cabea. Mas tinha aprendido a 
flamejar e, de algum jeito, controlar dois dos quatro elementos. Glenna lhe tinha dado uma lista de pequenos conjuros e feitios para que os praticasse a ss. "Tarefas 
escolares", assim as tinha chamado Glenna, e a estudiosa que havia em Moira estava ansiosa por aplicar a elas.
      Mas havia outras questes das quais devia ocupar-se. Colocou um traje mais formal, colocou-se a coroa de seu cargo na cabea e foi reunir-se com seu tio para 
falar de finanas.
      As guerras no eram grtis.
      -Muitos tiveram que deixar as colheitas sem colher -lhe disse Riddock.- Os rebanhos desatendidos. Alguns deles certamente perdero seus lares.
      -Ajudaremos a eles a reconstru-los. Durante dois anos no haver impostos nem arrecadaes.
      -Moira...
      -O tesouro poder suport-lo, tio. No posso me sentar sobre ouro e jias, no importa qual seja sua histria, enquanto nosso povo se sacrifica. Primeiro fundirei 
a coroa real de Geall. Quando o tiver feito, semearei cinqenta hectares de gro. E outras cinqenta para pastos. E o que delas se obtenha se devolver a aqueles 
que lutaram, s famlias de qualquer um que tenha morrido ou a quem tm se ferido gravemente servindo a Geall.
     Riddock se esfregou a dolorida cabea.
     -E como far para saber quem serviu a Geall e quem se escondeu?
     -Acreditaremos neles. Vocs pensam que sou ingnua e compassiva. Talvez o seja. Algo do qual ser necessrio que seja uma rainha quando tudo isto tenha terminado. 
Agora, em troca, no posso ser ingnua nem compassiva, e devo pressionar e estimular e pedir a meu povo que siga entregando-se. E peo muito de vocs. Esto aqui 
enquanto uns desconhecidos convertem seu lar em uns barraces.
     -No  nada.
     - muito, e no ser a ltima coisa que lhes pedirei. Oran parte amanh.
      -Ele falou comigo. -Na voz de Riddock havia uma tintura de inocultvel orgulho, embora em seus olhos se percebia a tristeza.- Meu filho mais novo  j um homem, 
e deve ser um homem.
     -No cabia esperar menos sendo seu filho. E enquanto as tropas comearem a partir, o trabalho aqui deve continuar. Ter que forjar armas e a gente deve ser 
alimentada e alojada. Treinada. Tem minha autorizao para gastar tudo o que seja necessrio. Mas... -Moira sorriu brevemente.-.. se algum comerciante ou arteso 
procurar obter um benefcio excessivo de seus produtos, ter uma audincia com a rainha.
     Riddock lhe devolveu o sorriso.
     -Muito bem. Sua me estaria orgulhosa de ti.
     -Espero que sim. Penso nela todos os dias. -levantou-se e esse gesto fez que Riddock a imitasse.- Devo ir ver minha tia. Ela foi muito boa ao aceitar representar 
o papel de proprietria e senhora do castelo durante estas semanas.
     -Desfruta-o.
     -Maravilha-me que possa faz-lo. As cozinhas, o tanque, a limpeza, as tarefas de costura. Estaria completamente perdida sem ela.
     -Estar encantada de ouvi-lo. Mas me conta que vais falar com ela todos os dias, a percorrer as cozinhas e o tanque. Do mesmo modo que me contam que visitas 
os ferreiros e aos jovens que esto esculpindo as estacas. E hoje estiveste, alm disso, treinando com as outras mulheres.
     -Nunca pensei que meu cargo fosse ocioso.
     -No, mas precisa descansar Moira. Tem olheiras.
     Disse-se a si mesma que devia pedir a Glenna que lhe ensinasse a fazer um conjuro.
     -J haver tempo para descansar quando tudo isto tenha terminado.
     
      Passou uma hora em companhia de sua tia, repassando as contas e as tarefas domsticas, logo outra falando com alguns dos que levavam a cabo essas tarefas.
      Quando se dirigia para o salo com a idia de tomar uma comida leve e um pouco de ch, ouviu a risada de Cian.
      Aliviou-lhe saber que estava com Glenna, mas se perguntou se ela tinha a energia suficiente para v-lo depois de um dia to largo.
      Surpreendeu-se afastando do salo, e sentiu um leve arrebatamento de clera. Acaso precisava beber vrias taas de vinho para poder estar na mesma habitao 
que ele? Que tipo de covarde era? Erguendo as costas, entrou no salo, e encontrou a Glenna e a Cian sentados junto ao fogo, desfrutando de frutas e ch.
     Ambos pareciam to cmodos em sua mtua companhia, pensou Moira. Glenna encontrava estranho ou reconfortante que Cian se parecesse tanto a seu irmo? Havia 
pequenas diferenas,  obvio. Aquela fenda no queixo de Cian que seu irmo no tinha. E seu rosto era mais magro que o de Hoyt, e levava o cabelo mais curto que 
ele.
     E tambm estavam sua postura e seus movimentos. Cian sempre parecia sentir-se cmodo, e caminhava com uma fluidez quase animal.
     Ela gostava de olh-lo quando se movia, admitiu Moira. Cian sempre a fazia pensar em algo extico, belo a sua maneira, e deste modo letal.
     Sabia que ela estava ali, estava segura. Ainda no tinha visto que nada nem ningum se aproximasse de Cian sem que ele soubesse. Mas, entretanto seguiu ajeitado 
no sof enquanto que a maioria dos homens se teria levantado porque uma mulher -sobre tudo uma rainha- entrava na habitao.
     Era como quando encolhia os ombros, pensou. Uma espcie de indiferena deliberada. Esperava no encontrar atrativo tambm nesse rasgo de sua personalidade.
     -Interrompo algo? -perguntou enquanto atravessava a habitao.
     -No. -Glenna se voltou para lhe sorrir.- Pedi suficiente comida para trs esperando que tivesse um pouco de tempo. Cian me estava entretendo me contando histrias 
das faanhas de Hoyt quando era pequeno. 
     -Senhoras, vos deixo para que desfrutem do ch -disse Cian.
     -No, por favor. -antes que pudesse levantar-se, Glenna o agarrou pelo brao.- Te esforastes muito para afugentar minhas preocupaes.
     -Se sabia que estava fazendo isso,  que no me esforcei o suficiente.
     -Deste-me uma pausa, e quero que saiba que o aprecio. Agora, se tudo for conforme o planejado, deveriam estar j na base prevista. Preciso jogar uma olhada. 
-Tinha o pulso firme quando serviu o ch a Moira.- Acredito que seria melhor se todos jogssemos uma olhada.
     -Pode lhes ajudar se...? -Moira deixou que a pergunta ficasse em suspense.
     -Hoyt no  o nico que tem magia na manga. Mas poderei ver com maior claridade e ajudar se for necessrio se vocs trabalharem comigo. Sei que tiveste um dia 
muito comprido, Moira.
     -Eles tambm so minha famlia.
     Glenna assentiu e se levantou.
     -Trouxe o que pensei que necessitaramos. -Tirou sua bola de cristal, alguns cristais menores e umas ervas.
     Logo o disps tudo sobre a mesa. Continuando, tirou-se a cruz e rodeou a bola de cristal com a corrente.
     -Muito bem -disse com tom ligeiro e as mos sobre a bola de cristal.- Vejamos o que esto fazendo.
     
      Chovia em todo Geall, o que lhes tinha feito bastante incmodo a viagem. Os trs haviam descrito um amplo crculo at aterrissar aproximadamente a meio quilmetro 
ao leste da granja que tinham inteno de utilizar como base de operaes. Sua localizao era excelente, quase a meio caminho entre a terra ocupada por Lilith e 
o campo de batalha. A hiptese de Cian, de que estariam desdobrados para lhes estender uma emboscada, resultou ser correta.
      Blair e Hoyt desmontaram do lombo do drago e logo procederam a descarregar as armas e os fornecimentos. Ali dispunham de certo amparo, com o muro baixo de 
pedra que separava os campos e o punhado de rvores dispersas que discorria junto a ele. Nada se movia sob a chuva.
      Convertido novamente em homem, Larkin passou ambas as mos pelo cabelo molhado.
      -Um dia de co. Pudestes ver bem nosso objetivo?
      -Uma cabana de dois pisos -respondeu Blair.- Trs construes anexas, dois pastos. Ovelhas. No h fumaa nem sinais de vida, tampouco cavalos. Se estiverem 
na casa, certamente postaram guardas, provavelmente um par deles em cada cabana. Vigiam por turnos enquanto outros dormem. Necessitam de comida, de modo que devem 
ter prisioneiros. Ou, se viajarem leves de bagagem e armamento, certamente levam tudo o que necessitam em cantis... quero dizer em peles.
     -Poderia me arriscar a jogar uma olhada -disse Hoyt.- Entretanto, se Lilith tiver enviado a algum com poder, poderia senti-lo, e tambm nossa presena.
     -Seria mais simples que eu me desse uma volta por ali. -Larkin fez uma pausa para lhe dar uma dentada a uma ma. A comprida viagem lhe tinha aberto o apetite.- 
Certamente no levantaram um escudo, como tm feito ao redor da base principal. No esperam apanhar a alguns de ns quando nos aproximarmos, se  que o fazemos.
     -Pode ir, mas na forma de animal pequeno -lhe recordou Blair.- Cian tem feito uma boa observao nesse sentido.
     -Sim, est bem. -meteu-se uma parte de po na boca.- Um camundongo  o bastante pequeno, e j deu resultado antes. Demorarei um pouco mais que se tratasse de 
um lobo ou de um cervo. -tirou-se a cruz que levava a pescoo.- Ter que me guardar isto.
     -Odeio esta parte. -Blair agarrou a cruz.- Odeio que entre ali sem um escudo ou uma arma.
     -Deve ter um pouco de f.
     Larkin agarrou o queixo de Blair entre os dedos e a beijou nos lbios. Logo retrocedeu uns passos antes de converter-se em um pequeno camundongo de campo.
     -No posso acreditar que tenha beijado isso -murmurou Blair, e logo aferrou com fora sua cruz enquanto o camundongo se afastava atravs da erva.- Agora devemos 
esperar.
     -Ser melhor que tomemos precaues. Riscarei um crculo -disse Hoyt
     
     Larkin estava perto da primeira construo anexa quando viu o lobo. Era um animal grande e negro, escondido em um matagal de bagos. No lhe prestou ateno 
enquanto seus olhos vermelhos examinavam o campo e o caminho que discorria para o oeste. Mesmo assim, Larkin deu uma ampla volta antes de deslizar-se sob a porta.
     Era um estbulo simples e havia dois cavalos nas quadras. E dois vampiros sentados no cho, jogando uma partida de jogo de dados.
     O camundongo elevou a cabea com certa surpresa. A Larkin nunca lhe tinha ocorrido que os vampiros jogassem a nada. O lobo, deduziu, era seu sentinela. Um sinal 
do animal e ambos entrariam em ao. Mas no momento estavam muito concentrados no jogo de dados para reparar em um pequeno camundongo.
      No estbulo havia espadas e duas aljavas cheias de flechas. Em um rapto de inspirao, Larkin correu para onde estavam os arcos, apoiados contra uma das quadras, 
e comeou a roer as cordas.
      Quando Larkin abandonou o estbulo, um dos vampiros estava amaldioando a sorte de seu companheiro.
      Encontrou disposies similares em cada uma das construes, com o grosso principal de soldados na cabana. Embora podia cheirar o sangue, no viu nenhum humano. 
Na cabana, quatro vampiros dormiam no palheiro enquanto outros cinco montavam guarda.
      Fez tudo o que podia fazer um camundongo para cometer sabotagem, e logo voltou a sair rapidamente.
      Encontrou a Blair e Hoyt onde os tinha deixado, sentados sobre uma manta molhada, dentro de um crculo que brilhava tenuamente.
      -Contei quinze deles -lhes disse.- E um lobo. Ter que fazer algo com esse animal se quisermos ter alguma possibilidade de surpreender aos outros.
     -Temos que avanar em silncio ento. -Blair agarrou um arco.- E contra o vento. Hoyt, se Larkin pode me dar a posio exata, h alguma possibilidade de que 
me ajude a v-lo. 
     -Posso te dar a posio exata -interveio Larkin antes que Hoyt pudesse lhe responder- porque agora iremos juntos. Ganhaste o primeiro assalto vindo a esta misso, 
mas no entrar sozinha nesse ninho de vampiros.
     -No, no o far. De ns trs, voc  a melhor com o arco, de modo que te encarregar de disparar -disse Hoyt a Blair.- Mas ns protegeremos seu flanco enquanto 
o faz. Eu farei o que possa para te ajudar a que tenha um tiro limpo.
     -Tem sentido discutir que algum se move mais depressa e mais silenciosamente que trs? No acredito -concluiu Blair, topando-se com um silncio inflexvel.- 
Nos ponhamos em marcha ento. 
      Tiveram que dar uma ampla volta para manter-se fora de vista e impedir que o vento levasse seu aroma. Mas quando apareceram atrs do lobo, Blair meneou a cabea.
     -No acredito que possa lhe dar no corao desta distncia. Moira possivelmente pudesse, mas eu no sou to boa como ela. Necessitarei de mais de um disparo.
     Pensou-o um momento, tratando de ver qual era a melhor maneira de faz-lo.
     -Voc far o primeiro disparo -sussurrou a Larkin.- Te aproxime tanto como possa. Se retroceder ou se voltar posso lhe alcanar. Um, dois -acrescentou usando 
os dedos.- Tem que ser rpido, tem que ser silencioso.
     Larkin assentiu, tirou uma flecha da aljava e a segurou na corda de seu arco. Para ele era um tiro comprido e o ngulo era escasso.
     Mas apontou, respirou profundamente e disparou a flecha. Alcanou ao lobo entre as omoplatas e seu corpo deu um coice. A flecha de Blair deu no alvo exato.
     -Bom trabalho -disse, enquanto voavam cinzas e fumaa negra.
     Hoyt foi dizer algo, e ento a voz de Glenna ressonou em sua cabea to nitidamente como se tivesse estado de p junto a ele.
     Atrs de Vocs!
     Hoyt se deu a volta rapidamente. Um segundo lobo se equilibrou sobre eles, seu corpo se chocando contra o de Hoyt e lanando-o a terra enquanto caa em cima 
de Larkin. Homem e lobo lutaram corpo a corpo s durante um instante. Quando Blair havia tocado a espada e Hoyt a sua, o lobo estava rodando sob um urso. 
      As garras do urso sulcaram o ar e cortaram profundamente o pescoo do lobo. Brotou um jorro de sangue. O urso se derrubou sobre as cinzas negras antes de converter-se 
novamente em homem.
      Blair se deixou cair de joelhos e passou as mos freneticamente sobre o corpo de Larkin.
     -Mordeu-te? Mordeu-te?
     -No. S uns arranhes aqui e l. Nenhuma mordida.
     -Oh, grande fedor desprende esse animal! -apoiou-se sobre os cotovelos ofegando e olhou sua camisa ensangentada com uma careta de desgosto.- Me arruinou uma 
boa tnica de caa. -Olhou a Hoyt.- Est bem?
     -Poderia no estar. Foi Glenna. Devia estar vigiando. Ouvi sua voz em minha cabea. -Hoyt estendeu a mo a Larkin para ajud-lo a levantar-se.- Se levar essa 
tnica nos cheiraro de um quilmetro de distncia. Necessitar... espera, espera. -E seu sorriso se abriu passo, lenta e sinistra.- Tenho uma idia.
     O lobo negro se escondeu sobre uma figura ensangentada e,da parte traseira do estbulo, lanou um uivo rouco. Um momento depois, um vampiro armado com uma 
tocha abriu a porta.
      -O que  o que temos aqui? -Olhou por cima do ombro.- Um dos lobos nos trouxe um presente.
      Estendido de barriga para baixo, Hoyt deixou escapar um leve gemido.
      -Ainda est vivo. Lhe levemos dentro. No h necessidade de compartilh-lo com outros, verdade? Poderamos comer algo fresco, para variar.
      Quando o segundo vampiro saiu do estbulo olhou ao lobo com um sorriso.
     -Sim, bom co. Agora teremos...
     Antes de acabar a frase, explodiu convertido em uma nuvem de cinza quando Blair lhe cravou a estaca nas costas lhe atravessando o corao. Seu companheiro no 
teve tempo de levantar a tocha antes que Hoyt saltasse sobre ele e lhe cortasse o pescoo com sua espada.
     -Sim, bom co. -Blair imitou ao vampiro, e fez uma rpida carcia sobre a espessa pele de Larkin.- Eu digo que sigamos com o cavalo vencedor e empreguemos a 
mesma ttica na seguinte cabana.
     Em sua segunda incurso, tiveram uns resultados quase idnticos, mas na terceira cabana s um dos vampiros saiu para ver o que ocorria. Pela forma em que olhou 
sub-repticiamente por cima do ombro para o interior da construo, resultava evidente que sua inteno era ficar para ele sozinho essa comida chegada de forma fortuita. 
Quando deu a volta a Hoyt, a inesperada comida lhe atravessou o corao com uma estaca.
     Blair, fazendo agora gestos com as mos, indicou que ela entraria primeiro com Hoyt lhe cobrindo as costas. "Rpida e silenciosa", pensou, enquanto se deslizava 
dentro da cabana. Viu que o outro guarda havia feito um confortvel ninho com mantas e estava desfrutando de uma sesta vespertina no que sups que era um pombal. 
De fato, estava roncando.
     Teve que reprimir meia dzia de comentrios engenhosos que formigavam em sua lngua e, simplesmente, acabou com ele enquanto dormia.
     Logo deixou escapar ar devagar.
     -No pretendo me queixar, mas isto  quase embaraoso e um tanto aborrecido.
     -Decepciona-te que no devamos lutar por nossas vidas? -perguntou Hoyt.
      -Bom, sim. Um pouco.
      -Te anime. -Larkin entrou no pombal e estudou a rea.- H nove na cabana grande, ou seja, que nos superam amplamente em nmero.
      -Ah, obrigado, carinho. Sempre sabe o que dizer para me alegrar. -Levantou a tocha que tinha recolhido depois de matar ao primeiro vampiro.- Vamos chutar alguns 
traseiros.
      Arrastando-se por trs de um bebedouro, Blair e Hoyt estudaram a cabana. O estratagema do lobo/homem ferido no funcionaria nesse caso, e a alternativa que 
concordaram era muito perigosa.
      -Larkin j mudou que forma vrias vezes -comentou Blair.- Comea a lhe trazer conseqncias.
      -Comeu quatro bolos de mel -disse Hoyt.
      Blair assentiu, esperando que fosse energia suficiente, enquanto o drago se posava brandamente sobre o teto de palha. Larkin recuperou sua forma humana e 
logo desembainhou a espada e tirou a estaca. Fez-lhes um gesto a Blair e Hoyt antes de se desprender do teto para espionar atravs de uma das janelas do segundo 
piso.
     Ao parecer, pensou Blair, no tinha que transformar-se em um macaco para subir como um deles. Larkin elevou quatro dedos.
     -Quatro acima, cinco abaixo. -Blair se escondeu.- Est preparado?
     Hoyt e ela se dirigiram rapidamente para ambos os lados da porta da cabana mantendo-se agachados. Tal como tinham convencionado, Blair contou at dez. Logo 
chutou a porta.
     Com a tocha decapitou ao vampiro que tinha a sua direita, logo utilizou a manga para bloquear o golpe de uma espada. Com a extremidade do olho, viu que uma 
bola de fogo aparecia na mo de Hoyt. Algo gritou.
     Larkin e um dos vampiros caram do feno e golpearam duramente contra o cho. Blair tratou de abrir passo para eles, mas recebeu uma forte patada nas doloridas 
costelas. A dor e a violncia do golpe a lanaram sobre uma mesa, que se rompeu sob seu peso.
     Usou a perna estilhaada da mesa para converter em p ao vampiro que a tinha atacado. Logo lanou a improvisada estaca e alcanou a outro monstro que se lanava 
contra Hoyt por trs. No lhe acertou no corao. Amaldioando em voz baixa, levantou-se quase sem flego.
     Hoyt contra-atacou com uma patada lateral que fez cantar de alegria a seu corao de guerreira. Quando o vampiro caiu, Larkin acabou com ele de um certeiro 
talho no pescoo.
     -Quantos? -gritou Blair.- Quantos?
     -Eu acabei com dois -respondeu Hoyt.
     -Quatro eu - disse Larkin. Embora sorria, agarrou a Blair pelo brao.- Est mau?
     -No muito bem. Golpearam-me nas costelas. S pude liquidar a dois deles. Ainda fica um.
     -Escapou por uma das janelas de cima. Vem, sente-se, vamos, sente-se. Tambm te sangra o brao.
     -Merda. -olhou-se e viu um corte que no havia sentido antes.- Merda. E te sangra o nariz e tambm a boca. Hoyt?
     -Uns quantos cortes. -aproximou-se coxeando para eles.- No acredito que devamos nos preocupar muito pelo que conseguiu escapar. Mas farei um feitio para revogar 
qualquer convite. Me deixe ver o que posso fazer por seu brao.
     -O primeiro feitio. -Respirando atravs dos dentes, Blair olhou a Larkin.- Quatro, n?
     -Bom, dois deles estavam emparelhando-se e isso tem feito que se distrassem quando entrei pela janela. De modo que acabei com os dois de um s golpe.
     -Talvez deveramos cont-los como um.
     -Oh, no, disso nada. -Larkin acabou de lhe fazer uma bandagem no brao ferido e limpou o sangue que tinha no prprio nariz.- Jesus, morro de fome.
     O comentrio fez rir a Blair e, apesar da dor que sentia nas costelas, deu-lhe um abrao.
     
     -Esto bem. -Glenna deixou escapar um suspiro tremente.- Um pouco golpeados, um pouco ensangentados, mas esto bem. E a salvo. Sinto muito, sinto muito. Mas 
observar desta maneira, sem ser capaz de lhes ajudar... Parece-me que vou sofrer um ligeiro ataque de nervos.
     Tal como tinha anunciado, Glenna afundou a cara entre as mos e rompeu a chorar.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 7
     
     
     
     Cian saiu de cena pelo frum e deixou a Glenna em companhia de Moira. Segundo sua experincia, as mulheres sabem lidar melhor com as lgrimas de outras mulheres. 
Sua prpria reao ante o que tinham visto na bola de cristal no tinha sido medo ou alvio, e sim, simples e pura frustrao.
     Tinha sido relegado ao papel de espectador enquanto outros lutavam. Instalado comodamente no fodido salo com mulheres e xcaras de ch, como se fosse o venervel 
av de algum.
     Embora as sesses de treinamento lhe supunham certo nvel de entretenimento, ele no tinha podido desfrutar de uma boa briga desde que abandonaram a Irlanda. 
E no tinha tido uma mulher desde muito antes disso. Duas maneiras muito satisfatrias de liberar tenso e energia lhe tinham sido negadas... ou ele as estava negando 
a si mesmo.
     No lhe surpreendia que assim fosse, pensou, quando estava atado com uns ns detestveis a um par de serenos olhos cinzas.
     Podia seduzir a uma das criadas, mas isso suporia um monto de complicaes, e provavelmente no merecesse nem o tempo nem o esforo. Tampouco podia lutar contra 
nenhum dos humanos que tinha ao seu redor, o que era malditamene ruim.
      Se saa de caada, era provvel que pudesse assustar ao menos a um par de soldados de Lilith. Mas no podia arriscar-se a sair sob a chuva com a esperana 
de conseguir uma presa.
      Ao menos em sua poca, em seu mundo, tinha um trabalho que o mantinha ocupado.  obvio, tambm mulheres, se  que queria de estar com uma, mas o trabalho o 
ajudava a passar o tempo. O infinito tempo.
     Ao no ter nada disso ao seu alcance, encerrou-se em seu quarto, comeu e dormiu. E sonhou como no o tinha feito em dcadas e mais dcadas de caar humanos. 
O aroma forte e salubre destes saturava o ar, cada vez mais intensamente, at o ponto de que at seus dbeis e desenfreados instintos lhe advertiam que se tratava 
de uma presa. Era um perfume primitivo e sedutor que estimulava a necessidade que sentia no estmago e no sangue.
     Tratava-se de uma prostituta que percorria os srdidos becos de Londres. Jovem, entretanto, e bela apesar de seu ofcio, o que lhe fez pensar que provavelmente 
no levasse muito tempo fazendo a rua. Soube que a moa tinha tido alguns clientes essa noite, porque cheirava a sexo.
     Podia ouvir o som de uma msica estridente e a risada bria e spera que saa de algum pub, assim como o trote do cavalo de uma carruagem que se afastava. Tudo 
distante, muito distante para que os ouvidos humanos da jovem pudessem perceb-lo. E muito distante para que suas pernas humanas pudessem alcan-lo correndo, se 
o tentava.
     A moa se apressava atravs da nvoa espessa e amarelada, apurando o passo com nervosos olhares por cima do ombro enquanto ele permitia deliberadamente que 
ressonassem suas pegadas a suas costas.
     O aroma de seu medo lhe resultava embriagador... to fresco, to vivo.
     Foi muito fcil agarr-la, cobrir o chiado de sua boca com a mo... os batimentos do corao de animalzinho assustado de seu corao com a outra.
     Foi muito divertido ver como seus olhos percorriam seu rosto, jovem e atrativo -a roupa cara e elegante- e sua expresso se voltava tmida, coibida, enquanto 
ele retirava a mo de sua boca.
     -Senhor, assustastes a uma pobre garota. Pensei que fosse um ladro.
     -Nada disso. -O cultivado acento que utilizou contrastava vivamente com o acento vulgar dos baixos recursos de Londres da moa.- Simplesmente procuro um pouco 
de prazer e estou disposto a pagar o preo que pea.
     Com um risinho tolo e um bater de pestanas, ela disse uma cifra que ele sabia que devia ser o dobro de sua tarifa habitual.
     -Por esse dinheiro, acredito que deveria me dar muito prazer.
     -Lamento lhe pedir dinheiro a um cavalheiro to fino e atrativo, mas devo ganhar a vida. Tenho um quarto perto daqui.
     -No o necessitaremos.
     -Oh! -Ela se ps-se a rir quando lhe levantou a saia.- Aqui? 
     Com a mo livre, lhe baixou o suti e lhe cobriu o peito. Precisava sentir seu corao, pulsando, pulsando, pulsando. Entrou nela investindo com fora, de modo 
que suas ndegas nuas golpeavam contra a parede de pedra mida do beco. E viu a surpresa e a comoo em seus olhos ao descobrir que ele podia lhe dar prazer.
      O batimento do corao debaixo de sua mo se acelerou e a respirao da moa se agitou, brotando de seus lbios entre gemidos e ofegos.
      Ele deixou que alcanasse o clmax -um pequeno gesto- e permitiu tambm que seus olhos sonolentos e aturdidos se encontrassem com os seus antes de exibir as 
presas.
      A moa gritou, um som breve e agudo que ele interrompeu quando afundou os dentes em seu pescoo. O corpo dela se agitou violentamente, lhe provocando um orgasmo 
muito satisfatrio enquanto se alimentava de seu sangue. Enquanto matava. Os batimentos do corao sob sua mo se foram voltando mais lentos, mais silenciosos, at 
que cessaram.
     Saciado e satisfeito, deixou-a no beco com os ratos, e o dinheiro que lhe tinha pedido arrojado com indiferena junto a seu corpo imvel. Logo se afastou at 
ser engolido pela nvoa densa e amarelada.
     Despertou no momento presente lanando uma maldio. O sonho lhe tinha despertado apetites e paixes longamente reprimidos. Quase tinha podido saborear o sangue 
da moa na boca, quase tinha podido cheirar sua rica fragrncia. Na escurido, seu corpo tremeu ligeiramente, um viciado com sndrome de abstinncia; de modo que 
se obrigou a levantar-se da cama e beber aquilo que se permitia a si mesmo em lugar do sangue humano.
     Isso nunca te satisfar. Nunca te encher. Por que segue lutando contra o que ?
     -Lilith -pronunciou o nome fracamente. Reconheceu a voz em sua cabea e compreendeu quem e o que tinha criado esse sonho em sua mente. Era sequer uma de suas 
lembranas? Agora que estava mais tranqilo lhe parecia falso, como se fosse uma pea de teatro com a qual tivesse tropeado acidentalmente. Entretanto, ele tinha 
matado sua poro de prostitutas nos becos. Tinha matado a tantas, quem podia recordar os detalhes?
     Lilith brilhou na escurido. Os diamantes refulgiam em seu pescoo, nas orelhas, nos pulsos, inclusive em sua frondosa cabeleira. Levava um vestido azul adornado 
com a marta cibelina, e um decote pronunciado que destacava as generosas turgidezes de seus peitos.
     Tomou algo de trabalho com seu vestido e aparncia, pensou Cian, para aquela visita ilusria.
     -Aqui est meu bonito moo -murmurou ela.- Mas parece tenso e cansado. No me surpreende, tendo em conta o que estiveste fazendo. -Agitou o dedo com gesto zombador.- 
Menino travesso. Mas  minha culpa. No pude estar a seu lado durante os anos de sua formao e te dobrou como um ramo.
     -Voc me abandonou -assinalou ele. Embora no as necessitasse, acendeu algumas velas. Logo se serviu um copo de usque.- Me matou, transformou-me em um dos 
teus, lanou-me contra meu prprio irmo e logo me deixou ferido gravemente ao p dos escarpados.
     -Onde permitiu que seu irmo te arrojasse. Mas foi jovem e imprudente. O que podia fazer eu? -baixou-se ainda mais o decote para que ele pudesse ver a cicatriz 
em forma pentagonal que tinha no peito.- Ele me queimou. Marcou-me. Eu no era boa para ti.
     -E depois? Os dias e meses e anos depois daquilo? -Era estranho, pensou, estranho dar-se conta de que albergava esse ressentimento, inclusive essa ferida, enterrada 
dentro dele. Como um menino desprezado por sua me.- Voc me fez, Lilith, pariu-me, e logo me deixou com menos sentimento com o que uma gata de rua abandona a um 
gatinho disforme.
     -Tem razo, tem razo. No lhe posso discutir isso -Comeou a passear pela habitao com um andar majestoso e indolente que fez que suas saias roassem a mesa.- 
Fui descuidada contigo, meu querido moo. E descarreguei sobre ti a ira que sentia por seu irmo. Envergonho-me disso!
     Seus belos olhos azuis pestanejaram com alegria e a curva de seus lbios era encantadoramente feminina.
     -Mas voc conseguiu arrumar isso to bem sozinho... a princpio. Imagina qual foi minha surpresa quando Lora me confirmou que os rumores que eu tinha ouvido 
eram certos e que tinha deixado de caar. Ah, por certo, ela te envia suas saudaes.
     -De verdade? Imagino que neste momento, sua cara deve ser algo digno de contemplar.
     O sorriso de Lilith se desvaneceu e em seus olhos apareceu um indcio de vermelho.
     -Cuide de sua lngua, ou quando chegar o momento no ser somente a essa fodida assassina de vampiros a quem lhe arranque a pele a tiras.
     -Achas que pode faz-lo? -acomodou-se na poltrona com o copo de usque na mo.- Apostaria contigo, mas no estaria em condies de me pagar j que, ao final 
desta histria, no ser mais que um monto de cinzas.
     -Vi o final desta histria, na fumaa. -aproximou-se dele e se inclinou sobre a poltrona... to real que quase podia cheir-la.- Este mundo arder. No terei 
nenhuma necessidade dele. Cada humano desta estpida ilha ser massacrado, gritar e se afogar em seu prprio sangue. Seu irmo e seu crculo morrero da forma 
mais horrvel. Vi-o.
     -Seu mago dificilmente poderia te mostrar outra coisa -replicou Cian encolhendo-se de ombros.- Sempre foi to crdula?
     -Ele me mostra a verdade! -Lilith se afastou, e sua saia descreveu um furioso arco.- Por que insiste nesta aventura que est condenada ao fracasso? Por que 
se ope a quem te concedeu o mais prezado dos dons? Vim aqui a te oferecer uma trgua, um acordo privado e pessoal, s entre voc e eu. Te afaste disto, querido, 
e ter no s meu perdo, mas tambm um lugar a meu lado quando chegar o dia. Tudo aquilo que deseja e negaste a ti mesmo, colocarei aos seus ps... como amostra 
de arrependimento por te haver abandonado quando mais me necessitava.
      -Ou seja, que retorne a meu tempo, a meu mundo e tudo est perdoado?
      -Tem minha palavra. Mas te darei mais, muito mais, se vier para mim. A mim. -Lilith ronronou como uma gata, ao tempo que amassava seus peitos com as mos.- 
Recorda o que compartilhamos aquela noite? A fasca, o calor?
     Cian a olhou enquanto ela se acariciava o corpo, branco sobre vermelho.
     -Recordo-o muito bem.
     -Podemos voltar a ter isso, e mais. Ser um prncipe em minha corte. E um general, ao comando de exrcitos em lugar de caminhar pela lama com os humanos. Ter 
o melhor dos mundos e todos seus prazeres. Uma eternidade de desejos satisfeitos.
     -Lembro que em uma ocasio me prometeu algo parecido. Ento estava sozinho, destroado e perdido, com a terra da tumba apenas retirada de meu corpo.
     -E agora o cumprirei. Vem comigo. Aqui no h lugar para ti, Cian. Voc deve estar com os de sua prpria espcie.
     -Interessante. -Fez tamborilar os dedos no flanco do copo.- Ou seja, que a nica coisa que tenho que fazer  aceitar sua palavra de que me recompensar em lugar 
de me torturar antes de acabar comigo.
     -Por que teria que destruir minha prpria criao? -respondeu ela com tom razovel.- Algum que demonstrou ser um valente guerreiro?
     -Por despeito,  obvio, e porque sua palavra  to ilusria como sua presena aqui. Mas eu te darei minha palavra em uma questo vital, Lilith, e minha palavra 
 to dura e brilhante como esses diamantes que leva. Serei eu quem vai atrs de ti. Serei eu quem o vou.
     Agarrou uma faca e se fez um corte na palma da mo.
     -Juro-lhe isso por meu sangue. Meu rosto ser a ltima coisa que vero seus olhos.
     A fria esticou as feies de Lilith.
      -Condenaste a ti mesmo.
      -No -murmurou Cian quando a imagem se desvaneceu.- Voc me condenou.
     Era noite fechada e j no seguiria dormindo. Ao menos, a essa hora, podia vagar por onde gostasse sem topar-se com criados, cortesos ou guardas. Esse dia 
j tinha tido suficiente companhia, tanto de vampiros como de humanos. Mesmo assim, necessitava de distrao, movimento, algo que o ajudasse a eliminar os amargos 
restos do sonho e a visita que o tinha seguido.
      Admirou a arquitetura do castelo com mais interesse de que houvesse sentido quando estava vivo. Parecia tirado de um livro de contos, fantstico por dentro 
e por fora, pensou; com as luzes cambiantes das tochas elevando-se desde seus adornos de parede em forma de drago, as tapearias com imagens de fadas e confie, 
o mrmore gentil brilhando como uma jia.
      No tinha sido construdo como uma fortaleza,  obvio, mas sim, mas como um lar esplndido e luxuoso. Digno sem dvida de uma rainha. At a chegada de Lilith, 
Geall tinha existido em paz e, desse modo, tinha podido concentrar suas energias e talentos na arte e na cultura.
     No meio do silncio e a escurido, Cian podia levar seu tempo para estudar e admirar as manifestaes dessa arte: as pinturas e as tapearias, os murais e as 
talhas. Podia vagar pelos corredores escuros com o perfume das flores de estufa adoando o ar ou entrar na biblioteca para examinar as altas estantes.
     Do momento de sua criao, Geall tinha sido mais um lugar para a arte, os livros e a msica que para a guerra e as armas. Que apropriado, que arrepiante, que 
tanto deuses como demnios tivessem escolhido esse lugar para enfrentar-se em uma sangrenta guerra.
     A biblioteca, como Moira tinha assinalado quando se apaixonou pela que ele tinha na Irlanda, era uma silenciosa catedral de livros.
     Cian j tinha passado parte de seu tempo com alguns deles, e se havia sentido interessado e de uma vez surpreso pelo fato de que as histrias que tinha encontrado 
ali no fossem to diferentes das que tinham sido escritas em sua prpria poca. Seria capaz Geall, se sobrevivia, de produzir seus prprios Shakespeare, Yeats, 
Austen? Atravessaria sua arte perodos de renascimento at oferecer sua verso de Monet e Degas?
     Um pensamento fascinante.
     Mas no momento, estava muito inquieto, muito intranqilo para sentar-se com um livro entre as mos, de modo que continuou seu percurso. Havia habitaes que 
ainda no tinha explorado e, de noite, podia ir ali onde gostasse.
     Enquanto caminhava atravs das sombras, a chuva seguia tamborilando fora brandamente. Atravessou uma estadia que sups que tinha sido uma espcie de salo e 
agora servia como depsito de armas. Levantou uma espada, comprovando seu peso, seu equilbrio, seu fio. Possivelmente os artesos de Geall se dedicaram antes s 
artes, mas certamente, sabiam muito bem como forjar uma espada. O tempo se encarregaria de dizer se era suficiente. Sem um rumo definido, voltou-se e entrou no que 
viu que era uma sala de msica.
     Em uma esquina, repousava com elegncia uma harpa dourada. Um parente menor, com forma de uma harpa tradicional irlandesa, ocupava um cavalete a seu lado. Tambm 
havia um monocrdio -um cedo antepassado do piano- cuja caixa de ressonncia estava belamente esculpida. Pulsou uma corda ociosamente e gostou de seu som, claro 
e afinado.
      Um pouco mais  frente, descansava uma sanfona, e quando fez girar o mastro e deslizou o arco sobre as cordas, o instrumento cantou com a msica lastimosa 
de uma gaita de fole.
      Havia alades e gaitas de fole, todos belamente construdos. Os assentos eram cmodos e a lareira era feita com o mrmore local. Uma formosa sala, pensou, 
para os msicos e para todos os que apreciassem essa arte. 
      Ento viu outro instrumento. Elevou-o. Seu corpo era maior que o do violino ao que daria origem e tinha cinco cordas. Quando esses instrumentos tinham sido 
populares, ele no tinha mostrado nenhum interesse por eles. No, o seu tinha sido matar prostitutas nos becos. Mas quando um homem tem toda a eternidade pela frente 
necessita de passatempos e ocupaes, e dispe de anos para aprender.
      Sentou-se com o instrumento sobre o colo e comeou a tocar.
      Tudo voltou para ele, as notas, os sons; e o tranqilizaram, como se diz que a msica pode faz-lo. Com a chuva como acompanhamento, deixou-se levar pela msica 
e flutuou  deriva com seus lamentos.
      Em outras circunstncias, jamais teria podido aproximar-se de Cian sem que ele o advertisse. Enquanto levava a cabo suas prprias vagabundagens pelo castelo, 
tinha ouvido o cometido soluo da msica. E a tinha seguido como uma criana segue a um flautista; quando o viu ficou no vo da porta, assombrada e encantada. "Ou 
seja, que este  seu aspecto quando est realmente sereno e no est fingindo est-lo", pensou Moira. Assim deveu ter sido antes que Lilith o levasse, um pouco sonhador, 
um pouco triste, um pouco perdido.
     Tudo o que se havia agitado e despertado por ele em seu interior pareceu unir-se dentro de seu corao quando o viu sem sua mscara. Sentado sozinho, procurando 
o consolo da msica. Nesse momento, desejou ter a habilidade de Glenna com as pinturas ou o giz para poder desenh-lo tal como o via. Como muito poucos, estava segura, 
tinham-no visto.
     Tinha os olhos fechados, sua expresso parecia apanhada em um brumoso intermdio entre a melancolia e a satisfao. Quaisquer que fossem seus pensamentos, seus 
dedos, compridos e finos, eram hbeis sobre as cordas, extraindo do instrumento uma msica nostlgica.
     Ento, a msica cessou to abruptamente que Moira deixou escapar um leve protesto ao tempo que avanava com seu vela.
     -Oh, continue tocando, por favor, queres? Era uma melodia linda.
     Cian teria preferido que ela se aproximasse com uma adaga na mo em lugar de com aquele sorriso inocente e ansioso. S levava posta a bata de noite, to branca 
e pura, com o cabelo solto, caindo como chuva sobre os ombros. A luz da vela oscilava ante seu rosto, envolvendo-a em mistrio e fantasia.
     -Os chos esto frios para caminhar descala -foi a nica coisa que disse ele, e se levantou para deixar o instrumento onde estava.
     A expresso sonhadora tinha desaparecido de seus olhos, de modo que seu olhar voltava a ser frio. Moira, frustrada, deixou a vela.
     -So meus ps afinal de contas. Nunca h dito que sabias tocar um instrumento.
     -H muitas coisas que nunca hei dito.
     -Eu no tenho nenhuma aptido para isso, para desespero de minha me e de todos os professores que contratou para que me ensinassem msica. Qualquer instrumento 
que caa em minhas mos acabava soando como um gato que pisaram na cauda. 
      Moira se aproximou do que ele tinha estado tocando e deslizou os dedos por cima das cordas.
      -Em suas mos parecia magia.
      -Tive mais anos dos que voc tem para aprender tudo aquilo que me interessava. Muitas vezes mais anos.
      Ela elevou a vista para olh-lo aos olhos.
      - verdade, mas o tempo no reduz a capacidade artstica,verdade? Voc tem um dom, assim, por que no aceitar um elogio com um pouco de elegncia?
      -Majestade -se inclinou profundamente fazendo uma reverncia-, honram meus pobres esforos.
      -Oh, e uma merda -replicou ela, e provocou uma risada afogada em Cian.- No sei por que sempre procura algum modo de me insultar.
      -Um homem deve ter alguma diverso. E agora, boa noite.
      -Por que? Este  seu tempo, verdade? E no vai  cama. E eu no posso dormir. Algo frio... -abraou-se os cotovelos e se estremeceu-, algo frio que havia no 
ar me despertou. -Pde ver uma leve mudana em seus olhos porque o estava olhando.- O que? O que  que sabe? Ocorreu algo? Larkin?
     -No tem nada a ver com isso. Que eu saiba, tanto Larkin como os outros esto bem.
     -E o que  ento?
     Cian refletiu um momento. Seu desejo pessoal de afastar-se dela no podia importar mais que o que devia saber. 
     -Aqui faz muito frio para as confisses noturnas.
     -Ento acenderei o fogo. -dirigiu-se por volta da lareira e agarrou o isqueiro.- Naquele armrio sempre h usque. Eu tambm beberei um pouco.
     No teve necessidade de olh-lo para saber que Cian tinha arqueado uma sobrancelha, um claro gesto de sarcasmo, antes de cruzar a habitao para o armrio.
     -Acaso sua me alguma vez te ensinou que se consideraria indecoroso que compartilhasse um usque junto ao fogo a ss com um homem, muito mais com algum que 
nem sequer  um homem, em plena noite?
     -O decoro no  uma preocupao imediata para mim. -agachou-se um momento para assegurar-se de que a turfa tinha acendido. Logo se levantou para ir sentar-se 
em uma poltrona e estendeu a mo para receber o usque.- Obrigada. -Bebeu um gole.- Algo ocorreu esta noite. Se concernir a Geall, preciso sab-lo.
     -Concerne a mim.
     -Era algo relacionado com Lilith. Pensei que se tratava s de meus temores, que me assaltavam enquanto dormia, mas era mais que isso. Uma vez sonhei com ela 
e era algo mais que um sonho. Voc despertou dele. E depois tinha sido muito amvel com ela, recordou. Distante, mas amvel.
     -Foi algo parecido -continuou dizendo Moira-, mas no estava sonhando. S hei sentido... -interrompeu-se e abriu muito os olhos.- No, no s o hei sentido. 
Ouvi-te. Ouvi que falava. Sua voz ressonou em minha cabea e era fria. "Serei eu quem o faa." Ouvi-te dizer essas palavras com absoluta claridade. Quando me despertei, 
pensei que morreria se me falasse com essa frieza.
     E se havia sentido empurrada a sair da cama, pensou. E tinha seguido o rastro da msica at ele.
     -Quem era?
     Mais tarde, decidiu Cian, trataria de descobrir como podia Moira ouvi-lo, ou sentir algo em respeito a ele em seus sonhos.
      -Lilith.
      -Sim. -Com os olhos fixos no fogo, Moira se esfregou os braos com as mos.- Sabia. Havia algo escuro nesse frio. No foi voc.
      -Como pode estar segura?
      -Voc tem um matiz... diferente -explicou ela.- Lilith  negra. Densa como o breu. Voc, bom, no  brilhante.  cinza e azul. Em ti h penumbra.
      -O que  isto, um assunto de aura?
      A tnue burla de seu tom de voz fez que a Moira subisse pelo pescoo uma quebra de onda de calor.
      -Trata-se da forma em que vejo algumas vezes. Glenna me disse que persistisse nisso. Ela  vermelho e dourado, como seu cabelo... se te interessar. Era um 
sonho? Lilith?
      -No. Embora me enviou um sonho que pode ser que seja uma lembrana. De uma prostituta com quem fodi e a quem matei entre o lixo de um beco de Londres. -A 
forma em que levantou seu copo e bebeu um gole de usque foi um calculado sublinhado de suas palavras.- E se no foi essa prostituta em particular, fodi e assassinei 
a muitas outras, de modo que no tem muita importncia.
     O olhar de Moira no se afastou em nenhum momento de seus olhos.
     -Pensa que isso me escandaliza. Ao diz-lo, e faz-lo dessa forma, tenta instalar crueldade entre ns.
     -H muita crueldade entre ns.
     -O que fez antes daquela noite no claro do bosque na Irlanda, quando me salvou a vida pela primeira vez, no est entre ns. Est atrs de ti. Achas que sou 
to imatura e ingnua que no sei que teria todo tipo de mulheres e que mataste a todo tipo delas tambm? Ao traz-las para o presente, no faz mais que insultar 
a mim e s mulheres com as quais estiveste.
     -No te entendo. 
     E ele habitualmente tratava de desentranhar aquilo que no entendia. O conhecimento era outra classe de sobrevivncia. 
     -Certamente no  minha culpa, no achas? Eu sempre fui clara na maioria das questes. Se Lilith te enviou esse sonho, verdadeiro ou no, foi para te inquietar. 
     -Me inquietar -repetiu Cian e se aproximou do fogo.-  a mais estranha das criaturas. O sonho me excitou. E me desconcertou, a falta de um termo melhor. Esse 
era o propsito de Lilith, e no cabe dvida de que teve xito.
     -E uma vez conseguido seu propsito, alcanada uma parte vulnervel de ti, apresentou-se como uma apario. O mesmo que fez Lora com Blair.
     Cian se voltou, sustentando o copo de usque frouxamente na mo.
     -Obtive uma desculpa, com vrios sculos de atraso, por seu abandono quando s tinha acontecido uns dias desde minha transformao e estive a ponto de morrer 
por que Hoyt me lanou de um escarpado.
     -Talvez o atraso seja algo relativo, considerando a durao de sua existncia.
     Agora Cian ps-se a rir a gargalhadas sem poder-se conter. Era uma risada rpida e rica e cheia de reconhecimento.
     -Sim, a mais estranha das criaturas, com um agudo engenho enterrado em alguma parte. Lilith me ofereceu um trato. Interessa-te conhecer seus termos?
     -Sim, interessa-me e muito.
     -S tenho que me afastar de tudo isto. De ti e dos outros, e do que acontecer em Samhain. Se o fizer, Lilith dar por terminadas todas as nossas diferenas. 
Melhor ainda, se me afastar de vocs e passar ao seu bando, serei generosamente recompensado. Tudo o que possa desejar e um lugar ao seu lado. A sua cama tambm. 
E todas as mulheres que possa levar a minha.
      Moira franziu os lbios e logo bebeu outro gole de usque.
      -Se acha isso, ento  mais imaturo do que voc me considera.
      -Nunca fui to imaturo como voc.
      -No? Bom, quem dos dois foi o bastante para jogar com um vampiro e permitir que lhe cravasse as presas?
      -V. Bom argumento. Mas voc nunca foi um moo luxurioso.
      -Porque as mulheres,  obvio, no temos nenhum interesse pelas questes carnais. Ns preferimos nos sentar com nossos bordados e nossas rezas.
      Cian se fechou antes de menear a cabea.
      -Outro bom argumento. Em qualquer caso, no sendo j um moo luxurioso e sem que fique uma s folha verde, sou totalmente consciente de que Lilith me encerraria 
e me torturaria. Conservaria-me com vida... para sempre. E com uma dor indescritvel.
      Cian considerou a situao, com os pensamentos estimulados por sua breve discusso com Moira.
     -Ou, mais provavelmente, ela manteria sua palavra, quanto ao sexo e outras recompensas, durante todo o tempo que lhe conviesse. Sabe que eu lhe resultaria til, 
ao menos at o Samhain.
     Moira assentiu.
     -Lilith se deitaria contigo, encheria-te de presentes, daria-te posio e categoria. Logo, quando tudo tivesse terminado, encerraria-te e submeteria a toda 
classe de torturas.
     -Exato. Mas no tenho inteno de permitir que me torturem por toda a eternidade, ou de servir a seus propsitos. Lilith matou a um bom homem por quem eu sentia 
afeto. Embora s fosse por isso, o devo ao King.
     -Lilith certamente no deve ter se sentido contente com sua negativa.
     Cian a olhou com expresso imperturbvel.
     -Esta noite  a rainha do entendimento.
     -Ento me permita que seja tambm a rainha da intuio e diga que sua resposta a Lilith foi que sua misso seria destru-la.
     -Jurei-o por meu prprio sangue. Dramtico -disse, olhando a ferida quase curada na palma de sua mo.- Mas me sentia histrinico.
     -Voc no lhe leva a srio, mas eu o encontro revelador. Precisa mat-la com suas prprias mos mais do que  capaz de reconhecer. Ela no o entende, e voc 
tampouco. Necessita sua morte no s como justo castigo e sim para fechar uma porta. -Quando ele no respondeu, Moira elevou a cabea.- Acha que  estranho que eu 
possa te entender melhor que ela? Te conhecer melhor do que Lilith pode faz-lo?
     -Acredito que sua mente sempre est trabalhando -respondeu ele.-Quase posso ouvir girar as engrenagens. No me surpreende que no possa conciliar o sono nestes 
dias, com tudo esse fodido rudo que deve haver dentro de sua cabea.
     -Tenho medo. -Os olhos de Cian se estreitaram ao olh-la, mas ela desviou o olhar.- Medo de morrer antes de ter vivido realmente. Medo de falhar a meu povo, 
a minha famlia, a ti e aos outros. Quando sinto esse frio e essa escurido, como me aconteceu esta noite, sei o que ser Geall se Lilith triunfar nesta guerra. 
Um enorme espao, queimado, desentranhado, vazio e negro. E s o feito de pens-lo me aterra at me impedir de conciliar o sono.
     -Ento a resposta tem que ser que Lilith no pode ganhar. 
     -Sim. Essa deve ser a resposta. -Moira deixou o copo de usque.- Deve dizer a Glenna o que me explicaste. Acredito que ser mais difcil achar as respostas 
que necessitamos se houver segredos entre ns.
     -Se no o conto eu, o far voc.
     - obvio. Mas deveria ouvi-lo de ti.  bem-vindo a tocar qualquer instrumento que goste de quando quiser faz-lo. Ou pode levar isso ao seu quarto, se prefere 
desfrutar da msica em privado.
     -Obrigado.
     Moira sorriu ligeiramente enquanto se levantava.
     -Acredito que agora poderia dormir umas horas. Boa noite. 
     Cian ficou onde estava enquanto Moira recuperava seu vela e abandonava a sala de msica. E assim permaneceu vrias horas mais, na sala iluminada pela luz do 
fogo.
     Ao amanhecer, chuvoso e rude, Moira estava junto a Tynan enquanto ele e as tropas escolhidas se preparavam para a marcha.
     -Ser uma marcha passada por gua.
     Tynan lhe sorriu.
     -A chuva  boa para a alma.
     -Ento nossas almas devem estar muito saudveis depois destes ltimos dias. Podem mover-se sob a chuva, Tynan.-Apoiou os dedos levemente sobre a cruz que ele 
levava pintada sobre o peitilho de sua armadura.- Me pergunto se deveramos esperar at que estie antes que comecem esta viagem.
     Tynan meneou a cabea e olhou alm da Moira, a seus soldados.
     -Minha senhora, os homens esto preparados. Preparados at o ponto de que qualquer atraso afetar a sua moral e lhes roer os nervos. Necessitam de ao, embora 
s seja um comprido dia de marcha sob a chuva. Treinamo-nos para lutar -continuou antes que ela pudesse lhe responder.- Se algum vier a enfrentar-se conosco, estaremos 
preparados.
     -Confio em que o estaro. -Tinha que confiar nisso. Se no o fazia com Tynan, a quem conhecia de toda a vida, com quem o faria?.- Larkin e os outros lhes estaro 
esperando. Espero sua volta pouco depois de que se ps o sol com a confirmao de que chegastes sem problemas e ocupastes o posto.
     -Podem contar com isso, e comigo, minha senhora.
     Tynan lhe agarrou ambas as mos. Porque eram amigos, e porque ele era o primeiro a quem ela enviava longe do castelo, elevou-se nas pontas dos ps para lhe 
beijar. 
     -Conto com isso. -Apertou-lhe os dedos.- Mantenha aos meus primos afastados dos problemas.
     -Isso, minha senhora, pode escapar a minha capacidade. -Seu olhar se separou de seu rosto.- Lorde. Senhora.
      Com suas mos ainda entre as de Tynan, Moira se voltou para Cian e Glenna.
      -Um dia chuvoso para viajar -comentou Cian.-  provvel que tenham postados em alguns de seus soldados com o passar do caminho para que faam um pouco de exerccio.
      -Isso  o que esperam os homens. -Tynan olhou para onde esperava perto de uma centena de homens despedindo-se de seus familiares e namoradas, logo se voltou 
para olhar a Cian.- Estamos preparados?
      -So adequados.
      Antes que Moira pudesse responder ao insulto, Tynan se ps-se a rir ruidosamente.
      - um grande elogio vindo de voc -disse, e estreitou a mo de Cian.- Obrigado pelas horas e os machucados.
     -Faam um bom uso delas. Sln leat3.
     -Sln agat4. -Lanou a Glenna um olhar arrogante enquanto montava.- Lhe devolverei a seu homem, senhora.
     -No o esquea. Bendito seja, Tynan.
     -Em seu nome, majestade -disse a Moira, e logo fez girar a seu cavalo.- Se alinhem!
     Moira observou enquanto os homens formavam filas. E olhou como seu primo Oran e outros dois oficiais se afastavam a cavalo sob a chuva, ao comando de seus soldados 
de infantaria; o primeiro contingente que partia para a guerra.
     -J comea -sussurrou ela.- Que os deuses os protejam.
     -Ser melhor que eles sejam quem se protejam a si mesmos-respondeu Cian.
     E permaneceu imvel junto  Moira at que o primeiro batalho do exrcito de Geall se perdeu de vista.
     
     
      
     
     
     
     CAPTULO 8
      
     
     Glenna franziu o cenho por cima de sua xcara de ch enquanto Cian, com o estmulo de Moira, relatava seu interldio com Lilith. Os trs tinham decidido tomar 
o caf da manh em privado.
     - similar ao que aconteceu com Blair, e a mim em Nova Iorque. Esperava que Hoyt e eu tivssemos podido bloquear esse tipo de coisas.
     -Possivelmente o tenham conseguido com humanos -disse Cian.- Pode ser que de vampiro a vampiro seja algo completamente diferente. Em especial...
     -Quando quem intervm  o criador. -Glenna acabou a frase por ele.- Sim, entendo-o. Mesmo assim, teria que haver alguma forma de deix-la fora.
     -No vale a pena que gaste seu tempo e suas energias nisso. No  um problema para mim.
     -Isso diz, mas te perturba.
     Cian olhou a Moira.
     -"Perturbar"  uma palavra muito forte. Em qualquer caso, Lilith partiu, poderamos dizer que de pssimo humor.
     -Algo bom se pode deduzir de tudo isto -continuou Glenna.- O fato de que Lilith tenha vindo a ver-te, tratando de chegar a um acordo contigo, indica que no 
deve estar to segura como gostaria.
     -Ao contrrio, ela est absolutamente convencida de que ganhar. Seu mago se encarregou de mostrar-lhe.
     -Midir? Ontem  noite no disse nada disso -interveio Moira.
     -No surgiu o tema -replicou Cian tranqilamente. -Em realidade, tinha pensado muito nisso antes de decidir se devia cont-lo.- Ela afirma que Midir lhe mostrou 
sua vitria e, em minha opinio, Lilith est convencida de que assim ser. Sejam quais sejam as baixas que at agora lhe tenhamos causado, tm pouca importncia 
para ela. Contratempos momentneos, bofetadas no orgulho. Nada mais.
     -Ns construmos o destino com cada oportunidade, com cada escolha. -Moira sustentou o olhar de Cian.- Esta guerra no est ganha at que no tenha sido ganha, 
por ela ou por ns. Seu mago no tem feito mais que lhe dizer, lhe mostrar, o que ela quer ouvir, o que quer ver.
     -Estou de acordo com a Moira -disse Glenna.- De que outro modo, se no, ia conservar sua pele?
     -No direi que esto equivocadas nenhuma das duas. -Encolhendo-se de ombros como nele era habitual, Cian agarrou uma pra.- Esse tipo de certeza absoluta pode 
ser uma arma muito perigosa. E as armas podem voltar-se contra quem as sustenta. Quanto mais profundo cravemos debaixo da pele de Lilith, mais imprudente pode voltar-se.
     -E o que podemos utilizar a modo de agulha? -perguntou Moira.
     -Estou trabalhando nisso -respondeu Cian.
     -Eu tenho algo que poderia funcionar. -Glenna entreabriu os olhos enquanto removia o ch.- Se seu Midir pode abrir a porta para que ela entre em sua cabea, 
Cian, eu tambm posso faz-lo. Pergunto-me se Lilith gostaria de receber uma visita.
     Cian se apoiou no respaldo de sua poltrona e mordeu a pra.
     -V,  uma garota inteligente.
     -Sim, sou. Necessitarei de ti. A ambos. Por que no acabamos o caf da manh com um pequeno e agradvel feitio?
     No era pequeno nem tampouco agradvel. Glenna levou mais de uma hora para preparar seus utenslios e ingredientes. Moeu fluorita e turquesa e as deixou a um 
lado. Juntou ancio e azevinho e raminhos de tomilho. Marcou velas com amarelo ou arroxeado. Logo acendeu o fogo debaixo de seu caldeiro.
     -Estes ingredientes vm da terra, e agora se mesclaro com a gua. -Comeou a jogar os ingredientes dentro do caldeiro.- Para palavras sonhadoras, para a viso, 
para a memria. Moira, poderia colocar as velas formando um crculo ao redor do caldeiro?
     Ela continuou trabalhando enquanto Moira fazia o que lhe tinha indicado.
     -De fato, estive pensando nisto desde o que aconteceu a Blair. Estive tratando de resolver como faz-lo. 
     -Ela te sacudiu com dureza cada vez que utilizaste a magia para jogar uma olhada dentro de suas bases -lhe recordou Cian.- De modo que deve estar segura do 
que faz. Eu no gostaria que Hoyt tentasse me lanar outra vez do topo de um escarpado por permitir que algo te acontecesse.         
     -No serei eu... ao menos no em primeira linha. -Glenna jogou o cabelo para trs ao tempo que o olhava fixamente.- Ser voc.
     -V, isso  perfeito.
     - uma deciso arriscada, assim  voc quem deve estar seguro.
     -Bom, trata-se de todo esse negcios dos instintos e da glria, no? -aproximou-se de jogar uma olhada dentro do caldeiro.- E o que  que devo fazer?
      -A princpio, s observar. Se decides estabelecer contato... depender s de ti. E necessito que me d sua palavra de que romper o contato se as coisas ficarem 
feias. De outro modo, traremos-lhe de volta... e no ser uma experincia agradvel.  provvel que sofra a me de todas as enxaquecas e umas incontveis nuseas.
      -Muito divertido.
      -A diverso  s o princpio.
     Glenna abriu uma caixinha. Logo tirou dela uma pequena figura esculpida em cera.
      Cian elevou as sobrancelhas com um gesto de surpresa.
      -Uma grande semelhana. s preparada.
      -A escultura no  meu forte, mas sou capaz de fazer uma boneca. -Glenna fez girar a figura de Lilith para que Moira pudesse v-la.- Geralmente no estou acostumada 
a faz-las...  algo intrusivo e perigoso para a pessoa que capturaste. Mas a regra de no-machucar-a-ningum no se aplica aos mortos vivos. Com exceo dos presentes.
     -Agradece-se -disse Cian.
     -S h uma pequena coisa que necessito de ti.
     -O que?
     -Sangue.
     Cian se mostrou resignado.
     -Naturalmente.
     -S umas gotas, depois fecharei a boneca. No tenho nada dela... cabelo, unhas cortadas. Mas vocs dois mesclaram o sangue uma vez. Acredito que isso ser suficiente. 
-Duvidou um momento enquanto girava entre os dedos a corrente de seu medalho.- Possivelmente esta seja uma m idia depois de tudo.
     -No o . -Moira colocou a ltima vela ao redor do caldeiro.-  hora de que entremos em sua mente, o mesmo que Lilith o tem feito nas de todos ns. Isso ser 
uma boa e ardente agulha debaixo de sua pele, se querem saber minha opinio. E Cian merece poder lhe dar um pouco de seu prprio remdio.
     Moira se levantou.
     -Poderemos olhar?
     -Sedenta de um pouco de vingana? -perguntou Cian.
     Os olhos de Moira eram duas pequenas nuvens de fumaa fria.
     -Muito sedenta. Poderemos ver o que est acontecendo?
     -Sim, se tudo sair como deveria. -Glenna respirou profundamente.- Est preparado para um pouco de projeo astral? -perguntou a Cian.
     -Como sempre.
     -Entrem os dois no crculo de velas. Cian, precisar alcanar um estado meditativo. Moira e eu seremos suas vigilantes e as observadoras. Manteremos seu corpo 
neste plano enquanto sua mente e sua imagem viajam pelo espao.
     - verdade -lhe perguntou Moira- que a um esprito velho ajuda a manter-se na segurana de seu mundo levar consigo algo de uma pessoa desse mundo?
     Glenna se virou novamente o cabelo para trs.
     - s uma teoria.
     -Ento leva isto contigo. -tirou-se a cinta de couro e contas que mantinha sujeita sua trana.- Para o caso de que a teoria resulte ser certa.
     Depois de franzir o cenho com gesto dbio, Cian guardou a cinta no bolso.
     -Bem, vou armado com quinquilharias para o cabelo. 
     Glenna agarrou uma pequena terrina de blsamo.
      -Te concentre, abra seus chakras -disse enquanto lhe esfregava a pele com o blsamo.- Relaxa o corpo e abra a mente.
      Glenna olhou a Moira.
      -Agora criaremos o crculo. Visualizemos luz, uma luz suave e azul para proteo.
      Enquanto criavam o crculo, Cian se concentrou em uma porta branca. Era o smbolo que escolhia sempre que meditava. Quando estivesse preparado, a porta se 
abriria. E ele a atravessaria.
      -Tem uma mente forte -disse Glenna a Moira.- E muita prtica. Contou-me que estudou no Tbet. Ora, no me faa caso -acrescentou com um gesto da mo.- Estou 
ganhando tempo. Estou um pouco nervosa.
      -O mago de Lilith no  mais forte que voc. O que ele possa fazer, tambm pode faz-lo voc.
      -Isso  malditamente certo. Apesar de tudo, devo dizer que espero que Lilith esteja dormindo. Deveria estar, realmente deveria estar. -Glenna olhou a tnue 
chuva atravs da janela.- O averiguaremos muito em breve.
      Tinha deixado um oco na boneca de cera e se disps a preench-lo com gros de terra do cemitrio, romeiro, artemisa e ametista e quartzo modos.
      -Tem que controlar suas emoes para a ligao, Moira. Afasta seu dio e seus temores. Ns desejamos justia e viso. Lilith pode ser ferida e podemos empregar 
a magia para consegui-lo, mas Cian ser s um condutor. No quiseres que nada negativo o afetasse.
     -Justia ento.  suficiente.
     Glenna fechou o oco da boneca com um tampo de cera.
     -Convocamos a Maat, a deusa da justia e do equilbrio, para que guie nossa mo. Com esta imagem, enviamos a magia atravs do ar, atravs da terra. -Colocou 
uma pluma branca sobre a boneca e envolveu esta com uma cinta negra.- Concede  criatura cuja imagem sustento sonhos e lembranas antigas.
     Entregou a adaga ritual a Moira e assentiu.
     -Selada pelo sangue que ela derramou, ligada agora com estas gotas de vermelho.
     Cian no demonstrou reao alguma quando Moira lhe fez um corte na palma com a faca.
     -Mente e imagem da vida que ela arrebatou se unem a ela para que ele possa olhar. E enquanto ns observamos, o mantemos a salvo com mo e corao at que ele 
dite partir. Atravs de ns e para ela dirigimos estes feitos de magia. Leva a nosso mensageiro dentro de seu sono. Abre as portas para que possamos ver. Que assim 
seja.
     Glenna sustentou a boneca em cima do caldeiro e, ao solt-la, esta ficou suspensa com sua vontade no ar.
     -Agarra a mo de Cian -disse a Moira.- E aperte-a com fora.
     Assim que Moira estreitou sua mo, Cian no atravessou a porta, mas sim saiu propulsado atravs dela. Enquanto voava atravs de uma escurido que nem sequer 
seus olhos podiam abranger, Cian sentiu a mo da Moira apertando a sua. Ouviu sua voz em sua mente, suave e tranqila.
     -Estamos contigo. No lhe soltaremos.
     Havia luz da lua, titilando atravs da escurido e lhe aproximando manchas brumosas de forma e de sombra. Havia aromas, flores e terra, gua e mulher. Humanos.
     Fazia calor. A temperatura significava muito pouco para Cian, mas podia sentir sua mudana com respeito ao frio mido que tinha deixado para trs. Um calor 
abrasador, atenuado s por uma brisa que chegava da gua.
      Do mar, corrigiu. Era um oceano com ondas que lambiam a areia. E havia altas colinas que se elevavam da praia. As oliveiras se estendiam por suas ladeiras, 
e no topo de uma delas -a mais alta- havia um templo, branco como a luz da lua, com suas colunas de mrmore dominando o oceano, as rvores, os jardins e os lagos.
     Dominando tambm ao homem e a mulher que jaziam juntos sobre uma manta branca debruada em oro sobre a resplandecente areia, e perto de onde se formava a espuma 
da gua. Ouviu a risada da mulher, o som rouco de uma mulher excitada. E soube que era Lilith, soube que era a lembrana de Lilith, ou o sonho no qual ele tinha 
cado. De modo que permaneceu ali e observou como o homem deslizava a tnica branca desde seus ombros e inclinava a cabea para seus peitos.
     Doce, to maravilhosamente doce, seus lbios sobre ela. Em seu interior, igual  mar, tudo era fluxo e refluxo. Como podia estar proibida semelhante beleza? 
Seu corpo tinha sido criado para aquilo. Seu esprito, sua mente, sua alma tinham sido criados pelos deuses como par dos dele.
      O corpo dela se arqueou, oferecendo-se sem reparos, enquanto seus dedos se deslizavam com suavidade pelo cabelo de seu companheiro, clareados pelo sol. Ele 
cheirava a oliveiras e a esse mesmo sol que fazia que seus frutos maturassem.
      Seu amor, seu nico amor. Sussurrou essas palavras em seu ouvido antes que seus lbios voltassem a encontrar-se de novo. Uma vez e outra, com um desejo que 
superava todo o tolervel. Seus olhos estavam cheios dele quando, finalmente, seu corpo se uniu ao dela. A onda de prazer fez que os olhos se enchessem de lgrimas 
brilhantes, converteu seus suspiros em ofegos necessitados. O amor a inundou, golpeou seu corao com milhares de punhos de seda. Estreitou ao homem com fora contra 
ela, expressando sua sorte com um abandono que se atreveu inclusive a que os deuses a escutassem.
     -Cirio, Cirio. -Ela embalou sua cabea entre seus peitos.- Meu corao. Meu amor.
     Ele elevou a cabea, roando sua cabeleira dourada.
     -At a lua empalidece ante sua beleza, Lilia, minha rainha da noite.
     -As noites so nossas, mas tambm quero ter o sol contigo; o sol que doura seu cabelo e sua pele, que te toca quando eu no posso faz-lo. Quero caminhar a 
seu lado, orgulhosa e livre. 
     Cirio se limitou a rodar sobre suas costas.
     -Olhe as estrelas. Elas so nossa tocha esta noite. Deveramos nadar sob sua luz. Nos tirar este calor no mar.
     Uma careta de instantneo desgosto endureceu a sorte sonolenta de seu rosto.
     -Por que no quer falar disso?
     - uma noite muito calorosa para falar e preocupar-se-disse ele quase com indiferena, enquanto agarrava um punhado de areia e deixava que se escorresse entre 
seus dedos.- Seremos como golfinhos e jogaremos entre as ondas.
     Mas quando foi agarrar a das mos para levant-la da areia, ela as afastou com um gesto brusco.
     -Mas devemos falar. Devemos fazer planos.
     -Querida, fica to pouco tempo esta noite.
     -Poderamos ter a eternidade, todas as noites se quisssemos. S temos que ir daqui, fugir juntos. Poderia ser sua esposa, te dar filhos.
     -Ir embora? Fugir? -Ele jogou a cabea para trs e soltou uma gargalhada.- Que tipo de tolice  essa? Venha, vamos, s resta uma hora. Nademos um momento e 
te cavalgarei entre as ondas.
     -No  nenhuma tolice. -Agora ela afastou a mo de repente.- Poderamos nos embarcar daqui, viajar a qualquer lugar que gostasse. Estar juntos sem nos esconder; 
em plena luz do dia. Quero algo mais que umas horas na escurido contigo, Cirio. Voc me prometeu mais.
      -Fugir daqui, como se fssemos ladres? Meu lar est aqui, minha famlia. Meu trabalho.
      -Suas arcas -acrescentou ela com maldade.- Ou melhor, as de seu pai. 
     -O que tem que mau nisso? Achas por acaso que mancharia o nome de minha famlia fugindo com uma sacerdotisa do templo, vivendo como mendigos em qualquer terra 
estranha?
      -Disse que poderia viver s com meu amor.
      -As palavras brotam facilmente nos momentos de paixo. Deve ser razovel. -Com gesto adulador, deslizou um dedo sobre seus peitos nus.- Nos damos prazer mutuamente. 
Por que tem que haver mais?
     -Eu quero mais. Amo-te. Tenho quebrado meus votos por ti.
     -Voluntariamente -lhe recordou Cirio.
     -Por amor.
     -O amor no alimenta o estmago, Lilia, e tampouco se compra no mercado. No quero que esteja triste. Comprarei-te um presente. Algo dourado como seu cabelo.
     -No quero nada que possa comprar. S a liberdade. Quero ser sua esposa.
     -No pode. Se cometssemos semelhante loucura e nos descobrissem, matariam a ambos.
     -Preferiria morrer contigo que viver sem ti.
     -Pelo visto eu valorizo mais minha vida que voc as nossas. -Parecia a ponto de bocejar, to preguiosa era sua voz.- Posso te dar prazer e a liberdade que 
este suporta. Mas quanto a ser minha esposa, voc sabe muito bem que j escolheram uma para mim.
     -Voc me escolheu. Disse...
     -Basta, basta! -Cirio elevou as mos, mas parecia mais aborrecido que zangado pela conversao.- Eu te escolhi para isto, igual o fez voc. Estava desejosa 
de que algum te tocasse. Pude v-lo em seus olhos. Se tiver tecido uma fantasia em que ambos fugimos navegando atravs do mar,  s sua prpria criao.
     -Voc me deu sua palavra.
     -Meu corpo. E no cabe dvida de que tem feito um bom uso dele. -Ao levantar-se, ajustou-se o cinturo da tnica.- Teria sido feliz de te conservar como amante, 
mas no tenho tempo nem pacincia para as ridculas exigncias de uma rameira do templo.
     -Rameira. -O rubor da ira desapareceu, deixando seu rosto branco como as colunas que se elevavam na ladeira da colina-Voc tomou minha inocncia.
     -Voc me entregou isso.
     -No pode estar falando a srio. -Ela se ajoelhou com as mos entrelaadas como se estivesse rezando.- Est zangado porque te pressionei. No falaremos mais 
disso esta noite. Nadaremos, como h dito, e esqueceremos todas estas palavras duras.
      -J  tarde para isso. Acaso achas que no sou capaz de ler o que h em sua mente neste momento? Chatear-me at a morte por algo que nunca poder ser. D 
no mesmo. J desafiamos aos deuses durante muito tempo.
      -No pode estar dizendo a srio que vais deixar-me. Eu te amo. Se me deixar, irei ver sua famlia. Contarei-lhes...
      -Se disser uma s palavra disto, eu jurarei que est mentindo. Queimaro-lhe por isso, Lilia. -Cirio se inclinou e deslizou um dedo pela curva de seu ombro.- 
E sua pele  muito suave, muito doce para o fogo.
      -No me abandone. Tudo ser como voc disser, como voc gostar. Nunca voltarei a falar de fugir daqui. No me deixe.
      -Implorar s serve para danificar sua beleza.
      Ela pronunciou seu nome com a voz quebrada pela comoo e a tristeza, mas Cirio se afastou como se no a ouvisse.
      Lilia se deixou cair sobre a manta, chorando desconsoladamente  e golpeando a areia com os punhos. A dor que sentia nesse momento era como o fogo que ele tinha 
mencionado, queimando-a to profundamente que seus ossos pareciam haver-se convertido em cinzas. Como poderia viver com essa dor?
      Seu amante a tinha trado, utilizado e jogado a um lado. O amor a tinha convertido em uma estpida. E, entretanto, seu corao estava cheio dele.
      Lanaria-se ao mar e se afogaria. Subiria ao topo do templo e se jogaria no vazio. Poderia morrer ali mesmo de vergonha e dor.
               -Mas antes o matarei -balbuciou em meio de sua fria -Primeiro o matarei e logo me matarei eu. Sangue; o seu e o meu juntos. Esse  o preo do amor 
e da traio.
      Ouviu um movimento, apenas um sussurro na areia, e se levantou cheia de alegria. Ele tinha voltado para seus braos!
     -Meu amor.
     -Sim. Serei-o.
     Seu cabelo era negro e lhe caa sobre os ombros. Levava uma larga nica negra como a noite. Seus olhos eram da mesma cor, to escuros que pareciam brilhar.
     Ela agarrou sua tnica e se cobriu os seios com ela.
     -Sou uma sacerdotisa deste templo. No tm permisso para caminhar por aqui.
     -Eu caminho por onde goste. s to jovem... -sussurrou enquanto seu negro olhar se deslizava sobre seu corpo seminu.- To fresca...
     -Deveis partir daqui.
     -Quando for o momento. Estive lhes observando estas trs ltimas noites, Lilia, a ti e a esse moo com quem te murcha.
     -Como te atreves!
     -Voc lhe deu amor, ele s mentiras. Ambos so valiosos. Diga-me, como voc gostaria de te desforrar do presente que te tem dado?
     Ela sentiu que algo se agitava em seu interior, os primeiros sucos da vingana.
     -Ele no merece nada de mim, nem ele nem nenhum outro homem.
     -Isso  muito certo. Por isso me entregar o que nenhum homem merece. 
     O medo a fez estremecer e se afastou correndo. Mas, no soube como, ele estava de novo frente a ela, com um sorriso gelado nos lbios.
     -O que sois vs?
     -Ah,  muito perceptiva. Sabia que minha escolha tinha sido acertada. Sou o que era antes que seus deuses dbeis e antiquados fossem vomitados fora do paraso.
     Ela ps-se a correr outra vez, com um grito afogado na garganta. Mas ali estava ele de novo, lhe bloqueando o passo. Seu medo se converteu em autntico terror.
     -Tocar a uma sacerdotisa do templo significa a morte.
     -E a morte  um comeo fascinante. Estou procurando uma companheira, uma amante, uma mulher, uma aluna. E essa  voc. Tenho um presente para ti, Lilia.
     Esta vez, quando ela correu, ele ps-se a rir. Seguia rindo quando a levantou no ar e a lanou ao cho.
     Ela lutou, arranhou, mordeu, implorou, mas ele era muito forte. Agora tinha a boca sobre seu peito, e ela soluou de vergonha enquanto afundava as unhas em 
sua bochecha.
     -Sim. Sim.  melhor quando lutam. J o aprender. Seu medo  um perfume; seus gritos so msica para os ouvidos.
      Agarrou-lhe o rosto entre as mos e a obrigou a olh-lo.
      -Agora me olhe aos olhos. Dentro deles.
      Ele a penetrou. O corpo de Lilia se estremeceu, vibrou, corcoveou, pela comoo. E pela indescritvel excitao.
      -Levou-te ele alguma vez at estas alturas?
      -No. No.
      As lgrimas comearam a secar-se em suas bochechas. Em lugar de golpear e cravar as unhas, suas mos se afundaram na areia, procurando um ponto de apoio. Apanhada 
em seus olhos, seu corpo comeou a mover-se ao compasso do dele.
      -Toma mais. Quer mais -lhe disse ele.- A dor  to... excitante.
      E a penetrou com mais fora, to profundamente que Lilia temeu partir-se em duas. Mas seu corpo continuava movendo-se ao ritmo do dele, seus olhos seguiam 
apanhados nos dele.
      Quando viu que lhe punham vermelhos, seu corao deu um tombo com renovado temor e, entretanto, esse medo estava contido por um punho de terrvel excitao. 
Ele era to bonito... Seu amante humano empalidecia ante aquela beleza escura e mortal.
     -Entrego-te o instrumento de sua vingana. Entrego-te seu comeo. S tem que me pedir isso. Me pea meu presente.
     -Sim. Me d seu presente. Me d a vingana. Me d...
     Seu corpo se agitou violentamente quando suas presas se afundaram em sua carne. E todo o prazer que tinha conhecido ou imaginado se voltou insignificante frente 
ao que ento corria por seu interior. Ali, ali estava a glria que jamais tinha encontrado no templo, o florescente poder negro que sempre tinha sabido que existia, 
comeava justo nas gemas de seus dedos.
     Ali estava o proibido que tinha desejado durante tanto tempo.
     Contorsionando-se nesse prazer e poder, levou-o a ele ao clmax. E, sem que ningum o dissesse, elevou a cabea para beber o sangue que tinha feito brotar de 
sua bochecha com suas unhas. Sorrindo com seus lbios ensangentados, Lilia morreu. E despertou em sua cama dois mil anos depois do sonho. Sentia o corpo brando, 
como golpeado, e a mente brumosa. Onde estava o mar? Onde estava o templo?
     -Cirio?
     -Uma romntica? Quem o haveria dito. -Cian saiu dentre as sombras.- Chamas ao amante que te desprezou e te traiu.
     -Jarl? -Era o nome com o qual tinha chamado a seu criador. Mas quando o sonho se separou da realidade, ela viu que se tratava de Cian.- V, depois de tudo vieste. 
Minha oferta...
     Mas no estava muito claro.
     -O que aconteceu com o garoto?
     Como se estivesse se preparando para um bate-papo agradvel, Cian se sentou em um flanco da cama.
     -Que garoto? Davey?
     -No, no, no o cachorrinho que criaste, e sim seu amante, que teve quando estava viva.
     Os lbios de Lilith tremeram ao compreender o sentido das palavras de Cian.
     -De modo que brincas com meus sonhos? Bom, o que pode me importar isso? -Mas estava profundamente emocionada.- Chamava-se Cirio. O que achas que aconteceu com 
ele?
     -Acredito que seu amo disps que ele fosse sua primeira vtima.
     Ela sorriu com uma de suas lembranas mais doces.
     -Cirio se urinou em cima quando Jarl o arrastou at mim, e choramingou como uma criana enquanto implorava por sua vida. Eu estava recm transformada e, entretanto 
tinha controle para mant-lo com vida durante horas... muito depois de que implorasse por sua morte. Contigo o farei muito melhor. Darei-te anos de dor.
     Lanou um tapa e amaldioou quando suas unhas afiadas passaram atravs dele.
      -Divertido, verdade? E Jarl? Quanto tempo passou antes que o liquidasse?
      Ela se recostou na cama, levemente ressentida. Logo se encolheu de ombros.
      -Quase trezentos anos. Tinha muito que aprender dele. Jarl comeou a me temer, porque meu poder crescia cada vez mais. Podia cheirar o medo que me tinha. Se 
no o tivesse matado eu antes, ele teria acabado comigo.
      -Chamava-te Lilia... Lily.
      -O pattico ser humano que era, sim. Ele me ps Lilith quando despertei. -enroscou-se uma mecha de cabelo no dedo enquanto olhava fixamente a Cian.- Tm acaso 
a absurda esperana de que conhecendo meu comeo descobrir qual ser meu final?
      Lilith afastou as mantas e se levantou para caminhar nua para uma jarra de prata.
      Ao verter o sangue em uma taa, suas mos tremiam.
      -Falemos francamente -sugeriu Cian.- S estamos voc e eu... o qual  bastante estranho.  que hoje no dorme com Lora ou o menino ou alguma outra escolha?
     -Inclusive eu, ocasionalmente, procuro a solido.
     -Muito bem. Para te ser franco,  estranho, no achas?  desconcertante voltar a ser humano em sonhos. Ver seu prprio final, seu prprio comeo, como se acabasse 
de acontecer. Sentir-se humano outra vez ou, no melhor dos casos, recordar o que se sente ao ser humano.
     Quase como se lhe acabasse de ocorrer, Lilith se cobriu com uma bata.
     -Eu voltaria para ser humana.
     Cian arqueou as sobrancelhas.
     -Voc? Srio? Agora me surpreende.
     -Eu gostaria de ter novamente esse momento de morte e renascimento. A maravilhosa e estremecedora excitao desse momento. Voltaria a ser dbil e cega s pela 
possibilidade de experimentar o dom outra vez.
     - obvio. Segue sendo previsvel. - Cian se levantou-Agora quero que saiba uma coisa. Se voc e seu mago voltem a perturbar meus sonhos, eu te devolverei o 
favor multiplicado por trs. No ter descanso de mim, nem de ti mesma.
     Cian se desvaneceu, mas ainda no retornou com Moira e Glenna. Embora podia sentir os puxes da mente de Moira, da vontade de Glenna, decidiu atrasar a volta. 
Queria ver o que Lilith faria a seguir.
     Esta estrelou contra a parede a taa com o resto de sangue que ficava nela. Esmagou uma caixa cheia de bagatelas e golpeou a parede at que lhe sangraram os 
punhos.
     Logo gritou para que acudisse um guarda.
     -Quero que traga a esse mago intil ante mim. E quero que o traga encadeado. Traga-o... No, espera. Espera. -afastou-se uns passos em um bvio esforo por 
controlar sua fria.- Neste momento o mataria se se cruzasse comigo, e o que ganharia ento com isso? Me traga para algum para comer. -voltou-se de cara ao guarda.- 
Um homem. Jovem. Vinte e tantos. Loiro, se tivermos um. V!
     Quando voltou a ficar s se esfregou a tmpora.
     -Matarei-o outra vez -disse.- Ento me sentirei muito melhor. Chamarei-o Cirio e voltarei a mat-lo.
     Agarrou seu precioso espelho da cmoda. E ao ver refletido seu rosto no cristal, recordou por que devia manter a Midir com vida. Lhe tinha dado esse presente.
     -Aqui estou -disse Lilith brandamente.- To bela. A lua empalidece ante minha beleza, sim, sim, empalidece. Estou justo aqui. Sempre estarei aqui. O resto so 
fantasmas. E eu estou aqui.
     Agarrou uma escova e comeou a pentear-se, e a cantar. Com os olhos cheios de lgrimas.
      
     -Beba isto.
      Glenna aproximou uma taa aos lbios de Cian, mas ele a afastou imediatamente.
      -Estou bem. No necessito de usque, como se me tivesse desvanecido.
      -Ests plido.
      Cian torceu os lbios.
      -Forma parte do pacote dos mortos vivos. Bem. Eu diria que foi toda uma viagem.
      Embora ele o tinha dispensado, Glenna bebeu um pequeno sorvo de usque e logo passou o copo a Moira.
     -Ela no nos percebeu -disse a Moira.- Gostaria de acreditar que meus bloqueios e ligao foram suficientes, mas penso que, em grande medida, h-se devido a 
que Lilith estava muito alterada para sentir nossa presena.
     -Ela era to jovem. -Moira se sentou.- To jovem e apaixonada por esse intil. No sei em que idioma falavam, mas podia entender o que diziam. Embora parea 
estranho, no conhecia a lngua que usavam. -Grego. Ela comeou sendo sacerdotisa do culto de alguma deusa. A virgindade forma parte dos requisitos do trabalho.
     Cian queria beber sangue, mas procurou gua.
     -E podem lhes economizar sua piedade. Estava amadurecida para o que lhe aconteceu.
     -Como o estava voc em seu momento? -replicou Moira.- E no finja que no h sentido nada por ela. Estvamos conectados. Eu percebi sua compaixo. Seu corao 
estava destroado e, um momento depois,  violada e capturada por um demnio. Posso desprezar o que  Lilith e sentir compaixo pela Lilia.
     -Lilia j estava meio louca -declarou Cian rotundamente.- Possivelmente a transformao seja o que a manteve relativamente lcida todo este tempo.
     -Estou de acordo contigo. Sinto-o -disse Glenna a Moira.- Embora no sinto nenhum prazer ao ver o que lhe aconteceu. Mas havia algo em seus olhos, no tom de 
sua voz... e Deus, na forma em que acabou respondendo ante o Jarl. Ela no estava muito bem, Moira, j ento.
     -Mas poderia ter morrido por sua prpria mo, ou ter sido executada por matar ao homem que a usou para logo abandon-la. Ento teria tido uma morte limpa. -Moira 
suspirou.- E ns no estaramos aqui discutindo este assunto. Tudo isto te provoca uma enxaqueca se de pensar atentamente. Tenho uma pergunta muito delicada que 
responde mais que nada a minha prpria curiosidade.
     Moira se clareou garganta antes de interrogar a Cian.
     -A forma em que ela respondeu ante o Jarl, como h dito Glenna,  algo incomum?
     -A maioria luta ou fica paralisada de medo. Ela, em troca, participou depois da... a delicadeza no  meu forte -admitiu Cian.- Depois que comeou a sentir 
prazer ao ser violada. Foi uma violao, disso no cabe dvida, e nenhuma mulher em seu so julgamento sente prazer quando  forada e tratada com brutalidade.
     -J lhe pertencia antes que a mordesse -murmurou Moira.- Ele sabia que seria sim, pde perceb-lo. Ela sabia, alm disso, o que tinha que fazer para transformar-se... 
beber o sangue de Jarl. Tudo o que tenho lido afirma que a vtima deve ser forada ou ter que lhe dizer o que lhe vai ocorrer.  algo que lhe oferece. Em troca 
ela tomou. Entendia o que estava passando e o desejava.
     -Agora sabemos mais que antes, algo que sempre resulta muito til -comentou Cian.- E o episdio a alterou profundamente, um benefcio acrescentado. Depois de 
ter conseguido isso, dormirei melhor. J  hora de que v  cama. Senhoras.
     Moira lhe olhou enquanto se afastava.
     -Ele sente. Por que acha que chega a tais extremos para fingir que no  assim?
     -Os sentimentos causam dor a maior parte do tempo. Acredito que quando tem feito e visto tantas coisas, os sentimentos podem ser como uma dor constante. -Glenna 
apoiou uma mo sobre o ombro de Moira.- A negao  outra forma de sobrevivncia.
      -Reprimir os sentimentos pode ser um blsamo ou uma arma. 
     Como seriam os sentimentos de Cian, perguntou-se, se os deixasse completamente livres?
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 9
      
      
     
     A chuva se converteu em um crepsculo saturado de umidade que estendeu uma neblina brumosa a escassos centmetros do cho. Quando chegou a noite, a lua e as 
estrelas no puderam atravessar a escurido com sua luz.
     Moira se meteu entre o manto de nvoa que cobria o ptio para reunir-se com Glenna.
     -J esto perto de casa -murmurou Glenna.- Mais tarde que o que espervamos, mas j quase chegaram.
     -Mandei que acendessem a lareira em sua habitao e na de Larkin, e tambm lhes preparassem o banho. Chegaro empapados e com muito frio.
     -Obrigada. No tinha pensado nisso.
     -Quando estvamos na Irlanda, foi voc a que se encarregava de todos os detalhes relacionados com o conforto. Agora me corresponde faz-lo. -Moira, assim como 
Glenna, elevou a vista ao cu.- Ordenei que levem comida ao salo familiar, a menos que queira jantar a ss com Hoyt.
     -No. No. Certamente querero nos informar imediatamente do que viram. Logo j teremos tempo de estar a ss. -Elevou a mo para agarrar sua cruz e o amuleto 
que usava com ela.- No sabia que fosse estar to preocupada. Vimos-nos metidos em brigas nas quais nos superavam em nmero, e nunca estive to obcecada.
      -Porque estava com ele. Amar e esperar  pior que uma ferida.
      -Essa  uma das lies que aprendi. Houve muitas. Voc esteve preocupada com Larkin, eu sei. E agora por Tynan. Ele tem sentimentos por ti.
      Moira entendeu que Glenna no se estava referindo a Larkin.
      -Eu sei. Nossas respectivas mes esperavam que pudssemos formar um casal.
      -Mas?
      -Algo que se necessite para isso, eu no a tenho. E ele  um grande amigo. Talvez no ter nenhum amante a quem esperar, nenhum amante a quem perder, faz que 
me resulte mais fcil suportar esta carga.
      Glenna esperou um momento.
      -Mas?
      -Mas -prosseguiu Moira com um meio sorriso.- Invejo a tortura que significa para ti esperar ao teu.
      De onde se encontrava, Moira viu Cian, sua forma aproximando-se atravs da penumbra. Vinha das cavalarias, advertiu. Em lugar das capas que usavam os homens 
de Geall para proteger do frio e a chuva, ele levava uma similar a de Blair. Larga, negra e de couro.
     A capa formava redemoinhos na nvoa enquanto Cian se aproximava delas, fazendo apenas rudo com suas botas contra as midas lajes de pedra do ptio.
     -No chegaro antes porque vocs estejam esperando  intemprie -disse Cian.
     -J esto perto de casa. -Glenna voltou a olhar o cu como se assim pudesse conseguir que se abrisse e Hoyt casse das alturas.- Ele saber que lhe estou esperando.
     -Ruiva, se voc estivesse esperando a mim, em primeiro lugar, no te teria deixado.
     Com um sorriso, Glenna inclinou a cabea at apoi-la no ombro de Cian. Quando ele a rodeou com o brao, Moira viu nesse gesto o mesmo afeto que ela sentia 
por Larkin, o tipo de afeto que nasce do corao atravs do parentesco.
     -Ali -disse Cian brandamente.- Para o oeste.
     -V-os? -Glenna se estirou para frente.- Pode v-los?
     -Dentro de um minuto voc tambm poder.
     Assim que o fez, sua mo apertou a de Moira.
     -Graas a Deus. Oh, graas a Deus.
     O drago atravessou a densa atmosfera; um resplendor de ouro com cavaleiros em seu lombo. Enquanto se posava em terra, Glenna correu sobre as lajes de pedras 
do ptio. Assim que desmontou, Hoyt abriu os braos para receb-la.
     - um bonito espetculo -sussurrou Moira olhando a Hoyt e Glenna abraarem-se.- Foram tantos os que se despediram esta manh e os que o faro amanh -prosseguiu 
em voz mais alta-, que  bonito ver que algum retorna aos braos que o estavam esperando.
     -Antes que ela aparecesse em sua vida, Hoyt sempre tinha preferido retornar  solido. As mulheres mudam as coisas.
     Moira o olhou.
     -S as mulheres?
     -A gente ento. Mas as mulheres? Elas alteram universos inteiros s pelo fato de serem mulheres.
     -Para bem ou para mau?
     -Isso depende da mulher, no acha?
     -E do prmio, ou o homem, sobre quem tm posto os olhos.
     Uma vez dito isto, separou-se de seu lado para correr para Larkin.
     Abraou-o com fora apesar de que estava empapado.
     -Tenho comida, bebida, gua quente, tudo o que possa desejar. Me alegro tanto de ver-te! A todos vocs.
      Mas quando foi dar a volta para dar a bem-vinda aos outros, seu primo lhe apertou a mo com fora.
      Moira sentiu que o alvio lhe convertia em medo.
      -O que? O que passou?
      -Deveramos entrar. -A voz de Hoyt era controlada mas tensa.- Deveramos entrar e nos proteger desta umidade.
      -Me diga o que ocorreu.
      Moira se separou de Larkin.
      -As tropas de Tynan foram atacadas; na metade do caminho do ponto mais prximo -explicou ele.
      Moira sentiu que todo seu interior se congelava.
      -Oran, Tynan?
      -Esto vivos. Tynan resultou ferido, mas no gravemente. Outros seis homens...
      Ela cravou os dedos no brao de Larkin.
      -Mortos ou capturados?
      -Cinco mortos, um feito prisioneiro. Vrios mais feridos, dois gravemente. Fizemos o possvel por eles.
      A sensao de frio no a abandonou, como se tivesse o corao coberto de gelo.
     -Sabe seus nomes? Dos mortos, os feridos, do que levaram?
     -Sim, temos seus nomes. Moira, levaram ao jovem Sean. O filho do ferreiro.
     O estmago lhe deu um tombo ao pensar que esse jovem se enfrentaria a algo que era pior que a morte.
     -Eu falarei com suas famlias. No diga nada a ningum at que o tenha feito.
     -Irei contigo.
     -No. Isto  algo que me corresponde fazer. Voc precisa se secar, se esquentar e comer. Devo faz-lo eu, Larkin.  meu dever.
     -Escrevemos os nomes. -Blair tirou um pedao de papel do bolso.- O sinto, Moira.
     -Sabamos que isto aconteceria. -Guardou o papel dentro de sua capa.- Irei ao salo logo que me seja possvel para que me contem todos os detalhes. Agora as 
famlias precisam ouvir isto de meus lbios.
     -Uma grande responsabilidade -comentou Blair quando Moira se afastou.
     -Ela o suportar. - Cian a seguiu com o olhar -Isso  o que fazem as rainhas.
     
             Moira pensou que esse peso a esmagaria, mas conseguiu suport-lo. E o fez, enquanto mes e esposas choravam em seus braos. No sabia nada sobre o ataque, 
mas a todos e cada um, disse-lhes que seu filho ou marido ou irmo tinha morrido como um valente, como um heri.
     Era o que precisavam ouvir.
     Foi pior com os pais de Sean, pior ver a esperana refletida nos olhos do ferreiro, as lgrimas dessa esperana empanando os de sua esposa. Moira no se via 
capaz de tirar-lhe de modo que os deixou com ela, e com as preces para que seu filho conseguisse escapar logo de algum jeito e retornar pra casa.
     Quando tinha terminado sua penosa tarefa, subiu a suas habitaes para guardar o papel com os nomes dentro de uma caixa grafite que desde esse momento conservaria 
junto a sua cama. Sabia que haveria outras listas. Essa era somente a primeira. E o nome de cada um dos que dessem sua vida ficaria escrito e guardado nessa caixa.
     Junto com a lista, colocou um raminho de romeiro para a memria e uma moeda como tributo.
     Depois de fechar a caixa, enterrou sua necessidade de solido, de luto, e baixou ao salo para ouvir os detalhes do que tinha passado.
     A conversao se interrompeu quando ela entrou, e Larkin se levantou rapidamente.
     -Meu pai acaba de partir. Irei lhe buscar se o desejar.
     -No, no. Deixa que fique com sua me e sua irm.
     Moira sabia que o marido de sua prima, que estava grvida, estaria ao comando das tropas que partiriam ao dia seguinte.
     -Esquentarei-te um pouco de comida. Vais comer -disse Glenna a Moira quando esta abriu a boca para protestar.- Considera-o um remdio.
     Enquanto Glenna colocava comida em um prato, Cian serviu uma generosa quantidade de licor de ma em um copo e o deu tambm a Moira.
     -Beba isto primeiro. Est plida como a cera.
     -Com isto terei cor, mas tambm uma cabea que me dar voltas.
     Entretanto, encolheu-se de ombros e bebeu o licor como se fosse gua.
     -Tenho que admirar a uma mulher que pode beber um gole dessa maneira.
     Impressionado, Cian agarrou o copo e voltou a sentar-se.
     -Foi horrvel. Ao menos aqui, ante vocs, posso admiti-lo. Foi horrvel. -Moira se sentou  mesa e logo se pressionou as tmporas com os dedos.- Lhes olhar 
 cara e ver transformar-se sua expresso, e saber que o que lhes hei dito vai mud-las para sempre. Pensar no que lhes arrebatei...
     -Voc no tem feito nada. -A ira tingiu a voz de Glenna ao tempo que apoiava com fora um prato diante de Moira.- Voc no lhes arrebatou nada.
     -No me referia  guerra, ou  morte, e sim ao que lhes tirei com as notcias delas. O mais duro foi dar as do jovem que foi capturado. O filho do ferreiro, 
Sean. Seus pais ainda tm esperanas. Como podia lhes dizer que seu filho est pior que morto? No podia cortar esse ltimo fio de esperana, mas me pergunto se 
no teria sido melhor que o fizesse.
     Deixou escapar o ar lentamente e logo se ergueu em sua cadeira. Glenna tinha razo, devia comer.
     -Me contem o que sabem.
     -Estavam clandestinamente -comeou a explicar Hoyt- como quando emboscaram a Blair. Tynan diz que no eram mais de cinqenta, mas seus homens foram agarrados 
de surpresa. Acrescentou que a esses monstros parecia no lhes importar se lhes liquidavam, que seguiam atacando e lutando como animais enlouquecidos. Dois de nossos 
homens tm cado quase imediatamente e, na confuso da batalha, ficaram com trs de nossos cavalos.
     -Quase um tero dos cavalos que levavam.
     -Quatro, possivelmente cinco deles agarraram ao filho do ferreiro, com vida, conforme contaram os homens que trataram de salv-lo.
     O levaram nesta direo, enquanto o resto mantinha as linhas e lutava. Os nossos mataram a mais de vinte deles, o resto se dispersou e fugiu ao mudar sua sorte.
     -Foi uma vitria. Tm que v-lo assim -interveio Blair.- Tm que faz-lo. Seus homens acabaram com vinte de seus inimigos no primeiro enfrentamento. Suas baixas 
foram poucas em comparao com as suas. No estou dizendo que uma morte no seja importante -acrescentou rapidamente.- O . Mas esta  a realidade. O treinamento 
dos homens deu seus frutos.
     -Sei que tem razo -disse Moira-, e eu me hei dito o mesmo. Mas tambm foi uma vitria para eles. Queriam um prisioneiro. No h nenhum outro motivo para que 
se levassem a um dos nossos. Sua misso devia consistir em apanhar a um vivo, no importava o preo que tivessem que pagar por isso.
     -Tem razo, no vou discuti-lo -conveio Blair.- Mas eu no o vejo como uma vitria de sua coluna. Foi uma ao estpida, e tambm um desperdcio. Vinte deles 
por um prisioneiro. Se esses vampiros tivessem ficado e lutado, poderiam haver-se levado a mais dos nossos, vivos ou mortos. Minha opinio  que Lilith ordenou esse 
ataque porque estava furiosa, ou foi um impulso. Em qualquer caso, uma pssima estratgia.
     Moira mastigou um bocado que no podia saborear enquanto pensava no que Blair havia dito.
     -A forma em que enviou a King de volta a ns, na Irlanda, foi algo desprezvel e perverso. Mas divertido para ela. Lilith pensa que estas coisas minaro nossa 
moral, que debilitaro nosso esprito. Como pode nos conhecer to pouco? Voc viveu a metade do tempo que ela - disse a Cian.- O que pode nos dizer?
     -Eu encontro aos humanos interessantes. Ela os encontra... apetitosos no melhor dos casos. No precisa conhecer a mente de uma vaca para conseguir dela uns 
bons files.
     -Especialmente se tiver a toda uma turma para que se encarregue de enlaar e conduzir o gado -disse Blair.- Eu fiz mal a sua garota, de modo que necessita que 
algum pague por isso. Ontem destrumos trs de suas bases e esta manh explodimos as segundas duas convocaes.
     -Estavam vazios -interveio Larkin.- Lilith no se incomodou em colocar armadilhas ali e tampouco tinha deixado de guarda a nenhum de seus soldados. Alm disso, 
Glenna nos explicou que estivestes jogando com ela enquanto estvamos fora.
     -O resumo  que foi um empate. Mas ela perde mais que ns. Embora isso no  nenhum consolo para as famlias dos que morreram -acrescentou Blair.
     -E amanh enviarei mais homens. A Phelan. -Moira olhou a Larkin.- No posso lhe reter. Falarei com Sinann, mas...
     -No, eu o farei. Espero que nosso pai j tenha falado com ela, mas irei v-la de todos os modos.
     Moira assentiu.
     -E Tynan? Como vai?
     -Tem um corte no quadril. Hoyt tratou aos feridos. Tynan estava bem quando nos partimos. Esto seguros e protegidos para passar a noite.
     -Muito bem ento. Rezaremos para que amanh faa sol.
     
     Moira tinha outra obrigao a atender.
     Suas damas de companhia tinham uma sala de estar junto a suas habitaes onde podiam descansar, ler, fazer seus trabalhos ou fofocar. A me de Moira tinha convertido 
essa estadia em um lugar alegre e prazenteiro, intensamente feminino, com tecidos de cores suaves, muitas almofadas e plantas de flor.
     Ali, o fogo se acendia habitualmente com madeira de macieira para perfumar o ambiente, e tambm havia candelabros de parede em forma de bonitas fadas aladas.
     Quando foi coroada, Moira autorizou a suas damas de companhia a que mudassem o que gostasse. Mas a habitao estava como a recordava de sempre.
     As mulheres estavam ali ento, esperando a que ela se retirasse a suas habitaes at o dia seguinte ou que, simplesmente, desse-lhes permisso para irem descansar.
     Todas se levantaram e fizeram uma pequena reverncia quando entrou.
     -Nada de reverncias, nesta sala, agora somos todas s mulheres.
     Abriu os braos para Ceara.
     -Oh, minha senhora. -Os olhos de Ceara, vermelhos e inchados j pelo pranto, transbordaram-se enquanto corria aos braos de Moira.- Dwyn est morto. Meu irmo 
est morto.
     -Sinto muito. Sinto tanto. Vem, sente-se.
     Acompanhou a Ceara at uma das poltronas sem deixar de abra-la. E chorou junto com ela como o tinha feito com a me de Ceara e com todos os outros que tinham 
perdido a um de seus entes queridos na batalha.
     -Enterraram a Dwyn ali mesmo, em um campo junto a estrada. Nem sequer puderam traz-lo de volta pra casa. No teve velrio.
     -Faremos que um homem santo consagre essa terra. E levantaremos um monumento para honrar a todos os que hoje tm cado.
     -Ele estava ansioso por ir, por lutar. Virou-se e me acenou com a mo antes de partir.
     -Agora bebero um pouco de ch. -Com os olhos tambm avermelhados pelo pranto, Isleen deixou o recipiente sobre a mesa.- Beber um pouco de ch, Ceara, e voc 
tambm, minha senhora.
     -Obrigada. -Ceara passou a mo pelas bochechas para secar as lgrimas.- No sei o que teria feito sem Isleen e Dervil nestas ltimas horas.
     - bom que tenha a suas amigas. Mas agora beber o ch e logo irs reunir-te com sua famlia. Necessitaro-se mutuamente. Tem minha permisso para te ausentar 
todo o tempo que queira.
     -H algo mais que quero, sua majestade. Algo que lhe peo que me dem, em nome de meu irmo.
     Moira esperou, mas Ceara no disse nada mais.
     -Pediria-me que te concedesse algo sem saber o que  que estou concedendo?
     -Meu marido parte amanh.
     Moira sentiu que lhe afundava o estmago.
     -Ceara. -Moira se aproximou dela e lhe passou a mo pelo cabelo.- O marido de Sinann tambm partir ao amanhecer. Ela leva em seu ventre a seu terceiro filho 
e, mesmo assim, no posso evitar que parta com o resto dos homens.
     -No lhes peo que impeam que parta. Peo-lhes que me permitam ir com ele.
     -Ir... -Moira, atnita, deixou-se cair na poltrona.- Ceara... seus filhos.
     -Eles ficaro com minha me, to bem e seguros como podem est-lo aqui. Mas meu homem parte  guerra e eu treinei na luta tanto como ele. Por que devo ficar 
sentada esperando? -Ceara estendeu as mos.- Me inquietar enquanto bordo, passear pelo jardim enquanto ele parte para combater. Vocs disseram que todos tnhamos 
que estar preparados para defender Geall e os mundos que h mais  frente. Eu me preparei. Sua majestade, minha senhora, vos rogo que amanh me permitas partir junto 
a meu marido.
     Moira se levantou sem dizer nada. Foi at uma das janelas para olhar para a escurido. A chuva, finalmente, tinha cessado, mas a nvoa se estendia como se fossem 
nuvens.
     -Falaste com ele disto? -perguntou Moira ao fim.
     -Sim, falei, e seu primeiro pensamento foi para minha segurana. Mas entende que minha deciso est tomada e por que.
      -Por que?
      -Ele  meu corao. -Ceara se levantou e apoiou uma mo em seu peito.- No deixaria a meus filhos desprotegidos, mas confio em que minha me faa tudo o que 
possa por eles. Minha senhora, acaso ns, as mulheres, treinamo-nos e se revirado na lama todo este tempo s para nos sentar junto ao fogo?
      -No. No foi para isso.
      -No sou a nica mulher que deseja ir lutar.
      Moira se voltou.
      -Falaste com outras mulheres? -Olhou a Dervil e Isleen.- Vocs tambm querem? -Assentiram.- Vejo que estava equivocada ao lhes reter aqui. Faro-se os acertos 
necessrios ento. Sinto-me orgulhosa de ser uma mulher de Geall.
      Por amor, pensou Moira enquanto se sentava para fazer outra lista de combatentes. Por amor tanto como por dever. As mulheres partiriam com os homens e lutariam 
por Geall. Mas era por seus maridos e namorados, pelas famlias que deixavam ali por quem queria empunhar a espada.
     E ela por quem lutava? O calor de quem procuraria na noite anterior  batalha, quem era sua razo para lutar?
     Os dias passavam, e Samhain espreitava como uma tocha ensangentada pendendo sobre sua cabea. E ali estava ela, sentada sozinha, como cada noite. Procuraria 
outro livro, outro mapa, outra lista? Ou vagaria de novo pela habitao, pelos jardins e os ptios, desejando...
     Desejando a ele, pensou. Desejando que voltasse a pr as mos sobre seu corpo e a fizesse sentir plena, viva, radiante. Desejando que compartilhasse com ela 
o que tinha visto na noite em que tocou aquele instrumento e cujo som agitou seu corao tanto como ele tinha agitado seu sangue.
     Ela tinha lutado e sangrado e voltaria a lutar e sangrar. Entraria no combate como rainha, com a espada dos deuses na mo. Mas nesses momentos ali estava, sentada 
s em sua habitao, desejando, como uma donzela ruborizada, a carcia e o calor da nica coisa que tinha feito que seu pulso se acelerasse.
     Aquilo era absurdo e uma perda de tempo. E tambm um insulto para qualquer mulher de qualquer parte.
     Levantou-se e comeou a passear pelo quarto enquanto refletia sobre isso. Sim, era insultante e mesquinho. Ela ficava ali sentada, desejando, pelas mesmas razes 
pelas quais se absteve de enviar s mulheres  marcha. Porque o tradicional era que o homem viesse  mulher. O tradicional era que o homem se encarregasse da proteo 
e da defesa.
     Mas as coisas tinham mudado, verdade?
     Acaso no tinha passado semanas em um mundo e um tempo nos que as mulheres, como Glenna e Blair, mantiveram-se firmes sem ceder terreno -ou algo mais- em cada 
ocasio?
     De modo que se ela desejava as mos de Cian sobre seu corpo, devia encarregar-se de que ele as pusesse ali, e no havia mais o que falar.
     Quando estava a ponto de abandonar a habitao, lembrou-se do assunto de sua aparncia. Podia faz-lo melhor. Se estava a ponto de embarcar-se na aventura de 
seduzir a um vampiro, devia ir bem armada.
     Tirou-se o vestido. Teria desejado tomar um banho -ou mas bem a ducha de gua maravilhosamente quente da Irlanda-, mas o supriu lavando-se com a gua perfumada 
que havia na bacia.
     Cobriu sua pele com creme, e imaginou que eram os largos dedos de Cian os que a pulverizavam por seu corpo. O calor j estava formando uma bola de fogo em seu 
estmago e pulsando ao longo de seus nervos enquanto escolhia sua melhor bata de noite. Enquanto se escovava o cabelo, desejou por um momento haver pedido a Glenna 
que lhe ensinasse a fazer um simples feitio. Pareceu-lhe que suas bochechas comeavam a ruborizar-se, e seus olhos brilhavam. Mordeu-se os lbios at que lhe doeram, 
mas pensou que se haviam inchado e avermelhado muito bem.
     Separou-se do grande espelho e se estudou cuidadosamente desde cada ngulo. Esperava ter um aspecto desejvel.
     Agarrou uma vela e abandonou a habitao com a firme determinao de no retornar a ela sendo virgem.
     
     
     Em sua habitao, Cian estudava com ateno vrios mapas. Era o nico membro do crculo ao que lhe tinha negado uma viso do campo de batalha, j fosse na realidade 
ou em sonhos. Mas ele ia corrigir essa situao.
     O tempo era um problema, cinco dias de marcha, embora ele podia percorrer essa distancia em dois, possivelmente em menos. Mas isso significava que necessitaria 
um lugar seguro onde pudesse acampar durante o dia.
     Uma das bases que os outros tinham instalado serviria para esse propsito. Uma vez que tivesse feito sua inspeo do terreno, poderia instalar-se em uma dessas 
bases e esperar a chegada de Samhain.
     Largar-se assim do fodido castelo e afastar-se de sua tentadora rainha.
     Haveria objees a seu plano... o que resultaria irritante, mas no iam encerr-lo em uma masmorra e obrig-lo a ficar quieto. Outros partiriam ao cabo de aproximadamente 
uma semana. Ele se largaria antes.
     Podia partir com as tropas que iam sair pela manh, se o sol estivesse oculto. Ou, simplesmente, esperar o por do sol.
     Sentou-se e bebeu um gole de sangue que tinha misturado com usque, sua prpria verso de um coquetel para ajud-lo a dormir. Inclusive podia ir naquele mesmo 
instante, verdade? Assim economizaria as discusses com seu irmo e os outros; simplesmente saindo do castelo.
     Sups que teria que deixar um bilhete. Era estranho que houvesse gente que realmente se preocupasse com seu bem-estar, e de algum jeito tambm era agradvel, 
embora lhe acrescentava algumas responsabilidades.
     Deixando a bebida a um lado, decidiu que sim, que prepararia suas coisas e partiria. Sem rudo. E assim no teria que voltar a ver Moira at que eles o alcanassem.
     Agarrou a cinta de couro com contas que no lhe havia devolvido a sua proprietria e brincou com ela. Se partia essa noite, no teria que v-la, cheir-la, 
ou imaginar como seria t-la debaixo dele na escurido.
     E tinha uma imaginao fodidamente boa.
     Levantou-se para decidir que equipamento resultaria mais til para a viagem e franziu o cenho quando algum bateu na porta.
     "Provavelmente seja Hoyt", pensou. Certamente, no lhe falaria de seus planos; desse modo se evitaria um comprido e irritante debate sobre o assunto. Considerou 
a possibilidade de no abrir a porta, mas o silncio e uma porta fechada no deteriam seu irmo o feiticeiro.
     Soube que era Moira no momento em que sua mo tocou o ferrolho. E amaldioou para si. Abriu a porta com intenes de fazer que seguisse rapidamente seu caminho, 
de modo que ele pudesse seguir o seu.
     Moira vestia branco, um branco fino e vaporoso, com algo por cima quase do mesmo cinza de seus olhos. Cheirava como a primavera... jovem e cheia de promessas.
     A necessidade se enroscou dentro dele como se fossem serpentes.
      - que nunca dormes? -perguntou ele.
      -E voc?
      Moira entrou em sua habitao, e Cian ficou to surpreso pelo gesto, que no atinou a lhe bloquear o passo.
      -Bom, entre, faa de conta de que est em sua casa.
      -Obrigada.
      Moira o disse educadamente, como se as palavras de Cian no tivessem destilado sarcasmo. Logo deixou a vela sobre a mesa e se voltou para a lareira, cujos 
lenhos ele no se incomodou em acender.
      -Vejamos se posso faz-lo. Pratiquei at que estiveram a ponto de me sangrar as orelhas. No fale. Distrairia-me.
      Estendeu uma mo para a chamin. Concentrou-se, imaginou. Empurrou. Uma chama pequena e dbil apareceu na turfa, de modo que entreabriu os olhos e empurrou 
com mais fora.
     -Olhe!
     Sua voz soou absolutamente encantada quando do fogo se acendeu.
     -Olhe, agora estou rodeado de fodidos magos.
     Quando Moira se voltou, seu cabelo ondeou e a delicada bata se abriu como um leque.
     - uma habilidade muito til, e pretendo aprender mais.
     -Pois aqui no encontrar um tutor em feitiaria.
     -No. -Moira se jogou o cabelo para trs.- Mas estou pensando em outras coisas. -Retornou  porta e passou novamente o ferrolho. Logo se voltou para ele.- Quero 
que me leve pra cama.
     Cian piscou j que, se no, os olhos lhe teriam sado das rbitas.
     -O que?
     -No tem nenhum problema de audio, de modo que me ouviste perfeitamente. Quero me deitar contigo. Tinha pensado que podia tratar de me mostrar reservada e 
sedutora, mas logo me pareceu que sentiria mais respeito pelas palavras diretas e francas.
     As serpentes que estavam enroladas dentro dele comearam a retorcer-se. E morder.
     -Aqui tem uma palavra franca e direta: saia.
     -Vejo que te surpreendi. -passeou-se pela habitao deslizando um dedo sobre uma pilha de livros.- Isso no  algo fcil de conseguir, assim, como diz Blair, 
pontos para mim. -voltou-se outra vez e sorriu.- Sou uma novata nestas coisas, de modo que me diga uma coisa, por que se zangaria um homem se uma mulher queria deitar-se 
com ele?
     -No sou um homem.
     -Ah. -Moira levantou um dedo reconhecendo esse ponto para ele.- Mas tem necessidades, desejos. Voc me desejou.
     -Um homem poria sua mo sobre qualquer mulher.
     -Voc no  um homem -replicou ela, e logo sorriu.- Mais pontos para mim. Est-te atrasando.
      -Se tiver estado bebendo outra vez...
      -No bebi nada. Sabe que no estive bebendo. Mas estive pensando. Irei  guerra, entrarei em combate.  possvel que no saia dele com vida. Possivelmente 
nenhum de ns o faa. Hoje morreram homens bons, entre o barro e o sangue, e deixaram muitos coraes destroados atrs deles.
      -E o sexo reafirma a vida. Conheo a psicologia dessa situao.
      -Isso  bastante certo. Mas a um nvel mais pessoal, estarei condenada, juro-o, se morrer virgem. Quero saber o que  isso. Quero senti-lo.
      -Ento, majestade, escolha a um semental entre seus sditos. Eu no estou interessado.
      -No quero a ningum mais. Nunca quis a ningum antes de ti, e no quis a ningum desde a primeira vez que te vi. Estremeceu-me poder albergar esse tipo de 
sentimentos por ti sabendo o que s. Mas esto dentro de mim e no desaparecero. Tenho necessidades, como qualquer um. E muitos estratagemas acredito, para vencer 
sua resistncia se for necessrio... embora j tenha deixado de ser um jovem luxurioso.
      -Encontraste seus ps, verdade? -murmurou ele.
      -Oh, sempre os tive. S que sou muito prudente at saber bem onde piso. -Enquanto o olhava, medindo-o, deslizou a mo por um dos pilares da cama.- Diga-me, 
que diferena poderia supor para ti? Uma hora ou duas. Acredito que no estiveste com uma mulher h algum tempo.
      Cian se sentia como um idiota. Tenso, estpido e necessitado.
      -Isso no  de sua incumbncia.
      -Poderia s-lo. Tenho lido que quando um homem no esteve com uma mulher durante um tempo, essa circunstncia pode afetar a seu rendimento. Mas no deveria 
preocupar-se por isso, j que no tenho nada com o que compar-lo.
      -Grande sorte para mim! Ou o seria se eu te desejasse.
      Moira elevou a cabea e a nica coisa que ele pde ver em seu rosto foi curiosidade e confiana.
     -Acha que me insultando conseguir que v embora. Aposto-me o que queira a que neste momento est duro como uma pedra. -aproximou-se dele.- Desejo tanto que 
me toque, Cian. Estou cansada de sonhar com isso e quero senti-lo.
     A terra se estava desmoronando sob seus ps. E o tinha estado fazendo, ele sabia, desde que ela tinha posto o p em seu quarto.
     -No sabe o que est pedindo, o que est arriscando. As conseqncias desse ato lhe escapam.
     -Um vampiro pode deitar-se com um humano. No me far mal.
     Moira elevou os braos, passou a corrente da cruz por cima de sua cabea e a deixou sobre a mesa.
     -Alma cndida.
     Cian tentou ser sarcstico, mas o gesto de Moira o tinha comovido.
     -Confiante. No necessito nem quero um escudo contra ti. Por que alguma vez pronuncia meu nome?
     -O que?  obvio que o fao.
     -No, no o faz. Dirige-te a mim, mas nunca me olha nem diz meu nome. -Seus olhos tinham agora a cor da fumaa e estavam cheios de sabedoria.- Os nomes tm 
poder, tomado ou concedido. Acaso teme o que eu poderia te tirar?
     -No h nada que possa tomar.
     -Ento, diga meu nome.
     -Moira.
     -Outra vez, por favor.
     Ela lhe agarrou uma mo e a apoiou no corao.
     -No faa isto.
     - Cian. Esse  seu nome pronunciado por mim. Cian. Acredito que se no me tocar, se no me tomar, uma parte de mim morrer antes de entrar em batalha. Por favor. 
-Emoldurou o rosto dele com suas mos e viu, finalmente, o que precisava ver em seus olhos.- Diga meu nome.
     -Moira. -Perdido, agarrou-lhe a munheca e lhe beijou a palma da mo.- Moira. Se no estivesse j condenado, isto me enviaria diretamente ao inferno.
     -Eu tratarei de te levar primeiro ao cu, se me ensinar como faz-lo.
     Ficou nas pontas dos ps e o atraiu para ela. Tremeu quando os lbios de Cian se uniram aos seus.
     
     CAPTULO 10
      
      
     
      Ele tinha acreditado que sua vontade poderia impedir aquilo. Mil anos, pensou, e se afundou nela; e o macho seguia enganando-se ao acreditar que podia controlar 
 fmea.
      Era ela quem o guiava e, a sua maneira, tinha-o estado fazendo do primeiro instante. Agora tomaria o que lhe oferecia, o que estava exigindo dele, no importava 
quo egosta fosse o ato. Mas empregaria a experincia de uma dzia de vidas para lhe dar em troca o que ela desejava.
      -s imprudente e nscia ao entregar sua inocncia a algum como eu. -Deslizou brandamente um dedo por sua clavcula.- Mas agora no te partir at que o tenha 
feito.
      -A virgindade e a inocncia no so sempre o mesmo. Eu perdi minha inocncia antes de te conhecer.
      A noite em que sua me tinha sido assassinada, pensou. Mas as lembranas daquele momento no eram para essa noite.
     Essa noite era para conhec-lo.
     -Deveria me despir para ti ou isso  algo que deve fazer voc?
     Ele emitiu uma risada breve e quase enferma antes de apoiar a testa sobre a dela em um gesto que a Moira pareceu surpreendentemente tenro.
     -No h pressa -murmurou ele.- Algumas coisas, especialmente na primeira vez em que so provadas,  melhor as saborear e no trag-las de um bocado.
     -V? J aprendi algo. Quando me beija, h coisas que despertam dentro de mim. Coisas que eu ignorava que estivessem dormindo a. No sei o que  que sente voc.
     -Mais do que eu gostaria. -Afundou os dedos em seu cabelo, como tinha estado desejando fazer desde fazia semanas.- Mais do que seria bom para qualquer dos dois. 
Isto... -beijou-a brandamente-  um engano. -E voltou a beij-la, agora mais profundamente.
     Assim como acontecia com seu aroma, ela tinha sabor da primavera, a sol brilhante e a juventude. Cian ansiava por esse sabor, encheu-se dele e de seu flego 
entrecortado enquanto roava brandamente com os dentes seu lbio inferior.
     Deixou que suas mos se afundassem entre seus cabelos, na larga e sedosa juba, e acariciando-a por debaixo desta para despertar seus nervos ao longo da coluna 
vertebral.
     Quando Moira comeou a tremer, apoiou-lhe as mos nos ombros para que a bata se deslizasse para baixo e despir assim para seus lbios aquela pele to suave. 
Ele podia sentir a entrega nela, o mesmo que seu estremecimento, e quando sua boca lhe percorreu a garganta, o excitante batimento do corao do sangue sob a pele.
     Moira no se sobressaltou quando seus dentes a roaram, mas ficou rgida quando lhe acariciou um peito.
     Ningum a havia tocado jamais de um modo to ntimo. A onda de calor provocado por suas mos foi um choque para ela, como o fato de saber que entre a palma 
dele e sua pele s havia uma magra capa de tecido.
     Logo tambm isso desapareceu, e a bata de noite caiu ao redor dos seus ps. Sua mo se elevou instintivamente para cobrir-se, mas ele a agarrou e lhe passou 
brandamente os dentes pela munheca enquanto a olhava fixamente.
     -Tem medo?
     -Um pouco.
     -No te morderei.
     -No, no disso. -Girou a mo que ele sustentava para cobrir com a palma a bochecha de Cian.- Dentro de mim esto ocorrendo tantas coisas. Tantas coisas novas. 
Ningum me h tocado nunca desta maneira. -Fazendo proviso de todo seu valor, agarrou a outra mo dele e a levou a peito.- Me mostre mais.
      Ele passou a gema do polegar sobre o mamilo e observou a comoo de prazer que se refletia no rosto dela.
      -Apaga de uma vez essa mente buliosa, Moira.
      Mas era como se um manto de nvoa houvesse coberto j sua mente. Como podia pensar quando seu corpo estava nadando em meio de sensaes to novas?
      Ele a elevou do cho de modo que, de repente, sua cara ficou ao mesmo nvel que a de Cian. Logo sua boca a inundou novamente na onda de calor.
      A cama estava debaixo dela? Tinha cruzado ele a habitao? Como o havia... mas sua mente voltou a nublar-se enquanto as mos e a boca de Cian percorriam seu 
corpo como veludo ardente.
     Ela era um festim e ele tinha jejuado muito. Mas mesmo assim a degustou lentamente, atrasando-se nos sabores e texturas. E com cada estremecimento, com cada 
gemido ou ofego, ela alimentava a excitao de Cian.
     Quando suas mos curiosas chegaram muito perto de romper o controle de Cian, ele as agarrou entre as suas, sujeitando-lhe ao tempo que assolava seus seios lentamente, 
sem piedade.
     Ela se estava transformando debaixo dele; Cian podia sentir como o poder a enchia cada vez com mais fora, com maior plenitude. E quando ele a levou ao topo 
do prazer, Moira arqueou o corpo, acompanhando-o de um grito afogado.
     Pareceu derreter-se, e suas mos ficaram flcidas debaixo das dele.
     -Oh -disse com uma prolongada expulso de flego.- Oh, entendo.
     -Voc acha que entende.
     A lngua de Cian percorreu o potente batimento do pulso em sua garganta e, enquanto Moira gemia, deslizou-lhe a mo entre as pernas e, penetrando nesse calor 
mido, ensinou-lhe mais.
     Tudo se encheu de luz. O resplendor a cegava, quase lhe queimava os olhos, a pele, o corao. Agora ela era s sensao, uma multido de prazeres alm de qualquer 
possibilidade. Era a flecha do arco e ele a tinha disparado para cima em um vo interminvel.
      Suas mos a dominavam at convert-la em refm dessa necessidade sem fim. Meio enlouquecida, lutou com a camisa dele.
      -Necessito... quero...
      -Eu sei.
      Cian tirou a camisa para que ela, a sua vez, pudesse toc-lo e sabore-lo. E se deixou levar pelo prazer que lhe produziam suas ansiosas exploraes. O flego 
dela sobre sua pele, quente e agitado, os dedos percorrendo e acariciando. Quando as mos de Moira chegaram a seus quadris, permitiu que o ajudasse a tirar o resto 
da roupa.
      E no estava seguro de devia sentir-se divertido ou adulado quando ela arregalou os olhos.
      -Eu... eu no sabia. Tinha visto um pnis antes, mas...
      Agora ele ps-se a rir.
      -Oh, viu-o?
      - obvio. Os homens se banham no rio e, bom, sentia curiosidade...
      -Espiava-os. O orgulho de um homem no se encontra em seu, digamos, esplendor depois de um banho nas frias guas de um rio. No te farei mal.
      Mas ele teria que fazer-lhe, no? Pensou. Ela tinha lido a respeito dessas coisas e, alm disso, tinha ouvido as mulheres falarem disso. Entretanto no lhe 
temia  dor. J no temia a nada.
      De modo que voltou a estender-se e o abraou. Mas ele comeou a toc-la outra vez, a excit-la de novo, a desat-la como se fosse um n em uma corda.
      Queria que estivesse empapada, embriagada, alm dos pensamentos e dos nervos. Aquele corpo tenso e magro que ela tinha endurecido antecipadamente, voltou a 
afrouxar-se. Uma vez mais quente e relaxado, com essa ertica corrente de sangue que bulia sob sua pele.
     -Me olhe. Moira mo chroi5. Me olhe. Olhe dentro de mim.
     Aquilo era algo que ele podia fazer, com vontade e controle. Ele podia lhe fazer mais fcil o momento, mitigar a rajada de dor e lhe proporcionar s prazer. 
Quando aqueles grandes olhos cinzas se empanaram, ele a penetrou. Encheu-a.
     Os lbios da Moira tremeram e o gemido que emitiram foi rouco e profundo. Cian a manteve capturada em seus olhos enquanto comeava a mover-se em seu interior 
com investidas profundas e lentas que fizeram que a excitao percorresse o rosto e o corpo dela.
     Inclusive quando ele a libertou de sua sujeio, quando ela comeou a mover-se com ele por sua conta, seus olhos continuaram fixos nos de Cian. O corao de 
Moira pulsava furiosamente, um tambor selvagem golpeando em seu peito, algo to vital que, por um momento, pareceu que pulsava dentro dele.
     Moira gozou com um grito de admirao e abandono. Ao fim, ele permitiu que sua prpria necessidade se liberasse nela.
     Ela se aconchegou contra ele como uma gata que tivesse comido at a ltima gota de nata. Cian estava seguro de que, mais tarde, amaldioaria-se pelo que acabava 
de fazer, mas no momento estava contente de pod-lo desfrutar.
     -No sabia que pudesse ser assim -murmurou ela.- To enorme.
     -Ao estar to bem dotado, poderia te haver arruinado para qualquer um outro homem.
     -No me referia ao tamanho de seu orgulho, como o chamaste.-ps-se a rir e pelo sorriso indolente dele, compreendeu que tinha entendido perfeitamente o que 
havia dito.- Tenho lido sobre o ato,  obvio. Livros de medicina, livros de contos. Mas a experincia pessoal  muito mais satisfatria.
     -Sinto-me feliz de ter contribudo para sua investigao.
     Moira rodou na cama at colocar seu corpo em cima do dele.
     -Estou pensando que precisarei fazer uma investigao muito mais exaustiva antes de aprender tudo o que ter que saber. Estou vida de conhecimentos.
     -Mas que droga, Moira -disse ele com um suspiro enquanto jogava com sua larga cabeleira.- s perfeita.
     -Sou? -Suas bochechas j brilhantes se ruborizaram de prazer-No lhe discutirei isso porque neste momento me sinto perfeita. Embora bastante sedenta. Tem um 
pouco de gua por aqui?
      Ele a afastou brandamente e logo se levantou para procurar a jarra. Moira se sentou na cama enquanto Cian servia a gua e seu cabelo escorregou sobre seus 
ombros e seus peitos. Ele pensou que, se tivesse um corao que pulsasse, v-la tal como a estava vendo nesses momentos poderia det-lo.
      Estendeu-lhe o copo e logo se sentou frente a ela na cama.
      -Isto  uma loucura e voc sabe.
      -O mundo se tornou louco -respondeu Moira.- Por que no poderamos s-lo ns um pouco? No estou sendo imprudente ou despreocupada -acrescentou rapidamente, 
apoiando uma mo sobre a dele-Tenho que fazer tantas coisas, Cian, tantas coisas obrigatoriamente. Esta foi minha escolha. Minha prpria escolha.
      Bebeu um pouco de gua e lhe passou o copo para compartilh-la com ele.
      -Lamentar ter feito algo que nos deu prazer e que no tem feito mal a ningum?
      -Pensaste no que pensaro de ti por ter compartilhado a cama comigo?
      -Ter que te ouvir, preocupando-se por minha reputao. Eu sou proprietria de mim mesma e no preciso explicar a ningum com quem compartilho a cama.
      -Sendo a rainha...
      -Isso no me faz menos mulher -o interrompeu Moira.- Uma mulher de Geall, e somos conhecidas por tomar nossas prprias decises. Esta mesma noite se encarregaram 
de me recordar isso.
     Moira se levantou e agarrou a bata para cobrir-se.
      Ele pensou que era como se cobrisse-se com nvoa.
      -Uma de minhas damas de companhia, Ceara, sabe de quem falo?
     -Ah, alta, cabelo loiro escuro.  a mulher que te derrubou no combate corpo a corpo.
     -Exatamente. Mataram seu irmo hoje na marcha. Era muito jovem, nem sequer tinha dezoito anos. -Isso voltou a lhe machucar o corao.- Fui  sala onde se renem 
minhas damas e a encontrei ali, quando teria que lhe haver dado permisso para que estivesse com sua famlia.
     -Ela  leal e pensa em seu dever para contigo.
     -No s para comigo. Perguntou-me se eu lhe concederia uma coisa em nome de seu irmo. Uma coisa. -A emoo tremeu em sua voz antes que pudesse cont-la.- E 
era partir amanh pela manh junto a seu marido. Deixar isto, a seus filhos, a segurana, e enfrentar-se aos perigos que pudessem espreit-la no caminho. E no  
a nica mulher que o tem feito. No somos dbeis. No nos sentamos e esperamos, ou no queremos seguir fazendo-o. Recordaram-me isso esta noite.
     -Permitir que parta?
     -A ela e a qualquer outra mulher que o deseje. Afinal, algumas das que possivelmente no queiram ir tambm devero faz-lo. No vim a ver-te porque seja dbil, 
porque necessitasse consolo ou proteo. Vim porque queria a ti. Queria isto. -Levantou a cabea e, com um leve sorriso, deixou cair a bata.- E agora parece que 
te desejo outra vez. Preciso te seduzir?
     - muito tarde para isso.
     O sorriso de Moira se fez mais amplo enquanto se aproximava da cama.
     -Ouvi dizer, e tenho lido, que um homem necessita um pouco de tempo entre um assalto e outro.
     -Obriga-me a me repetir: eu no sou um homem.
     Agarrou-a pela mo, lanou-a em cima da cama... e debaixo dele.
     Ela se ps-se a rir e lhe puxou o cabelo com um gesto divertido.
     -Isto  algo que resulta muito til, dadas as circunstncias.
     Mais tarde, pela primeira vez em muito tempo para poder record-lo, Cian no dormiu em silncio, e sim acompanhado pelo ritmo sereno do corao de Moira.
     E foi esse corao o que o despertou. Ouviu o batimento sbito e acelerado inclusive antes que ela se agitasse violentamente no meio do sono.
     Amaldioou ao recordar s ento que ela no levava posta a cruz, e que ele tampouco tinha adotado nenhuma das precaues de Glenna contra a intruso de Lilith.
     -Moira. -Agarrou-a pelos ombros e a levantou.- Acorda.
     Estava a ponto de sacudi-la para que o fizesse quando seus olhos se abriram de repente. Em lugar da expresso de medo que Cian esperava encontrar em seu olhar, 
viu aflio.
     -Era um sonho -disse ele com cautela.- S um sonho. Lilith no pode te tocar em sonhos.
     -No era Lilith. Lamento te haver despertado.
     -Ests tremendo. Toma. -Agarrou uma das mantas e lhe cobriu os ombros.- Reacenderei o fogo.
     -No  necessrio. No se preocupe -disse Moira quando ele se levantou.- Deveria ir. No falta muito para que amanhea.
     Entretanto, ele se agachou e colocou umas partes de turfa na lareira.
     -No confia em mim para me contar isso. 
     -No  isso. No o . -Deveria haver-se levantado e haver-se ido assim que despertou. Porque agora sentia como se no pudesse mover-se.- No era Lilith, s 
era um mau sonho. S...
     Mas sua respirao comeou a agitar-se.
     Em lugar de ir para ela, Cian acendeu a turfa e logo percorreu a habitao acendendo as velas.
     -No posso falar disso. No posso.
     - obvio que pode. Possivelmente no comigo, mas sim com Glenna. Irei despert-la.
     -No. No. No.
     Moira se cobriu o rosto com as mos.
     -J vejo. -Posto que estava levantado, e que provavelmente j no pudesse seguir dormindo, serviu-se uma jarra de sangue.- As mulheres de Geall no so dbeis.
     Moira baixou as mos e os olhos que tinha estado ocultando brilharam com o insulto.
     -Maldito bastardo.
     -Exatamente isso. Retorna correndo a sua habitao se no for capaz de te enfrentar a isso. Mas se fica, deve te liberar de algo que esteja atada em seu interior. 
Voc decide. -Agarrou uma cadeira.-  boa para as escolhas, de modo que toma uma.
     -Quer ouvir minha dor, minha aflio? Por que no lhe explicar isso ento? Possivelmente para ti no tenha muita importncia. Estava sonhando, como o fao uma 
e outra vez, com o assassinato de minha me. E, cada vez, o sonho  mais claro que o anterior. A princpio tudo era plido e confuso, como se estivesse olhando atravs 
de uma mancha de lodo. Resultava mais fcil de agentar.
     -E agora?
     -Agora pude v-lo.
     -E o que  que viu?
     -Estava dormindo. -Seus olhos estavam muito abertos e cheios de dor.- Tnhamos jantado e estavam meu tio, Larkin e o resto da famlia. Uma pequena festa familiar. 
Minha me desfrutava-as celebrando vrias vezes ao ano. Depois houve msica e baile. A ela, a minha me, adorava danar. Quando fomos  cama j era muito tarde, 
e eu fiquei dormida assim que apoiei a cabea no travesseiro. Ento a ouvi gritar.
     -Ningum mais a ouviu?
     Moira meneou a cabea.
     -No. Ela no gritou. No em voz alta. No acredito que minha me gritasse em voz alta. O fez dentro de sua cabea e eu pude ouvir esse grito na minha. Uma 
vez. S uma vez. Pensei que o tinha imaginado, no podia ser de outra maneira. Mas de todos os modos me levantei e fui ao seu quarto. S para me tranqilizar.
     Podia ver a cena como se fosse ento. No se tinha incomodado em agarrar uma vela porque seu corao pulsava depressa e ressonava em seu peito. Simplesmente 
tinha abandonado sua habitao e deslocado para a porta de sua me.
     -No chamei. Ia dizendo a mim mesma que no a despertaria. S me deslizar em seu quarto e comprovar que estava dormindo. Mas quando abri a porta, minha me 
no estava em sua cama, no estava dormindo. Ento ouvi uns sons horrveis. Como animais, como lobos mas pior. Oh, muito pior.
     Fez uma pausa, tratou de fazer passar saliva atravs de sua garganta seca.
     -As portas do terrao estavam abertas e as cortinas se moviam ao impulso da brisa. Chamei-a. Queria correr para as portas do balco, mas no pude. Sentia as 
pernas como se fossem de chumbo. Nem era capaz de pr um p diante do outro. No, no posso seguir.
     -Sim pode. Foi at as portas, as portas do terrao.
     -E vi... Oh, Deus, Oh, Deus, Oh, Deus. Vi-a estendida no cho. E o sangue, tanto sangue. Essas coisas estavam... vou vomitar.
     -No o far. -Cian se levantou e se aproximou dela.- No vomitar.
     -Essas coisas a estavam despedaando. -E as palavras saram bruscamente de sua boca.- Estavam rasgando seu corpo. Eram demnios, coisas sadas de um pesadelo, 
despedaando a minha me. Queria gritar, mas no podia. Queria me equilibrar sobre eles e lhes jogar dali. Um deles me olhou. Tinha os olhos vermelhos e a cara coberta 
com o sangue de minha me. Lanou-se contra a porta e eu retrocedi. Afastei-me dela quando teria que ter deslocado a seu lado.
     -Sua me estava morta, Moira, e voc sabia. Se tivesse atravessado essas portas, lhe teriam matado.
     -Deveria ter ido para ela. Essa coisa saltou e eu gritei e gritei e gritei. Inclusive quando esse monstro caiu para trs como se tivesse se chocado contra uma 
parede, eu segui gritando. Logo tudo se voltou negro. A nica coisa que fiz foi gritar enquanto minha me jazia no cho, sangrando.
     -Voc no  estpida -disse Cian.- Voc sabe que estava emocionada. Sabe que o que viu era como ter recebido um terrvel golpe fsico. Nada do que pudesse ter 
feito teria salvado a sua me.
     -Como pude deix-la ali, Cian? Simplesmente deix-la ali. -As lgrimas brotaram de seus olhos e rodaram por suas bochechas.- A amava mais que a ningum no mundo.
     -Ocorreu porque sua mente no podia aceitar o que viam seus olhos, aquilo que para ti era impossvel. Antes que voc entrasse em sua habitao, ela j estava 
morta. Sua me estava morta, Moira, do momento em que ouviu seu grito em sua cabea.
     -Como pode estar to seguro? Se...
     -Eram assassinos. Deveram mat-la imediatamente. O que veio depois s foi complacncia, mas a morte era o objetivo.
     Agora Cian agarrou suas mos entre as suas para esquentar-lhe.
     -Deve ter sido apenas um momento para sentir medo, para sentir a dor. Quanto ao resto, ela j estava mais  frente do resto.
     Moira ficou imvel e o olhou fixamente aos olhos.
     -Poderia me jurar que acha isso?
     -No  questo do que o ache ou no o ache,  que sei. Lhe posso jurar isso. Se sua inteno tivesse sido tortur-la, a teriam levado a alguma parte e levariam 
seu tempo para faz-lo. O que voc viu foi uma forma de encobrimento. Animais selvagens haveriam dito. O mesmo que aconteceu com seu pai.
      Moira deixou escapar o ar ao compreender a horrvel lgica que havia nas palavras de Cian.
     -Punha-me doente s de pensar que minha me poderia ter estado viva quando cheguei ali. Ainda com vida enquanto aqueles dois monstros a despedaavam. Agora, 
de algum jeito, resulta-me mais fcil saber que no o estava.
     Moira se enxugou uma lgrima.
     -Lamento te haver chamado de bastardo.
     -Eu te tenho feito zangar.
     -Com total determinao. Antes desta noite no tinha falado com ningum de tudo isto. No era capaz de tir-lo pra fora e falar disso.
     -Agora o tem feito.
     -Talvez agora que o tenho feito, j no a veja mais como a vi aquela noite. Possivelmente consiga v-la como quando estava viva e era feliz. Todas essas imagens 
que tenho dela, em lugar de s a ltima. Abraaria-me um momento?
     Cian se sentou, rodeou-a com o brao e quando ela apoiou a cabea sobre seu ombro lhe acariciou o cabelo.
     -Sinto-me melhor agora que lhe contei isso. Foste muito amvel ao fazer que me zangasse para que falasse.
     -Quando quiser.
     -Eu gostaria de poder ficar aqui, sentada em silncio e na escurido. Ficar contigo. Mas devo voltar para meu quarto e trocar de roupa. Devo ver as tropas quando 
empreenderem a marcha ao amanhecer. -Moira elevou a cabea.- Me d um beijo de bom dia?
     Cian uniu seus lbios aos dela e prolongou o beijo at que sentiu uma pontada no estmago.
     Ela abriu uns olhos sonolentos.
     -Pude senti-lo at as plantas dos ps. Espero que isso signifique que hoje caminharei mais leve.
     Levantou-se e agarrou sua roupa.
     -Pode sentir falta de mim nas prximas horas -disse ela.- Ou, em todo caso, mentir quando voltar a ver-te, e me dizer que assim foi.
     -Se te disser que senti falta de ti no ser uma mentira.
     Moira, j com a bata posta, agarrou o rosto de Cian entre suas mos para um novo beijo.
     -Ento, conformarei-me com algo que seja a verdade.
     Logo agarrou sua vela e se dirigiu  porta. Depois de lhe oferecer um ltimo sorriso por cima do ombro, correu o ferrolho.
     E abriu a porta um segundo antes que Larkin golpeasse para chamar.
     -Moira?
     Seu sorriso foi breve e desconcertado ao encontr-la ali. E se esfumou por completo quando viu a cama revolta e a Cian que se envolvia a cintura com uma manta.
     Com um ataque de fria selvagem fez com que Moira se separasse de seu caminho e atacou a Cian.
     Este no se incomodou em parar o golpe, e o recebeu em pleno rosto. Deteve o segundo punho uns centmetros antes que voltasse a impactar em seu rosto.
     -Tens direito a um, mas no mais.
     -Ele no tem direito a nada disso. -Moira teve a presena de nimo necessria para fechar a porta e correr novamente o ferrolho.- Se voltar a lhe golpear, Larkin, 
eu mesma te chutarei o traseiro.
     -Fodido safado. Responder por isso.
     -Disso no cabe dvida. Mas no diante de ti.
     -Ser diante de mim, prometo-lhe isso.
     Quando Larkin voltou a fechar os punhos, Moira teve que reprimir o impulso de lhe golpear com um candelabro.
     -Lorde Larkin, como sua rainha, ordeno-lhe que retrocedas.
     -Oh, no coloque o cargo neste assunto -disse Cian.- Deixa que o moo trate de defender a honra de sua prima.
      -Deixarei-te fodidamente inconsciente.
      Moira, com a pacincia esgotada, interps-se entre ambos.
      -Me olhe. Maldito seja seu duro crnio, Larkin, me olhe. Em que quarto estamos?
      -No quarto do fodido safado.
      -E acha que ele me arrastou at aqui agarrada pelo cabelo para me forar? Um bronco, isso  o que . Eu vim aqui e bati na porta de Cian. Meti-me em seu quarto 
e em sua cama porque era o que eu queria.
      -No sabe o que est...
      -Se te atrever, se te atrever a me dizer que no sei o que quero, serei eu quem deixe a ti fodidamente inconsciente. -Golpeou-lhe o peito com um dedo para 
enfatizar suas palavras.- Tenho direito a minha vida privada, e voc no tem voz nela.
      -Mas ele... voc. No  correto.
      -Tolices.
      -No  de se estranhar que seu primo se oponha a que te deite com um vampiro. - Cian se afastou deles e voltou a agarrar sua taa. Introduziu deliberadamente 
um dedo no sangue e logo o chupou.- Oh, um hbito detestvel.
      -No permitirei que... -comeou Moira.
      -Espera. -Larkin interrompeu a irada corrente de palavras de Moira.- Um momento. Eu gostaria de falar com Cian em particular. S falar -acrescentou antes que 
sua prima abrisse de novo a boca.- Te dou minha palavra.
      Ela passou a mo pelo cabelo.
     -No tenho tempo para nenhum de vocs e esta tolice. Se comportem como homens e discutam sobre o que no  de sua incumbncia como se eu fosse tola. Por minha 
parte, vou vestir-me; tenho que me despedir dos soldados que partem hoje.
     Moira foi para a porta.
     -Confio em que no se matem um ao outro por minhas relaes privadas.
     Logo abandonou a habitao com uma sonora portada.
     -Date pressa -disse Cian.- Me sinto subitamente cansado dos humanos.
     O pior do mau humor de Larkin tinha desaparecido de seu rosto.
     -Voc achas que te peguei, que estou zangado contigo pelo que . Mas eu teria tido a mesma reao e feito exatamente o mesmo com qualquer homem a quem tivesse 
encontrado com Moira desta maneira. Ela  minha garota, depois de tudo. Embora no pudesse ser para mim o que eu queria, j que de todos os modos eu no tinha pensado 
em nada concreto.
     Deixou escapar o ar enquanto mudava o peso do corpo de um p a outro.
     -E agora que o penso, isso acrescenta uma nova e complicada capa a tudo isto. Mas no quero que aches que te golpeei porque  um vampiro. O fato  que no penso 
em ti desse modo, bom, a menos que pense nisso. Para mim  um amigo. Voc  um de ns seis. -Enquanto falava, sua voz voltou a tingir-se de ira.- Mas lhe digo isso 
claramente, aqui e agora, o que quer que estivesse pensando ao te aproveitar de minha prima, no tem nada a ver com que tenha ou no um fodido corao.
     Cian esperou um momento antes de falar.
     -Acabaste j com essa parte do discurso?
     -Sim, at que tenha uma resposta.
     Cian assentiu, sentou-se e agarrou novamente sua taa.
     -Puseste-me em um dilema, no acha? Ao dizer que sou seu amigo e um dos seus. Posso ser a primeira coisa, mas nunca serei a segunda.
      -Tolices. Essa  uma forma de evitar a questo. Confiava em ti tanto como nos outros. E agora voc seduziste a minha prima.
      Cian ps-se a rir.
      -Parece-me que no concede a sua prima suficiente mrito. Esse foi tambm meu engano. - Cian passou um dedo pela cinta de couro que lhe tinha dado Moira.- 
Ela me desfiou como se eu fosse um novelo de l. Certamente, isso no me desculpa de no lhe haver dito que partisse do quarto, mas Moira  uma mulher persuasiva 
e obcecada. No pude... no resisti.
      Jogou uma olhada aos mapas que tinha ignorado desde que Moira bateu na porta.
      -Mas isso no ser um problema, porque penso partir esta mesma noite. Mais cedo inclusive se o tempo o permitir. Quero inspecionar pessoalmente o campo de 
batalha. De modo que Moira est a salvo de mim, e eu dela, at que tudo isto tenha acabado.
      -No pode faz-lo. No pode faz-lo -repetiu Larkin enquanto Cian se limitava a elevar uma sobrancelha.- Se partir deste modo, Moira pensar que ela foi a 
causa. Far-lhe mal. Se eu for o responsvel por que tenha decidido ir...
     -J o tinha decidido antes que Moira viesse ao meu quarto. Em parte porque esperava me manter afastado dela.
     Obviamente frustrado, Larkin passou as mos pelo cabelo.
     -J que no foste o bastante rpido para que isso no ocorresse, agora ter que esperar. Eu te levarei at o campo de batalha, pelo ar, dentro de uns dias ou 
quando puder. Mas os seis devem permanecer unidos. -Larkin, agora mais tranqilo, estudou o rosto de Cian.-  preciso que sigamos sendo um crculo. Isto  muito 
maior que o fato de deitar-se ou no com algum. Isso, agora que meu sangue se esfriou,  algo que compete somente a vocs dois. No me corresponde interferir. Mas 
maldita seja -continuou- vou te pedir uma coisa. Vou te perguntar isso como amigo e como seu familiar de sangue representando a seu pai. Tem sentimentos por ela? 
Sentimentos autnticos?
     -Joga a carta da amizade habilmente, no achas?
     -Voc  meu amigo, preocupo-me contigo como o faria por um irmo. Essa  a verdade.
     -Mas que droga. - Cian deixou com fora a taa sobre a mesa e logo franziu o cenho ante as gotas de sangue que tinham salpicado os mapas.- Vocs os humanos 
me curvam com os sentimentos. Empurram-os para mim e dentro de mim sem pensar por um momento como posso sobreviver a eles.
     -Como pode sobreviver sem eles? -perguntou Larkin a sua vez.
     -Com toda comodidade. Que diferena pode supor para ti o que eu sinta? Ela necessitava de algum.
     -De algum no. A ti.
     -Esse  seu engano -replicou Cian tranqilamente.- E minha condenao. A amo, de outro modo a teria tomado antes s por diverso. A amo, se no, a teria jogado 
de meu quarto ontem  noite. Como? No estou seguro, mas a amo, porque se no fosse assim, no me sentiria to fodidamente desesperado. E se contar a algum o que 
acabo de te dizer, amigo ou no amigo te arrancarei a cabea dos ombros.
     -De acordo. -Larkin assentiu, levantou-se e lhe tendeu a mo.- Espero que lhes faam mutuamente to felizes como so capazes, durante todo o tempo em que possam 
faz-lo.
     -Est bem. - Cian lhe estreitou a mo.- E que demnios est fazendo aqui a estas horas?
     -Oh, tinha-o esquecido por completo. Pensava que ainda no te teria deitado. Queria te perguntar se permitiria que ns, minha famlia, cruzssemos a seu cavalo 
com uma de nossas guas. Est no cio, e seu Vlad seria uma boa escolha.
     -Quer usar a meu cavalo como semental?
     -Sim, eu gostaria de faz-lo, se no representar um problema para ti. Ordenaria que trouxessem a gua esta manh.
     -V em frente. Estou seguro de que Vlad o desfrutar.
     -Agradeo-lhe isso. Pagaremos-lhe a tarifa habitual.
     -No. Nada de dinheiro. Consideraremos um gesto entre amigos.
     -Entre amigos ento. Obrigado. Agora irei ver a Moira e deixarei que me rompa a crisma como mereo. -Larkin se atrasou na porta.- Oh, a gua que tenho em mente 
para seu cavalo  encantadora.
     O sorriso breve, a piscada rpida de Larkin quando este partiu do quarto, fizeram que Cian pusesse-se a rir apesar da confuso dessa manh.
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 11
      
      
     
     Seguindo ordens de Moira, as bandeiras ondearam a meia haste e os gaiteiros tocaram um rquiem  luz do amanhecer. Ela faria mais, se os deuses o queriam, por 
todos aqueles que tinham entregado suas vidas naquela guerra. Mas no momento isso era tudo o que se podia fazer em reconhecimento dos mortos.
     De p no meio do ptio, sentia-se rasgada entre a aflio e o orgulho enquanto observava aos homens e mulheres -os guerreiros- que se preparavam para empreender 
a larga marcha para o oeste. Ela j se despediu de suas damas de companhia, e de Phelan, o marido de sua prima.
     -Majestade. -Niall, o corpulento guarda que agora era um de seus fiis capites, quadrou-se diante dela.- Ordeno que abram as portas?
     -Espera um momento. Sei que desejaria partir hoje.
     -Eu lhe sirvo com complacncia, minha senhora.
     -Seus desejos lhe pertencem, Niall, e os entendo. Mas te necessito aqui um pouco mais. Logo chegar o momento em que voc tambm devas partir. -Esse momento 
chegaria para todos eles, pensou.- Como esto seu irmo e sua famlia?
     -A salvo, graas ao lorde Larkin e a senhora Blair. Embora a perna de meu irmo est curando bem, no poder combater de p.
     -Nesta guerra haver mais coisas a fazer alm de usar uma espada no campo de batalha.
     -Sim. -Sua mo aferrou o punho da espada que lhe pendurava do flanco.- Mas eu estou preparado para usar a minha.
      Moira assentiu.
      -A usar. -Deixou escapar o ar.- Abram as portas.
      Pela segunda vez, contemplou a sua gente abandonar a segurana que lhes brindava o castelo. Seria uma cena repetida, sabia, at que ela tambm atravessasse 
essas portas, deixando para trs aos muito velhos, os muito jovens, os doentes e os invlidos.
      - um dia luminoso -disse Larkin a seu lado.- Devero poder chegar  primeira base sem contratempos.
      Moira no disse nada e desviou o olhar para onde se encontrava Sinann, com um filho nos braos, outro dentro de seu ventre e a um mais pego de suas saias.
      -Sinann no chora -comentou Moira.
      -Ela nunca se despediria de Phelan com lgrimas nos olhos.
      -E, entretanto, as lgrimas devem ser como uma inundao dentro dela, mas nem sequer neste momento permitir que seus filhos a vejam chorar. Se a coragem do 
corao for uma arma, Larkin, varreremos a nossos inimigos.
      Quando ela se voltou para partir, Larkin caminhou ao seu lado.
     -Eu gostaria de falar contigo antes -disse ele.- Ou depois.
     -Antes da cerimnia -agora sua voz era fria como a manh-, ou depois de que invadisse minha vida privada?
     -Eu no invadi sua vida privada. Estava simplesmente ali, no que resultou ser um momento muito incmodo para todos ns. Cian e eu resolvemos a questo entre 
ns.
     -Oh, resolveram? -Suas sobrancelhas se elevaram enquanto o olhava fixamente.- No me surpreende, j que os homens sempre resolvem as questes entre eles de 
um modo ou outro.
     -No empregue esse tom superior comigo. -Agarrou-a pelo brao e a levou por volta de um dos jardins, onde poderiam ter maior privacidade.- Como, pergunto-te, 
esperava que reagisse quando vi que te tinha deitado com ele?
     -Suponho que tivesse sido muito pedir que tivesse sido o bastante corts para te desculpar e partir do quarto.
     -Isso  fodidamente certo. Quando penso que um homem de uma fodida e quase eterna experincia te seduz...
     -Foi justamente o contrrio. Completamente.
     Larkin se ruborizou, coou-se a cabea e caminhou em crculos com evidente frustrao.
     -No quero saber os detalhes, se no te importar. J me desculpei com Cian.
     -E o que acontece comigo?
     -O que quer que faa, Moira? Eu te amo.
     -Espero que entenda que sou uma mulher adulta e capaz de tomar minhas prprias decises quanto a ter um amante. No te sobressalte ao escutar essa palavra -disse 
ela com impacincia.- Posso governar, posso lutar, posso morrer se for necessrio, mas sua sensibilidade se sente ferida ante a idia de que possa ter um amante?
     Larkin o pensou.
     -Sim. Mas minha sensibilidade conseguir super-lo. Eu s quero, mais que qualquer outra coisa, no ver-te nunca ferida. Nem na batalha, nem nas questes do 
corao.  isso suficiente?
     Moira aplacou sua ira e seu corao se serenou, como sempre lhe acontecia com seu primo.
     -Deve s-lo, j que eu quero o mesmo para ti. Larkin, voc diria que tenho uma mente boa e forte?
     -Eu diria que h momentos nos quais tem muito de ambas as coisas.
     -Pois em minha mente, eu sei que no posso ter uma vida com Cian. Em minha cabea posso entender que o que tenho feito, um dia me trar aflio, dor e tristeza. 
Mas em meu corao necessito o que agora posso ter com ele.
     Moira roou com os dedos as folhas de um arbusto florescido. As folhas cairiam, com a primeira geada, pensou. Muitas coisas cairiam ento.
     -Quando junto minha mente e meu corao eu sei, em ambos, que Cian e eu somos melhores pelo que nos damos um ao outro. Como pode amar e te afastar?
     -No sei.
     Moira voltou o olhar para o ptio onde as pessoas haviam voltado novamente a suas ocupaes, a sua rotina. A vida continuava, refletiu, casse o que casse. 
Eles se encarregariam de que a vida continuasse.
     -Sua irm viu a seu homem afastar-se dela, e sabe que poderia no voltar a v-lo vivo. Mas no chorou diante dele ou de seus filhos. Quando Sinann chora, faz 
a ss. So suas lgrimas as que derrama. E assim sero tambm as minhas quando tudo isto tenha acabado.
     -Far-me um favor?
     -Se puder...
     Larkin lhe tocou a bochecha.
     -Quando tiver lgrimas, te lembrar de que tenho um ombro para ti?
     Agora Moira sorriu.
     -Lembrarei.
     Quando se separaram, ela se dirigiu ao salo, onde encontrou a Blair e Glenna discutindo o programa para esse dia.
     -E Hoyt? -perguntou Moira enquanto se servia um pouco de ch.
     -Est concentrado em seu trabalho. Ontem fabricamos um monto de armas novas. -Glenna se esfregou os olhos cansados.- As encantaremos durante vinte e quatro 
horas do dia os sete dias da semana. E trabalharei com alguns dos que ficaro no castelo quando o resto de nos tenhamos partido. Precaues bsicas, aulas de defesa 
e ataque.
     -Ajudarei-te nisso. E voc, Blair?
     -Logo que Larkin acabe de brincar de alcoviteiro, vamos a...
     -Perdoa, o que h dito?
     -Tem uma gua que est no cio e lhe pediu permisso a Cian para que Vlad a cubra. E ela nem sequer vai poder desfrutar primeiro de um jantar e umas taas. Pensava 
que Larkin lhes havia dito isso.
     -No, tnhamos outros assuntos a tratar e certamente lhe passou por cima. De modo que Larkin utilizar o cavalo de Cian como semental. -Sorriu lentamente. Sim, 
a vida continuava.- Isso est muito bem. Forte e prometedor... e fodidamente ardiloso tambm; poderia estar iniciando uma brilhante linhagem. De modo que isso era 
o que estava tramando ao bater na porta da habitao de Cian antes do amanhecer.
      -Larkin pensou que se Cian lhe dava o visto bom, poderia... Espera um momento. -Blair levantou a mo.- Rebobinemos. Como sabe que Larkin bateu na porta de 
Cian antes do amanhecer?
      -Porque eu estava saindo do quarto quando Larkin chegou.
      Moira bebeu seu ch tranqilamente enquanto Blair olhava a Glenna e logo inchava as bochechas.
      -Perfeito.
      - que no pensam amaldioar e recriminar a Cian por ter seduzido a uma garota inocente? 
     Blair se passou a lngua pelos dentes.
     -Estava em seu quarto. No acredito que seja o estilo de Cian te atrair com enganos para que jogasse uma olhada a suas gravuras.
     Moira golpeou a mesa com a palma da mo e um gesto de satisfao.
     -Sim! Eu sabia que uma mulher demonstraria mais sentido comum... e um pouco mais de respeito por meus prprios ardis. E voc? -Olhou a Glenna arqueando as sobrancelhas.- 
No tem nada a dizer a respeito?
     -Ambos sairo feridos, mas isso  algo que os dois j sabem. De modo que direi que espero que sejam capazes de dar e tomar qualquer felicidade que se vos apresente 
enquanto possam faz-lo.
     -Obrigada.
     -Est bem? -perguntou Glenna.- Freqentemente, a primeira vez  difcil ou um tanto decepcionante.
     Agora Moira exibiu um amplo sorriso.
     -Foi bonito e emocionante, e melhor do que eu tinha imaginado. Nada do que tinha pensado se aproximava sequer  realidade desse momento.
     -J vejo, para ser bom nesse assunto, um cara necessita uns quantos sculos de prtica -especulou Blair.- Esperanoso. E Larkin entrou no quarto quando... deve 
ter ficado furioso.
     -Golpeou a Cian na cara, mas agora j o solucionaram. Como s sabem fazer os homens quando se demolem a golpes. Com o Larkin concordamos que minha escolha de 
um companheiro de cama  minha e continuamos com nossas coisas.
     Houve um momento de silncio enquanto as trs mulheres punham os olhos em branco.
     -Fica muito pouco tempo antes que abandonemos a segurana do castelo. E esperemos que muito tempo depois de Samhain para discutir a respeito de minhas preferncias.
     -Ento eu tambm seguirei com minhas coisas -disse Blair.- Larkin e eu, depois de um considervel aborrecimento por parte desta servidora, decidimos que sairemos 
dentro de um par de horas para ver se podemos conseguir a ajuda de alguns drages. Larkin ainda no est convencido da idia, mas aceitou a que o tentemos.
     -Se fosse possvel contar com eles, seria uma grande vantagem para ns. -Apoiando o queixo no punho, Moira deu voltas  idia em sua cabea.- Me ocorre que 
poderamos selecionar aqueles guerreiros que criamos que no sero to fortes no campo de batalha. Se forem capazes de montar os drages, teramos arqueiros no ar.
     -Flechas incendirias -acrescentou Blair.- No ser ruim que tenham uma pontaria excelente.
     -Sempre que no disparem  equipe de casa -disse Glenna.- No fica muito tempo para treinar, mas vale a pena tent-lo.
     -Fogo, sim -conveio Moira.-  uma arma muito poderosa e muito mais vinda do ar.  uma lstima que no possa encantar o sol na ponta de uma flecha, Glenna, desse 
isto modo estaria acabado.
     -Verei se posso fazer que Larkin se ponha em marcha. -Blair se levantou e duvidou um momento.- Sabem? Minha primeira vez foi aos dezessete anos. O cara tinha 
muita pressa e, ao acabar, deixou-me pensando: isso  tudo? H que reconhecer que  bom ter sido iniciada por algum que sabe o que est fazendo e tem estilo.
      -Sim, estou de acordo. -O sorriso de Moira foi lento e satisfeito.- No cabe dvida de que sim. 
     Notou como Blair e Glenna intercambiavam um olhar por cima de sua cabea, de modo que quando Blair abandonou a habitao, seguiu bebendo seu ch como se nada 
acontecia.
      -Voc o ama, Moira? -perguntou ao fim Glenna.
      -Acredito que h uma parte de mim, dentro de mim, que esteve esperando toda a vida sentir o que sinto por ele. O que minha me sentiu por meu pai no pouco 
tempo em que estiveram juntos. O que sei que voc sente por Hoyt. Achas que s estou imaginando que  amor por causa do que Cian ?
      -No, no acredito. Eu tambm albergo sentimentos profundos e autnticos por ele. E tm tudo a ver com quem  Cian. Mas Moira, voc sabe que no poder ter 
uma vida a seu lado. E precisamente pelo que Cian . Algo que nenhum dos dois pode mudar, do mesmo modo que o sol no pode voar em uma flecha.
     -Escutei tudo o que Blair e ele nos explicaram a respeito de... digamos, sua espcie. -E lido, pensou Moira, inumerveis livros que falavam de feitos e crenas 
populares.- Sei que ele jamais envelhecer. Cian permanecer para sempre tal como era antes de ser convertido em um vampiro. Jovem, forte e vital. Eu em troca me 
voltarei velha, dbil, enrugada e grisalha. Sofrerei enfermidades que ele nunca padecer.
     Levantou-se e foi at uma janela por onde comeava a filtrar a luz do sol.
     -Embora ele me amasse como eu o amo, no  vida para nenhum dos dois. Ele no pode ficar aqui, onde eu estou agora, e sentir a calidez do sol sobre o rosto. 
A nica coisa que teramos  a escurido. Ele no pode ter filhos, de modo que nem sequer poderia ficar grvida dele. Poderia pensar s um ano juntos, ou cinco, 
ou dez. S isso. Poderia pensar e desejar isso -sussurrou.- Mas no importa quo egostas pudessem ser minhas prprias necessidades, tenho uma obrigao a cumprir. 
-Moira se voltou.- Ele nunca poderia ficar aqui e eu no posso partir. 
     -Quando me apaixonei por Hoyt e pensava que jamais poderamos estar juntos, meu corao se fazia em pedaos todos os dias.
     -Mas mesmo assim voc o amava.
     -Mas mesmo assim eu o amava.
     Moira permaneceu junto  janela, com o sol acariciando suas costas e brilhando em sua coroa.
     -Morrigan disse que este  um tempo de conhecimento. Eu sei que minha vida seria menos vida se no o amasse. Quanto mais vida haja, mais tempo e mais duramente 
lutaremos para conserv-la. De modo que tenho outra arma dentro de mim. E a usarei.
     
     
     Moira descobriu que um comprido dia dedicado a ensinar aos meninos e aos ancies a defender a si mesmos e a outros dos monstros era mais exaustivo que horas 
de intenso treinamento fsico. No tinha imaginado quo difcil seria ensinar a uma criana que, depois de tudo, os monstros eram reais.
      A cabea lhe doa por causa das perguntas que lhe tinham feito, e sentia o corao ferido pelo medo que tinha visto nos pequenos.
      Saiu ao jardim a tomar um pouco de ar e elevou novamente a vista ao cu esperando a volta de Larkin e Blair.
      -Eles retornaro antes que se oculte o sol.
      Voltou-se para ouvir a voz de Cian.
      -O que faz? Ainda  de dia.
      -As sombras so muito densas aqui a esta hora. -Mesmo assim, apoiou-se contra o muro de pedra, bem afastado da luz direta.-  um lugar agradvel, tranqilo 
e silencioso. E, cedo ou tarde, voc sempre acaba vindo aqui para desfrutar de uns minutos a ss. 
     -Ou seja, que estiveste estudando meus hbitos.
     -Ajuda-me a passar o tempo.
     -Glenna e eu estivemos com as crianas e os ancies, lhes ensinando como defender-se se produz-se um ataque depois de que nos tenhamos partido. No podemos 
prescindir de muitos dos homens fortes e sos para que protejam o castelo.
     -As portas permanecem fechadas. Hoyt e Glenna acrescentaro uma barreira de proteo. Aqui estaro bastante seguros.
     -E se perdermos a batalha?
     -Ento no haver nada que possamos fazer.
     -Eu acredito que sempre h algo, se puser vontade e uma arma nas mos de algum. -aproximou-se dele.- Vieste aqui a me esperar?
     -Sim.
     -E agora que estou aqui, o que quer fazer?
     Cian permaneceu onde estava, mas ela pde ver a luta que se livrava em seu interior. Embora de repente o ar pareceu agitar-se com essa luta, ela guardou a compostura, 
com o olhar sombrio e paciente.
     Cian a colheu com ambas as mos, um movimento rpido e violento, e estreitou seu corpo contra o seu. Sua boca era voraz.
     -Uma agradvel escolha -alcanou a dizer ela quando pde voltar a falar.
     Logo, os lbios de Cian assaltaram novamente sua boca, lhe roubando o flego e a vontade.
     -Tem idia do que desencadeaste? -perguntou ele.
     Antes que Moira pudesse responder, ele se voltou e lhe agarrou ambas as mos para carreg-la a suas costas.
     -Cian, o que...?
     -Ser melhor que te segure bem -lhe aconselhou ele, interrompendo sua risada desconcertada.
     Cian saltou para cima. Os braos de Moira se aferraram ao seu pescoo enquanto ofegava boquiaberta. Ele tinha se elevado mais de trs metros no ar do cho, 
e agora escalava a parede.
     -O que faz? -Moira se arriscou a olhar para baixo e sentiu que o estmago lhe dava um tombo.- Poderia me haver avisado de que tinha perdido o juzo.
     -Perdi-o quando entrou ontem  noite em meu quarto. - Cian se lanou atravs da janela, correu as cortinas atrs dele e ambos se inundaram na escurido -Este 
 o preo que deve pagar por isso.
     -Se o que queria era voltar a entrar, h portas...
     Ela proferiu um leve grito de alarme quando Cian a levantou. Era como se estivesse voando pelo ar, cega em meio da escurido. Seu seguinte grito foi de excitao 
e atordoamento ao encontrar-se debaixo dele na cama, enquanto suas mos lhe afastavam a roupa para acariciar a carne.
     -Espera. Espera. No posso pensar. No posso ver.
     - muito tarde para ambas as coisas.
     Sua boca a silenciou e suas mos a guiaram para uma cpula dura e violenta.
     Seu corpo se esticou debaixo do de Cian e ele soube que ela estava chegando ao extremo ardente dessa cpula de prazer. O flego de Moira soluava contra seus 
lbios quando alcanou finalmente o clmax e seu corpo ficou flcido.
      Ento Cian lhe agarrou ambas os pulsos com a mo e lhe sujeitou os braos por cima da cabea. Ela estava entregue e ele a penetrou.
      Moira teria gritado outra vez, mas no tinha voz. No tinha vista e, com ambas a mo imobilizada tampouco tinha um ponto de apoio. No podia fazer nada salvo 
sentir como Cian se afundava dentro dela, agitando seu corpo com um prazer escuro e desesperado, at que comeou a contorcionar-se para elevar-se logo e, finalmente, 
seguir temerariamente o ritmo de cada uma de suas investidas. 
     Esta vez, o prazer a esvaziou por completo.
     Ficou estendida, pele abrasada sobre ossos derretidos, incapaz de mover-se nem sequer quando ele se levantou da cama para acender a lareira e as velas.
     -A vontade no  sempre uma sada -disse Cian, e ela acreditou ouvir o som de um lquido ao ser vertido em uma taa.- E tampouco uma arma.
     Moira sentiu que a taa golpeava sua mo, e conseguiu abrir as pesadas plpebras. Emitiu um som e agarrou a taa, mas no estava absolutamente segura de que 
pudesse tragar nada.
     Ento viu a marca vermelha de uma queimadura na mo de Cian. Levantou-se rapidamente, quase derramando a gua pela borda da taa.
     -Queimaste-te. Me deixe ver. Eu... -E viu que a marca tinha a forma de uma cruz.
     -Me teria tirado isso.
     Ocultou rapidamente a cruz e a corrente dentro do vestido.
     -Um preo muito pequeno a pagar. -Cian levantou a munheca de Moira e apalpou o leve machucado.- Tive contigo menos controle de que teria desejado.
     -Eu gosto que tenha menos controle. Me d a mo. Tenho certa habilidade para as curas.
     -No  nada.
     -Ento me d a mo. Para mim  uma boa prtica.
     Moira estendeu suas mos com atitude espectadora. Um momento depois, Cian se sentou ao seu lado e colocou sua mo entre as dela.
     -Eu gosto que tenha menos controle -repetiu ela atraindo seu olhar.- Eu gosto de saber que posso ser desejada dessa maneira, que h algo em mim que faz que 
dentro de ti algo se estique at quase romper-se.
     -Algo bastante perigoso quando est tratando com um humano. Quando um vampiro perde o controle, as coisas morrem.
     -Voc nunca me faria mal. Voc me ama.
     O rosto de Cian se voltou cuidadosamente inexpressivo.
     -O sexo no tem que ver com...
     -O fato de no ter experincia no me converte em uma estpida ou em uma ingnua. Est melhor?
     -O que?
     Ela lhe sorriu.
     -Sua mo. A irritao diminuiu.
     -Est bem. -Retirou-a. De fato, j no havia rastros da queimadura.- Aprende depressa.
     -Assim . Aprender  uma paixo para mim. Direi-te o que aprendi de ti com respeito a mim. Voc me ama. -Seus lbios estavam ligeiramente curvados enquanto 
lhe acariciava o cabelo.- Ontem  noite poderia me haver tomado, de fato o teria feito com menos resistncia, se tivesse sido s pelo sexo. Se unicamente se tratou 
de necessidade, s disso, nunca teria sido to cuidadoso, ou confiado o bastante em mim para dormir um momento ao meu lado.
     Moira levantou um dedo antes que ele pudesse lhe replicar.
     -E ainda h mais.
     -Contigo sempre tende a haver mais.
     Ela se levantou e se alisou o vestido.
     -Quando Larkin entrou esta manh no quarto, voc no fez nada para impedir que te golpeasse. Ama-me, de modo que se sentia culpado de me haver arrebatado o 
que considerava minha inocncia. Ama-me, de modo que me seguiste o tempo suficiente para saber qual  um de meus lugares favoritos. Esperaste-me ali, e logo me trouxeste 
aqui porque me necessitava. Voc me atrai, Cian, assim como eu atraio a ti.
      Ela o observou enquanto bebia um gole de gua.
      -Ama-me, como eu te amo.
      - perigoso para ti.
      -E para ti -disse ela assentindo.- Vivemos tempos perigosos.
      -Moira, isto no pode ser nunca...
      -No me diga nunca. -A paixo vibrou em sua voz, e converteu em fumaa a cor de seus olhos.- Eu sei. Sei tudo a respeito de nunca. Me diga hoje. Que entre 
voc e eu s exista hoje. Eu devo lutar pelo amanh, e o dia seguinte e todos os outros. Mas com isto, contigo,  s hoje. Todo o presente que possamos ter.
     -No chore. Prefiro a queimadura antes que as lgrimas.
     -No chorarei. -Fechou os olhos um instante e se obrigou a manter sua palavra.- Quero que me diga o que me ensinaste. Quero que me diga o que eu vejo quando 
me olha.
     -Amo-te. -aproximou-se dela e lhe acariciou brandamente o rosto com as pontas dos dedos.- Este rosto, estes olhos, tudo o que h dentro deles. Amo-te. Em mil 
anos nunca amei a outra mulher.
     Moira lhe agarrou a mo e apertou os lbios contra ela.
     -Oh! Olhe. A queimadura desapareceu. O amor te curou. A magia mais poderosa que existe.
     -Moira. -Ele reteve sua mo entre as suas e logo a apoiou em seu peito.- Se pulsasse, pulsaria por ti.
     A lgrimas voltaram a aparecer em seus olhos.
     -Seu corao pode estar parado, mas no est vazio. No est silencioso, ele fala a mim.
     -E isso  suficiente?
     -Nada ser nunca suficiente, mas alcanar. Venha, agora...
     Interrompeu-se para ouvir gritos que vinham de fora. Correu para a janela e afastou a cortina. Levou-se a mo  garganta.
     -Cian, vem ver isto. O sol j est bastante baixo. Vem jogar uma olhada.
     O cu estava cheio de drages. Esmeralda e rubi e ouro, seus corpos lisos e brilhantes voavam sobre o castelo como jias cintilantes sob a tnue luz do crepsculo. 
E suas chamadas eram como uma cano.
     -Alguma vez tinha visto algo to bonito?
     Quando Cian apoiou uma mo sobre seu ombro, ela a colheu com fora.
     -Escuta como os aclama a gente. Olhe como correm e riem as crianas.  o som da esperana, Cian. O som, a viso.
     -Traz-los aqui  uma coisa, conseguir que sejam montados e respondam como cavalos de guerra na batalha outra muito diferente, Moira. Mas sim,  um bonito espetculo 
e um som esperanoso.
     Ela observou enquanto os drages comeavam a tocar a terra.
     -Em todos seus anos imagino que h muito poucas coisas que no tenha feito.
     -Muito poucas -conveio ele com um sorriso.- Mas no, nunca montei em um drago. E sim, quero faz-lo. Desamos.
     Ainda havia suficiente luz solar, por isso necessitava a maldita capa para os espaos abertos. Mas apesar disso, ao olhar o olho dourado de um jovem drago, 
Cian descobriu que ainda podia sentir se encantado e surpreso.
     Seus sinuosos corpos estavam cobertos com grandes escamas da cor das pedras preciosas e eram suaves como o cristal quando algum as tocava. Suas asas eram como 
gaze e as mantinham pegas ao corpo quando estavam em terra. Mas eram os olhos o mais cativante de tudo. Pareciam estar vivos e mostrar interesse e inteligncia, 
inclusive humor.
      -Pensei que os mais jovens seriam mais fceis de treinar -comentou Blair enquanto Cian e Moira os contemplavam.- Larkin  o que melhor se comunica com eles, 
inclusive em sua forma humana. Confiam nele.
      -E isso est fazendo que lhe resulte mais difcil utiliz-los na batalha.
      -Sim, meu homem  um sentimental; estivemos dando voltas a essa questo. Larkin esperava poder lhes convencer a todos de que os empregssemos s como um meio 
de transporte. Mas esses drages poderiam supor uma fodida diferena sobre o terreno. Ou em cima dele. Mesmo assim, tenho que admitir que essa idia tambm me remi 
a conscincia.
     -So bonitos... e no esto corrompidos.
     -Teremos que mudar a segunda parte. -Blair suspirou.- Tudo  uma arma -murmurou.- De todos os modos, queres subir?
     -Pode apostar que sim -respondeu Cian.
     -O primeiro vo  comigo. Sim, sim -acrescentou ao ver a objeo pintada em seu rosto.- Voc pilota seu prprio avio, monta cavalos e salvas edifcios altos 
de um salto. Mas nunca viajaste a lombos de um drago, de modo que ainda no pode faz-lo sozinho.
     Blair caminhou lentamente para um drago cor rubi e prateado. Era o que ela tinha montado para retornar ao castelo, e estendeu a mo para que pudesse farejar 
seu aroma.
     -Adiante, deixa que ela te conhea.
     -Ela?
     -Sim, comprovei os encanamentos. -Blair sorriu.- No pude evit-lo.
     Cian apoiou a mo no flanco do drago e foi deslizando lentamente at sua cabea.
     -V, v,  uma criatura linda -comeou a lhe sussurrar em irlands. Ela lhe respondeu com o que s podia interpretar-se como um coquete movimento da cauda.
     -Hoyt faz com eles o mesmo que voc. -Blair assinalou para onde Hoyt estava acariciando as escamas cor safira de outro dos drages.- Deve ser um trao familiar.
     -Hmmm. Por que sua majestade est montando sozinha em um destes drages?
     -Ela viajou antes em lombos de um drago. Quer dizer, montou a Larkin convertido em drago, de modo que conhece todos os truques. Embora no  a nica coisa 
que esteve montando ultimamente.
     -Perdo?
     -S dizia que vocs dois parecem estar muito mais relaxados que ontem. -Ofereceu-lhe um amplo sorriso e logo montou no drago.- Acima!
     Cian subiu a ele do mesmo modo que escalava as paredes. Com um salto simples e gil.
     -Assombroso -comentou logo.- Mais cmodos do que aparentam. No muito diferente de ir a lombos de um cavalo.
     -Sim, se est falando do Pegasus. De todos os modos, no deve lhe dar um ligeiro golpe no flanco para espore-lo. A nica coisa que tem que fazer ...
     Blair fez a demonstrao inclinando-se sobre o pescoo do drago e passando uma mo por sua garganta. Com um som como o roce da seda, o drago estendeu as asas 
e se elevou para o cu.
     -Vive o tempo suficiente -disse Cian atrs de Blair-, e poder fazer qualquer fodida coisa.
     -Esta deve ser sem dvida uma das melhores. Ainda ficam algumas questes lgicas a resolver. O cuidado e a alimentao, os excrementos.
     -Aposto que fazem florescer as rosas.
     Blair jogou a cabea para trs e soltou uma gargalhada.
     -Poderia ser. Temos que trein-los, e tambm a seus cavaleiros. Mas estas belezas aprendem depressa. Observa.
     Blair se inclinou para a direita e o drago girou brandamente para seguir nessa direo.
     - algo como montar numa motocicleta.
     -O princpio  similar. Inclinar-se nas curvas. Olhe a Larkin.  um espetculo.
      Larkin montava um enorme drago dourado e estava fazendo vos e giros com ele.
     -O sol j quase se ocultou -comentou Cian.- Dem-me uns minutos para que no me torre e nos divertiremos um pouco.
     Blair o olhou por cima do ombro.
     -De acordo. Ia te dar uma opinio.
     -E quando no o tem feito?
     -Ela suporta o peso da droga do mundo. Se o que vocs dois tm alivia um pouco essa carga, parece-me fantstico. Estar com Larkin aliviou algo da minha, de 
modo que espero que funcione para vocs dois.
     -Surpreende-me, caadora de vampiros.
     -Eu me surpreendo a mim mesma, vampiro, mas  o que h. O sol j se ocultou. Preparado para te balanar um pouco?
     Cian tirou o capuz da capa com enorme alvio.
     -Mostre a este vaqueiro como ter que mover-se.
     
      
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
      
     
     CAPTULO 12
      
     
      
     Davey tinha sido de Lilith durante quase cinco anos. Ela tinha matado a seus pais e a sua irm pequena na Jamaica, uma tranqila noite. A viagem de frias fora 
de temporada -bilhetes de avio, hotel e caf da manh continental includo- tinha sido um presente surpresa do pai de Davey a sua esposa por seus trinta anos. Em 
sua primeira noite ali, aturdidos pelo esprito festivo e os copos de rum gratuitos, tinham concebido a seu terceiro filho.
     Eles,  obvio, ainda no eram conscientes desse fato, e se as coisas tivessem seguido um curso diferente, a perspectiva de um novo membro na famlia lhes teria 
impedido de desfrutar de umas frias tropicais durante algum tempo.
     Aquelas seriam as ltimas frias da famlia.
     Tinha sido durante uma das breves e apaixonadas separaes de Lilith e Lora. Lilith tinha escolhido a Jamaica seguindo um impulso, e se entretinha escolhendo 
entre os habitantes da ilha e o turista ocasional. Mas se tinha cansado do sabor dos homens que vagavam pelos bares.
     Queria algo diferente... algo um pouco mais fresco e doce. E nessa jovem famlia encontrou precisamente o que estava procurando.
     Tinha acabado com as risadas da me e de sua pequena filha de um modo rpido e cruel durante um passeio pela praia  luz da lua. Tinha-a impressionado a luta 
aterrada e intil da mulher, e seu movimento instintivo para proteger a sua filha. Uma vez satisfeito seu apetite, Lilith teria podido deixar ao homem e ao menino, 
que jogavam um pouco mais longe com a espuma das ondas, ignorantes do que tinha ocorrido. Mas quis ver se o pai lutaria tambm por seu filho. Ou se imploraria, do 
mesmo modo que o tinha feito a me.
     O homem o tinha feito... e lhe tinha gritado a seu filho que corresse. "Corre, Davey, corre!", havia dito. E o terror que sentia pelo menino tinha enriquecido 
seu sangue, fazendo que a caada fosse muito mais saborosa.
     Mas o menino no tinha se posto a correr. Ele tambm tinha lutado, e isso a tinha impressionado ainda mais. Tinha chutado e mordido, inclusive tinha tratado 
de subir a suas costas para salvar a seu pai. Tinha sido o selvagem de seu ataque, combinado com seu rosto de caractersticas anglicas, o que a decidiu a convert-lo 
em um vampiro em lugar de lhe esvaziar o sangue e seguir seu caminho.
     Quando pressionou a boca do pequeno contra o sangue que emanava do corte praticado em seu peito, Lilith tinha sentido em seu interior algo que jamais havia 
sentido antes por ningum. Essa sensao quase maternal a tinha fascinado e encantado.
     De modo que Davey se converteu em seu mascote, seu brinquedo, seu amante.
     E lhe agradou a forma to rpida e natural em que Davey tinha encaixado a transformao. Quando ela e Lora se reconciliaram, como sempre acabavam fazendo, Lilith 
lhe disse que Davey era seu Peter Pan vamprico. Um menino que sempre teria seis anos.
     No obstante, como qualquer menino dessa idade, Davey precisava ser atendido, entretido e ensinado. S que mais, posto que, em opinio de Lilith, seu Davey 
era um prncipe. Como tal, ele tinha um grande privilgio e uma grande obrigao.
     Ela considerava que esta caada especfica reunia ambas as condies.
     Davey tremia de excitao enquanto ela o vestia com as roupas grosseiras de um menino campons. Lilith soltou uma gargalhada ao ver seus olhos brilhantes quando 
lhe manchou a cara com barro e sangue para completar o disfarce.
     -Posso olhar? Posso olhar em seu espelho mgico e ver-me? Por favor, por favor!
     - obvio.
     Lilith lanou a Lora um olhar rpido e divertido... de um adulto a outro adulto. Seguindo o jogo, Lora se estremeceu ao agarrar o prezado espelho.
     -Tem um aspecto aterrador -disse Lora a Davey.- To pequeno e dbil. E... humano!
     O menino agarrou com cuidado o espelho mgico e contemplou sua imagem refletida no cristal. E despiu suas presas.
     - como um disfarce -disse e ps-se a rir.- Poderei matar a um deles eu sozinho, verdade, mame? Eu sozinho.
     -J veremos. -Lilith agarrou o espelho e se inclinou para beijar sua bochecha suja.- Tem que interpretar um papel muito importante, querido. O papel mais importante 
de todos.
     -Eu sei o que devo fazer. -balanou-se sobre as pontas dos ps.- Pratiquei e pratiquei.
     -Eu sei. Trabalhaste muito duro. Estou muito orgulhosa de ti.
      Lilith deixou o espelho a um lado, de barriga para baixo, obrigando-se a no olhar-se ela tambm. As queimaduras de Lora ainda estavam em carne viva e seu 
reflexo era to perturbador que Lilith s se olhava no espelho encantado quando Lora no estava adiante.
      Voltou-se quando bateram na porta.
      -Deve ser Midir. Lhe faa passar, Davey, e logo sai e espera fora com o Lucio.
      -Iremos logo?
      -Sim. Em uns minutos.
      Davey correu para a porta e logo se deteve, com os ombros muito retos, enquanto o feiticeiro o saudava com uma pequena reverncia. Davey abandonou a habitao, 
o pequeno soldado de Lilith, deixando que Midir fechasse a porta atrs dele.
     -Majestade. Minha senhora.
     -Se levante. -Lilith fez um gesto indiferente com a mo.- Como pudeste ver, o prncipe est preparado. Est-o voc?
     Midir se levantou, e suas habituais roupas negras sussurraram ao roar-se com o movimento. Seu rosto era duro e atrativo, emoldurado por sua juba chapeada. 
Os olhos, negros e intensos, encontraram-se com os frios e azuis de Lilith.
     -Ele estar protegido. -Midir desviou o olhar para a grande arca que havia ao p da cama e o pote prateado que estava aberto em cima.- Aplicastes-lhe a poo, 
como lhes indiquei?
     -Sim, tenho-o feito, e se falha pagar com sua vida, Midir.
     -No falhar. A poo, e o feitio que utilizarei, protegero-o do ao e a madeira durante trs horas. Davey estar to seguro como se estivesse entre seus 
braos, majestade.
     -Se no for assim, eu mesma te matarei, e do modo mais desagradvel possvel. E para me assegurar, voc nos acompanhar nesta caada.
     Por um instante, Lilith advertiu uma expresso de surpresa e chateio no rosto de Midir. Logo inclinou a cabea e falou com humildade.
     -Como vocs ordenem.
     -Te apresente ante o Lucio. Ele te conseguir uns arreios.
     Lilith se voltou, dando assim por terminada a conversao.
     -No deveria preocupar-se. -Lora se aproximou dela e a rodeou com seus braos.- Midir sabe que sua vida no vale nada se algo ocorrer a nosso doce menino. Davey 
necessita isto, Lilith. Necessita o exerccio, a diverso. E tambm exibir-se um pouco.
     -Sei, sei. Est inquieto e aborrecido, no posso lhe culpar por isso. Tudo sair bem -disse para tranqilizar-se a si mesma.- Eu estarei ali com ele.
     -Deixe-me ir. Muda de opinio e me deixe ir contigo.
     Lilith meneou a cabea e roou com os lbios a bochecha queimada de Lora.
     -Ainda no est preparada para uma caada. Ainda est dbil, querida, e no quero que corra nenhum risco. - Agarrou os braos de Lora e os sujeitou com fora.- 
Te necessito em Samhain, lutando, matando, te saciando. Essa noite, quando tivermos inundado o vale de sangue e pego o que  nosso por direito, quero que Davey e 
voc estejam ao meu lado.
     -Odeio a espera quase tanto como Davey.
     Lilith sorriu.
     -Trarei-te um presente da pequena diverso desta noite.
     
     
     Davey montou junto com Lilith  garupa do cavalo e cavalgaram atravs da noite iluminada pela lua. Ele tinha querido montar em seu pnei, mas sua me lhe tinha 
explicado que no era o bastante veloz. E lhe gostava de viajar velozmente, sentindo o ar na cara, voando para a caa e a matana. Era a noite mais excitante que 
podia recordar.
     Era inclusive melhor que o presente que lhe tinha feito para seu terceiro aniversrio, quando o tinha levado atravs da noite estival a visitar um acampamento 
dos Escoteiros. E isso tinha sido to divertido! Os gritos, as corridas, os prantos.
     Era melhor que caar aos humanos dentro das covas, ou que queimar a um vampiro que se portou mau. Era melhor que algo que pudesse recordar.
     As lembranas que tinha de sua famlia humana eram muito vagas. Havia momentos nos que despertava de um sonho e, por um instante, parecia-lhe que estava em 
uma habitao com fotos de corridas de carros nas paredes e cortinas azuis nas janelas.
      No armrio da habitao havia monstros, e ele gritava at que ela vinha.
     Ela tinha o cabelo e os olhos castanhos.
     s vezes, ele tambm vinha; o homem alto com o rosto que provocava. Ele afugentava aos monstros, e ela se sentava na cama e lhe acariciava o cabelo at que 
voltava a dormir.
              Se o tentava com todas suas foras, podia recordar o chapinhar na gua, e a sensao da areia mida sob os ps, e ao homem rindo enquanto as ondas 
os salpicavam.
     Depois o homem j no ria, gritava. E gritava: "Corre! Corre, Davey, corre!".
     Mas ele no tentava lembrar-se com todas suas foras, e tampouco muito freqentemente.
     Era mais divertido pensar em caar e jogar. Se se comportava muito bem, sua me lhe deixava ter a um dos humanos como brinquedo.
     Ele gostava, sobretudo, como cheiravam quando tinham medo, e os sons que faziam quando comeava a comer-lhes.
     Ele era um prncipe, e podia fazer qualquer coisa que gostasse. Quase.
     Esta noite demonstraria a sua me que j era um menino crescido. Ento j no haveria mais quase.
     Quando frearam os cavalos, ele estava quase doente de emoo pelo que viria. Agora continuariam a p dali... e ento seria seu turno. Sua me o tinha pego com 
fora pela mo e ele desejou que no o fizesse. Ele queria partir, como Lucio e os outros soldados. Queria levar uma espada em lugar daquela pequena faca oculta 
debaixo da tnica.
     Mesmo assim, era divertido ir to depressa, mais rpido que qualquer humano, atravessando os campos em direo  granja.
     Voltaram a deter-se, e sua me se agachou para lhe agarrar o rosto entre as mos.
     -Faa-o da forma em que o praticamos, meu doce menino. Estar maravilhoso. Eu estarei muito perto de ti, cada minuto.
     Davey inchou o peito.
     -No lhes temo. S so comida.
     Atrs dele, Lucio sorriu.
     -Pode ser que seja pequeno, sua majestade, mas  um guerreiro at os ossos.
     Lilith se levantou e sua mo continuou apoiada no ombro de Davey ao tempo que se voltava para olhar a Midir.
     - sua vida -lhe recordou tranqilamente.- Comea.
     Midir estendeu os braos cobertos pela tnica negra e comeou seu feitio.
     Lilith fez gestos para que seus homens se desdobrassem. Logo Lucio, Davey e ela avanaram para a granja.
     Uma das janelas mostrava o brilho oscilante de um fogo aceso para a noite. No ar se percebia o aroma de cavalos encerrados no estbulo e os primeiros indcios 
de presena humana. Isso fez que a fome e a excitao se agitassem no estmago de Davey.
     -Se prepare -disse Lilith a Lucio.
     -Minha senhora, eu daria minha vida pelo prncipe.
     -Sim, eu sei. -Apoiou brevemente a mo sobre o brao de Lucio.- Por isso est aqui. Muito bem, Davey. Faa que me sinta orgulhosa de ti.
     
     Dentro da casa, Tynan e outros dois homens montavam guarda. J era quase a hora de despertar para sua substituio, e estava mais que preparado para desfrutar 
de um par de horas de sono. O quadril lhe doa por causa da ferida recebida durante o ataque dos vampiros, o primeiro dia de marcha. Esperava que, quando por fim 
pudesse fechar seus olhos cansados, no voltassem a assalt-lo novamente as lembranas do ataque.
      Bons homens perdidos, pensou. Assassinados sem piedade.
      Mas chegaria o momento em que vingaria sua morte no campo de batalha. S esperava, se tinha que morrer ali, ter lutado antes com valor e deciso, e destrudo 
a um nmero similar de inimigos.
      Foi mover-se para ordenar a substituio do guarda, quando um som fez que levasse a mo ao punho da espada.
      Sua vista e seus ouvidos se aguaram. Poderia haver-se tratado de um pssaro noturno, mas tinha soado to humano...
      -Tynan.
      -Sim, ouvi-o -disse a outro dos homens que montavam guarda.
      - como se algum chorasse.
      -Permaneam alerta. Ningum deve... -interrompeu-se ao advertir que algo se movia.- Ali, perto do extremo do pasto. V? Ah, no nome de todos os deuses,  um 
menino.
      Um menino, pensou, embora no podia estar seguro. Tinha a roupa rasgada e coberta de sangue, e avanava cambaleando-se, soluando e com o polegar metido na 
boca.
     -Deve ter escapado de uma incurso dos vampiros perto daqui. Acorda  substituio e permaneam todos alerta. Eu irei procurar ao menino.
     -Advertiram-nos que no abandonssemos a casa depois de pr-do-sol.
     -No podemos deixar a um menino s a fora, e ferido pelo que parece. Acorda  substituio -repetiu Tynan.- Quero um arqueiro postado nessa janela. Se algo 
se mover a fora alm do menino ou de mim, disparem ao corao.
     Esperou a que os homens estivessem em suas posies e viu que o menino caa. Um menino, agora estava quase seguro, e o pobre pirralho gemia e chorava lastimedamente 
enquanto se encolhia no cho.
     -Podemos lhe vigiar at que amanhea -sugeriu outro dos homens de guarda.
     -Acaso os homens de Geall lhe temem tanto  escurido que se amontoam dentro de uma casa enquanto um menino chora e sangra fora?
     Tynan abriu a porta. Queria mover-se depressa e levar ao menino dentro para proteg-lo. Mas se viu obrigado a deter sua precipitada carreira quando o pequeno 
elevou a cabea e seu rosto redondo ficou paralisado de medo.
     -No te farei mal. Sou um dos homens da rainha. Levarei-te dentro da casa -disse brandamente.- L est quente e h comida.
     O menino engatinhou at levantar-se, e ento comeou a gritar como se Tynan lhe tivesse dado um talho com uma espada.
     -Monstros! Monstros!
     Logo ps-se a correr, coxeando pesadamente da perna esquerda. Tynan foi atrs dele. Era melhor assust-lo que permitir que se afastasse e, provavelmente, convertesse-se 
em um aperitivo para algum demnio. Tynan o alcanou justo antes que conseguisse saltar o muro de pedra que separava o campo contguo.
     -Tranqilo, tranqilo, est a salvo. -O menino chutou e se revolveu e gritou, provocando novas dores no quadril ferido de Tynan.- Tem que vir pra dentro. Ningum 
te far mal. Ningum...
     Pensou que tinha ouvido algo -como um canto- e agarrou ao menino com mais fora. Voltou-se, preparado para sair correndo de retorno  casa, quando ouviu algo 
mais, algo que procedia do que sustentava em seus braos. Era um grunhido rouco e selvagem.
     O menino sorriu horrivelmente, e se lanou para sua garganta. Era algo que estava alm da agonia, e que fez que Tynan casse de joelhos. No era um menino, 
no era um menino absolutamente, pensou enquanto tratava de livrar-se dele. Mas aquela coisa o estava rasgando como se fosse um lobo.
     Ouviu fracamente gritos, alaridos, o som das flechas, o choque das espadas. E a ltima coisa que percebeu foi o espantoso som de seu prprio sangue ao ser bebido 
com avidez.
     Usaram fogo aceso nas pontas das flechas, mas mesmo assim quase uma quarta parte de seus homens resultaram mortos ou feridos antes de que os vampiros se retirassem.
     -Agarrem a esse com vida. -Lilith se limpou delicadamente o sangue dos lbios.- Prometi a Lora que lhe levaria um presente.
     Sorriu a Davey, que estava em cima do soldado que tinha matado. Enchia-a de orgulho que seu menino continuasse alimentando-se mesmo que as tropas tinham arrastado 
o cadver do soldado, com o pequeno prncipe agarrado a ele, fora do campo de batalha.
     Os olhos de Davey estavam vermelhos e brilhantes, e suas sardas ressaltavam como o ouro contra o tom rosado que o sangue tinha conferido a suas bochechas.
     Ela o elevou e o sustentou por cima de sua cabea.
     -Contemplem a seu prncipe!
     Os soldados que no tinham sido destrudos na breve batalha se ajoelharam.
     Lilith o baixou para beij-lo profundamente na boca.
     -Quero mais -disse Davey.
     -Sim, meu amor, e ter mais. Muito em breve. Lhe joguem sobre um cavalo -ordenou com um gesto indiferente, assinalando o corpo sem vida de Tynan.- Tenho pensado 
em algo para ele.
     Montou em seu cavalo e logo estendeu os braos para que Davey pudesse saltar a eles. Com sua bochecha esfregando-se contra o cabelo do menino, Lilith olhou 
a Midir.
     -Tem-no feito bem -lhe disse.- Pode escolher os humanos que deseje para os propsitos que te gostem.
     A luz da lua brilhou sobre sua cabea chapeada quando se inclinou ante ela.
     -Obrigado.
     
     
     Um vento fresco aoitava a Moira enquanto contemplava aos drages e cavaleiros que davam voltas por cima de sua cabea. Era um espetculo assombroso, pensou, 
e em outras circunstncias teria alegrado seu corao. Mas aquelas eram manobras militares.
     Apesar de tudo, podia ouvir como as crianas gritavam e aplaudiam, e mais de um aparentavam ser um drago ou um cavaleiro.
     Saudou com um sorriso ao seu tio quando este se aproximou para contemplar o espetculo junto a ela.
     -No te sentes tentado de voar? -perguntou-lhe.
     -Deixo-o para os jovens... e os geis. Mas  uma vista maravilhosa, Moira. E prometedora.
     -Os drages animaram o esprito da gente. E nos proporcionaro uma grande vantagem na batalha. V a Blair? Monta como se tivesse nascido nos lombos de um drago.
     - difcil no v-la -murmurou Riddock enquanto Blair guiava a seus arreios para baixo a uma velocidade vertiginosa e logo voltava a remontar-se.
     -Faz-lhe feliz que Larkin e ela vo casar-se?
     -Larkin a ama, e no me ocorre nenhuma outra pessoa que seja mais conveniente para ele. De modo que sim, sua me e eu estamos encantadas. E sentiremos falta 
deles todos os dias, mas deve ir com ela -acrescentou Riddock antes que Moira pudesse falar.-  sua escolha, e eu sinto, em meu corao, que  a escolha correta 
para ele. Mas sentiremos falta dele.
     Moira apoiou a cabea no brao de seu tio.
     -Sim, sentiremos falta dele.
     Ela seria a nica que ficaria, pensou enquanto voltava a entrar no castelo. O nico membro do primeiro crculo que permaneceria em Geall depois de Samhain. 
Perguntou-se como seria capaz de suport-lo.
     O castelo j se notava vazio. Muitos j se partiram, e outros estavam ocupados realizando as distintas tarefas que lhes tinham atribudo. Logo, muito em breve, 
ela tambm empreenderia a marcha. De modo que tinha chegado o momento, decidiu, de pr por escrito seus desejos para o caso de que no retornasse.
     Encerrou-se em sua sala de estar e se sentou, disposta a afiar a pluma de ave que utilizava para escrever. Logo mudou de parecer e agarrou um dos tesouros que 
havia trazido com ela da Irlanda.
     Redigiria aquele documento, decidiu Moira, com um instrumento de outro mundo.
      Usaria uma pluma de caneta tinteiro.
      O que era que tinha ela de valor, perguntou-se, que no pertencesse por direito ao seguinte a quem lhe correspondesse governar Geall?
     Algumas das jias de sua me, sem dvida. E comeou s distribuir mentalmente entre Blair, Glenna, sua tia, suas primas e, finalmente, suas damas de companhia.
     A espada de seu pai seria para Larkin, decidiu, e a adaga que um dia levou com ele seria para Hoyt. A miniatura de seu pai seria para seu tio se ela morresse 
antes que ele, j que seu pai e seu tio tinham sido ntimos amigos.
     Havia outras coisas,  obvio. Diferentes objetos que tambm queria legar.
     A Cian lhe deixava seu arco e a aljava, e as flechas que tinha fabricado com suas prprias mos. Esperava que ele compreendesse que, para ela, eram algo mais 
que simples armas. Eram seu orgulho, e uma prova de amor.
     Deixou-o tudo escrito com muito cuidado e logo selou o papel. Entregaria-lhe o documento a sua tia para que o guardasse.
     Uma vez que o tinha feito, sentiu-se melhor. Com a mente mais clara e ligeira, deixou o papel a um lado e se levantou para confrontar a seguinte tarefa. Retornou 
ao dormitrio e se dirigiu s portas do terrao. As cortinas ainda estavam corridas, bloqueando a luz, impedindo de ver o exterior. Abriu-as, permitindo que a clida 
luz entrasse na habitao.
     Em sua imaginao voltou a v-lo tudo, a escurido, o sangue, o corpo destroado de sua me e os monstros que a tinham mutilado. Entretanto, essa vez abriu 
a porta e se obrigou a sair fora.
     O ar era frio e mido e, por cima de sua cabea, o cu estava cheio de drages. Linhas e redemoinhos de cor atravessavam o plido azul. Como sua me teria gostado 
dessa vista, como tivesse desfrutado do som das asas, as risadas das crianas no ptio.
     Moira se aproximou da balaustrada, apoiou as mos sobre ela e sentiu a pedra firme. E elevando a cabea como sua me tinha feito tantas vezes, olhou para Geall 
e jurou fazer todo o possvel por seu povo.
     
     Possivelmente lhe teria surpreendido saber que Cian tinha dedicado grande parte de seu inquieto dia a fazer o mesmo que ela. Suas listas de doaes e instrues 
eram grandemente mais largas que as dela e muito mais detalhadas. Mas ele tinha vivido muito mais tempo que ela, e tinha acumulado, portanto, muito mais coisas.
     Cian no via razo para que nenhuma delas se desperdiasse.
     Durante a redao do documento, tinha amaldioado uma dzia de vezes a pluma de ave e desejado ferozmente a facilidade e convenincia de um computador. Mas 
persistiu em sua tarefa at que pensou que tinha distribudo suas posses de um modo satisfatrio.
     No estava seguro de que todo o disposto pudesse levar-se a cabo, j que parte disso dependeria de Hoyt. Falariam sobre o assunto, pensou Cian. Se com algo 
podia contar, era com que seu irmo faria tudo o que estivesse em seu considervel poder para cumprir com a obrigao que ele tinha intenes de lhe deixar.
     Contudo, esperava que no fosse necessrio. Mil anos de existncia no significavam que estivesse disposto a render-se. E no tinha a menor inteno de ir ao 
inferno sem enviar a Lilith ali antes dele.
     -Sempre foi bom para os negcios.
     Levantou-se de um salto, tirando sua adaga com um movimento rpido ao tempo que se voltava para o som da voz. Logo, a adaga caiu ao cho, deslizando-se de entre 
seus dedos flcidos.
     Inclusive depois de um milnio, havia situaes difceis de assimilar.
     -Nola.
     Sua voz soou rouca ao pronunciar o nome.
     Ela era uma menina, sua irm, e estava exatamente igual  ltima vez que a tinha visto. O cabelo escuro, comprido e liso, os olhos profundos e azuis. E sorria.
     -Nola -repetiu.- Meu Deus.
     -Pensava que voc no tinha nenhum Deus.
     -Nenhum que queira me reclamar. Como pode estar aqui? Est aqui?
     -Pode v-lo por ti mesmo.
     Nola estendeu os braos e logo deu um pequeno giro.
     -Viveu e morreu. Sendo uma mulher mais velha.
     -No conheceu a mulher, de modo que sou como voc me recorda. Senti falta de ti, Cian. Busquei-te, mesmo que sabia que no devia faz-lo. Durante anos esperei 
e busquei a ti e a Hoyt. Voc nunca veio.
      -Como poderia hav-lo feito? Voc sabe o que era. O que sou. Agora o entende.
      -Teria-me feito mal? Ou a qualquer um de ns?
      -No sei. Espero que no, mas no via nenhuma razo para me arriscar. Por que est agora aqui?
      Cian tentou toc-la, mas ela elevou uma mo e negou com a cabea.
      -No sou de carne e osso. S sou uma apario. Estou aqui para te recordar que possivelmente no seja o que foi quando foi meu irmo, mas tampouco  o que 
ela quis fazer de ti.
      Necessitava um momento para pensar, de modo que se inclinou para recolher a adaga e o guardou em sua bainha.
      -Que importncia tem isso?
      -Tem importncia. Ter. -Apario ou no, os olhos de Nola eram doces enquanto o olhavam.- Tive filhos, Cian.
      -Eu sei.
      -Fortes, hbeis, dotados. De seu sangue, tambm.
      -Foi feliz?
      -Oh, sim. Amei a um homem e ele me amou. Tivemos esses filhos e uma boa vida. Mas, entretanto, meus irmos deixaram um vazio em meu corao que nunca pude 
preencher. Uma pequena dor dentro de mim. Via-te, e a Hoyt, s vezes. Na gua, ou na nvoa, ou no fogo.
      -Fiz coisas que  melhor que no tivesse visto.
      -Vi-te matar e comer. Vi-te caar humanos do mesmo modo que uma vez caou veados. E te vi junto a minha tumba, sob a luz da lua, deixando flores sobre ela. 
Visto-te lutar junto ao irmo que ambos amamos. Vi a meu Cian. Recorda como subia a seu cavalo e cavalgvamos sem parar?
      -Nola. -esfregou-se a testa com os dedos. Tudo aquilo lhe doa muito para pensar nisso.- Ns dois estamos mortos.
      -E ns dois vivemos. Uma noite, ela veio a minha janela.
      -Ela? Quem? -Em seu interior tudo se voltou frio como o inverno.- Lilith.
      -Ns dois estamos mortos -lhe recordou Nola-, mas suas mos se convertem em punhos e seus olhos se voltam afiados como sua adaga. Pretende seguir me protegendo?
     Cian se aproximou da lareira e chutou ociosamente a turfa que ardia lentamente.
     -O que ocorreu?
     -Tinham passado mais de dois anos desde que Hoyt nos deixasse. Pai tinha morrido, e nossa me estava doente. Eu sabia que ela nunca voltaria a ficar bem, que 
morreria. Eu estava muito triste, muito assustada. Despertei na escurido e vi que havia um rosto em minha janela. Um rosto bonito. Tinha o cabelo dourado e um sorriso 
muito doce. Ela me sussurrou e chamou por meu nome. "Me convide a entrar", disse-me, e me prometeu um presente.
     Nola jogou o cabelo para trs, e em seu rosto se desenhou uma expresso de desprezo.
      -Ela pensou que como eu no era mais que uma menina, a mais nova de ns, seria uma parva fcil de enganar. Levantei-me, fui at a janela e a olhei aos olhos. 
Havia poder neles.
      -Hoyt devia te dizer que no corresse esses riscos. Ele devia...
      -Hoyt no estava ali, e voc tampouco. Mas em mim tambm havia poder. Esqueceste-o?
      -No. Mas eras uma menina.
      -Eu era vidente, e o sangue dos caadores de demnios corria por minhas veias. Olhei-a aos olhos e lhe disse que seria minha linhagem o que acabaria com ela. 
Minha linhagem que liberaria aos mundos de sua presena. E que para ela no haveria eternidade no inferno nem em qualquer outro lugar. Sua condenao seria o final 
de tudo. Ela se converteria em p, e seu esprito no sobreviveria.
     -Certamente no se sentiu encantada com suas palavras.
     -Sua beleza permanece inclusive quando mostra seu verdadeiro ser. Esse  outro poder. Eu levantei a cruz de Morrigan que sempre levava ao redor do pescoo. 
A luz brotou dela como um raio de sol. Lilith gritava enquanto fugia.
     -Sempre foi uma menina valente -disse ele.
     -Ela nunca retornou enquanto eu estive viva, e s o fez quando Hoyt e voc voltaram para casa juntos.  mais forte do que foi sem ele, e ele  mais contigo. 
Ela teme isso, odeia isso. Inveja isso.
     -Poder Hoyt sobreviver a isto?
     -No posso sab-lo. Mas se cair, o far como viveu. Com honra.
     -A honra  um frio consolo quando est morto no campo de batalha.
     -Ento, por que mantm a tua ? -perguntou ela com um indcio de impacincia na voz.- A honra  o que te trouxe at aqui. A honra que levar para batalha junto 
com sua espada. Ela no lhe pde arrebatar isso tudo, e o pouco que te deixou foi suficiente para que voc o recuperasse. Voc escolheu. E ainda ter que escolher 
mais vezes. Te lembre de mim.
     -No. No se v.
     -Te lembre de mim -repetiu ela.- At que voltemos a nos ver.
      Quando ficou sozinho, Cian se sentou e escondeu a cabea entre as mos. E recordou muitas coisas.
     
      
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 13
      
      
     
      Em geral, Cian evitava a salo da torre onde Hoyt e Glenna trabalhavam em sua magia. Seus acessos freqentemente incluam uma luz considervel, chamas, fogo 
e outros elementos nocivos para os vampiros.
     Mas de um modo em que no o tinha feito -ou no tinha admitido em sculos- necessitava a seu irmo.
     Antes de bater na porta, advertiu que um ou ambos de seus parentes com inclinaes mgicas tinha tomado a precauo de colocar smbolos de amparo na porta da 
torre para manter afastados aos curiosos. Cian teria preferido ficar fora, mas no obstante chamou.
     Quando Glenna abriu, ele pde ver que tinha a pele coberta por una uma capa de suor. Levava o cabelo recolhido e tirou a roupa at ficar s com um top e calas 
de algodo. Cian arqueou uma sobrancelha.
     -Interrompo algo?
     -Nada fsico, infelizmente.  s que aqui faz um calor espantoso. Estamos trabalhando com elementos mgicos de exploses e fogo. Sinto muito.
      -No me preocupam muito as temperaturas elevadas.
      -Oh. De acordo. -Glenna fechou a porta atrs dele.- Fechamos e cobrimos completamente as janelas, para ter a tudo contido, de modo que no deve preocupar-se 
pela luz.
      O sol j quase se ocultou. Cian olhou para onde estava Hoyt junto a uma enorme artesa de cobre. Este tinha as mos estendidas sobre ela e dele emanava uma 
sensao, inclusive atravs da salo, de mais calor, de poder e de energia.
     -Hoyt est carregando as armas com fogo -explicou Glenna.- E eu estive trabalhando em, bom, uma espcie de bomba. Algo que sejamos capazes de lanar do ar.
     -Ao Departamento de Segurana Nacional adoraria te ter em lista de funcionrios.
     -Eu poderia ser algum tipo de agente secreto. -Enxugou-se a testa com o dorso da mo.- Quer uma visita guiada?
     -De fato... eu queria... isto, falarei com o Hoyt quando no estiver to ocupado.
     -Espera. -Era a primeira vez que Glenna recordava ter visto Cian confuso. No, confuso no, pensou, perturbado.- Necessita de um descanso. E eu tambm. Se puder 
suportar o calor, espera uns minutos. J quase terminou. Eu irei tomar um pouco de ar.
      Cian lhe agarrou a mo antes que se desse a volta para partir.
      -Obrigado. Por no perguntar.
      -No h problema. E se for um problema, estarei perto.
      Quando Glenna se foi, Cian se apoiou contra a porta. Hoyt permaneceu tal como estava, com as mos estendidas sobre a fumaa prateada que saa da artesa. Seus 
olhos estavam obscurecidos, como sempre que exercia seu poder com fora e firmeza.
      Sempre tinha sido assim, pensou Cian, desde que eram meninos.
      Assim como Glenna, Hoyt se tinha despido para trabalhar e s levava uma camiseta branca e uns jeans desbotados. Era estranho, inclusive depois dos ltimos 
meses que tinham passado juntos, ver seu irmo vestido na moda do sculo XXI. A Hoyt nunca tinha importado a moda, recordou Cian. S a dignidade e os objetivos. 
Apesar do muito que se pareciam, ambos tinham enfocado a vida de plos muito diferentes. Hoyt se tinha exposto  solido e ao estudo, enquanto que ele o tinha feito 
 sociedade e os negcios... j os prazeres que ambos lhe proporcionavam.
     Apesar de tudo, tinham estado unidos e se entendiam um ao outro a um nvel que muito poucos irmos estavam acostumados a conseguir. Amaram-se, pensou Cian nesses 
momentos, de um modo que era to forte e firme como o poder de Hoyt com a magia.
     Logo o mundo, e tudo o que havia nele, tinha mudado.
     O que estava fazendo ento ele ali? Procurando respostas, procurando consolo quando sabia que no encontraria nem um nem outro? Nada do acontecido podia mudar-se, 
nem um s ato, nem um s pensamento, nem um s momento. Estar ali era uma estpida perda de tempo e energia em todos os sentidos.
     O homem que estava ali de p, como uma esttua no meio da fumaa, no era o homem que ele tinha conhecido, assim como ele j no era o homem que tinha sido 
alguma vez. Ou nem sequer um homem, para ser mais preciso.
     Todo o tempo passado junto com aquelas pessoas, aqueles sentimentos, aquelas necessidades, tinham-lhe feito esquecer o que jamais poderia ser alterado. Separou-se 
da porta.
     -Espera. S um momento.
     A voz de Hoyt o deteve em seco... e lhe irritou dar-se conta de que seu irmo tinha sabido que ele no estava simplesmente mudando de postura, e sim a ponto 
de partir da sala.
     Hoyt baixou as mos e a fumaa se dissipou.
     -Estou seguro de que iremos  batalha bem armados -disse.
     Colocou as mos na artesa e levantou uma espada agarrando-a pelo punho. Voltou-se e apontou para a lareira e disparou um raio de fogo.
     -Usar uma destas espadas? -perguntou-lhe a Cian, fazendo girar a arma em sua mo para examinar o fio.- s o bastante hbil para no te queimares.
     -Usarei algo que me seja til para o combate... e farei todo o possvel para me manter afastado dos que levem suas armas e sejam grandemente menos hbeis que 
eu em seu manejo.
     -No foi a preocupao pela escassa habilidade dos espadachins o que te trouxe aqui.
     -No.
     Posto que j estava ali, faria o que tinha ido fazer. Mas antes se passeou pela habitao, enquanto esperava que Hoyt tirasse o resto das armas da artesa. O 
lugar cheirava a ervas e fumaa, a suor e esforo.
     -Eu afugentei a sua mulher.
     -Voltarei a encontr-la.
     -Aproveitando que no est aqui, perguntarei-lhe isso: tem medo de perd-la nisto?
     Hoyt deixou a ltima espada sobre a mesa de trabalho.
     - meu ltimo pensamento antes de dormir e o primeiro quando me acordo pela manh. O resto do tempo trato de no pensar nisso... ou mantenho sob controle a 
parte de mim que queria encerr-la em um lugar seguro at que tudo isto tenha terminado.
     -Glenna no  o tipo de mulher a qual se poderia encerrar, nem sequer com suas habilidades.
     -No, mas saber disso no serve para eliminar o medo. Voc teme pela Moira?
     -O que?
     -Achas acaso que no sei que est com ela? Que seu corao est com ela?
      -No  mais que uma loucura temporria. J passar. -Ante o olhar fixo e silencioso de seu irmo, Cian meneou a cabea.- No tenho nenhuma opo, e ela tampouco. 
O que sou no tem tendncia a viver com cercas de madeira branca e perdigueiros dourados. -Fez um gesto com a mo ao ver o olhar desconcertado de Hoyt.- A lareira 
e lenhos acesos, irmo. No posso lhe dar uma vida, no caso de que queria faz-lo; e o que seria da minha continuar muito depois de que ela tenha morrido. Mas no 
 isso o que vim a te dizer.
     -Primeiro responde a uma pergunta. Voc a ama?
     A verdade disso chegou a ele girando como um redemoinho atravs de seu corao e se refletiu em seus olhos.
     -Ela ... Ela  para mim como uma luz, depois de ter vivido sempre na escurido. Mas a escurido  meu elemento, Hoyt. Sei como sobreviver nela, como estar 
contente, ser produtivo e estar entretido ali.
     -No diz feliz.
     A frustrao se fez evidente em sua voz.
     -Eu era bastante feliz antes que aparecesse. Antes que o mudasse tudo outra vez, como antes o fez Lilith. O que  que quereria? Que desejasse o que voc tem 
e o que ter com a Glenna se sobreviver? Que bem me faria isso? Faria que meu corao voltasse a pulsar? Acaso sua magia pode conseguir isso?
     -No. No encontrei nada que possa te devolver sua antiga condio. Mas...
     -Deixa-o. Sou o que sou, estou bem. No estou me queixando. Moira  uma experincia. O amor  uma experincia e eu sempre escolhi viv-las. -passou as mos 
pelo cabelo.- Deus. H algo de beber neste lugar?
     -H usque. -Hoyt assinalou um armrio com o queixo.- Eu tambm tomarei um.
     Cian verteu duas generosas medidas em seus copos e logo cruzou a habitao para onde Hoyt tinha colocado dois tamboretes de trs pernas. Sentaram-se e ambos 
beberam em silencio durante um momento,
     -Redigi um documento, uma espcie de testamento, para o caso de que minha sorte se acabe no Samhain.
     Hoyt levantou os olhos de seu usque e olhou a Cian.
     -Entendo.
     -Em todo este tempo acumulei uma quantidade considervel de bens e propriedades, de objetos pessoais. Espero que voc te ocupe disso segundo minhas instrues.
     -Farei-o,  obvio.
     -No ser uma tarefa simples, j que est repartido por todo mundo. Nunca guardo muitos ovos na mesma cesta. Em meu apartamento de Nova Iorque h passaportes 
e outros documentos de identidade, e tambm em caixas de segurana de diferentes lugares. Se algo de tudo isso te resultar til, podes utiliz-lo.
      -Obrigado por isso.
      Cian fez girar o usque em seu copo sem afastar o olhar do lquido.
      -H algumas coisas que eu gostaria que Moira conservasse, se  que pode as trazer at aqui.
      -Trarei-as.
      -Pensava em deixar o clube e o apartamento de Nova Iorque a Blair... e a Larkin. Acredito que lhes viro melhor que a ti.
      -Sim, eu tambm acredito. Estou seguro de que se mostraro muito agradecidos.
      O aborrecimento tingiu o tom prtico e moderado de seu irmo.
      -Bom, no deixe que o sentimento te embargue, j que  mais provvel que eu celebre um velrio por ti que voc por mim.
     Hoyt inclinou a cabea.
     -Isso achas?
     - obvio que sim. Voc no viveu sequer trs dcadas, enquanto que eu levo quase um milnio. E voc nunca foi to bom como eu no combate, apesar de todos os 
truques que possa ocultar na manga.
     -Por outra parte, como h dito, j no somos o que fomos, verdade? -Hoyt sorriu afavelmente.- Estou decidido a que ambos saiamos bem disto, mas se no o consegue, 
bom... levantarei minha taa por ti.
     Cian deixou escapar uma leve gargalhada enquanto Hoyt elevava o copo.
     -E tambm querers tambores e gaitas de fole?
     -Oh, o que lhe d. -Agora, um olhar malicioso apareceu nos olhos de Cian.- Eu, por minha parte, farei que toquem alguns flautins por ti e logo consolarei a 
sua penalizada viva.
     -Pois eu ao menos no terei que cavar um buraco para ti, tendo em conta que s ser um monto de p, mas te farei as honras encarregando que gravem em uma lpide: 
     AQUI NO JAZ CIAN, J QUE O LEVOU O VENTO. VIVEU E MORREU, LOGO PERMANECEU COMO O LTIMO CONVIDADO QUE NO SE DECIDE A ABANDONAR O BAILE. 
     - Parece-te bem?
     -Estou pensando em mudar alguns desses legados, s por princpio, dado que logo estarei cantando Danny Boy sobre sua tumba.
     -O que  Danny Boy?
     -Um clich. -Cian agarrou a garrafa que tinha deixado no cho e serviu mais usque nos copos.- Vi a Nola.
     -O que? -Hoyt baixou o copo que acabava de levar-se aos lbios.- O que  que h dito?
      -Em meu quarto. Vi a Nola e falei com ela.
      -Sonhaste com a Nola?
      - isso o que hei dito? -perguntou Cian com irritao.- Hei dito que a vi, que falei com ela. E estava to acordado ento como o estou agora, te olhando e 
falando contigo. Ela era ainda uma menina. Porra, no mundo no h suficiente usque para isso.
     -Ela foi a ver-te -murmurou Hoyt.- Nossa Nola. O que te h dito?
     -Que me amava, e a ti tambm. Que tinha sentido falta de ns. Que esperava que ambos retornssemos pra casa. Mas que droga. Mas que droga. -levantou-se e comeou 
a passear pela sala.- Era uma menina, exatamente como a ltima vez que a vi. Era uma mentira,  obvio. Nola cresceu e se fez mais velha. Morreu e seus ossos se converteram 
em p.
     -E por que teria que apresentar-se ante ti como uma mulher adulta ou uma anci? -perguntou Hoyt.- Ela foi a ti tal como voc a recordava, como pensa nela. Tem-te 
dado um presente. Por que est zangado?
      Agora Cian sentia uma intensa fria, uma que lhe servia para sujeitar com fora a dor.
      -Como pode saber o que foi sentir isto, sentir que te rasga por dentro? Ela era a mesma e eu no o sou. Falou-me de como a subia em meu cavalo e a levava pra 
passear. E era como se tivesse ocorrido ontem. No posso ter esse ontem em minha cabea e permanecer so. - Cian se voltou.- Para no final de toda esta histria, 
voc saber que fez o que pde, o que lhe pediram que fizesse... por ela, por todos eles. Se sobreviver, qualquer que seja a dor que sinta ao ter tido que deix-los 
pra trs, estar compensado por essa certeza, e pela vida que ter junto  Glenna. Eu em troca tenho que retornar onde estava. Devo faz-lo. No posso levar isto 
comigo e viver com isso.
     Hoyt permaneceu um momento em silncio.
     -Nola estava sofrendo, sentia medo por algo, dor?
     -No.
     -E no  capaz de levar isso contigo e viver com isso?
     -No sei, essa  a pura verdade. Mas sei que um sentimento leva a outro at que acaba te afogando neles. Agora estou meio afogado com o que sinto por Moira. 
-Cian se tranqilizou e voltou a sentar-se.- Nola levava a cruz que voc lhe deu. H dito que sempre a levava consigo, como voc lhe disse. Pensei que deveria sab-lo. 
E tambm que deveria saber que Nola me contou que Lilith foi v-la, e que tratou de tent-la para que a deixasse entrar na casa.
     Hoyt fechou os punhos como o tinha feito Cian.
     -Essa cadela do inferno foi procurar a nossa Nola?
     -Sim, fez-o, e levou um bom chute no traseiro... metaforicamente falando. - Cian explicou a Hoyt o que Nola lhe tinha contado, e observou que o rosto de seu 
irmo se relaxava ligeiramente com uma expresso de orgulho e satisfao.- Logo colocou a cruz que lhe deu diante dela e Lilith saiu em disparada. Segundo Nola, 
ela nunca retornou at que o fizemos ns.
     -V, v. Isso sim que  interessante. A cruz no s protegia a Nola, mas tambm assustou a Lilith o suficiente para obrig-la a fugir. Isso e a predio de 
que acabaramos com ela.
     -Que pode ser que seja a razo do por que est to decidida a nos liquidar.
     -Sim. A ameaa de Nola poderia ter contribudo a isso. Imagina o que deve ter significado para Lilith ser aterrorizada por uma menina.
     -Ela quer vingar-se, no cabe nenhuma dvida. Quer ganhar esta guerra,  obvio. Lilith deseja converter-se em uma espcie de deus, mas por baixo disso estamos 
ns. Os seis e a conexo que existe entre ns. Ela quer nos destruir.
     -At agora no teve muita sorte nesse sentido, no achas?
     -E o que pensa disso? Os deuses dispem, verdade? Todos ns tomamos uma deciso, e lutaremos por ela, mas todos ns, incluindo Lilith, estamos sendo levados 
para uma poca e um lugar. A verdade  que no me importa se forem os deuses ou os demnios quem me levam pelo nariz.
     Hoyt arqueou as sobrancelhas.
     -Que alternativa temos?
     -Todos falam de alternativas e escolhas, mas quem de ns seria capaz de abandonar agora? Depois de tudo, no s os humanos tm orgulho. Bem, o tempo passa. 
-levantou-se.- J veremos o que terei a ver esse dia em que arrumaremos as contas. O sol j se ps. Sairei pra tomar um pouco de ar. - Cian se dirigiu  porta, deteve-se 
e olhou por cima do ombro.- Ela no pde me dizer se sobrevivestes.
      Hoyt se encolheu de ombros e acabou de beber seu usque. Logo sorriu.
      -Danny Boy, verdade?
     
     
      Cian foi ver seu cavalo. Logo, embora sabia que era um risco, selou a Vlad e saiu atravs das portas do castelo. Necessitava da velocidade e a noite. Talvez 
tambm necessitava do risco.
      A lua estava quase cheia. Quando esse crculo se completasse, o sangue -de humanos e vampiros- empaparia a terra.
      Ele no tinha combatido antes em outras guerras, no lhes tinha visto sentido. Guerras pela terra, por riquezas e recursos. Guerras liberadas em nome da f. 
Mas aquela luta tinha chegado a ser sua.
     No, no somente os humanos tinham orgulho, ou inclusive honra. Ou amor. De modo que, por tudo isso, aquela luta lhe pertencia. Se a sorte o acompanhasse, um 
dia voltaria a cavalgar pelos campos da Irlanda... ou em qualquer lugar que escolhesse faz-lo. E pensaria em Geall, com suas encantadoras colinas e seus frondosos 
bosques. Recordaria os campos verdes e as cascatas de gua.
     Pensaria em sua rainha. Moira, com seus grandes olhos cinza e seu aprazvel sorriso, de crebro inteligente e mente aberta, e com um corao rico e profundo. 
Quem tivesse acreditado que, depois de todos aqueles sculos, se veria seduzido, enfeitiado, afogado em semelhante mulher?
     Com Vlad salvou pequenos muros de pedra, galopou atravs de campos onde soprava doce e fresco o ar da noite. A luz da lua banhava as pedras do castelo da Moira, 
e as janelas brilhavam com velas e candis. Ela tinha mantido sua palavra, pensou Cian, e tinha iado essa terceira bandeira, de modo que agora estavam o claddaugh, 
o drago e o sol dourado e brilhante.
     Desejou, com todas suas foras, que ela pudesse proporcionar a Geall, e a todos os mundos, o sol depois do sangue derramado.
     Talvez no pudesse levar com ele todos esses sentimentos, esses desejos e necessidades e viver com isso. Mas sim queria levar seu amor por ela. Quando retornasse 
s trevas, queria levar isso, e ter essa luz tnue e vacilante atravs de todas suas noites.
     Retornou ao castelo e a encontrou esperando-o, com seu arco nas mos e a espada de Geall sujeita a um flanco.
      -Vi-te quando saa para cavalgar.
      Cian desmontou.
      -Estava me cobrindo as costas?
      -Tnhamos convencionado que nenhum de ns sairia sozinho do castelo, especialmente depois do anoitecer.
     -Necessitava-o.
     Foi tudo o que disse antes de levar o cavalo ao estbulo.
     -Isso parecia, pela forma em que cavalgava. No vi nenhum mastim do inferno, mas ao que parece voc sim. Poderia confiar em alguns dos moos de quadra para 
que atenda a Vlad e o prepare para a noite? Ajuda-lhes ter trabalho e manterem-se ocupados, tanto como ajudou a ti uma galopada selvagem.
     -Debaixo desse tom complacente percebo uma admoestao, majestade. O fazes muito bem.
     -Aprendi-o de minha me.
     Moira agarrou as rdeas de Vlad e logo as passou junto com vrias instrues ao moo de quadra que tinha chegado correndo das cavalarias.
     Quando teve terminado, olhou a Cian.
     -Est de humor?
     -Sempre.
     -Deveria ter perguntado se estava de mau humor, mas a resposta a essa pergunta poderia ser tambm "sempre". Se no o estiver, mais do habitual quero dizer, 
esperava que jantasse comigo. Em privado. Esperava que ficasse comigo esta noite.
      -E se estiver de mau humor?
      -Ento uma comida e um pouco de vinho poderiam te adoar o suficiente para que te deitasse e ficasse comigo. Ou, bem poderamos discutir durante o jantar e 
logo ir  cama.
      -Teria que ter pego um prego de ferradura do Vlad e me cravar isso no crebro para rechaar semelhante oferecimento.
      -Bem. Estou faminta.
      E furiosa, pensou ele com certo nimo divertido.
      -Por que no soltas j o sermo? Do contrrio,  provvel que te provoque indigesto.
      -No tenho nenhum sermo, e se o tivesse soltado no seria o que me satisfaria. -Ela caminhou, com porte real, pensou ele, atravs do ptio.- O que eu gostaria 
de te dar  um boa e forte chute na bunda por te haver arriscado dessa maneira. Mas... -Moira respirou profundamente um par de vezes quando entraram no castelo.- 
Eu sei o que significa a necessidade de escapar, de desaparecer por um momento. Como sente que a presso que tem dentro vai acabar te destroando se no o fizer. 
Eu posso abrir um livro e recuperar minha paz mental. Voc precisava sair pra cavalgar, a velocidade. E acredito que h momentos nos que s necessita a escurido.
      Cian no disse nada at que chegaram ante a porta da habitao da Moira.
      -No sei como pode me entender dessa maneira.
      -Fiz um estudo sobre ti. -Ela sorriu ligeiramente, elevou a vista e o olhou aos olhos.- Sou boa para isso. E, alm disso, agora est em meu corao. Est dentro 
de mim, de modo que sei.
      -Eu no te ganhei -disse ele-, me ocorre agora. Eu no te ganhei.
      -Cian, no sou uma aposta e tampouco um prmio. No me importaria ser ganha.
      Moira abriu a porta de sua sala de estar.
      Fez com que suas damas acendessem o fogo e as velas. O jantar frio e o bom vinho j estavam na mesa, acompanhados de flores gastas das estufas.
     -Vejo que te tomaste trabalho. -Fechou a porta atrs de si.- Obrigado.
     -Era para mim, mas me alegra que voc goste. Queria uma noite, s uma, em que unicamente estivssemos ns dois. Como se nada de tudo isto estivesse ocorrendo. 
Em que pudssemos nos sentar, falar e comer. E eu pudesse me passar um pouco com o vinho.
     Moira deixou o arco e a aljava no cho e se desenganchou a espada da cintura.
     -Uma noite em que no falemos de batalhas, armas e estratgia. Voc me diria que me ama. Ou nem sequer teria que diz-lo, porque eu o veria em seus olhos quando 
me olhasse.
     -Eu te amo. Enquanto cavalgava, tornei a vista para o castelo e vi o resplendor das velas nas janelas. Assim  como penso em ti. Como em um resplendor sereno.
     Moira se aproximou dele e lhe agarrou o rosto entre as mos.
     -E se eu pensar em ti como a noite,  pelo mistrio que h nela, e pela excitao. J nunca voltarei a sentir medo da escurido, porque vi o que contm.
     Cian lhe beijou a testa, as tmporas, logo os lbios.
     -Deixa que te sirva o primeiro copo de muito vinho.
     Ela se sentou  pequena mesa e o observou. Ele era seu amante, pensou. Aquele homem estranho e exigente que levava guerras em seu interior. E ela passaria essa 
noite junto a ele, toda a noite; umas poucas horas de paz para ambos.
     Moira escolheu um pouco de comida para o prato de Cian, consciente de que se tratava do gesto prprio de uma esposa. Tambm teria isso, por essa s noite. Quando 
Cian se sentou frente a ela, Moira elevou a taa.
     -Slinte.
     -Slinte.
     -Falar-me dos lugares que viu? De aonde viajaste? Quero ir a esses lugares com minha imaginao. Estudei os mapas que tinha em sua biblioteca na Irlanda. Seu 
mundo  to grande... me fale das coisas maravilhosas que viram seus olhos.
     Ele a levou a Itlia durante o Renascimento, ao Japo na poca dos samurais, ao Alaska durante a febre do ouro,  selva amaznica e s savanas africanas.
     Tratava de descrever rpidas fotos instantneas com palavras, de modo que Moira pudesse apreciar a variedade, os contrastes, as mudanas. E quase podia ver 
como se abria sua mente para absorver a tudo. O fazia dzias de perguntas, sobretudo quando algo que ele explicava ampliava ou contradizia o que ela tinha lido em 
sua biblioteca na Irlanda.
     -Perguntava-me o que haveria ao outro lado do mar. -Moira apoiou o queixo no punho enquanto se servia mais vinho.- Outras terras, outras culturas. Ao parecer, 
se uma vez fomos uma parte da Irlanda, tambm pode haver aqui, neste mundo, partes da Itlia e dos Estados Unidos, da Rssia, de todos esses lugares maravilhosos. 
Um dia... eu gostaria de ver um elefante.
     -Um elefante.
     Ela se ps-se a rir.
     -Sim, um elefante. E uma zebra e um canguru. Eu gostaria de ver as pinturas dos artistas que voc viu, e dos artistas que descobri em seus livros. Miguelangelo 
e Da Vinci, Van Gogh, Monet, Beethoven.
     -Beethoven era um compositor. No acredito que soubesse pintar.
     -Sim,  verdade. A Sonata do claro da lua e todas essas sinfonias com nmeros.  o vinho, que me confunde um pouco as coisas. Eu gostaria de ver um violino 
e um piano. E um violo eltrico. Tocas algum desses instrumentos?
     -Em realidade,  um fato pouco conhecido que os Beatles originais eram seis. Mas no importa.
     -Sei quem so: John, Paul, George e Ringo.
     -Tens a memria como o elefante que queres ver.
     -Quando  capaz de recordar uma coisa, essa coisa te pertence.  provvel que nunca chegue a ver um elefante, mas um dia terei laranjeiras. As sementes esto 
germinando na estufa. -Elevou o indicador e o polegar apenas separados.- Este trocinho de verde surgindo da terra. Glenna me disse que as flores so muito perfumadas.
     -Sim, so.
     -E tambm colhi outras coisas.
     A Cian lhe divertia o tom de confisso que se advertia em sua voz.
     -De modo que tem os dedos compridos, verdade?
     -Pensei, se eu no lhes levar a Geall, nunca iro. Peguei um galho de suas roseiras. Est bem, de acordo, trs galhos. Fui ambiciosa. E uma fotografia que Glenna 
fez a Larkin e a mim. E um livro. Confesso-o, peguei um livro de sua biblioteca. Sou uma ladra.
     -Que livro?
     -Um livro de poemas de Yeats. Queria ter esse livro em particular porque dizia que o autor era irlands e me pareceu importante que trouxesse para casa alguma 
coisa escrita por um irlands.
      "Porque voc era irlands -pensou ela.- Porque o livro era seu."
      -E os poemas eram to bonitos e intensos -continuou.- Me disse que lhe devolveria isso uma vez que os tivesse copiado, mas eu sabia que era mentira. Fiquei 
pra mim.
      Ele ps-se a rir e sacudiu a cabea.
      -Considere-o um presente.
      -Obrigada, mas te pagarei encantada por ele. -levantou-se e se aproximou onde estava Cian.- E voc pode determinar o preo. -sentou-se em seu colo e lhe rodeou 
o pescoo com os braos.- Ele escreveu algo, seu Yeats, que me fez pensar em ti, e no que temos esta noite. Yeats escreveu: Estendo meus sonhos a seus ps. Anda 
com suavidade porque est caminhando sobre meus sonhos. -Ela lhe passou os dedos pelo cabelo. -Pode me dar seus sonhos, Cian. Eu caminharei sobre eles com suavidade.
     Profundamente comovido, ele apoiou sua bochecha na dela.
     -s to diferente de todos.
     -Contigo sou mais do que nunca fui. Sair um momento ao terrao comigo? Eu gostaria de olhar a lua e as estrelas.
     Ele se levantou, mas quando se voltou para o balco, ela o deteve.
     -No, no terrao do dormitrio.
     Cian pensou na me de Moira, no que ela tinha visto nesse terrao.
     -Est segura?
     -Estou. Hoje estive ali, sozinha. E agora quero estar contigo, em meio da noite. Quero que me beije ali para que possa record-lo toda a vida.
     -Precisar abrigar-se. Faz frio.
     -As mulheres de Geall so muito fortes.
     E quando ela se dirigiu para o terrao, quando sua mo agarrou a dele com fora enquanto abria as portas do mesmo, ele pensou que sim, que em efeito ela o era.
      
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 14
      
      
     
     Cian a beijou no balco e ela nunca esqueceria nada de tudo aquilo. No esqueceria a aprazvel msica da noite, o frio no ar, a maestria de seus lbios.
     Essa noite, ela no pensaria na sada do sol e nas obrigaes que traria o novo dia. A noite era o tempo de Cian e, enquanto estivesse com ele, tambm ele seria 
dela.
     -Voc beijou a muitas mulheres.
     Ele sorriu levemente e voltou a roar seus lbios com os seus.
     -Assim .
     -A centenas de mulheres.
     -Como mnimo.
     Ela entreabriu os olhos.
     -A milhares?
     - muito provvel.
     -Hmmm. -separou-se dele e logo se deu a volta, apoiando-se na balaustrada de pedra.- Acredito que farei um decreto que diga que todos os homens de Geall devem 
beijar a sua rainha. Assim poderei me pr a sua altura. E, ao mesmo tempo, poderia me servir para uma espcie de estudo, uma comparao. Poderia ver qual  seu nvel 
nesta habilidade em particular.
      -Interessante. Mas me temo que encontraria a seus compatriotas tristemente deficientes.
      -Oh! E como pode estar to seguro? Beijaste alguma vez a um homem de Geall?
      Ele se ps a rir.
     -Muito esperta.
     -Isso me dizem. -No se moveu quando Cian se aproximou dela, quando a aprisionou, colocando ambas as mos sobre a balaustrada, uma a cada lado de seu corpo.- 
Seu gosto se inclina pelas mulheres inteligentes?
     -Sim, quando seus olhos so como a nvoa noturna e seu cabelo  da cor do carvalho brunido.
     -Cinza e castanho. Sempre pensei que eram duas cores muito apagadas, mas nada do que h em mim se sente apagado quando estou contigo. -Apoiou uma mo sobre 
o corao de Cian. Embora no pulsasse, ela pde ver o pulso em seus olhos.- No me sinto tmida quando estou contigo, tampouco nervosa. Antes sim, at que me beijou. 
-Moira apertou os lbios no lugar onde tinha estado sua mo.- Logo pensei que deveria hav-lo sabido. Uma cortina se abriu em meu interior, e acredito que jamais 
voltar a fechar-se.
     -Voc trouxe a luz dentro de mim, Moira.
     O que Cian no disse, nem a ela nem a si mesmo, era que, quando ele partisse, essa luz voltaria a apagar-se.
     -A lua est muito clara esta noite, e as estrelas brilham no cu. -Apoiou as mos sobre as de Cian.- Deixaremos as cortinas abertas at que seja o momento de 
dormir.
     Entrou novamente com ele na habitao, iluminada pela luz da lua e das velas. Moira sabia que seria ento quando a calidez se converteria em calor, e o calor 
em fogo. Com todas as emoes e sensaes que acompanhariam essa transformao.
     De alguma parte chegou a chamada de uma coruja. "Reclama a seu parceiro", pensou ela. Era o momento de desejar intensamente ao parceiro.
     Tirou-se a fina coroa, deixou-a a um lado e logo elevou as mos para tirar os brincos. Quando viu que Cian a estava observando, compreendeu que aqueles pequenos 
atos, aquele preldio antes de despir-se, podia ser excitante para ele.
     De modo que tirou os brincos lentamente, olhando a Cian enquanto este olhava a ela. Tirou-se a cruz que tinha ocultado sob seu vestido, elevando-a por cima 
da cabea. Aquilo, ela sabia, era um ato de confiana.
     -No tenho aqui a minhas damas de companhia. Poderia me ajudar com as cintas?
     Voltou-se de costas para ele e se levantou o cabelo com a mo.
     -Acredito que tentarei que fabriquem zpers.  algo realmente simples e faz que vestir-se seja mais fcil.
     -E um enorme encanto se perder em nome da comodidade.
     Moira lhe sorriu por cima do ombro.
     - fcil para ti diz-lo. -Mas por outro lado, sentir como lhe afrouxava aquelas cintas, provocava-lhe uma batida de asas no estmago.- Que invento  o que 
mais te impressionou em todo este tempo?
     -As instalaes sanitrias interiores.
     A rapidez de sua resposta fez que Moira pusesse-se a rir.
     -Larkin e eu nos viciamos, e sinto muitssima falta dessas comodidades. Estudei os depsitos de gua e os encanamentos. Acredito que poderia idealizar algo 
parecido a sua ducha.
     -Rainha e encanadora. -Apoiou os lbios sobre seu ombro enquanto afastava as cintas.- Suas habilidades no tm fim.
     -Pergunto-me se tambm seria boa como ajuda de cmara de um cavalheiro. -voltou-se para ele.- Eu gosto dos botes -acrescentou, ao tempo que comeava a lhe 
desabotoar a camisa.- So bonitos e sensveis.
     Igual a ela, pensou Cian enquanto Moira continuava eficazmente sua tarefa. Logo passou uma mo pelo cabelo.
     -Acredito que deveria cortar isso como Blair. Voc gostaria disso? -perguntou ela.
     -No. No o faa. -Seu ventre se estremeceu quando seus dedos fizeram uma pausa sobre o boto metlico de seu jeans. Os seus se deslizaram atravs de sua cabeleira 
castanha, desde sua cabea at sua cintura.- So bonitos. Eu gosto de como caem sobre seus ombros e se estendem por suas costas. Quase brilham contra sua pele.
     Moira, fascinada, olhou para o grande espelho que tinha diante. E se sobressaltou ao ver-se meio nua. E sozinha.
     Afastou a vista rapidamente e lhe sorriu com doura.
     -Mesmo assim, ter o cabelo to comprido  um problema e...
     -Te assustaste?
     No tinha nenhum sentido fingir que no tinha entendido o que lhe perguntava.
     -No.  um pouco impressionante, nada mais.  difcil para ti? No poder ver seu reflexo nos espelhos?
     - o que h. Se adapta a isso.  s uma ironia mais. Conseguiste a juventude eterna, mas nunca ser capaz de v-la. Entretanto...
     Ele a fez voltar-se, de modo que ambos ficaram frente ao espelho. Logo elevou sua cabeleira e a deixou cair. Quando Moira ps-se a rir ao ver que seu cabelo 
parecia mover-se sozinho, ele apoiou as mos sobre seus ombros.
     -Sempre h maneiras de divertir-se -disse Cian.
     Voltou a lhe levantar o cabelo e esta vez lhe passou os lbios -e apenas os dentes- ao longo da nuca.
     Ouviu a sbita inalao de ar e viu como os olhos dela se abriam.
     -No, no -murmurou, quando ela comeou a voltar-se.- S observa. -E deslizou os dedos sobre sua pele... sobre seus ombros nus, descendo para onde o vestido 
pendia levemente ante seus peitos.- S sinta.
     -Cian.
     -Sonhaste alguma vez com um amante que chegava a ti no meio da noite, na escurido? -Baixou-lhe o vestido at a cintura e logo deslizou brandamente as gemas 
dos dedos sobre seus peitos nus.- Te surpreendendo. Suas mos e seus lbios esquentando sua pele.
     Ela elevou as mos para as de Cian porque precisava senti-las. Logo se ruborizou intensamente e as afastou ao ver que o reflexo do espelho a mostrava acariciando 
seus prprios peitos.
     Atrs dela, invisvel, Cian sorriu.
     -Disse-me que eu no te tinha arrebatado a inocncia. Talvez tinha razo, mas acredito que o farei agora. s... suculenta, e o que sou a deseja com veemncia.
     -No sou inocente -disse ela, mas se estremeceu.
     -Mais do que cr. -Comeou a acariciar seus peitos, riscando crculos com as gemas dos polegares, movendo-se lentamente at roar os mamilos eretos.- Tem medo?
     -No. -E se voltou a estremecer.- Sim.
     -Um pouco de medo pode aumentar a excitao. -Deixou cair o vestido ao cho e apoiou os lbios em sua orelha.- Te afaste do vestido -sussurrou.- Agora olhe. 
Olhe seu corpo.
     O medo se unia  excitao, de modo que lhe resultava impossvel separ-los. Seu corpo estava indefeso e sua mente paralisada. Umas mos e uns lbios que no 
podia ver a percorriam inteira, eroticamente ntimos, languidamente possessivos. Podia ver como sua figura se estremecia no espelho, e contemplar o assombrado prazer 
que alagava seu rosto.
     Um vu de rendio em seus olhos.
     Seu amante fantasmagrico deslizava suas mos sobre ela, seus dedos brincavam, exploravam, deixando um rastro de carne trmula.
     Esta vez, quando lhe agarrou de novo os peitos, ela cobriu suas mos com as suas sem pudor algum.
     Moira gemeu, mas seus olhos no se separaram do reflexo. Suas plpebras nunca se fechavam ante uma nova experincia, um novo saber. Cian podia sentir como se 
estremecia e viu o movimento instintivo de seus lbios quando o prazer se apoderou completamente dela. A luz das velas brincava sobre sua pele nacarada e as sensaes 
a acendiam, de modo que florescia como uma rosa.
     Quando ele deslizou os dedos por seu ventre, Moira voltou a lanar um gemido, e fundindo-se com Cian, enlaou o brao ao redor de seu pescoo.
     Ele s tateava, roando o interior de suas coxas por sua parte mais sensvel, insinuando, apenas insinuando o que viria, at que a respirao de Moira se converteu 
em um ofego.
     -Tome -murmurou ele.- Tome o que deseje.
     Agarrou a mo de Moira e a apertou com fora sobre a suas entre as coxas dela, deixando-lhe ali prisioneira.
     Moira sentiu que se sacudia violentamente contra Cian, contra sua prpria mo enquanto ele a acariciava para lev-la a um novo e intenso prazer. Sentia o slido 
corpo dele atrs dela, e sua voz lhe sussurrava palavras que no entendia, mas no cristal do espelho s se refletia sua forma, perdida agora em suas prprias e urgentes 
necessidades.
     A liberao do prazer a deixou sem flego, esgotada e assombrada.
     Ele a fez girar to depressa que perdeu o equilbrio, e o teria perdido outra vez de todos os modos quando a boca dele se apoderou da sua com uma urgncia verdadeiramente 
selvagem. Moira s pde aferrar-se a ele, s pde entregar-se enquanto seu corao golpeava como uma bigorna contra o peito de Cian.
     Apesar de tudo o que ele tinha tido e tomado e provado, jamais tinha experimentado um apetite semelhante. Uma espcie de necessidade demente que s ela era 
capaz de satisfazer. At com toda sua destreza, com toda sua experincia, sentiu-se indefeso quando Moira o atraiu para si. To entregue e disposto como ela, estendeu-a 
no cho e se inundou em seu interior para forjar esse vnculo primitivo e desesperado.
     Cian fez que voltasse o rosto uma vez mais para o espelho enquanto a penetrava, enquanto o corpo de Moira se movia grosseiramente debaixo das investidas de 
seus fortes quadris. E quando ela alcanou o clmax, tremendo de prazer, ele encadeou a necessidade com a vontade at que os olhos de Moira se abriram para encontrar-se 
com seu olhar. At que ela viu quem a tinha tomado.
     E Cian voltou a faz-lo at que a necessidade de Moira adquiriu o mesmo ritmo que a sua. Ento, afundando o rosto em seu cabelo, esvaziou-se em seu interior.
     Moira poderia haver ficado ali tendida, esgotada, durante o resto de sua vida, mas Cian a elevou. Deu-se conta de que simplesmente a tinha levantado do cho 
e agora estava de p, sustentando-a entre seus braos, tudo em um s movimento, sem esforo aparente.
     E seu corao danou dentro de seu peito.
     - uma tolice -ela disse enquanto lhe acariciava o pescoo- e acredito que deve ser algo feminino, mas eu adoro que seja to forte e que, por um momento, enquanto 
fazemos amor, eu te faa sentir dbil.
     -Quando se trata de ti, h uma parte de mim, mo chroi, que sempre  dbil.
     Ele a tinha chamado meu corao, e tinha feito que o seu voltasse a danar em seu peito.
     -Oh, no o faa -lhe pediu ela quando Cian a tendeu na cama e se voltou para correr as cortinas.- Ainda no. Ainda fica muito da noite. -Girou na cama e agarrou 
sua bata.- Vou procurar o vinho. E o queijo -acrescentou.- Tenho fome outra vez.
     Quando Moira partiu, ele se aproximou da lareira e lanou outra parte de turfa ao fogo. Fechou sua mente  parte de si mesmo que lhe perguntava que demnios 
estava fazendo. Cada vez que estava com Moira, somava uma nova cicatriz a seu corao, pelo dia em que j no estaria com ela nunca mais.
     Moira sobreviveria a aquilo, recordou-se. E ele tambm o faria. A sobrevivncia era algo que humanos e vampiros tinham em comum. Ningum morria realmente por 
causa de um corao destroado.
     Ela retornou trazendo uma bandeja.
     -Podemos comer e beber na cama, completamente decadentes.
     Deixou a bandeja sobre o leito e logo voltou a deitar-se.
     -Sem dvida te dei suficiente decadncia -disse Cian.
     -Oh! -Moira jogou o cabelo para trs e sorriu lentamente.- E eu que esperava que houvesse mais. Mas se j me ensinaste tudo o que sabia, suponho que no h 
problema em comear a repetir.
     -Fiz coisas que nem sequer podes imaginar. Coisas que no quereria que imaginasse.
     -Agora ests alardeando.
     Moira tratou de lhe subtrair importncia.
     -Moira...
     -No o sinta por ns, ou pelo que acha que no pode ser, ou no deveria ser. -Seu olhar era claro, direto.- No sinta, quando me olha, o que possa ter feito 
no passado. Tenha sido o que tenha sido, cada vez que ocorria, no era mais que um passo para te trazer at aqui. Aqui  necessrio. Eu te necessito aqui.
     Ele se aproximou da cama.
     -Entende que no posso ficar?
     -Sim, sim. Sim. E no quero falar disso; esta noite no. No podemos ter uma iluso s por uma noite?
     Ele lhe acariciou o cabelo.
     -No posso lamentar o que h entre ns.
     -Isso  suficiente ento.
     Tinha que ser suficiente, recordou-se ela, embora a cada minuto que passava havia algo em seu interior que se voltava louco, e mais ainda com a aflio que 
sentia.
     Elevou uma das taas e a ofereceu com mo firme. Quando ele viu que era sangue, arqueou uma sobrancelha.
     -Pensei que o necessitaria. Para recuperar a energia.
     Ele meneou a cabea e se sentou na cama junto a ela.
     -Bem, quer que falemos de encanamento?
     Ela no estava segura da que se referia Cian, mas fosse o que fosse, teria ocupado o ltimo lugar em qualquer lista confeccionada por ela.
     -Encanamento.
     -Voc no  a nica que estudou coisas. Somado ao feito de que eu estava presente quando esse tipo de melhoras foram incorporadas  vida cotidiana. Tenho algumas 
idias a respeito de como poderia instalar algumas tubulaes bsicas.
     Ela sorriu e bebeu um pouco de vinho.
     -Me instrua.
     Ambos dedicaram um tempo considervel a esse tema, com Moira procurando papel e tinta para poder desenhar uns diagramas bsicos. O fato de que ele demonstrasse 
tanto interesse por algo que imaginava que para a gente de seu tempo estava normal, mostrava-lhe outra faceta de Cian.
     Mas, de repente, deu-se conta de que esse fato no deveria se estranhar, no se pensava no tamanho de sua biblioteca em sua casa da Irlanda. Em uma casa, recordou, 
que Cian s visitava uma ou duas vezes ao ano.
     Moira compreendeu tambm que Cian poderia ter sido qualquer coisa que se tivesse proposto. Tinha uma mente rpida e curiosa, mos hbeis e, pela maneira em 
que interpretava a msica quando ela o escutou tocar, a alma de um poeta. Alm de um dom para os negcios, recordou-se a si mesma.
     Em Geall, em seu tempo, Cian teria sido um homem prspero, Moira estava segura disso. Respeitado, famoso inclusive. Outros homens lhe teriam aproximado em busca 
de conselho e ajuda. As mulheres teriam flertado com ele  mnima oportunidade.
     Mas ele e ela se teriam conhecido e cortejado e amado, disso tambm estava segura. E Cian teria reinado a seu lado sobre uma terra rica e pacfica.
     Teriam tido filhos, com os bonitos olhos azuis dele. E um varo -ao menos um- com sua fenda no queixo.
     E em noites como aquela, tardias e tranqilas, eles falariam de planos para a famlia, para seu povo, para sua terra.
     Moira piscou e voltou para a realidade quando os dedos dele roaram sua bochecha.
     -Precisas dormir.
     -No. -Moira meneou a cabea e tratou de concentrar-se novamente nos diagramas... de postergar aqueles minutos que se levavam o tempo que tinha para compartilhar 
com ele.- Minha mente estava vagando.
     -Teria comeado a roncar dentro de um minuto.
     -V, isso no  verdade. Eu no ronco. -Mas no discutiu quando ele recolheu os papis. Apenas podia manter os olhos abertos.- Talvez ser melhor que descansemos 
um pouco.
     Moira se levantou para apagar as velas enquanto Cian se aproximava das cortinas. Mas quando ela se voltou para retornar  cama, viu que ele estava abrindo as 
portas para partir.
     -Pelo amor de Deus, Cian, ests quase nu! -Agarrou sua camisa e correu atrs dele.- Ao menos te ponha isto. Talvez no te importe o frio, mas sim me importa 
que um de meus guardas te veja completamente nu. No  decoroso.
     -Aproxima-se um cavaleiro.
     -O que? Onde?
     -Pelo este.
     Moira olhou para ali, mas no viu nada. No obstante, no duvidava de sua palavra.
     -Um s cavaleiro?
     -Dois, mas o segundo  guiado pelo primeiro. E se aproximam a galope.
     Moira assentiu, retornou  habitao e comeou a vestir-se.
     -Os guardas tm instrues precisas de no permitir a entrada de ningum. Irei jogar uma olhada. Pode tratar-se de camponeses atrasados. Se for assim, no podemos 
lhes deixar fora do castelo e desprotegidos.
     -No deixe que entre ningum -ordenou Cian enquanto colocava os jeans.- Embora os conhea.
     -No o farei, e tampouco nenhum dos guardas.
     Com uma leve pontada de pesar, colocou a coroa e voltou a converter-se em rainha. E, como rainha, agarrou a espada.
     -Deve tratar-se de atrasados -repetiu.- Em busca de comida e refgio.
     -E se no o so?
     -Ento percorreram um comprido caminho para morrer.
     
     
     Quando chegou ao posto de guarda, no alto da muralha, pde ver os cavaleiros, ou melhor, sua forma. Eram dois, tal como Cian havia dito, e o primeiro levava 
pelas rdeas o segundo cavalo. No vestiam capas de casaco apesar do ar frio e da insinuao de uma primeira geada.
     Moira olhou a Niall, a quem os guardas tinham despertado ao divisar aos dois cavaleiros.
     -Quero um arco.
     Niall fez um gesto a um dos homens e este lhe entregou seu arco e seu aljava.
     -Parece intil que o inimigo cavalgue diretamente para ns. Dois deles contra ns? E sem nenhuma possibilidade de atravessar as portas a menos que o permitamos 
-comentou Niall.
     - provvel que no sejam inimigos, mas as portas no devem levantar-se at que no estejamos seguros disso. Dois homens -sussurrou ela quando os cavaleiros 
estiveram o bastante perto para distingui-los.- O que monta o segundo cavalo parece que esteja ferido.
     -No -disse Cian um momento depois.- Est morto.
     -Como podes...? -Niall se interrompeu.
     -Est seguro? -perguntou Moira.
     -Ataram-no ao cavalo, mas est morto. E tambm o primeiro cavaleiro, mas o converteram em vampiro.
     -Muito bem ento. -Moira suspirou.- Niall, diga aos homens que mantenham a vigilncia se por acaso h mais. No devem fazer nada at que no lhes ordene. Veremos 
o que  que quer este cavaleiro. Um desertor? -perguntou-lhe a Cian e logo desprezou a idia antes que lhe respondesse.- No, um desertor se teria dirigido mais 
para o oeste ou o norte possivelmente, e se teria mantido oculto.
     -Pode ser que ache que tem algo com o que negociar -sugeriu Niall.- Nos fazer acreditar que o outro cavaleiro est vivo para que lhes permitamos a entrada no 
castelo. Ou possivelmente possua informao que pense que  valiosa para ns.
     -No nos far mal escutar o que tenha que nos dizer -comeou a dizer Moira e logo aferrou a mo de Cian.- O cavaleiro.  Sean.  Sean, o filho do ferreiro. 
Oh, Deus. Est seguro de que lhe ho...?
     -Conheo os de minha espcie. -Com uma viso mais aguda que a da Moira, ele reconhecia aos mortos.- Lilith o enviou, pode permitir-se ao luxo de perder a algum 
a quem acaba de transformar em um morto vivo. Enviou-o porque voc o reconheceria e sentiria pena por ele. No o faa.
     -Era apenas um menino.
     -Pois agora  um demnio. Ao outro cavaleiro lhe economizaram esse gole. Me olhe, Moira. -Agarrou-a pelos ombros e a fez girar at ficar frente a ele.- O sinto. 
 Tynan.
     -No. No. Tynan est na base. Recebemos notcias de que tinha chegado ali sem problemas. Ferido, mas vivo e a salvo. No pode ser Tynan.
     Separou-se de Cian e se inclinou sobre o parapeito de pedra, aguando o olhar. Agora podia ouvir os murmrios, logo os gritos quando os homens comearam a reconhecer 
a Sean. Havia esperana naqueles gritos e palavras de bem-vinda.
     -J no  Sean. -Ela elevou a voz e interrompeu os gritos dos homens.- Eles mataram ao Sean que vocs conheciam e enviaram a um demnio com sua cara. As portas 
devem permanecer fechadas e ningum passar atravs delas.  uma ordem.
     Voltou-se. Cada osso de seu corpo pareceu quebrar-se quando viu que Cian estava certo. O segundo cavaleiro era Tynan, ou o corpo maltratado de Tynan, amarrado 
ao segundo cavalo.
     Moira queria chorar, queria refugiar-se contra o peito de Cian e lamentar-se, e chorar. Queria afundar-se nas pedras e gritar sua fria e sua pena.
     Permaneceu muito erguida, sem sentir j o vento que agitava sua capa e sua cabeleira. Colocou uma flecha no arco e esperou a que o vampiro apresentasse seu 
maligno presente.
     -Ningum deve lhe falar -disse friamente.
     O que tinha sido Sean elevou o rosto, levantou uma mo para saudar os que se congregaram no alto da muralha.
     -Abram as portas! -gritou.- Abra as portas! Sou Sean, o filho do ferreiro.  possvel que ainda me persigam. Tenho a Tynan comigo. Est gravemente ferido.
     -No passaro -respondeu Moira.- Ela te matou s para te enviar para que morrestes aqui outra vez.
     -Majestade. -O menino as engenhou para fazer uma torpe reverencia ao tempo que freava os cavalos.- Voc me conhece.
     -Sim, conheo-te. Como morreu Tynan?
     -Est ferido. Perdeu muito sangue. Eu consegui escapar desses demnios e retornei  granja,  base. Mas tambm estava ferido e me sentia dbil, e Tynan, bendito 
seja, saiu para me ajudar. Os demnios nos atacaram. Pudemos salvar a vida por milagre.
     -Mentes. Matou-o voc? No que ela te converteu te transtornou ao extremo de matar a um amigo?
     -Minha senhora. -interrompeu-se quando ela elevou o arco e apontou a flecha diretamente a seu corao.- Eu no o matei. -Levantou as mos para mostrar que no 
estava armado.- Foi o prncipe. O menino. -Lanou um risinho tolo e logo se levou a mo  boca para atenuar a risada, com um gesto to parecido ao de Sean que lhe 
destroou o corao.- O prncipe o enganou para que sasse da casa e o matou. Eu s o trouxe de retorno ante vocs, como me ordenou a verdadeira rainha. Ela vos 
envia uma mensagem.
     -E qual  essa mensagem?
     -Se se renderem e a aceitarem como rainha deste mundo e de todos os outros, se colocarem a espada de Geall em sua mo e a coroa em sua cabea, salvaro-lhes. 
Podero viver aqui como os goste, j que Geall  um mundo muito pequeno e de escasso interesse para ela.
     -E se no aceitarmos sua proposta?
     Sean tirou uma faca e cortou as cordas que sujeitavam a Tynan ao cavalo. Um chute indiferente fez que o corpo inerte casse pesadamente ao cho.
     -Ento seu destino ser o dele, como o ser o de cada homem, cada mulher e cada criana que se oponha a ela. Sero torturados.
     Abriu-se a tnica, e a luz da lua iluminou as queimaduras e os cortes que ainda no tinham cicatrizado em seu torso.
     -Qualquer um que sobreviva ao Samhain ser capturado. Violaremos a suas mulheres, mutilaremos a seus filhos. Quando tudo tenha acabado, no ficar um s corao 
humano pulsando em Geall. Ns viveremos para sempre. Jamais podero nos deter. Me dem sua resposta e eu a levarei a rainha.
     -Esta  a resposta da autntica rainha de Geall. Depois do Samhain, quando o sol aparea no horizonte, voc e todos os que so como voc sero p que o vento 
se levar ao mar. Em Geall no ficar nem rastro de vocs.
     Devolveu a Niall o arco.
     -J tm sua resposta.
     -Ela vir atrs de voc! -ele gritou.- E atrs do traidor de sua espcie que est ao seu lado!
     Logo esporeou seu cavalo e partiu a galope.
     Na muralha, Moira elevou sua espada e, estendendo-a para frente, lanou um jorro de fogo. O vampiro gritou uma vez quando as chamas o alcanaram, logo a bola 
de fogo em que se converteu caiu ao cho e se desfez em cinzas.
     -Ele era de Geall -murmurou Moira- e merecia morrer com sua espada. Tynan... -Lhe fez um n na garganta.
     -Eu entrarei com ele. - Cian tocou o ombro de Moira e olhou aos olhos de Niall por cima da cabea dela.- Era um bom homem, e um amigo para mim.
     Sem esperar resposta, Cian saltou por cima do muro e pareceu flutuar at o cho.
     Niall golpeou com o dorso da mo o brao do guarda que estava junto a ele quando viu o homem fazer o sinal contra o demnio.
     -No aceitarei ao meu lado a nenhum homem que insulte sir Cian.
     Uma vez abaixo, Cian agarrou a Tynan em seus braos e, levantando-o, elevou o olhar e encontrou o de Moira.
     -Abram as portas -ordenou ela.- Para que sir Cian possa trazer a Tynan de volta pra casa.
     Moira se encarregou pessoalmente do corpo de Tynan, lhe tirando as roupas rasgadas e sujas.
     -Deixa que eu me encarregue disto, Moira.
     Ela meneou a cabea e comeou a lavar o rosto de Tynan.
     -Devo faz-lo eu. Fomos amigos desde pequenos. Preciso fazer isto por ele. No quero que Larkin lhe veja at que no esteja limpo.
     Suas mos tremiam enquanto alisava brandamente o tecido sobre os rasges e as mordidas, mas no vacilou em nenhum momento.
     -Larkin e Tynan eram companheiros de jogos. Acha que  verdade o que h dito Sean, de que foi o menino quem fez isto a Tynan?
     Quando viu que ele no respondia, Moira o olhou.
     -Esse pirralho  como seu filho -disse Cian finalmente.- Certamente  um ser malvado. Deixa que ao menos desperte a Glenna.
     -Ela sentia muito afeto por Tynan. Todos o amavam. No, no h necessidade de chamar a Glenna agora, j  muito tarde. Eles destroaram a minha me da mesma 
maneira. Pior que isto, inclusive pior. E eu lhe voltei as costas. No posso voltar as costas tambm a ele.
     -Quer que eu saia?
     -Crs acaso que porque vejo estas terrveis feridas, estes cortes e mordidas, como se tivesse sido atacado por um animal selvagem, poderia chegar a pensar que 
 igual ao que fez isto? Achas que sou to fraca de mente e de corpo, Cian?
     -No. Acredito que a mulher a que vi esta noite, a mulher a que ouvi, possui a mente e o corao mais fortes que jamais conheci. Eu jamais fiz isto a um ser 
humano.
     Cian se tranqilizou enquanto ela voltava a olh-lo com os olhos devastados pela dor.
     -Necessito que ao menos saiba disso. De todas as coisas que tenho feito, e algumas foram de uma crueldade difcil de imaginar, jamais fiz a ningum o que tm 
feito a Tynan.
     -Voc matava de um modo mais limpo. Mais eficaz.
     Cian sentiu que essas palavras lhe cortavam como uma faca.
     -Sim.
     Moira assentiu.
     -Lilith no te treinou, mas sim te abandonou, de modo que tem muito pouco dela em ti. Ao contrrio que esse menino. E acredito que conservaste uma parte da 
forma em que lhe criaram. Do mesmo modo em que pude ouvir o tom de Sean, ver seus gestos nessa coisa esta noite, algumas de suas caractersticas permaneceram tal 
como eram antes que ela te convertesse no que . Sei que no s humano, Cian, assim como tambm sei que no  um monstro. E sei que h algo de ambos em ti que te 
faz sustentar uma luta permanente para conserv-los equilibrados.
     Moira lavou o corpo de Tynan com a mesma suavidade com a qual teria lavado a uma criana. Uma vez que tinha terminado, comeou a vesti-lo com as roupas que 
tinha enviado a procurar em suas habitaes.
     -Deixe que eu faa isso, pelo amor de Deus, Moira.
     -Sei que suas intenes so boas. Sei que o faz pensando em mim, mas eu preciso fazer isto por ele, Cian. Tynan foi o primeiro que me beijou. -Sua voz titubeou 
ligeiramente antes de apertar os dentes e acabar o trabalho.- Eu tinha quatorze anos e Tynan dois mais. Foi algo muito doce, muito tenro. Tmido para ambos, como 
deve ser um primeiro beijo na primavera. Eu o amava. Acredito que do mesmo modo em que voc amava a King. Ela nos tirou isso, Cian. Tirou a eles, mas no o amor.
     -Juro ante o deus que voc queira, que acabarei com ela por ti.
     -Um de ns o far.
     Moira se inclinou e roou a fria bochecha de Tynan com os lbios.
     Logo se separou dele.
     Sentou-se no cho e lanou um profundo gemido. Quando Cian se ajoelhou junto a ela, Moira se aconchegou contra seu corpo e chorou desconsoladamente, com o corao 
destroado.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 15
      
      
     
     Enterraram a Tynan numa manh luminosa, com as sombras das nuvens danando sobre as colinas e uma cotovia cantando alegremente, pousada no ramo de um sorveira. 
O homem santo benzeu a terra antes que baixassem o corpo, ao ritmo de um tambor e um flautim tocando um canto fnebre.
     Todos os que conheciam a Tynan, e muitos outros que no, estavam ali, de modo que os presentes no enterro se estendiam por todo o cemitrio banhado pelo sol 
e at a ladeira da colina para o castelo. As trs bandeiras de Geall ondeavam a meia haste.
     Moira se encontrava junto a Larkin com os olhos secos. Embora ouvia o pranto da me de Tynan, ela sabia que seu momento para derramar lgrimas j tinha passado. 
O resto dos membros do crculo estavam atrs dela e podia senti-los, encontrar certo consolo em sua presena.
      Agora, haveria ali duas lpides que representariam a amigos, junto com as que indicavam as tumbas dos pais de Moira. Todos eles vtimas de uma guerra que se 
iniciou muito antes que ela soubesse sequer de sua existncia, e a que poria trmino de um modo ou outro.
      Finalmente, Moira se afastou para permitir  famlia uns ltimos momentos de intimidade. Quando Larkin lhe agarrou a mo, ela a aferrou com fora. Logo olhou 
a Cian, e apenas pde ver seus olhos sob a sombra do capuz. Logo olhou aos outros.
     -Temos trabalho a fazer. Larkin e eu devemos falar um momento com a famlia de Tynan, e logo nos reuniremos todos no salo.
     -Ns vamos entrando -disse Blair. Logo se adiantou e apoiou a bochecha na de Larkin.
     Moira no pde ouvir as palavras que Blair lhe sussurrou ao ouvido, mas Larkin lhe soltou a mo e atraiu a Blair para abra-la com fora.
     -Em seguida iremos -assegurou Larkin a Blair. Continuando, separou-se dela e voltou a agarrar a Moira pela mo. Esta poderia jurar que era capaz de sentir a 
dor dele atravs da pele.
     Antes que Moira pudesse voltar-se para a famlia de Tynan, a me deste se separou de seu marido e abriu passo para onde estava Cian. Seus olhos ainda velados 
pelas lgrimas.
     - vossa espcie a que fez isto. Sua espcie matou a meu filho.
     Hoyt tentou adiantar-se, mas Cian se moveu para lhe bloquear o passo.
     -Sim.
     -Vocs deveriam estar no inferno em lugar de meu filho sob a terra.
     -Sim -repetiu Cian.
     Moira se aproximou e apoiou uma mo sobre o ombro da mulher, mas ela a sacudiu de cima.
     -Vocs, todos vocs. -Girou lentamente, elevando um dedo acusador.- A todos lhes importa mais esta coisa que meu filho. E agora ele est morto. No tm nenhum 
direito de permanecer aqui, junto a sua tumba.
     Logo cuspiu aos ps de Cian.
     Enquanto cobria o rosto com as mos e chorava inconsolvel, seu marido e suas filhas a levaram dali.
     -Sinto-o -disse Moira.- Eu falarei com ela.
     -No passa nada. Ela no est equivocada.
     Sem acrescentar nada mais, Cian se afastou da tumba fresca e das filas de lpides que assinalavam o lugar onde repousavam os mortos.
     Niall lhe alcanou quando chegava s portas do cemitrio.
     -Sir Cian, preciso trocar umas palavras com voc.
     -Pode me dizer todas as palavras que queira, mas uma vez que tenha sado debaixo deste maldito sol.
     No sabia por que tinha ido ao cemitrio. J tinha visto mais que suficientes mortos em seu tempo, ouvido mais que suficiente pranto por eles. A me de Tynan 
no era a nica que o olhava com medo e dio, e ali estava ele, em pleno dia e com um tecido basta e um conjuro como nica proteo ante aquele sol assassino.
     Seu sangue se esfriou no mesmo instante em que entrou no castelo, afastado da luz.
     -Diga o que tenha que dizer.
     Cian se virou para trs o odiado capuz da capa.
     -Isso farei. -Niall, um homem corpulento de semblante habitualmente alegre e agora tenso e sombrio, assentiu abruptamente. Sua larga mo descansava no punho 
da espada enquanto olhava com dureza a Cian aos olhos.- Tynan era um amigo, e um dos melhores homens que conheci.
      -No me diz nada que no tenha ouvido antes.
      -Bom, no me tinham ouvido diz-lo, no? Vi o que eles fizeram a Sean, que tinha sido um moo indefeso e freqentemente tolo. Vi como chutava o corpo de Tynan 
e o fazia cair do cavalo como se no fosse mais que lixo que se joga em uma sarjeta.
      -Para ele no era mais que isso.
      Niall assentiu novamente, e seus dedos se fecharam sobre o punho.
      -Sim, isso foi o que fizeram dele. E de voc. Mas eu observei como levantavas o corpo de Tynan do cho, vi como o levavas pra dentro do castelo; como levaria 
um homem a um amigo morto. No vi nada em ti do que era Sean. A me de Tynan est desesperada. Ele era seu primognito e est louca de dor. No  certo o que h 
dito de voc junto  tumba. E a Tynan no teria gostado que ningum de seu sangue lhe insultasse, de modo que te estou dizendo isto como amigo. E tambm te digo 
que qualquer homem que luta a meu lado, tambm luta ao seu lado. Tm minha palavra.
     Afastou a mo direita do punho da espada e a estendeu a Cian.
     Os humanos nunca deixavam de surpreend-lo. Irritavam-no, chateavam, divertiam e, ocasionalmente, instruam-no. Mas, sobretudo, assombravam-no sem cessar com 
as curiosas voltas de suas mentes e coraes.
     Cian supunha que essa era uma das razes pela quais tinha sido capaz de viver entre eles durante tanto tempo e manter o interesse.
     -Agradeo-te suas palavras. Mas antes que estreite minha mo  necessrio que saiba que o que havia em Sean tambm est em mim. S h uma pequena diferena.
     -No  pequena segundo minha medida. E penso que usaro isso que h em voc para lutar contra esses demnios. Eu lutarei cotovelo com cotovelo junto a voc, 
sir Cian. E minha mo ainda est estendida.
     Cian a estreitou.
     -Sinto-me agradecido -disse.
     Mas quando subiu a escada o fez sozinho.
     
     
     Moira, desconsolada, retornou andando ao castelo. Havia muito pouco tempo para o luto, ela sabia, pouco tempo para o consolo. O que Lilith tinha feito a Sean, 
a Tynan, tinha-o feito para lhes destroar o corao. E tinha acertado no alvo.
     De modo que agora os combateriam com ao, com movimento.
     -Podem utilizar os drages? J esto o bastante treinados para transportar os homens?
     -So espertos e complacentes -lhe disse Larkin.- Fceis de montar por qualquer um que tenha boas ndegas e no tema  altura. Mas at agora foi como uma espcie 
de jogo para eles. No posso dizer como se comportaro na batalha.
     -Por agora se trata mais de uma questo de transporte. Voc e Blair so os que melhor os conhecem. Necessitaremos... -interrompeu-se quando sua tia cruzou o 
ptio.- Deirdre. -Beijou a sua tia na bochecha e a abraou. Sabia que as mes de Larkin e Tynan eram muito amigas.- Como ela est?
      -Est prostrada. Inconsolvel. -Os olhos de Deirdre, inchados por suas prprias lgrimas, fixaram-se no rosto de Larkin.- Como o estaria qualquer me.
     Ele a abraou.
     -No se preocupem comigo, ou por Oran.
     -Pede-me o impossvel. -Apesar de tudo, conseguiu esboar um sorriso. Mas este se desvaneceu quando olhou novamente a Moira.- Sei que estes so tempos muito 
difceis, e que tem muitas coisas na cabea, no corao. Mas queria falar contigo. Em particular.
     - obvio. Reunirei-me com vocs em um momento -disse aos outros, e logo passou o brao pelos ombros de Deirdre.- Iremos a minha sala de estar. Beberemos ch.
      -No  necessrio que te incomodes.
      -Far-nos bem s duas.
      Quando entraram no hall, chamou um dos criados e lhe disse que lhes subissem o ch  sala de estar.
      -E Sinann? -continuou Moira enquanto subiam a escada.
      -Fatigada e cheia de pena por Tynan, de preocupao por seu marido, por seus irmos. No podia permitir que hoje fosse ao cemitrio, hei-lhe dito que devia 
descansar. Estou preocupada com ela, pelo filho que leva em seu ventre e por seus outros filhos.
      -Sinann  forte, e tem a voc para cuidar dela.
      -Ser suficiente ter a mim se Phelan cair como o fez Tynan? Se Oran j h...
      -Deve ser assim. No temos alternativa neste assunto. Nenhum de ns.
      -Nenhuma alternativa salvo a guerra.
      Deirdre entrou na sala de estar e se sentou. Seu rosto, emoldurado pela touca, via-se mais envelhecido que nas semanas anteriores.
      -Se no lutarmos contra eles, mataro a todos como tm feito com Tynan. Ou nos faro o que fizeram ao pobre Sean.
      Moira se aproximou da lareira para acrescentar umas partes de turfa ao fogo. Apesar do brilhante sol de outono, estava gelada at os ossos.
      -E ao lutar contra eles, quantos morrero? Quantos sero assassinados sem piedade?
      Moira se ergueu e se voltou para sua tia. Ela no era a nica que perguntava, que procurava em sua rainha a resposta impossvel.
     -Como posso diz-lo? O que queriam que fizesse? Voc, que fostes a confidente de minha me antes que fosse rainha e durante todo seu reinado, o que terias querido 
que fizesse ela?
     -Os deuses lhe encarregaram desta tarefa. Quem sou eu para diz-lo?
     -Meu sangue.
     Deirdre suspirou e se olhou as mos, que tinha apoiadas no colo.
     -Estou cansada, at o fundo de minha alma. Minha filha teme por seu marido, como o fao eu pelo meu. E tambm por meus filhos. Minha amiga enterrou hoje a seu 
filho. E sei que no h escolha nisto, Moira. Esta praga chegou a ns e devemos combat-la.
     Uma criada entrou trazendo o ch.
     -Pode deix-lo ali -disse Moira.- Eu mesma o servirei. Haveis enviado comida ao salo?
     A jovem fez uma reverncia.
     -Sim, sua majestade. O cozinheiro estava se encarregando disso quando sa com o ch.
     -Obrigada. Isso  tudo ento.
     Moira se sentou e serviu a infuso.
     -Tambm h bolachas.  bom desfrutar de pequenos prazeres nos tempos difceis.
     - precisamente dos pequenos prazeres nos tempos difceis do que quero te falar.
     Moira lhe passou uma xcara.
     -H algo que eu possa fazer para aliviar seu corao? O de Sinann e dos meninos?
     -Sim, h. -Deirdre bebeu um pouco de ch antes de deixar a xcara a um lado.- Moira, sua me foi minha amiga mais querida neste mundo, e eu estou aqui em seu 
lugar, e te falo como o faria com minha prpria filha.
     -Eu sei.
     -Quando falou desta guerra que nos ameaa, disse que no havia outra escolha. Mas h outras escolhas que voc tem feito. Escolhas de mulher.
     Moira, ao entender o sentido das palavras de sua tia, apoiou-se no respaldo de sua cadeira.
     -Sim, tenho-o feito.
     -Como rainha, uma que se chama a si mesma de guerreira, uma que demonstrou ser uma guerreira, tem o direito, inclusive a obrigao, de utilizar todas e cada 
uma das armas a sua disposio para proteger a seu povo.
     -Assim o fao e o farei.
     -Este Cian chegou aqui de outro tempo e outro lugar. Voc acha que os deuses o enviaram.
     -Eu sei que  assim. Ele lutou por seu filho. Salvou-me a vida. Sentars aqui e me olhars, e lhe amaldioars como tem feito a me de Tynan?
     -No. -Deirdre inspirou profundamente.- Nesta classe de guerra, ele  uma arma. Usando a ele podes te salvar a ti, a meus filhos, a todos ns.
     -Equivocas-te -disse Moira brandamente.- O que Cian tem feito, e o que far para acabar com esta praga, far por sua prpria vontade.
     -A vontade de um demnio.
     Os olhos de Moira se gelaram.
     -Como queiras.
     -E levaste a esse demnio a sua cama.
     -Levei a Cian a minha cama.
     -Como pode fazer algo assim? Moira, Moira. -Estendeu as mos.- No  humano e, entretanto, se entregou a ele. O que pode ter que bom nisso?
     -Para mim j houve muito.
     Deirdre se apoiou um momento no respaldo da cadeira antes de continuar e pressionou os olhos com os dedos.
     -Crs acaso que os deuses o enviaram a ti para isto?
     -No posso sab-lo. Fizeram-lhe essa mesma pergunta quando escolhestes ao meu tio?
     -Como podes compar-lo? -exclamou Deirdre.- Acaso no tem vergonha, orgulho?
     -Nenhuma vergonha e considervel orgulho. Amo-o e ele me ama.
     -Como pode amar um demnio?
     -Como pode um demnio arriscar sua vida, uma e outra vez, para salvar  humanidade?
     -No  sua valentia o que estou questionando, e sim seu juzo. Crs que esqueci o que significa ser jovem, estar excitada, fazer loucuras? Mas voc  a rainha, 
e tem responsabilidades para com a coroa, para com seu povo.
     -Vivo e respiro essa responsabilidade a cada momento, cada dia.
     -E de noite te deita com um vampiro.
     Moira, incapaz de seguir sentada um momento mais, levantou-se e foi at a janela. O sol ainda brilhava, dourado e luminoso. Sua luz se estendia sobre a erva, 
sobre as guas do rio, nas asas dos drages que descreviam ociosos crculos ao redor do castelo.
     -No lhes peo que o entendam. Exijo-lhes respeito.
     -Fala-me como minha sobrinha ou como a rainha?
     Moira se voltou, sua figura emoldurada pela janela e a luz do sol.
     -Os deuses me ho considerado ambas as coisas. Viestes a mim movida pela preocupao e eu o aceito. Mas tambm viestes para condenar a algum, e isso no posso 
aceit-lo. Eu confiaria minha vida a Cian.  meu direito, minha escolha, confiar nele com meu corpo.
     -E o que acontece com seu povo? O que acontece com aqueles que se perguntam como  possvel que sua rainha tenha podido tomar como amante a uma destas criaturas 
das trevas?
     -Acaso todos os homens so bons, tia? So todos bons e generosos e fortes? Somos como nos criaram ou como escolhemos nos fazer a ns mesmos da adiante? Direi 
isto a respeito de meu povo, a respeito daqueles a quem defenderei com minha vida: tm melhores coisas das quais preocuparem-se, nas quais pensar, das quais falar, 
do que o que faz sua rainha na intimidade de seu dormitrio.
      Deirdre ficou em p.
      -E quando esta guerra tenha terminado, seguir com isso? Sentar a esta coisa que ama a seu lado no trono?
      O sol ainda brilhava no cu, pensou Moira, ainda quando ela sentia o corao triste e sombrio.
      -Quando tudo isto tenha acabado, se conseguimos sobreviver, Cian retornar a seu mundo e a seu tempo, j no voltarei a lhe ver nunca mais. Se somos derrotados 
nesta guerra, eu entregarei minha vida. Se obtivermos a vitria, perderei meu corao. No me falem, por favor, de escolhas e responsabilidades.
      -O esquecers. Quando isto tenha acabado, esquecer a ele e tambm esta loucura momentnea.
     -Me olhe -disse Moira brandamente.- Sabes que no o farei.
     -No. -Os olhos de Deirdre se encheram de lgrimas.- No o far. Eu queria te economizar esse momento.
     -Eu no. Nem um s momento do que vivi com Cian. Estive mais viva com ele do que o estive antes ou o voltarei a estar. De modo que no, nem um s momento.
     
     
     Estavam todos reunidos no salo principal do castelo, sentados ao redor da grande mesa e da comida, quando Moira entrou. Glenna tirou uma tampa que cobria o 
prato na cabeceira da mesa.
     -Ainda deve estar quente -disse a Moira.- No o desperdice.
     -No o farei. Precisamos comer, conservar as foras.
     Mas observou a comida que havia em seu prato como se fosse um remdio amargo.
     -Bem. -Blair a olhou com um brilhante sorriso nos lbios.- Como foi seu dia at agora?
     A risada, embora breve e carente de humor, afrouxou alguns dos ns que Moira sentia no estmago.
     -Uma merda. Essa seria a expresso, verdade?
     -Nunca melhor dito.
     -Bom. -obrigou-se a comer um bocado.- Ela nos golpeou, como  seu costume, tentando estimular o medo e minar a moral e a confiana. Alguns acreditaro o que 
Sean veio a nos dizer de sua parte. Que se nos rendemos, ela nos deixar em paz.
     -As mentiras so freqentemente mais atrativas que a verdade -observou Glenna.- Em qualquer caso, o tempo se acaba.
     -Sim. Os seis teremos que fazer preparativos para abandonar o castelo e partir para o campo de batalha.
     -De acordo -assentiu Hoyt.- Mas antes que o faamos, precisaremos estar seguros de que as bases que estabelecemos ainda esto em nosso poder. Se Tynan foi assassinado 
 possvel que eles tenham tomado essa praa forte. S contamos com a palavra de um demnio a respeito de que foi o menino quem o assassinou, e s ele.
     -Foi o menino. - Cian bebeu um sorvo de ch que continha aproximadamente a metade de usque.- As feridas que tinha no corpo -explicou- no foram provocadas 
por um vampiro adulto. No obstante, isso no responde  pergunta de se as bases so seguras.
     -Hoyt e eu podemos jogar uma olhada -disse Glenna.
     -Eu gostaria que o fizessem, mas dar uma olhada no  suficiente. -Moira continuou comendo.-  necessrio que reunamos informaes dos que tenham conseguido 
sobreviver.
     -Se  que o conseguiram.
     Ela olhou a Larkin, e sentiu o mesmo que ele estava sentindo. O constante medo por Oran.
     -Se  que o conseguiram -repetiu Moira.
     -Se eles destruram nossa base -prosseguiu Cian -, o mensageiro que Lilith enviou teria alardeado disso, e  provvel que ela teria enviado mais cadveres.
     -Sim, entendo-o. Mas para impedir que volte a ocorrer algo parecido, teremos que acrescentar reforos.
     -Quer que iremos ao drago. -Larkin assentiu.- Por isso perguntaste se estavam preparados.
     -Tantos como drages possam ser utilizados para este objetivo. A partir de hoje, todos aqueles que devam ir a p ou a cavalo sero vigiados do ar por quem monte 
nos drages. Se voc, Larkin, e voc, Blair, podem ir esta mesma manh, levem com vocs a alguns deles. Voando em drago podero viajar a todas as nossas bases, 
transportar um maior nmero de armas, ver os informes e propor o que acham que devemos fazer quando comprovarem pessoalmente como esto as coisas. Poderiam estar 
de retorno antes que anoitea ou, se no poderem faz-lo, ficarem em uma das bases at manh.
     -Est reduzindo muito nosso nmero enviando a dois -interrompeu Cian.- Sou eu quem deveria ir. Eu sozinho.
     -T. -Blair agitou uma parte de po.- Por que deve ter voc toda a diverso?
     -Por questes prticas. Em primeiro lugar, todos salvo Glenna e eu puderam ver o campo de batalha ou suas proximidades.  hora de que tambm eu lhe jogue uma 
olhada. Segundo, com essa fodida capa posso comear a viagem durante o dia, e posso viajar mais depressa e com maior segurana que qualquer de vocs durante a noite. 
E, ao ser um vampiro, posso reconhecer os sinais deles mais rpido inclusive que nossa caadora de demnios aqui presente.
     - um bom argumento -assinalou Larkin.
     -Em qualquer caso, tinha pensado j em ir e farejar um pouco. Deste modo poderemos matar dois pssaros de um tiro. E, por ltimo, acredito que todos estaremos 
de acordo nisso, aqui os nimos se acalmaro um pouco se eu no estiver.
     -Ela estava fora de si -murmurou Blair.
     Cian encolheu os ombros, sabendo que se referia  me de Tynan.
     -Tudo  questo de perspectiva... e de onde riscas a linha. O tempo se acaba e um de ns deveria estar no campo de batalha, especialmente de noite, quando  
provvel que a prpria Lilith saia a explor-lo.
     -No tens inteno de retornar -disse Moira lentamente.
     -No tem sentido que o faa. -Seus olhares se encontraram, sustentaram-se, e disseram muito mais que as palavras.- Um dos homens pode retornar com seus informes 
e todo o resto. E eu me encarregarei de complet-los quando todos vocs tenham chegado.
     -Voc j decidiu. -Moira estudou o rosto de Cian atentamente- Entendo. Mas somos um crculo, vnculos iguais. Acredito que, tratando-se de uma deciso to importante, 
todos teramos algo a dizer. Hoyt?
     -Eu no gosto da idia de que nenhum de ns parta sem outros, a verdade. Mas  necessrio faz-lo, e o que h dito Cian tem sentido. Podemos observar como o 
fizemos quando Larkin foi s covas, na Irlanda. Sempre podemos intervir se as circunstncias o exigem. -Olhou a sua esposa.- Glenna?
     -Sim. Estou de acordo. Larkin?
     -Eu tambm. Com uma s observao. Cian, acredito que te equivocas ao dizer que reduziramos muito nosso nmero ao enviar dois de ns. Penso que ningum deveria 
ir por sua conta. Eu posso te levar ali convertido em drago. E -continuou antes que Cian pusesse alguma objeo- eu tenho mais experincia que voc com os drages, 
em caso de que houvesse algum problema com eles ou com o inimigo. De modo que digo que devemos ir juntos, voc e eu. Blair?
     -Mas que droga. O menino drago tem razo. Voc pode se mover mais depressa se for sozinho, Cian, mas necessitar um vaqueiro de drages para chegar at ali, 
especialmente se est dirigindo homens.
     -Sim,  mais inteligente -assentiu Glenna.- Totalmente. Tem meu voto.
     -E o meu tambm -disse Hoyt.- Moira?
     -Ento isso  o que faremos. -levantou-se de sua cadeira sabendo que os dois homens que mais amava no mundo estavam a ponto de afastar-se de seu lado.- O resto 
de ns dedicaremos a terminar de fabricar as armas e assegurar o castelo, e lhes seguiremos dentro de dois dias.
     -Um grande esforo -disse Blair ao tempo que assentia-, mas podemos faz-lo.
     -Ento o faremos. Larkin, deixarei que voc seja quem escolha aos drages para isto, e que junto com Cian escolham aos homens que lhes acompanharo. -Moira 
visualizou em sua mente o quadro geral, os detalhes.- Eu gostaria que Niall ficasse, se lhes parecer bem, para que v com o resto de ns. Agora irei encarregar-me 
de que preparem as provises que necessitaro para a viagem.
     
     
     Quando ela fez tudo o que estava em suas mos, e confiando em haver-se tranqilizado, Moira foi ao quarto de Cian. Bateu na porta e a seguir a abriu sem esperar 
a que ele respondesse. Com as cortinas corridas, apenas havia luz suficiente para ver onde pisava, de modo que agitou a mo ligeiramente, dirigindo seu poder para 
uma das velas. A forma em que brotou a chama foi um claro indcio de que no estava to tranqila como tinha esperado. 
      Cian estava metendo em um saco o que se levaria na viagem.
     -No me havia dito nada destes planos.
     -No.
     -Pensava partir no meio da noite, sem uma palavra?
     -No sei. - Cian deixou por um momento o que estava fazendo e a olhou. Havia muitas coisas que ele no podia lhe dar, ou lhe pedir, pensou. Ao menos a honestidade 
era uma virtude que ambos podiam compartilhar.- Sim -acrescentou-, ao menos a princpio. Mas ento, uma noite, chamou a minha porta e meus planos mudaram. Ou foram 
pospostos.
     -Pospostos. -Moira assentiu lentamente.- E quando chegar o Samhain e tudo passe, partirs tambm sem dizer nada?
     -As palavras seriam inteis, no achas?
     -No para mim. -Ao compreender que se estavam aproximando do final, sentiu o pnico crescer em seu interior. Como pde no haver-se dado conta de que esse sentimento 
estava ali, esperando para abrir passagem e afog-la? -As palavras seriam algo precioso para mim. Queres partir. Posso v-lo. Queres ir.
     -Teria que me haver partido antes. Se tivesse sido mais rpido, teria cruzado essa porta e desaparecido antes que viesse para mim. Teria estado muito melhor 
para confrontar isto. Isto..., comigo, no  bom para ti.
     -Como te atreves? Como te atreves a me falar como se fosse uma menina que quer muitos doces? Estou farta de que me dem lies a respeito do que deveria pensar, 
sentir, ter, fazer. Se queres partir, faa-o, mas no me insultes.
     -Minha partida no tem nada a ver com o que h entre ns.  s algo que devo fazer. Voc mesma estive de acordo, assim como todos os outros.
     -Terias partido de todos os modos, embora eles e eu no tivssemos estado de acordo.
     Cian a olhou enquanto se sujeitava a espada  cintura. A dor estava j abrindo as feridas em ambos, como sabia que ocorreria no mesmo instante que ps suas 
mos sobre sua pele.
     -Sim, mas deste modo  menos complicado.
     -Terminaste comigo ento?
     -E o que aconteceria se fosse assim?
     -Pois teria que combater em duas frentes, bastardo.
     Cian ps-se a rir sem poder evit-lo. Deu-se conta de que entre eles no havia s dor, e faria bem em record-lo.
     -Ento,  uma sorte para mim que no tenha terminado contigo. Moira, ontem  noite voc sabia que tinha que ser a que acabaria com o que uma vez havia sido 
um menino ao que conhecias, pelo qual sentias afeto. Eu tambm sabia, de modo que me abstive de faz-lo eu, de te evitar esse momento. Sei que devo partir e por 
agora faz-lo sem ti. Voc tambm o sabes.
     -Mas isso no faz que resulte mais fcil.  possvel que nunca mais voltemos a estar sozinhos, que nunca mais possamos estar juntos como o estivemos. Quero 
mais tempo... no tivemos tempo suficiente e necessito de mais. -aproximou-se dele e o abraou com fora.- Nem sequer tivemos nossa noite. No durou at a manh 
seguinte.
     -Mas as horas so o importante, cada minuto delas.
     -Sou ambiciosa. E estou furiosa porque voc partes e eu devo ficar.
     "No s hoje", pensou Cian. Os dois sabiam que ela no estava se referindo s a esse dia.
     -As mulheres de Geall seguem a tradio de despedir-se de seus homens com um presente?
     -O que voc gostaria de te levar?
     -Uma mecha de seu cabelo.
     O sentimento que havia naquilo o surpreendeu a ele mesmo, e o fez sentir-se ligeiramente incmodo. Mas quando Moira retrocedeu, ele soube que seu pedido lhe 
tinha agradado.
     -Conservar essa parte de mim contigo?
     -Faria-o se me desses.
     Moira tocou o cabelo e logo elevou a mo.
     -Espera, espera, tenho uma coisa. Vou procur-la. -Nesse momento se ouviu o som das trompetistas chamando os drages.- Oh, j esto preparados. Levarei-lhe 
isso fora. No te v. Me prometa que esperar at que eu chegue para me despedir de ti.
      -Ali estarei.
      "Esta vez", pensou Cian enquanto ela abandonava rapidamente o quarto.
     
     
      Fora do castelo, protegido pelas sombras, Cian estudou aos drages que Larkin tinha escolhido e aos homens que ambos tinham concordado que lhes acompanhariam 
nessa misso.
      Logo franziu o cenho ao ver a bola de barro endurecido que Glenna lhe oferecia.
      -Agradeo-lhe isso, mas comi muito no caf da manh.
      -Muito engraado. Mas  uma bomba.
      -Ruiva,  uma bola de barro.
      -Sim, uma bola de terra... encantada que contm uma bola de fogo em seu interior. Se a lanas do ar... -Glenna moveu as mos para baixo ao tempo que assobiava, 
logo fez um rudo com a boca simulando uma exploso.- Em teoria -acrescentou.
     -Em teoria.
     -Testei-a, mas no de um drago em vo. Em algum momento pode test-la por mim.
     Cian voltou a franzir o cenho e fez girar a bola de barro entre as mos.
     -S devo lan-la?
     -Exato. Em algum lugar seguro.
     -E no h nenhuma possibilidade de que me exploda nas mos e eu me converta em uma bola de fogo?
     -Necessita velocidade e fora. Conviria que te encontraste a uma boa altura quando explodir. -elevou-se nas pontas dos ps e o beijou em ambas as bochechas.- 
Tome cuidado. Nos veremos em um par de dias.
     Com o cenho ainda franzido, Cian assegurou a bola de barro dentro de um dos bolsos do arns para armas que Blair tinha idealizado para quando Larkin se convertesse 
em um drago.
     -Estaremos vigiando. -Hoyt apoiou uma mo no ombro de Cian.- Trata de te manter afastado dos problemas at que volte a reunir-me contigo. E voc tambm -disse 
a Larkin.
     -J lhe adverti que lhe chutarei o traseiro se se deixa matar. -Blair agarrou a Larkin pelo cabelo, puxou-o para que baixasse a cabea e o beijou com fora 
na boca. Logo se voltou para Cian.
     -No nos daremos um abrao de grupo.
     Blair sorriu.
     -Estou de acordo contigo nisso. Mantenha-se afastado dos objetos de madeira bicudos.
     -Essa  a idia.
     Olhou por cima do ombro e viu que Moira corria para o estbulo.
     -Pensava que seria mais rpida -disse quase sem flego.- Vejo que j esto preparados para partir. Larkin, tenha muito cuidado.
     Abraou-lhe com fora.
     -Voc tambm. -Larkin lhe deu um ltimo abrao.- Montem em seus drages! -gritou e, com um ltimo sorriso dirigido a Blair, mudou de forma.
     -Tenho o que me pediste. -Moira lhe deu a Cian um relicrio de prata enquanto Blair ajustava o arns ao corpo de Larkin.- Meu pai o deu a minha me quando nasci 
para que ela pudesse guardar nele uma mecha de meu cabelo. Tirei o que havia e coloquei outro.
     E tambm toda a magia que tinha podido gerar.
     Elevou-se nas pontas dos ps e colocou a corrente ao redor do pescoo de Cian. Para deixar as coisas claras ante qualquer um que estivesse olhando, agarrou 
o rosto dele entre as mos e lhe deu um comprido, quente e tenro beijo na boca.
     -Terei outro desses te esperando -disse.- De modo que no cometa nenhuma tolice.
     Cian colocou a capa, cobrindo a cabea com o capuz e assegurando-a. Montou sobre Larkin e olhou a Moira aos olhos.
     -Em dois dias -disse ele.
     Um momento depois, elevava-se para o cu no drago dourado. Outros drages foram atrs deles lanando berros.
     Enquanto os observava, enquanto esses brilhos de cor se faziam menores com a distncia, a Moira sacudiu uma sbita certeza: a segurana de que os seis no retornariam 
do vale ao castelo como um crculo.
     Atrs dela, Glenna fez um gesto a Hoyt para que se afastasse. Logo enlaou com um brao a cintura de Blair e com o outro a de Moira.
     -Muito bem, garotas, vamos nos concentrar em preparar todo o necessrio para que possam se reunirem com seus homens.
      CAPTULO 16
      
      
     
     Desejava que chovesse ou, ao menos, que um espesso manto de nuvens atenuasse o calor do sol. A maldita capa era mais quente que o inferno ao que finalmente 
estava destinado. No estava acostumado a suportar temperaturas extremas.
     O fato de ser um morto vivo, refletiu Cian, acabava estragando a um homem. 
     Voar nos lombos de um drago era uma experincia realmente excitante, disso no cabia nenhuma dvida. Durante os primeiros trinta minutos aproximadamente. E 
outros trinta mais para admirar a paisagem verde e buclica que se estendia a centenas de metros debaixo deles.
     Mas depois de uma hora em uma fodida sauna de l, era simplesmente uma tortura.
     Se tivesse a pacincia e a dignidade de Hoyt, sups que cavalgaria erguido e decidido at o dia do juzo final. Inclusive com aquele calor insuportvel fundindo 
a polpa de seus ossos. Mas seu irmo gmeo e ele j se diferenciavam em algumas coisas bsicas inclusive antes que Cian se convertesse em vampiro.
     Podia dedicar-se a meditar, pensou, mas no parecia um recurso muito inteligente arriscar-se a um transe auto-induzido. Tinha o sol pegando em cima de sua cabea, 
 espera de frit-lo como se fosse um pedao de bacon, e uma bomba mgica atada ao corpo de Larkin que, pelo que ele sabia, podia explodir em chamas s por diverso.
     Por que, exatamente, tinha pensado que podia fazer a idiotice que estava fazendo?
     Ah, sim. Dever, honra, amor, orgulho... todos esses pesos emocionais que arrastam a um homem para o fundo do lago, embora lute com todas suas foras para manter 
a cabea por cima da superfcie. Bom, j no havia como voltar atrs. Nem no vo nem nos sentimentos que se amontoavam em seu interior.
     Meu Deus, amava-a. Moira a erudita, Moira a rainha. A tmida e a valente, a ardilosa e a aprazvel. Am-la era algo estpido, destrutivo, impossvel. Mas era 
muito mais real que algo que tivesse conhecido em mil anos.
     Podia sentir o relicrio que lhe tinha colocado ao redor do... outro peso. Ela o tinha chamado bastardo e um minuto depois, tinha-lhe entregue o que ele estava 
seguro de que era um de seus tesouros mais preciosos.
     Em uma ocasio, lhe tinha apontado com uma flecha ao corao, e logo se desculpou com uma plana sinceridade e uma ruborizada mortificao. Provavelmente nesse 
momento foi quando se apaixonou por ela. Como mnimo um pouco.
     Continuou estudando o terreno das alturas enquanto sua mente vagava. Um bom terreno de cultivo, pensou, com uma terra rica e frtil e suaves elevaes. Arroios 
e rios transbordantes de peixes discorrendo entre bosques nos quais abundavam a caa. As montanhas a distncia, com suas jazidas de minerais e seus mrmores. Profundas 
restingas com turva para combustvel. 
     Moira havia trazido sementes de laranjeira atravs do portal de Baile dos Deuses. A quem lhe podia ocorrer algo semelhante? 
     Teria que plant-las no sul. Ela sabia? Um pensamento estpido, Moira sabia tudo, ou tinha alguma forma de descobri-lo.
     Sementes de laranja e Yeats. E, pelo que ele tinha visto no escritrio de seu quarto, uma caneta tinteiro.
     De modo que ela cultivaria suas laranjeiras jovens na estufa e logo os plantaria no sul de Geall. E se prosperassem -e como podiam no faz-lo?-, um dia teria 
uma horta de laranjeiras.
     Deu-se conta de que gostaria de v-lo. Gostaria de ver como floresciam suas laranjeiras a partir das sementes que tinha pego de sua cozinha na Irlanda.
     Gostaria de ver seus encantadores olhos iluminarem-se com humor e apreo enquanto servia o suco de laranja ao que tanto se havia aficionado.
     Se Lilith conseguisse o que queria, ali no haveria hortas, nem flores, nem rastros de vida.
     J podia divisar parte dessa morte, parte da destruio. O que haviam sido cuidadas casas e pequenas cabanas eram agora montes de pedra e madeira queimadas. 
Vacas e ovelhas seguiam pastando nos campos, mas havia tambm cabeas de gado mortas apodrecendo-se ao sol sob uma nuvem negra de moscas.
     Gado morto por desertores, decidiu. Revolvendo entre a carnia onde e quando podiam.
     Teriam que serem caados e destrudos, at o ltimo deles. Se um s conseguisse sobreviver, alimentaria-se e procriaria. O povo de Geall e sua rainha teriam 
que mostrarem-se atentos e vigilantes at muito depois de passado Samhain.
     Comeou a concentrar-se nesse problema em particular at que, por fim, Larkin comeou a descer descrevendo amplos crculos.
     -Graas a todos seus deuses -murmurou Cian enquanto o faziam. 
     Era uma granja cuidada e bonita, como estava acostumado a ser habitual. Os soldados estavam fora, treinando, ocupando os postos de guarda. Havia mulheres entre 
eles, trabalhando ao mesmo tempo em que os homens. A fumaa que escapava da chamin pulverizava um aroma que lhe disse que havia um guisado no fogo, provavelmente 
cozendo-se lentamente durante todo o dia.
     Desde terra, protegiam-se os olhos com as mos enquanto olhavam para cima ou saltavam e se agitavam lhes lanando saudaes de bem-vinda.
     Rodearam-lhes assim que Larkin aterrissou. Cian desmontou e comeou a descarregar os fornecimentos. Deixaria que fossem Larkin e os outros homens quem respondessem 
s perguntas. Ele precisava refugiar-se nas sombras.
     
     -No tivemos nenhum problema.
     Isleen lhe serviu uma boa rao de guisado que Cian no queria, mas pensou que seria melhor esperar a ocupar-se de sua proviso de sangue quando tivesse um 
pouco de privacidade.
     Larkin se inclinou sobre sua tigela assim que se sentaram  mesa.
     -Obrigado -disse com a boca cheia.- Est muito bom.
     -So muito bem vindos. Eu estou me encarregando da cozinha, de modo que acredito que nossos soldados esto comendo melhor que os outros. -Isleen sorriu e lhe 
formaram umas covinhas nas bochechas.- Tm seguido o treinamento, todos os dias, e nos encerramos sob chave ao pr do sol. No vimos a nenhum deles desde que chegamos 
e enviamos ao resto dos soldados ao outro posto.
     - bom sab-lo. -Larkin agarrou a jarra que havia junto a sua tigela de comida.- Poderia me fazer um favor ento, Isleen querida? Poderia ir procurar a Eogan... 
o Eogan de Ceara? Temos que falar com ele.
     -Sim,  obvio, irei agora mesmo. Ah, e podem se deitar aqui, ou acima, se o preferirem.
     -Continuaremos a viagem  segunda base dentro de um momento e deixaremos aqui a trs homens dos quais vieram conosco.
     -Por certo, vi que trouxestes tambm ao ruivo Malvin. -Isleen fez o comentrio com pretendida indiferena e um esboo de sorriso.- Me pergunto se ele  um dos 
homens que deixaro aqui.
     Larkin sorriu e se serviu mais guisado.
     -Isso no seria um problema nenhum. Irs procurar a Eogan agora, verdade, querida?
     -Tiveste algo com ela, no  assim? -perguntou Cian.
     -Tive... No. -Logo seus olhos leonados brilharam com humor.- Bom, algo houve, mas poderia dizer-se que nada importante.
     -Como quer dirigir isto?
     -Eogan  um homem razovel e forte. Os que vieram conosco j devem haver-lhe contado o que aconteceu a Tynan, de modo que eu responderei s perguntas que tenha 
que fazer a respeito a esse assunto. Eu gostaria que fosse voc quem repassasse novamente com ele as ordens e as precaues que devem tomar-se. Logo, se no houver 
nada mais a informar alm do que nos h dito Isleen, deixaremos aqui a Malvin e aos outros dois homens e seguiremos at o outro posto. No tem fome?
     -Sim, de fato sim, mas posso esperar.
     -Ah. -Larkin assentiu.- Tem o que necessita nesse aspecto?
     -Sim. Os cavalos e as vacas esto a salvo.
     -Vi animais mortos nos campos. No parecia que um exrcito se alimentou deles, e sim uns poucos carniceiros. Dirias que foram desertores?
     -Isso  exatamente o que eu diria.
     -Agora  uma vantagem que ela perca tropas aqui e l -disse Larkin.- Mais tarde ser um problema.
     -Em efeito.
     -J pensaremos em algo. -Larkin desviou o olhar quando a porta se abriu.- Eogan. Temos muito do que falar e muito pouco tempo para faz-lo.
     
     
     No seguinte posto de frente no havia muitas novidades, mas no terceiro, Lilith tinha deixado sua marca.
     Dois dos edifcios exteriores estavam totalmente queimados e as colheitas tinham sido tambm pasto das chamas. Os homens lhes contaram de uma noite de fogo 
e fumaa, e dos horrveis gemidos dos animais ao serem sacrificados.
     Cian estudou junto com Larkin a terra calcinada.
     - como disseram Blair e voc de que ela arrasaria as granjas e as casas.
     -Pedra e madeira.
     Larkin meneou a cabea.
     -Gado e colheitas. Suor e sangue. Casas e lares. 
     -Tudo o qual pode ser criado e cultivado, coberto e construdo outra vez. Seus homens resistiram o assdio sem sofrer baixas. Lutaram e no cederam terreno... 
e enviaram ao inferno parte das foras de Lilith. Seu copo est milagrosamente meio cheio, Larkin.
     -Tinhas razo, agora sei, mas espero que se Lilith tratar de beber o que fica no copo, suas vsceras se voltem negras pelo fogo. Continuaremos at a seguinte 
base.
     Quando chegaram, viram que havia tumbas recm cavadas, terra queimada e homens feridos.
     O medo que atanazava o estmago de Larkin por fim desapareceu quando viu que seu irmo pequeno, Oran, saa coxeando da casa. Correu para ele e,  maneira dos 
homens, deu-lhe um golpe no brao e logo um abrao.
     -A nossa me agradar saber que te encontras entre os vivos. Como esto suas feridas?
     -S uns arranhes. Como esto as coisas em casa?
     -Movidas. Vi a Phelan em um dos outros postos e est bem.
     - bom sab-lo. Mas tenho ms notcias, Larkin.
     -Sabemos. -Apoiou uma mo sobre o ombro de Oran. Seu irmo era pouco mais que um menino quando ele partiu de casa, pensou. Agora era um homem, com tudo o que 
isso implicava.- Quantos mais alm de Tynan?
     -Trs. E outro que muito me temo que no passar desta noite. Levaram a dois mais, vivos ou mortos, no posso diz-lo. Foi um menino, Larkin. Um menino vampiro 
que matou a Tynan.
     -Iremos pra dentro e falaremos disso.
     
     
     Instalaram-se na cozinha e Cian se sentou longe da janela. Entendia por que Larkin escutou todo o relato de Oran, embora seu amigo conhecia ou podia imaginar 
a maior parte da histria. Oran tinha que voltar a cont-lo, tinha que reviv-lo de novo.
     -Eu tinha tido o turno de guarda anterior ao de Tynan e estava dormindo quando ouvi o alarme. J era muito tarde para Tynan, Larkin, j era muito tarde. Ele 
saiu da casa sozinho, pensando que ali fora havia um menino ferido, perdido e apavorado. O menino o atraiu mediante enganos longe da casa, e embora houvessem homens 
postados e com os arcos preparados, quando o menino o atacou j era muito tarde.
     Oran umedeceu a garganta com um pouco de cerveja.
     -Os homens saram correndo para lhe ajudar. Eu era o segundo ao comando, e devia ter lhes ordenado que no sassem. Era muito tarde para salvar a Tynan, mas 
como amos deixar de tent-lo? E ao faz-lo perdemos mais homens.
     -Tynan faria o mesmo por ti, por qualquer de vocs.
     -Esses monstros levaram seu corpo. -O jovem rosto de Oran estava marcado pela pena e seus olhos pareciam os de algum muito velho.- O buscamos.  manh seguinte 
samos para lhes buscar, a Tynan e aos outros dois homens, mas s encontramos sangue. Tememos que lhes tivessem convertido em vampiros.
     -A Tynan no. -Agora falou Cian, e esperou a que o olhar cansado de Oran se fixasse em seus olhos.- No podemos saber o que ocorreu com os outros dois, mas 
a Tynan no o converteram em vampiro. Seu corpo foi levado de volta ao castelo. Foi enterrado esta manh.
     -Ao menos dou graas aos deuses por isso. Mas quem levou seu corpo ao castelo?
     Enquanto Larkin o explicava, as feies de Oran voltaram a se endurecer.
     -O jovem Sean. No pudemos lhe salvar quando nos estenderam uma emboscada no caminho. Saram debaixo da terra como feras. Aquele dia perdemos bons homens, e 
tambm a Sean. Est em paz agora? -Oran olhou a Cian.- Agora que o que o levou desapareceu, est em paz?
     -No tenho resposta para essa pergunta.
     -Bom, eu acreditarei que o est, igual a Tynan e os outros homens aos quais enterramos. Nem homens nem deuses podem faz-lo responsvel pelo que lhe fizeram.
     Ao chegar a noite, dobraram a guarda e, seguindo instrues de Cian, encheram pequenos odres com gua benta. Estes odres se segurariam s flechas. Com isso, 
embora no se alcanasse o corao do vampiro, causariam-lhe um dano considervel, e possivelmente a morte.
     Alm do mais tinham colocado mais armadilhas. Os homens que no podiam dormir passariam o tempo fabricando estacas.
     -Achas que Lilith tentar uma incurso esta noite? -perguntou-lhe Larkin a Cian.
     Estavam sentados no que tinha sido um pequeno salo e agora se utilizava como depsito de armas.
     -A uma das outras bases,  possvel. Aqui no teria muito sentido, a menos que esteja aborrecida... ou queira que alguns de seus soldados treinem. Nesta base 
j tem feito o que tinha previsto.
     Posto que estavam sozinhos, Cian se serviu um pouco de sangue de uma tigela de cermica.
     -O que faria se fosse ela?
     -Enviaria grupos pequenos para que distrassem e acossassem. Para reduzir gradualmente o nmero de tropas inimigas e minar sua moral em todas as bases. O problema 
com esse tipo de estratgia  que seus homens tendem a manter-se firmes e leais, enquanto que sabemos que alguns dos soldados de Lilith desertam. Mas em troca, suas 
perdas individuais lhes fazem muito dano, embora as de Lilith significam para eles menos que nada.
     Cian bebeu outro gole.
     -Mas eu no sou ela. Sendo eu, o que eu gostaria seria sair em busca de um de seus grupos de frente, surpreend-los antes que pudessem chegar ao seu objetivo, 
e matar a todos. 
     - curioso -disse Larkin com um sorriso.- No sou ela, e voc tampouco, mas tinha exatamente o mesmo pensamento na cabea.
     -Muito bem. A que esperamos ento?
     Deixaram a Oran a cargo da base. Embora houvessem considerveis discusses e debates sobre a questo, Larkin e Cian se foram sozinhos. Um drago e um vampiro, 
segundo o raciocnio de Cian, podiam viajar mais depressa, e sem serem detectados.
     Se encontrassem uma cambada de inimigos e decidissem baixar a terra para um enfrentamento corpo a corpo, o arns de Larkin ia bem provido de armas. Cian prendeu 
uma aljava  costas e carregou umas quantas estacas mais em seu cinturo.
     -Ser interessante ver como funciona a idia da guerra area.
     -Est preparado ento? -Larkin se transformou novamente em drago e esperou, dourado e sinuoso, a que Cian ajustasse o arns com as armas.
     Ambos convieram que seria uma misso curta e simples. Voariam em crculos progressivamente mais amplos procurando qualquer sinal de uma cambada de vampiros 
ou de um acampamento. Se descobrissem algum, atacariam: rpido e limpo.
     O vo para uma lua quase cheia foi excitante. A liberdade da noite embargou a Cian. Voava sem capa nem casaco, recreando-se no frio e a escurido.
     Debaixo dele, Larkin voava em silncio, suas asas de drago apenas um sussurro no ar, e to finas que Cian podia ver o brilho das estrelas atravs delas quando 
varriam o ar.
     As nuvens flutuavam  deriva, delgados farrapos que se deslizavam como gaze sob as estrelas, e navegavam como navios fantasmas sob a lua.
     Abaixo, muito mais abaixo, os primeiros dedos de nvoa comeavam a se arrastar sobre os campos.
      O prazer do vo compensava o sufocante desconforto que Cian tinha suportado na viagem de ida. Como se ele tambm o sentisse, Larkin comeou a elevar-se, descrevendo 
compridos e preguiosos giros. Durante um venturoso instante, Cian fechou os olhos e simplesmente desfrutou do momento.
     Ento o sentiu, como uma suave carcia sobre sua pele. Uns dedos frios e exploradores que pareciam deslizar-se para seu interior e dar voltas em seu sangue. 
E um sussurro dentro de sua cabea, um suave canto de sereia chamando o que ele era sob a aparncia de um homem.
     E quando Cian olhou, viu debaixo deles a paisagem selvagem do campo de batalha.
     O absoluto silncio que reinava nele era um grito de violncia. Queimava-lhe como se fosse ao fundido, brilhante e escuro, profundo e primitivo. As folhas 
de erva eram afiadas e selvagens, as rochas, pontiagudas, letais. Logo, inclusive elas desapareceriam em negros poos de abismos e covas onde nada se atrevia a morar.
     Protegido pelas altas montanhas, aquele terreno maldito esperava o sangue.
     Cian s tinha que inclinar-se para frente -uma distncia to curta- e afundar os dentes no pescoo do drago para encontrar ali o sangue de um homem. Humano 
e rico, aquele jorro de vida, e um sabor que no podia ser igualado por nenhum outro ser vivo. Um sabor que ele se negou durante sculos. E por que? Para viver entre 
eles, para sobreviver levando a mscara de um deles?
     Estavam muito por baixo dele... como as pulgas em um co.
     No eram mais que carne e sangue, criados para que ele os caasse. A fome lhe mordeu as vsceras, e o desejo, a excitao primitiva desse apetite bombeava em 
seu interior como se fossem as batidas do corao.
     A lembrana da caa, daquele primeiro jorro de vida quente enchendo sua boca, lhe baixando pela garganta, era maravilhoso.
     Tremendo como um viciado em plena sndrome de abstinncia, Cian lutou contra isso. Ele no acabaria dessa maneira. Ele no voltaria a ser um prisioneiro de 
seu prprio sangue.
     Era mais forte que isso. Converteu-se em mais que isso.
     Seu estmago estava tendo cibras pela necessidade e a nusea enquanto se inclinava para Larkin.
     -Desce aqui. Conserva a forma de drago. Te prepares para voar outra vez, para me abandonar se for necessrio. Saber.
     Aquele terreno maldito o atraa com fora enquanto descendiam para ele. Murmurava-lhe, cantava-lhe, prometia-lhe. E lhe mentia.
     O calor o envolveu como uma febre quando saltou a terra. Jurou que no se converteria novamente em um vampiro, e que no mataria a um amigo como tinha tentado 
fazer uma vez com seu irmo.
     - este lugar.  nocivo.
     -Hei-te dito que no mudasse de forma. No me toques!
     -Posso senti-lo dentro de mim. -A voz de Larkin era serena.- A ti deve te queimar por dentro.
     Cian se voltou, os olhos vermelhos, a pele coberta pelo suor de sua batalha interna.
     -s estpido?
     -No. -Mas Larkin no tinha tirado antes nenhuma arma e no a tirou tampouco ento.- Est lutando contra isso e conseguir derrot-lo. Seja o que for o que 
este lugar desperte, em ti h mais. Est o que Moira ama.
     -No tem idia da fora deste desejo. -No fundo de sua garganta se escondia um grunhido. Cantarolava nos ouvidos de Cian e, com ele, podia ouvir o batimento 
do corao de Larkin.- Posso te cheirar, posso cheirar o humano.
     -Acaso cheira medo em alguma parte?
     Os tremores percorriam todo seu corpo, to intensos, que pensou que os ossos lhe quebrariam. Sua cabea no deixava de gritar, mas era incapaz de bloquear o 
som, a perversa tentao daquele corao humano que no cessava de pulsar.
     -No. Mas poderia faz-lo. Poderia fazer que o sentisse. O medo adoa o sangue. Deus, Deus, que mo doente criou este lugar?
     Suas pernas se negavam a sustent-lo, de modo que se sentou no cho e lutou por manter o dbil controle sobre sua vontade. Enquanto o fazia, aferrou com fora 
o relicrio que Moira lhe tinha pendurado ao redor do pescoo.
     A nusea remeteu um pouco, como se uma mo fria se apoiasse sobre uma testa em febre.
     -Ela me traz a luz, isso  o que faz. E eu a tomo e me sinto como um homem. Mas no o sou. Este  um doloroso aviso de que no sou um homem.
     -Eu vejo um homem quando lhe olho.
     -Pois te equivocas. Mas esta noite no beberei, no de ti. No de um humano. Esta noite no me devorar. E no voltar a me surpreender desta maneira agora 
que sei.
     O vermelho se estava desaparecendo de seus olhos enquanto olhava a Larkin.
     -s um estpido por no ter tirado uma arma.
     Por toda resposta, Larkin elevou a cruz de sua corrente.
     -Poderia ter sido suficiente -considerou Cian. Secou-se as palmas suarentas nos joelhos dos jeans.- Felizmente para ambos, no tivemos que prov-lo.
     -Levarei-te de volta.
     Cian olhou a mo que Larkin lhe estendia. Humanos, pensou, confiantes e otimistas. Agarrou-a e ficou de p.
     -No, seguiremos adiante. Preciso caar alguma coisa.
     Ele tinha ganho a batalha, pensou Cian enquanto voltavam a elevar-se no ar, mas no negaria que se sentia aliviado ao afastar-se daquele lugar.
     E se sentiu obscuramente excitado ao avistar movimento em terra.
     Uma dzia de soldados, comprovou, a p e movendo-se com a veloz agilidade prpria dos de sua espcie. Apesar da velocidade que levavam, em suas filas havia 
uma ordem e uma preciso que lhe confirmaram que se tratava de soldados treinados e veteranos.
     Percebeu a mudana no corpo do drago quando Larkin os viu e, uma vez mais, Cian se inclinou para frente.
     -Por que no testamos a nova arma de Glenna? Quando eles cruzem o seguinte campo, quero que voe diretamente por cima do centro do peloto. H arqueiros entre 
eles, de modo que, uma vez que esta coisa exploda, ter que fazer algumas manobras evasivas.
     Enquanto Larkin se colocava em posio, Cian procurou no bolso do arns e tirou a bola de barro.
     Que semelhanas guardam um drago e um avio? Perguntou-se, e aproveitou seus sculos de experincia como piloto para calcular a velocidade relativa, a distncia 
e a altura.
     -Bomba lanada -murmurou e deixou cair a bola.
     A criao de Glenna se chocou contra o cho, provocando que o desconcertado peloto se detivera e tirasse a reluzir as armas. Cian estava a ponto de declarar 
imprestvel o experimento de Glenna quando se produziu um violento estalo de fogo. Os que se encontravam mais perto da bomba simplesmente desapareceram, enquanto 
que vrios mais foram alcanados pelas chamas.
     Enquanto observava as cenas de pnico e ouvia os gritos, Cian colocou uma flecha em seu arco. Como patos em um lago, pensou, e acabou com os que ficavam.
     Larkin voltou a tocar a terra e abandonou sua forma de drago.
     -Bom. -Chutou com indiferena um monto cinzas - Isso foi muito rpido.
     -Sinto-me melhor por ter matado algo, embora o tenha feito de maneira longnqua e impessoal. Ao estilo humano. No produz o mesmo prazer que uma verdadeira 
caada. Pela mesma razo que para esta no se usam fuzis ou armamento moderno -acrescentou Cian-, porque no haveria nada de emoo nisso.
     -Sinto-o por ti, mas a mim o resultado pareceu muito satisfatrio. E a bola de fogo de Glenna muito eficaz, verdade?
     Larkin comeou a reunir as armas que tinham ficado pulverizadas pelo cho. Quando se agachou, uma flecha assobiou por cima de suas costas e alcanou a Cian 
no quadril.
     -Oh, merda! Um deles deve ter escapado.
     -Agarra o arns. -Larkin o lanou a Cian.- E monte.
     Em um instante, converteu-se novamente em drago, e Cian montou de um salto depois de considerar que a flecha poderia entorpecer sua marcha se continuava a 
p. Agarrou a seguinte flecha no ar antes que alcanasse seu alvo. Logo Larkin ascendia e descendia enquanto virava bruscamente para evitar as flechas.
     -Ali esto, agora posso v-los. Um segundo peloto completo.  provvel que se trate de uma frente de caa em busca de humanos atrasados ou de algo que possam 
encontrar.
     Cian voltou a utilizar o arco, e acabou com vrios deles enquanto fugiam e procuravam refgio.
     -Assim no  divertido -decidiu. Tirou a espada de sua bainha, saltou do lombo de Larkin e caiu dez metros at tocar terra.
     Se os drages pudessem amaldioar, Larkin teria feito que o ar se voltasse azul.
     Dois homens e trs mulheres se aproximaram de Cian como os vrtices de um tringulo. Cortou em duas com sua espada a flecha dirigida a ele e logo fez girar 
a lmina para bloquear o ataque.
     O sentimento do que tinha sentido no campo de batalha estava dentro dele, e o utilizou. Uma necessidade imperiosa de sangue, se no para beb-lo, sim para derram-lo. 
A princpio, s se dedicou a ferir seus inimigos e, desse modo, poder cheir-lo... o rico aroma de cobre, e deixar-se levar por ele enquanto golpeava e cortava.
     Por diverso, Cian girou e lanou uma violenta porrada contra o rosto de um dos vampiros. Quando este se cambaleou, agarrou-lhe a cabea ao tempo que se arrancava 
a flecha do quadril e a cravava no corao de outro vampiro que o atacava pela esquerda.
     Deu-se outra vez a volta e viu que Larkin tinha trocado de forma e estava cravando uma flecha no corao do ltimo dos vampiros.
     - tudo? -perguntou Larkin sem flego.- Era o ltimo deles?
     -Segundo minha conta.
     -J. Porque na ltima vez contaste muito bem, verdade? -levantou-se e se sacudiu o p em que se converteram os vampiros.- Maldito p. Sente-se mais voc mesmo 
agora?
     -No topo do mundo, mame. - Cian se esfregou com indiferena o quadril ferido. Como brotava sangue, rasgou-se a manga da camisa.- Me d uma mo, queres? Uma 
rpida bandagem de campo.
     -Quer que te coloque uma bandagem no traseiro?
     -No  no traseiro, idiota.
     -Bastante perto. -Mas Larkin se aproximou para dar uma olhada.- Baixe as cuecas ento, carinho.
     Cian lhe lanou um olhar sombrio, mas obedeceu.
     -E qual achas que ser o estado de nimo de Lilith quando nenhum membro de suas frentes de caa ou de ataque retorne a sua base?
     -Estar zangada. -Cian girou a cabea para trs para ver o trabalho que estava fazendo Larkin na zona ferida.- Muito zangada.
     -Faz que algum se sinta bem, verdade? Ter um bonito buraco na ndega durante algum tempo.
     -Quadril.
     -Me parece seu traseiro. Acredito que  hora de que retornemos e desfrutemos de uma boa comida e umas jarras de cerveja. Tenho bastante fome para comer um burro, 
com pele e tudo. Bem, isto j est bom. Fizemos um bom sero, no te pareces? -acrescentou, quando Cian voltou a subir as calas.
     -Assim vieram as coisas. Poderiam ter sido de outra forma quando estvamos no vale, Larkin.
     Este, pensativo, arrancou uns molhos de erva para limpar das mos o sangue de Cian.
     -No acredito que isso seja verdade. No acredito que as coisas teriam sido muito distintas a como foram. Agora, se o traseiro no te doer muito, me ajude a 
juntar todas estas bonitas armas para as acrescentar a nossa proviso.
     -Deixe meu traseiro fora disto.
     Entre os dois comearam a recolher espadas, arcos e flechas. 
     -Estou seguro de que essa parte de seu corpo muito em breve estar em condies. Se no for assim, Moira lhe dar um beijo para que se cure quando chegarem 
aqui.
     Cian olhou a Larkin enquanto este assobiava uma melodia e carregava as espadas no arns.
     -s um cara divertido, Larkin. Um cara fodidamente divertido.
     
     
     Em Geall, Moira se separou da bola de cristal para ficar de p junto  janela, com os braos cruzados.
     -Estou equivocada ou lhes dissemos que fossem inspecionar as bases e que no corressem riscos?
     -No obedeceram -conveio Blair-, mas tem que reconhecer que foi uma boa briga. E essa bola de fogo  excelente.
     -O atraso na exploso representa um pequeno problema. -Glenna continuou observando enquanto Larkin e Cian voavam de volta para a base.- Trabalharei nisso. Mas 
estou um pouco mais preocupada com o efeito que teve sobre Cian o campo de batalha.
     -Ele conseguiu super-lo -respondeu Hoyt.- Fosse o que fosse o que queria apanh-lo, ele o venceu. 
     -Sim, isso diz muito a seu favor -conveio Glenna.- Mas foi uma vitria muito dura, Hoyt.  algo sobre o que teremos que pensar. Possivelmente possamos fazer 
um feitio que o ajude a bloquear essa influncia.
     -No. -Moira falou sem voltar-se.- Cian se encarregar de faz-lo. Precisar faz-lo. Acaso no  sua vontade que o faa ser como ?
     -Suponho que tem razo. -Glenna percebeu os ombros rgidos de Moira.- Do mesmo modo que suponho que ambos precisavam sair esta noite e fazer o que tm feito.
     - possvel. J chegaram a uma zona segura?
     -Esto a ponto -respondeu Blair.- E sem novidade no fronte ocidental6. Bom, no fronte oriental neste caso, mas isso no tem o mesmo significado literrio.
     -Sem novidade... no momento. -Moira se voltou para eles.- Acredito que  razovel dizer que esta noite estaro a salvo dentro da base e que  pouco provvel 
que Lilith tente outra incurso. Acredito que todos deveramos tratar de dormir um pouco.
     -Boa idia.
     Glenna agarrou a bola de cristal.
     Desejaram-se boa noite e se afastaram em diferentes direes. Mas nenhum deles foi dormir. Hoyt e Glenna se dirigiram  torre, a seguir trabalhando. Blair foi 
treinar no salo de baile vazio.
     Moira, por sua parte, decidiu ir  biblioteca e procurar todos os livros que falassem das lendas e histrias do Vale do Silncio.
     Leu e estudou at que apontou a primeira luz do amanhecer. 
     Quando finalmente dormiu, acocorada no banco da janela, como tinha feito freqentemente quando era pequena, sonhou com uma grande guerra entre deuses e demnios. 
Uma batalha que se esteve liberando durante mais de um sculo. Uma luta em que derramou sangue de ambos os lados at que esta formou um oceano.
     E o oceano se converteu em um vale, e o vale se converteu em Silncio.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 17
      
     
      
     -Sinann, deverias estar deitada.
     Com a mo apoiada no ventre, Sinann olhou a Moira e meneou a cabea.
     -No podia deixar que meu pai partisse sem me despedir dele. Ou de ti. -Sinann jogou uma olhada ao redor do ptio, onde homens, cavalos e drages se preparavam 
para a viagem.- Tudo isto parecer to vazio agora, com to poucos de ns dentro destes muros.
     Sinann conseguiu esboar um leve sorriso ao ver que seu pai elevava a seu neto no ar.
     -Voltaremos e o rudo ser ensurdecedor.
     -Moira, por favor, traga-os de volta ao castelo. -A tenso comeava a filtrar-se agora atravs de seus olhos, de sua voz.- A meu pai, a meus irmos, faa que 
voltem para mim.
     Moira agarrou os braos de Sinann.
     -Farei tudo o que possa para cumprir seus desejos.
     Sinann apertou a mo de Moira contra seu ventre.
     -Aqui h vida. Pode senti-la? Diga a Phelan que h sentido como se movia seu filho.
     -Farei-o.
     -Eu cuidarei de tuas plantas na estufa e manterei uma vela acesa at que todos tenham retornado para casa. Moira, como saberemos? Como faremos para saber se 
vocs...?
      -Sabero -prometeu Moira.- Se os deuses no lhes enviarem um sinal de nossa vitria, ento o faremos ns. Prometo-lhe isso. Agora v beijar a seu pai e eu 
beijarei a todos seus outros homens por ti quando os vir.
     Moira se aproximou de sua tia e apoiou a mo sobre o brao de Deirdre.
     -Falei com os homens que posso deixar com vocs para que lhes protejam. Minhas ordens so claras e singelas e devem seguir-se ao p da letra. As portas do castelo 
devem permanecer fechadas e ningum deve abandon-lo, j seja de dia ou de noite, at que se recebam notcias de que a guerra terminou. Conto com voc como cabea 
de minha famlia que fica aqui para que essas ordens se cumpram. s minha regente at que eu tenha retornado. Ou no caso de minha morte...
     -Oh, Moira.
     -No caso de que eu morra, voc reinar at que seja escolhido o legtimo sucessor ao trono. -tirou-se um anel que tinha pertencido a sua me e o ps no dedo 
de Deirdre.- Este  o smbolo de sua autoridade, em meu nome.
     -Honrarei seus desejos, suas ordens e esse nome. Juro-lhe isso, Moira. -Agarrou as mos de sua sobrinha entre as suas.- Lamento que discutssemos.
     -Eu tambm.
     Embora seus olhos estavam midos, Deirdre conseguiu esboar um trmulo sorriso.
     -Embora ambas nos separemos acreditando que tnhamos a razo de nossa parte.
     -E assim . Mas no vos amo menos por isso.
     -Minha menina. -Deirdre a atraiu para si.- Minha doce menina. Todas as preces que conheo te acompanharo. Volte para ns. Diga a meus filhos que tm meu corao 
e meu orgulho. 
     -Sinto-o -as interrompeu Blair tocando o ombro da Moira.- Tudo est preparado para a marcha.
     -Me despeo de voc, Blair. -Deirdre avanou uns passos para beij-la nas bochechas.- E confio em que saibers manter a meu filho mais velho a salvo.
     -Farei todo o possvel.
     -Ser necessrio. Larkin  muito difcil de controlar. -Abriu a boca para acrescentar algo mais e, logo, inspirou profundamente.- Ia dizer que tomasse cuidado, 
mas no  isso o que os guerreiros querem ouvir. De modo que lhes digo que lutem bem.
     -Podes contar com isso.
     Montaram em cavalos e drages sem pompa nem cerimnias de nenhuma classe. As crianas estavam reunidas em grupos, controlados por suas mes, que permaneciam 
atrs deles. Os ancies se apoiavam em bengalas ou nos braos dos mais jovens.
     As lgrimas brilhavam nos olhos de todos. Embora atravs desse mido vu estivessem olhando aos entes queridos que os deixavam para trs, Moira sabia que tambm 
estavam olhando a ela. 
     Traga-os de volta para mim. Quantos albergavam em seus coraes e em suas mentes esse nico e desesperado desejo? Nem todos o veriam satisfeito, mas ela, tal 
como tinha jurado a Sinann, faria todo o possvel.
     E no lhes deixaria nem os guiaria com lgrimas nos olhos.
     Moira fez um sinal a Niall, que se encarregaria de comandar as foras terrestres. Quando ordenou que se elevassem as portas, elevou a espada de Geall para cima, 
e,  frente das ltimas tropas do castelo de Geall, disparou um arco de fogo por volta do plido cu da manh.
     Os cavaleiros dos drages foram os primeiros a chegar ao destino e mobilizar s tropas. Estas abandonariam a primeira base para empreender a seguinte etapa 
da marcha para o campo de batalha. Carregaram fornecimentos e armas, e os homens montaram em cavalos e drages. Os que partiam a p eram flanqueados pelos cavaleiros... 
por ar e por terra.
     E assim seguiram viajando atravs das terras e do cu de Geall. 
     Ao chegar a seguinte parada, descansaram e deram de beber a suas montarias.
     -Aqui tm ch, minha senhora.
     Ceara se reuniu com Moira perto de um arroio onde bebiam os drages.
     -O que? Oh, obrigada.
     Moira agarrou a taa.
     -Nunca vi um espetculo semelhante.
     -No. -Moira continuou observando aos drages, e se perguntou se algum dos que ali estava voltaria a ver outra vez esse espetculo.- Cavalgar junto a seu marido, 
Ceara.
     -Farei-o, minha senhora. J estamos quase preparados.
     -Onde est a cruz que ganhou, Ceara? A que leva  de cobre.
     -Eu... -Ceara se levou a mo  cruz de cobre.- A deixei a minha me. Majestade, queria que meus filhos estivessem protegidos se...
     - obvio que o fez. -Rodeou o pulso de Ceara com seus dedos e a apertou.-  obvio.
     Voltou-se quando Blair se aproximou delas.
     - hora de reunidos a todos. As montarias esto descansadas e abeberadas. As armas e os fornecimentos foram carregados, exceto o que deixaremos aqui com os 
homens que protegero esta base at amanh.
     -As tropas que vm atrs de ns deveriam chegar bastante antes que o sol se ponha. -Moira olhou o cu.- Contam com proteo suficiente se produzir-se uma mudana 
no tempo? Natural ou de outro tipo?
     - possvel que Lilith tenha alguns franco-atiradores e exploradores espalhados por esta zona, mas nada que nossas tropas no possam resolver. Temos que seguir 
adiante, Moira. Avanar desta maneira, nos alternando uns e outros, impede que os soldados fiquem expostos e sejam vulnerveis aos ataques do inimigo durante a noite, 
mas leva tempo.
     -E temos um horrio a cumprir -conveio Moira.- Pode dar a ordem ento e continuaremos a viagem. 
     
     
     J tinha passado o meio-dia quando os primeiros chegaram ao seu destino final. Por debaixo de onde ela sobrevoava, os homens deixaram o que estavam fazendo 
e lhes saudaram alvoroados. Viu que Larkin saa da casa e elevava a vista. Logo se converteu em drago e subiu para reunir-se com eles.
     Moira viu tambm a terra escura das tumbas recm escavadas.
     Larkin voou ao redor deles com movimentos rpidos e chamativos, logo se colocou ao lado do drago que montava Blair. Moira ficou sem flego quando Blair ficou 
de p sobre o lombo de seu drago e logo saltou ao vazio. As exclamaes dos que estavam em terra se elevaram como um trovo quando Blair aterrissou sobre Larkin 
e o guiou para baixo.
     Como se fosse um festival, pensou Moira, enquanto outros cavaleiros executavam vistosos giros e picados. Possivelmente necessitavam do espetculo e das tolices 
durante essas ltimas horas de luz. A noite cairia logo.
     Ela se teria encarregado de seus prprios arreios, como o tinha feito durante toda a viagem, mas assim que tocou terra, Larkin a elevou, a fez girar e a beijou.
     -Com isso no conseguir me adoar -disse ela.- Tenho uma questo pendente contigo. Supunha-se que deviam percorrer as bases, recolher informao e ficar em 
um lugar seguro. No sair para procurar problemas.
     -Fazemos o que temos que fazer quando devemos faz-lo. -Larkin voltou a beij-la.- E tudo est bem, verdade?
     -Est?
     -Sim. Ele est. Pode entrar. Aqui h muitos homens que podem encarregar-se dos cavalos e dos drages. Fizeram uma viagem muito comprida. Blair me h dito que 
no tivestes problemas durante o caminho.
     -No, nenhum problema.
     Moira deixou que Larkin a conduzisse ao interior da casa.
     Na lareira, havia uma panela com guisado cozendo-se a fogo lento e o aroma de comida, de homens e de lama impregnava o ar.
     Havia vrios mapas desdobrados sobre uma mesa ao redor da qual imaginou que costumava reunir-se uma famlia. As cortinas que cobriam as janelas eram caseiras 
e alegres, e as paredes estavam limpas e caiadas.
     Havia armas junto a cada porta e janela.
     -Se queres descansar um momento, h um quarto acima.
     -No, estou bem. Mas beberia um pouco de usque se tiverem.
     -Temos.
     Moira pde ver pela expresso de Larkin que Blair estava j dentro da casa.
     -J se encarregaram das montarias -explicou Blair.- Ho descarregado as provises e as armas. Hoyt est nisso. Qual  a situao aqui?
     -Temos tropas instaladas no estbulo, o celeiro, o pombal e o defumadeiro alm daqui. H um desvo bastante espaoso, e o estamos utilizando como uma espcie 
de barraco.
     Larkin serviu o usque enquanto falava, fez um gesto interrogativo para Blair com a cabea, mas ela meneou a sua.
     -O salo se converteu no arsenal principal -continuou Larkin.- E temos armas armazenadas em todos os edifcios. Os homens montam guarda por turnos dia e noite. 
O treinamento continua diariamente. Produziram-se incurses, como j sabe, mas nenhuma desde que chegamos Cian e eu.
     -Encarregaram-lhes de que assim fosse, verdade? -perguntou Moira antes de beber.
     -Assim  e demos a Lilith um bom chute no traseiro. Ontem perdemos a outro homem, um que tinha resultado ferido durante o ataque que matou a Tynan. Sua morte 
no foi rpida.
     Moira cravou o olhar em seu usque.
     -H mais feridos?
     -Sim, mas todos podem caminhar. H uma espcie de sala que d  cozinha e a estivemos utilizando para atender aos feridos.
     -Glenna lhes dar uma olhada e dispor as coisas como o considero melhor. Bem. -Bebeu o resto do usque que ficava no copo.- Sabemos que no h lugar para que 
todas as tropas estejam cobertas. Esta noite h aqui quase mil homens e nos prximos dias chegaro outros tantos.
     -Ento ser melhor que nos ponhamos mos  obra para montar um acampamento -disse Blair.
     Havia um pouco de orgulho em tudo isso, descobriu Moira, ao ver tantos dos seus -homens e mulheres, velhos e jovens- trabalhando juntos. As tendas de campanha 
comearam a desdobrar-se sobre o terreno enquanto se juntava lenha e turfa para fazer fogo para cozinhar. As provises foram descarregadas dos carros e empilhadas.
     -J tem seu exrcito -disse Glenna ao seu lado.
     -Espero que um dia, aqui se plante gro em lugar de tendas. H tantas. Nunca houve tantas tendas antes. Pode conter a todas dentro de um crculo protetor?
     O rosto de Glenna se endureceu com uma expresso de absoluta determinao.
     -O co de Lilith as engenhou para proteger toda sua base, espero que no esteja sugerindo que Hoyt e eu no somos capazes de estar a sua altura.
     -Jamais me ocorreria tal coisa.
     - um crculo fodidamente grande o que devemos criar -reconheceu Glenna.- E o sol j se est ocultando, de modo que devemos comear a faz-lo j. Poderamos 
contar com sua ajuda.
     -Esperava que o fizesse.
     Moira percorreu o terreno de um extremo a outro junto  Glenna e Hoyt e, tal como Glenna lhe tinha pedido, recolheu ervas, pedras pequenas e punhados de terra. 
Os trs se reuniram novamente no centro.
     Ao se estender o rumor de que fariam magia, os homens guardavam silncio. Em meio dessa quietude, Moira ouviu os primeiros sussurros de poder.
     Invocaram aos guardies, leste e oeste, norte e sul. A sua patrona, Morrigan. Ela recitou a invocao junto com eles, como Hoyt e Glenna lhe tinham ensinado.
     -Neste lugar e nesta hora, invocamos aos antigos poderes para que atendam nossas necessidades e escutem nossa splica de que protejam a todos nesta companhia. 
Sobre esta erva, esta terra, esta pedra, nos concedam proteo diante de qualquer mal. S a vida em toda sua expresso pode cruzar este anel, e nenhum pode entrar 
se sua inteno  causar prejuzo. No interior deste crculo que foi esboado, no podem entrar o inimigo nem suas armas. Noite ou dia, dia ou noite proteger a 
terra e o ar dentro de sua luz. Agora, nosso sangue selar este escudo e rodear este crculo.
     Tanto Hoyt como Glenna e Moira se fizeram um corte na palma da mo com uma adaga cerimoniosa e logo fecharam o punho para que o sangue casse na terra, a erva 
e as pedras que tinham juntado no terreno.
     O calor -o seu, o de Hoyt e Glenna- pulsou e se estremeceu violentamente dentro de Moira, e o vento que levantaram soprou em crculos cada vez mais amplos, 
aoitando as tendas, cantando atravs da erva, at que se formou redemoinhos em torno das bordas do terreno em um ciclone de luz.
     Os trs jogaram para cima a terra empapada em sangue, e o solo tremeu sob seus ps quando brotaram trs chamas pequenas que se extinguiram pouco depois. Logo, 
quando se agarraram das mos, seus corpos se arquearam para trs por causa da fora que os tinha unido.
     -Te eleve e rodeie -gritou Moira com Hoyt e Glenna-, rodeia e fecha e obstrui este lugar de todos nossos inimigos. Aqui o sangue e o fogo se mesclam livremente, 
como o faremos ns, que assim seja.
     As chamas se elevaram ao redor do terreno, e quando a terra ficou calcinada, descrevendo um crculo branco perfeito, as chamas se extinguiram com um estalo.
     A Moira lhe nublou a vista, e as vozes que lhe falavam tambm pareceram empanar-se, como se o mundo se encontrasse subitamente debaixo da gua.
     Quando voltou a si, estava de joelhos. Glenna a agarrava pelos ombros e repetia seu nome.
     -Estou bem. Estou bem.  s que... foi muito. Preciso recuperar o flego.
     -Tome seu tempo.  um fetio muito poderoso, e mais ainda porque utilizamos sangue.
     Moira se olhou o corte que tinha na palma da mo.
      -Qualquer coisa  uma arma -afirmou.- Como diz Blair. Custe o que custar, sempre que funcionar.
     -Eu diria que funcionou -opinou Hoyt.
     Seguindo a direo de seu olhar, Moira viu Cian de p, fora do crculo. Embora a capa o protegia dos ltimos raios de sol, podia ver seus olhos e a fria que 
havia neles.
     -Muito bem. Deixaremos que os homens terminem de montar o acampamento.
     -Te apie em mim -lhe disse Glenna.- Est branca como um lenol.
     -No, prefiro no faz-lo. -Seus joelhos ainda pareciam de gelatina.- Os homens no podem ver que me derrubo agora. S tenho o estmago revolto, isso  tudo.
     Enquanto ela atravessava o acampamento, Cian girou sobre seus tales e ps-se a andar de volta  casa.
     Estava esperando dentro da casa e algo de seu humor tinha devido de transluzir-se, j que estava sozinho.
     -Acaso esto tratando de mat-la antes que Lilith tenha a oportunidade de faz-lo? -perguntou.- No que estavam pensando, arrastando-a para essa classe de conjuros 
mgicos o bastante poderosos para criar um furaco?
     -Precisvamos dela -respondeu Hoyt simplesmente.- No  uma tarefa simples estender uma rede sobre uma rea to extensa e que contm a tanta gente. E o feitio 
funciona, j que te manteve na borda do crculo.
     No s o tinha detido ali, mas tambm lhe tinha enviado descargas eltricas. Surpreendia-lhe no ter os cabelos em ponta.
     -Moira, voc no  o bastante forte para...
     -No me diga para o que no sou o bastante forte. Fiz o que era necessrio fazer. E no  isso o que voc me diria se eu ousasse te perguntar por sua temerria 
viagem pelo vale? Ambas as coisas j esto feitas, e ns dois estamos aqui para discutir sobre elas, de modo que eu diria que ambas estiveram bem feitas. Ho-me 
dito que disponho de um quarto na parte superior da casa. Algum sabe onde pode estar?
     -A primeira porta  esquerda -respondeu Cian.
     Quando ela subiu a escada, com ar arrogante pensou ele, Cian amaldioou e a seguiu.
     Moira se sentou em uma poltrona, com a cabea entre os joelhos, junto a um fogo que ainda no tinham aceso.
     -Estou enjoada, e no necessito que me jogue um sermo. Voltarei a ser eu mesma dentro de um momento.
     -Me parece bastante voc mesma. -Cian verteu um pouco de gua em uma tigela e o baixou para que ela pudesse v-lo.- Beba isto. Vi cadveres que tinham mais 
cor que voc.
     -Um comentrio realmente encantador.
     -A verdade raramente  bela.
     Ela se recostou na poltrona e o estudou enquanto bebia a gua.
     -Est zangado, e isso  bom, posto que eu tambm estou zangada contigo. Sabia que estava aqui, mas no desceste.
     -No, no desci.
     -s um estpido, isso  o que s, se tiver pensado que te ias desembaraar de mim, que eu deixaria que o fizesse. S dispomos de uns dias antes de acabar este 
assunto, de modo que adiante, d todos os passos necessrios para te afastar de mim. Eu continuarei me aproximando at te abandonar. No s aprendi a brigar, tambm 
aprendi a no brigar limpo. -Moira se estremeceu.- Faz frio. Depois do feitio no me ficou energia para acender o fogo.
     Cian se aproximou da lareira e, antes que se inclinasse para procurar o acendedor, lhe agarrou a mo e a apertou contra sua bochecha.
     Esse gesto o quebrou, quase pde ouvir um rangido como de cristal ao romper-se. Levantou-a da poltrona e a sustentou a vrios centmetros do cho enquanto sua 
boca devorava a de Moira. Ela lhe rodeou o corpo, desenfreadamente, com braos e pernas.
     -Sim, isso est melhor -disse ela quase sem flego.- Muito mais calor agora. As horas se tm feito interminveis do instante em que te vi partir. To pouco 
tempo, to pouco, para a eternidade.
     -Me olhe. Sim, aqui est esse rosto.
     Ele a abraou de modo que a cabea de Moira se apoiou sobre seu ombro.
     -Sentiste falta de meu rosto?
     -Sim. No faz falta que brigue sujo, j est metida dentro de mim.
     - mais fcil estar zangado. Di menos. -Ela fechou os olhos com fora por um momento e logo, quando Cian voltou a deposit-la no solo retrocedeu.- Trouxe aquela 
espcie de violino. Pensei que voc gostaria do t-lo, toc-lo. Deveramos ter msica, o mesmo que deveramos ter risadas e luz, e todas aquelas coisas que sirvam 
para nos recordar por que estamos dispostos a morrer.
     Moira se aproximou da janela.
     -O sol est se ocultando. Voltar a ir ao campo de batalha esta noite? -Olhou atrs dela quando viu que Cian no respondia.- Vimos como o visitava com Larkin, 
faz duas noites, e lhe vimos ontem  noite, quando foi sozinho.
     -Cada vez que vou a esse lugar me sinto um pouco mais forte. No ser bom para ti e tampouco para mim se o que empapar essa terra me transforma.
     -Tens razo e esta noite irei contigo. No perca o tempo discutindo, Cian -disse Moira quando ele tentou protestar.- Irei. Depois de tudo, Geall  meu, assim 
como cada centmetro de seu cho, no importa o que se possa ocultar debaixo. No visitei esse lugar desde que era menina, exceto em meus sonhos. Preciso v-lo outra 
vez, e faz-lo de noite, como ser durante o Samhain. De modo que irei contigo, ou irei sozinha.
     
     
     -Mas eu quero ir! Quero ir. Por favor, por favor, por favor!
     Lilith se perguntou se sua cabea realmente podia estalar por causa dos incessantes gemidos e rogos de Davey para conseguir o que desejava.
     -Davey, hei dito que no. Samhain est muito perto e  muito perigoso que abandones a casa.
     -Sou um soldado. -Seu pequeno rosto adotou uma expresso firme e malvada.- Lucio o disse. Tenho uma espada.
     Davey desembainhou a pequena lmina que Lucio tinha forjado para ele -algo do que Lilith agora se arrependia- depois de sua primeira morte no campo de batalha.
     - s uma partida de caa -comeou a dizer Lilith.
     -Eu quero caar, quero lutar! -Davey agitou sua pequena espada no ar.- Quero matar!
     -Sim, sim, sim. -Lilith fez um gesto com a mo para que se retirasse.- E o far muitas vezes. Depois do Samhain. E no quero ouvir uma palavra mais!
     Lilith cuspiu a ordem enquanto o branco de seus olhos se tingia de vermelho.
     -J tive suficiente por um dia. s muito jovem e muito pequeno. E no se fala mais deste assunto. Agora v a seu quarto e brinca com esse maldito gato ao qual 
quer tanto.
     Os olhos de Davey relampejaram com um fulgor vermelho, e seus lbios se esticaram com um grunhido que fez desaparecer inclusive a mscara da inocncia humana.
     -No sou muito pequeno. Odeio a esse gato. E odeio a ti. 
     Abandonou ao quarto furioso, suas pequenas pernas tremendo de ira. Enquanto se afastava, brandia sua espada violentamente, cortando o torso de um criado humano 
que no foi o bastante rpido para afastar-se de seu caminho.
     -Maldio! Olhe esse desastre. -Lilith elevou as mos para o sangue que salpicava as paredes.- Este menino me est deixando louca.
     -Necessita uma boa surra, se quiser minha opinio. 
     Lilith, com o rosto lvido, voltou-se para Lora.
     -Feche a boca! No me diga o que necessita. Sou sua me.
     -Bien sur. Mas no cimes comigo por ele ser um mucoso malcriado. -Lora, zangada, deixou-se cair em uma poltrona. Seu rosto j estava quase curado, mas as cicatrizes 
que ficavam queimavam por dentro como um veneno.- Veremos aonde o leva sua fodida atitude.
     Lilith comeou a fechar uma de suas mos, suas unhas vermelhas, curvadas como garras.
     -Talvez seja voc quem necessita de uma boa surra. 
     Sabendo que, no estado de nimo que tinha, Lilith podia lhe fazer algo pior que lhe dar uma surra, Lora se encolheu de ombros.
     -No fui eu quem te esteve triturando durante a ltima hora, certo? Eu te apoiei com o Davey e agora voc cimas comigo.  possvel que todos estejamos nervosos 
e irritveis, mas voc e eu deveramos nos manter unidas.
     -Tens razo, tens toda a razo. -Lilith passou as mos pelo cabelo.- Davey me provocou uma horrvel dor de cabea. Imagine-te.
     -Ele s est, como se diz?, representando um papel. Sente-se muito orgulhoso de si mesmo por ter provocado essa morte no campo de batalha.
     -No posso permitir que saia.
     -No, no. -Lora agitou uma mo.- Tem feito o que era correto. Perdemos uma partida de caa e um peloto de ataque, l fora no  um lugar seguro para o Davey. 
E sigo dizendo que deveria lhe haver dado uma boa bofetada por te responder como o tem feito.
     - possvel que ainda receba uma. Te encarregue de que algum limpe isto. -Fez um gesto vago em direo ao corpo sem vida do criado ao qual Davey tinha matado.- 
Logo te assegures de que a partida de caa ponha em marcha. Talvez esta noite tenham mais sorte e encontrem o rastro desses humanos. Os soldados j esto cansados 
de beber sangue de ovelha.
     -Ah, uma ltima coisa-disse quando Lora partia.- Gostaria de comer algo... para me acalmar. Nos ficou algum menino?
     -Comprovarei-o.
     -Algo pequeno, em qualquer caso. No tenho muita fome esta noite. Faa que o enviem ao meu quarto. Necessito de tranqilidade.
     Uma vez que ficou a ss, Lilith comeou a passear por seu quarto como se estivesse enjaulada. Tinha os nervos destroados, reconhecia-o. Tinha tantas coisas 
na cabea, tantos detalhes, tantas responsabilidades agora que finalmente o final do crculo se aproximava...
     A perda de tropas era algo exasperante e preocupante. Os desertores tambm tinham sido um problema, mas ela tinha enviado carniceiros todas as noites para que 
os caassem e destrussem. Simplesmente no era possvel que dois pelotes inteiros tivessem desertado.
     Mais armadilhas humanas? Perguntou-se. Estavam-lhe fazendo muito dano... mas aos humanos custaria muito mais quando tivesse acabado com eles.
     Ningum era capaz de entender a presso a qual estava submetida, o peso de sua responsabilidade. Tinha mundos para arrasar. Seu destino comeava a lhe pesar 
e estava rodeada de imbecis e incompetentes.
     Agora seu doce Davey, seu prprio e querido menino, estava-se comportando como um mucoso insuportvel e caprichoso. Realmente lhe tinha replicado em forma impertinente, 
algo que no aceitava de ningum. No estava segura de que devia sentir-se orgulhosa ou furiosa.
     Apesar de tudo, pensou, Davey parecia to bonito e feroz brandindo aquela espada em miniatura. E acaso no havia quase talhado em dois a aquele estpido criado 
para logo afastar-se danando, quase gabando-se, sem sequer olhar para trs?
     Era irritante, certamente, mas como podia no sentir-se orgulhosa?
     Caminhou at a porta e saiu do quarto para poder sentir como a noite se deslizava sobre ela, dentro dela. Sentia-se preso dentro daquela casa, pobre Davey. 
Ela tambm. Mas logo...
      obvio,  obvio, era uma me horrvel! Disporia uma caa ali mesmo, nos terrenos protegidos. S eles dois. Isso lhe serviria para estimular seu apetite, seu 
nimo. E Davey estaria encantado.
     Satisfeita com a idia, entrou novamente na casa e, passando por cima do corpo ensangentado do criado, subiu ao piso de cima.
     -Davey. Onde est meu pequeno menino mau? Tenho uma surpresa para ti.
     Abriu a porta de seu quarto. Percebeu primeiro o aroma. Havia uma quantidade considervel de sangue, no cho, nas paredes, na roupa de cama que ela mesma tinha 
feito para ele com seda azul cobalto.
     Havia partes de gato espalhados por todo o quarto. Era, recordou, um gato muito grande.
     Suspirou e logo sentiu que a risada crescia em seu interior. Que carter tinha seu querido menino!
     -Davey,  um menino travesso. Saia de onde quer que te tenha escondido ou poderia mudar de idia a respeito da surpresa que tenho pra ti. -Ps os olhos em branco. 
Ser me era um trabalho muito duro.- No estou zangada contigo, meu amor. Ultimamente tive muitas coisas na cabea e me esqueci de ti, necessito um pouco de diverso.
     Enquanto falava, ia percorrendo o quarto procurando a Davey, logo, ao no encontr-lo, franziu o cenho. Ao sair dele sentia pequenas pontadas de preocupao. 
Lora apareceu arrastando a uma mulher atrs dela por uma argola que levava a pescoo.
     -Ficamos sem meninos, mas esta mulher  pequena.
     -No, agora no. No encontro a Davey.
     -No est em seu quarto? -Lora deu uma olhada.- Ah, muito criativo. Est se escondendo em alguma parte porque est zangada com ele.
     -Sinto algo... -Lilith apoiou uma mo sobre seu ventre.- Algo atado dentro de mim. Quero que o encontrem. Agora mesmo.
     Organizaram uma busca, registraram a fundo a casa principal, os edifcios anexos, os campos dentro da rea protegida. A tenso no estmago de Lilith aumentou, 
at converter-se em um n sufocante quando descobriram que o pnei de Davey tinha desaparecido.
     -Foi-se. Escapou-se. Oh, por que no me assegurei que estivesse em seu quarto? Tenho que encontr-lo. 
     -Espera. Espera -insistiu Lora, e colheu com fora o brao de Lilith.- No pode te arriscar a sair da rea protegida. 
     -Davey  meu. Tenho que encontr-lo.
     -E o encontraremos. Encontraremos. Enviaremos aos nossos melhores rastreadores. Usaremos a Midir. Irei eu mesma. 
     -No. -Fazendo um esforo para tranqilizar-se, Lilith fechou os olhos.- No posso deixar que te arrisques. Lucio. Procure Lucio e lhe diga que se rena comigo 
na toca de Midir. Vai depressa.
     Lilith esfriou seu sangue e sua mente. Governar exigia calor, ela sabia, mas tambm requeria gelo. E agora o que mais precisava era gelo para manter-se forte 
at que o prncipe estivesse outra vez a salvo.
     -Dependo de ti, Lucio.
     -Minha senhora, eu o encontrarei. Dou-lhes minha palavra; daria minha vida para v-lo em casa a salvo.
     -Eu sei. -Apoiou a mo sobre seu ombro.- No h ningum em quem confie mais que em ti. Traga o prncipe junto a mim e te darei qualquer coisa que me pea.
     Lilith se voltou para Midir.
     -Encontre-o! Encontre o prncipe com sua bola de cristal!
     -Estou buscando-o.
     Na parede havia um grande ovalide de cristal. Nele se refletia o mago vestido com suas longas tnicas negras, a sala onde realizava sua magia negra e nenhum 
dos trs vampiros que o olhavam.
     Uma nuvem de fumaa se deslizou sobre o cristal, girou e se repartiu ao passar da borda. Atravs dele comeou a brotar a noite. E com a noite chegou a sombra 
de um menino que montava um pnei.
     -Oh, a est. -Lilith lanou um breve grito e agarrou a mo de Lora.- Olhe que bem que monta, que erguido vai na cela. Onde est? Onde nesta maldita terra est 
o prncipe?
     -Est atrs da partida de caa -disse Lucio enquanto estudava a viso refletida no cristal.- E se dirige para o campo de batalha. Conheo esse terreno, senhora.
     -Depressa ento, depressa. Obstinado menino -murmurou.- Desta vez seguirei seu conselho, Lora. Quando retornar, receber uma boa sova. Mantenha-o nesse cristal, 
Midir. Pode me enviar junto a ele, uma iluso de mim?
     -Pedes muita magia ao mesmo tempo, majestade.
     Fazendo ondear suas tnicas negras, Midir se aproximou do caldeiro e, movendo as mos por cima do grande recipiente, fez surgir uma fumaa cor verde plida.
     -Necessitarei mais sangre -disse.
     -Humano, suponho.
     Os olhos de Midir brilharam.
     -Isso seria o melhor, mas tambm posso empregar o sangue de um cordeiro ou uma cabra.
     -Estamos falando do prncipe -espetou ela com voz cortante.- No utilizaremos o sangue de um animal. Lora, faa que tragam a essa mulher que ia ser meu jantar. 
Midir pode usr a ela.
     
     
     Davey cavalgava velozmente na escurido. Sentia-se forte e feroz e bem. Demonstraria a todos que era o guerreiro maior que jamais tinha existido. O Prncipe 
do Sangue, pensou com um espiono de sorriso. Faria que todo mundo o chamasse por esse nome. Inclusive sua me.
     Lhe havia dito que era pequeno, mas no o era. 
     Tinha pensado em seguir o rastro da partida de caa para logo avanar entre eles e lhes ordenar que lhe deixassem tomar o mando. Nenhum se atreveria a questionar 
ao Prncipe do Sangue. E ele causaria a primeira morte.
     Mas algo o estava separando deles, do aroma dos de sua prpria espcie. Algo poderoso e tentador. Ele no precisava contentar-se com uma partida de caa, lhes 
seguir como se fosse um beb. Todo eles eram menos que ele.
     Queria seguir a msica que cantarolava em seu sangue e o aroma da morte antiga.
     Agora cavalgava lentamente e com a excitao bulindo em seu interior. Na escurido havia algo maravilhoso. Algo maravilhoso e seu.
     Viu o campo de batalha sob a luz da lua, e a beleza desse lugar lhe estremeceu assim como quando sua me o deixava entrar nela e cavalg-la como se fosse um 
pnei.
     Enquanto essa sensao o queimava por dentro, viu umas figuras no terreno elevado. Dois humanos, pensou, e um drago.
     Liquidaria a todos, mataria-os, esvaziaria-lhes o sangue e levaria suas cabeas para jog-las nos ps de sua me.
     Ningum voltaria a cham-lo de pequeno outra vez.
     
     CAPTULO 18
      
     
      
     Moira sentia algo duro no centro do peito, como um punho preparado para golpear. Custava-lhe respirar, mas permaneceu junto a Cian, na borda do Silncio.
     -O que  que sente? -perguntou-lhe.
     -Sinto que me puxam -respondeu Cian.- No deve me tocar.
     -Puxando a ti como?
     -Como com correntes nos tornozelos, ao redor da garganta, puxando em direes opostas.
     -Dor.
     -Sim, mas  uma dor misturada com fascinao. E sede. Posso cheirar o sangue na terra.  denso e rico. Posso ouvir as batidas do seu corao, saborear seu aroma.
     Seus olhos, entretanto, eram os olhos de Cian, pensou ela. No ardiam vermelhos, como o tinham feito na noite em que foi ali com Larkin.
     -Eles sero mais fortes aqui que em outro lugar.
     Cian a olhou e se deu conta de que devia ter sabido que ela entenderia isso.
     -Sim, eles sero mais fortes aqui. Haver mais deles que de vocs. Impulsionados pelo que foi procriado neste lugar, assim como pelo poder de Lilith sobre eles, 
a morte no significar para eles o mesmo que para os seus. Eles chegaro e seguiro chegando sem pensar por um instante em sua prpria sobrevivncia.
     -Crs que perderemos. Que morreremos aqui, todos ns.
     "A verdade -pensou ele- a proteger melhor que as evasivas."
     -Acredito que as possibilidades de derrot-los diminuem.
     - possvel que tenha razo. Direi-te o que eu sei deste lugar, o que tenho lido e o que acredito que  verdade de tudo isso.
     Ela olhou novamente atravs dessa terra salpicada de fossas chamadas dunas.
     -Faz muito, muito tempo, antes que os mundos se separassem e onde em vez de muitos havia um, s havia deuses e demnios. O homem ainda devia aparecer para interpor-se 
entre eles, para lutar contra uns ou outros, para tentar a uns ou outros. Uns e outros eram fortes, ambiciosos e selvagens, e uns e outros queriam o domnio. Mas 
mesmo assim, os deuses, apesar de sua crueldade, no queriam caar e matar aos de sua prpria espcie, nem queriam caar e matar aos demnios para divertirem-se 
ou alimentarem-se.
     -De modo que essa era a fronteira entre o bem e o mal?
     -Tem que haver uma linha, embora s seja isso. Houve uma guerra. Ens de guerra que conduziram a este lugar. Aqui teve lugar sua ltima batalha. E acredito 
que foi a mais sangrenta, a mais cruel e a mais estril de todas as que se aconteceram. No houve vitria para nenhum dos dois lados. S um oceano de sangue neste 
vale inspito; com o passar do tempo, o sangue foi desaparecendo e empapando a terra cada vez mais profundamente.
     -Por que aqui? Por que em Geall?
     -Acredito que quando os deuses criaram Geall, pensaram que viveria durante sculos em paz e prosperidade, e este vale foi o preo. O equilbrio.
     -E agora ter que pagar?
     -Sempre se tratou disso, Cian. Agora os deuses encarregam aos humanos a tarefa de livrar a batalha contra esse demnio que comeou como humano. Vampiros contra 
os que so sua origem e sua presa. Aqui tudo se equilibra ou tudo se derruba. Mas Lilith no entende o que pode acontecer se ela ganhar esta guerra.
     -Que nos extinguiremos. Minha espcie. - Cian assentiu ao ter chegado  mesma concluso que Moira.- Nada prospera no caos.
     Ela ficou calada por um momento.
     -Agora est mais tranqilo porque est pensando.
     Ele deixou escapar uma breve risada.
     -Tens razo. Mesmo assim,  o ltimo lugar neste mundo, ou em qualquer outro, onde eu queria organizar uma comida campestre.
     -Teremos  luz da lua depois do Samhain. H um lugar que  o favorito de Larkin e meu. Est...
     Embora lhe havia dito que no o tocasse, agora agarrou a munheca de Moira.
     -Shi. Algo...
     Sem dizer nada, Moira levou uma mo a aljava que carregava  costas e tirou uma flecha. 
     
     
     Entre as sombras, Davey sorriu e tirou sua preciosa espada. Lutaria da maneira em que se supunha que devia lutar um prncipe. Cortaria e cravaria e morderia.
     E beberia, beberia, beberia.
     Inclinou-se sobre a cela de montar disposto a lanar um grito de guerra, quando Lilith apareceu diante dele.
     -Davey! Quero que d a volta imediatamente com este pnei e que retorne pra casa.
     A expresso de ferocidade de seu rosto se converteu em um bico infantil.
     -Estou caando!
     -Caar quando e onde eu te diga. No tenho tempo para estas tolices, para esta preocupao. Tenho uma guerra que liderar.
     Agora, no rosto de Davey apareceu uma expresso obcecada que fez aparecer rugas em sua testa. Seus olhos brilharam intensamente na escurido.
     -Vou lutar. Vou matar aos humanos e ento deixar de me tratar como a um beb.
     -Eu te fiz e posso te desfazer. Far exatamente o que eu... que humanos?
     Davey fez um gesto com a espada assinalando para frente. Quando ela se voltou, e viu Cian e Moira, um medo extremo atanazou o estmago de Lilith. Tratou inutilmente 
de agarrar as rdeas do pnei, mas sua mo passou atravs do pescoo do animal.
     -Me escute, Davey. S um deles  humano. O homem  Cian.  muito poderoso, muito forte, muito velho. Tem que escapar daqui. Faa que este pnei corra a toda 
velocidade. No deve estar aqui. No devemos estar aqui agora.
     -Estou faminto. -Seus olhos comearam a mudar de cor e deslizou a lngua sobre os lbios e as presas.- Quero matar ao velho. Quero beber o sangue da mulher. 
Eles so meus, so meus. Sou o Prncipe do Sangue!
     -Davey, no o faa!
     Mas com um violento golpe de seus tales, Davey se lanou ao galope com seu pnei.
     Foi tudo to rpido como um relmpago, pensou Moira. O som da espada de Cian ao sair da bainha, o movimento de seu corpo para colocar-se diante do seu a modo 
de escudo. O cavaleiro saiu da escurido como uma exalao, mas ela tinha o arco preparado para disparar.
     Ento viu que se tratava de um menino, um menino pequeno montado sobre um pnei forte e castanho. Seu corao deu um pequeno tombo e seu corpo se sacudiu. A 
flecha errou o alvo.
     O menino gritava, uivava, grunhia. Um cachorrinho de lobo de caa.
     Lilith voava atrs do pnei, um demnio em verde esmeralda e dourado, atravessando o ar com as mos convertidas em garras e as presas brilhando na escurido. 
     A segunda flecha de Moira passou atravs de seu corao e se perdeu no ar.
     -Ela no  real! -gritou Cian.- Mas o menino sim o . Monta no drago e saia daqui.
     Quando ela procurou uma terceira flecha, Cian a empurrou a um lado e saltou sobre o pnei.
      Uma criana pequena, pensou Moira. Uma criana pequena com os olhos vermelhos e ardentes e as presas como adagas. Agitava na mo uma espada em miniatura enquanto 
refreava seu pnei. Os gritos de Lilith eram como lanas de gelo que atravessaram o crebro de Moira quando o menino caiu do pnei e seu corpo golpeou com violncia 
contra o cho rochoso.
     Sangrava onde as rochas o tinham golpeado e arranhado, e Moira viu que chorava como o faria um menino que caa.
     Conteve o flego negando, quando Cian avanou com a imagem ilusria de Lilith tratando de lhe cravar as unhas com suas mos intangveis. Com o corao e a mente 
decompostos, Moira baixou o arco.
     O segundo cavaleiro emergiu como uma fria da escurido iluminada pela lua. Agora no se tratava de um menino, mas sim de um homem armado para o combate, sua 
longa espada de dois fios fendendo o ar.
     Cian girou sobre si mesmo e enfrentou o ataque.
     As espadas se chocaram com violncia, a msica mortal dos aos ressonando com o passar do vale ermo. Cian saltou e desmontou ao cavaleiro com um terrvel golpe 
na garganta.
     Ao no ter um disparo limpo, Moira lanou o arco ao cho e tirou a espada. Antes que pudesse correr a lutar junto a Cian, o menino se apoiou sobre mos e joelhos. 
Elevou a cabea e a olhou com olhos brilhantes.
     Lanou um grunhido.
     -No o faa. -Moira retrocedeu um passo quando Davey se agachou para saltar sobre ela.- No quero te fazer mal.
     -Cortarei-te a garganta. -Davey mostrou os dentes enquanto caminhava ao redor dela.- E beberei e beberei. Deveria fugir. Eu gosto mais quando tratam de fugir.
     -No fugirei. Mas voc sim deveria faz-lo.
     -Davey, corre! Corre agora!
     Davey girou a cabea para Lilith e grunhiu como um co raivoso.
     -Quero jogar! Ao esconderijo!  peste!
     -No jogarei contigo.
     Moira girava com ele, tratando de mant-lo a distncia agitando a espada.
     Davey tinha perdido sua pequena espada ao cair do pnei, mas Moira se disse que usaria a sua se ele saltava sobre ela porque ele no estava desarmado; nenhum 
vampiro o estava nunca. E suas presas refulgiam, afiadas e pontiagudas.
     Ela girou e lanou um golpe, apontando para baixo para golpear a Davey no estmago e lhe obrigar a retroceder.
     A forma ilusria de Lilith se escondeu sobre ele vaiando como uma serpente.
     -Matarei-te por isso. Arrancarei-te a pele dos ossos antes de acabar contigo. Lucio!
     Este tentou atirar uma estocada a Cian. Ambos estavam manchados de sangue, e tambm tinham os olhos injetados nela. Os dois saltaram e se chocaram violentamente 
no ar. 
     -Corre, Davey! -gritou Lucio.- Corre!
     Davey duvidou e algo apareceu na expresso de seu rosto. Moira pensou por um instante que estava vendo o menino que o demnio tinha devorado. O medo, a inocncia, 
a confuso. 
     Ps-se a correr como o fazem os meninos, coxeando com os joelhos arranhados. E ganhou velocidade, com essa elegncia pavorosa de que dispem os vampiros, enquanto 
se dirigia para as espadas afiadas.
     Moira deixou cair a sua e recolheu o arco. Um segundo muito tarde, j que Davey saltou sobre as costas de Cian e o atacou com presas e punhos. Se disparava, 
a flecha podia atravessar ao menino e cravar-se em Cian.
     Um estalo. Mais chamas de tempo. O menino saiu despedido pelo ar, impulsionado por um golpe feroz. Apoiou as mos sobre seus olhos ardentes e ps-se a chorar 
chamando a sua me.
     Lilith voltou a gritar:
     -Lucio, o prncipe! Ajude ao prncipe!
     Sua lealdade, seus anos de servio lhe custaram caro. Quando Lucio girou a cabea uma frao de segundo para Lilith, Cian a cortou com um s golpe de sua espada.
     Davey se levantou com o terror pintado no rosto.
     -Acabe com ele -gritou Cian quando Davey ps-se a correr.- Lhe dispare.
     Agora as chamas de tempo desaceleraram. Gritos selvagens, pranto selvagem, ressonando atravs do ar. A figura de um menino correndo com suas pernas cansadas 
e cobertas de sangue. Lilith, com o rosto cheio de horror e medo, de p entre Moira e o menino, os braos estendidos em um gesto de defesa ou de splica. 
     Moira olhou a Lilith aos olhos enquanto os seus se empanavam.
     Logo, com o corao esmigalhado, piscou at ver com claridade e lanou a flecha.
     Quando a flecha passou atravs de Lilith, o chiado foi horrivelmente humano. O grito seguiu e seguiu enquanto a flecha continuava seu vo, reto e preciso, at 
encontrar o corao de quem uma vez tinha sido uma criana pequena que jogava na clida espuma das ondas junto com seu pai.
     Logo, Moira estava de novo s com Cian na borda de um vale que parecia sussurrar com a fome de mais sangre.
     Cian se agachou e recolheu as espadas.
     -Temos que sair daqui. Agora. Ela j deve ter enviado soldados.
     -Ela o amava. -A voz de Moira soou estranha e dbil a seus prprios ouvidos.- Ela amava a esse menino.
     -O amor no  algo exclusivo dos humanos. Temos que ir.
     Com a mente ofuscada, Moira tratou de concentrar-se em Cian.
     -Ests ferido.
     -E no tenho inteno de deixar mais sangue aqui. Suba.
     Moira assentiu, recolhendo suas armas antes de subir ao lombo do drago.
     -Ela o tinha matado -murmurou Moira enquanto Cian montava atrs dela.- Mas lhe amava.
     No disse nada mais enquanto se afastavam voando do campo de batalha.
     
     
     Glenna se encarregou deles assim que retornaram ao castelo, levando a ambos ao salo para uma primeira cura.
     -No estou ferida -insistiu Moira, mas se deixou cair pesadamente em uma poltrona.- No me ho tocado.
     -Fique sentada. -Glenna comeou a desabotoar a camisa de Cian.- Tire a camisa, bonito, para que possa lhe dar uma olhada s feridas.
     -Uns cortes, algumas espetadas. -Reprimiu um gesto de dor enquanto se tirava a camisa.- Esse cara era bom com a espada, e muito rpido.
     -Eu diria que voc foi melhor e mais rpido que ele. -Blair lhe estendeu um copo de usque.- Essa mordida que tem nas costas  uma mordida muito feia, amigo. 
O que acontece? Esse cara brigava como uma garota?
     -Foi o menino -disse Moira antes que Cian pudesse responder. Meneou a cabea ante o copo de usque que Blair lhe oferecia.- O menino de Lilith, que ela chamava 
Davey. Atacou-nos montado em um pnei e agitando no ar uma espada no maior que uma de brinquedo.
     -No era um menino -a contradisse Cian rotundamente.
     -Eu sei o que era.
     Moira fechou os olhos.
     -Um pequeno vampiro te fez tudo isto? -perguntou Blair.
     -No. -Cian a olhou com o cenho franzido.- Por quem me tomam? O soldado, veterano e treinado, que Lilith tinha enviado atrs de seu cachorrinho  quem me fez 
isso, exceto essa mordida.
     -Como devo trat-la? -perguntou-lhe Glenna.- A mordida de um vampiro a outro vampiro?
     -Como qualquer outra ferida. Podes te economizar a fodida gua benta. Curar-se rapidamente como as outras.
     -Ir ali foi correr um risco estpido -disse Hoyt.
     -Era necessrio -replicou Cian.- Para mim. E nossas boas notcias so que o que seja que haja nesse lugar no impediu que convertesse a outro vampiro em um 
monto de p. Moira. -Cian esperou at que ela abriu os olhos e o olhou.- Tinhas que faz-lo. Podia ter havido outros que viessem atrs do que Lilith chamava Lucio. 
Se eu tivesse ido atrs desse menino, me teria levado tempo e terias ficado sozinha. No era menos inimigo para ti porque era pequeno.
     -Sei o que era -repetiu Moira.- Ele foi o que matou Tynan, o que tratou de matar a Larkin. O que nos teria matado esta noite aos dois se as coisas tivessem 
sado de outro modo. Entretanto, vi seu rosto... debaixo do que era. Era jovem e doce. Vi o rosto de Lilith e era o de uma me aterrada pela sorte de seu filho. 
Alcancei-lhe com uma flecha quando fugia chamando a sua me. No importa o que possa acontecer a partir de agora, nada do que faa ser pior que isso. E sei que 
posso viver com isso.
     Deixou escapar o ar enquanto seu corpo se estremecia.
     -Acredito que agora aceitarei esse usque depois de tudo. Levare isso ao meu quarto se no se importarem. Estou cansada.
     Cian esperou a que Moira abandonasse o salo.
     -Lilith ir atrs dela.  possvel que no possa entrar fisicamente na casa, mas o far em sonhos ou como uma iluso.
     Hoyt se levantou.
     -Encarregarei-me disso, assegurarei-me de que a proteo que temos  o bastante forte.
     -Moira no querer ver-me agora -murmurou Larkin.- A nenhum de ns -acrescentou olhando a Cian.- Precisar ficar a ss com tudo isto durante um momento. E poder 
viver com isso, tal como h dito. -Agora Larkin se sentou frente a Cian.- Dizem que o que lutou contra ti se chamava Lucio?
     -Assim .
     -Foi com ele e com o menino vampiro com quem tive aquela escaramua quando estive nas covas. Eu diria que liquidaste a um dos homens mais importantes de Lilith. 
Lucio era uma espcie de general. Parece-me que esta ser uma noite muito dura para Lilith, graas a ti e a Moira. E ela vir com mais fora agora devido a isso. 
Destrumos ou machucamos aos mais prximos a ela, e Lilith dever buscar sua maldita vingana.
     -Deixemos que venha -disse Blair.
     
     
     Por ela, teria ido nesse mesmo momento; to demencial era sua fria, seu desespero, sua dor. Necessitaram-se de seis guardas e da magia de Midir para imobiliz-la 
enquanto Lora a fazia tragar uma dose de sangue narcotizado.
     -Matarei a todos! A cada um de vocs por isso. Me tirem as mos de cima antes que as corte e as jogue aos lobos.
     -Que no se mova! -ordenou Lora, e obrigou a Lilith a beber mais sangre.- No pode ir a sua base esta noite. No pode ir ali e atac-los sem o exrcito. Tudo 
o que trabalhaste e planejou se perderia.
     Tudo se perdeu. Ela o atravessou com uma flecha.
     Lanou a cabea para frente, com as presas nuas, e os afundou em uma das mos que a sujeitavam. Seus prprios gritos se mesclaram com os alaridos de dor do 
ferido.
     -Se a soltas, eu me encarregarei de algo mais que de sua mo -lhe advertiu Lora.- J no h nada que possamos fazer por ele, meu amor, querida minha.
     - um sonho. No  mais que um sonho. -Lgrimas de sangue corriam pelas bochechas de Lilith.- No pode estar morto.
     -Sim sim, assim. -Fazendo um gesto aos guardas para que se afastassem, Lora agarrou a Lilith entre seus braos.- Nos deixem sozinhas. Todos vocs. Fora daqui!
     Sentou-se no cho, balanando a Lilith, embalando-a enquanto suas lgrimas se mesclavam.
     -Ele era meu tesouro -soluava Lilith entre seus braos.
     -Eu sei. Sei, e o meu.
     -Quero que encontrem a esse pnei. E o quero morto.
     -Assim se far.
     -Davey s queria brincar. -Procurando consolo, esfregou o nariz contra o ombro de Lora.- Em uns dias eu lhe teria dado tudo. Agora... arrancarei a pele dos 
ossos dessa mulher e verterei seu sangue em uma tina de prata. Banharei-me nesse sangue, Lora, juro-o.
     -Nos banharemos juntas enquanto bebemos desse renegado que matou a Lucio.
     -Lucio, Lucio. -As lgrimas correram mais abundantes por suas bochechas.- Ele entregou sua eternidade tratando de salvar ao nosso Davey. Faremos uma esttua 
dele, de ambos. Moeremos os ossos dos humanos e a levantaremos com seu p.
     -Eles estariam encantados. Agora venhas comigo. Precisas descansar.
     -Sinto-me to dbil, to esgotada... -Com a ajuda de Lora ficou de p.- Te encarregue de que todos os humanos que temos em existncia sejam executados e esvaziados. 
No, no, torturados e esvaziados. Lentamente. Quero ouvir seus gritos enquanto durmo.
     
     
     Moira no sonhou. Simplesmente caiu no vazio e ficou ali flutuando. Tinha que lhe agradecer a Hoyt essas horas de paz, pensou enquanto comeava a despertar. 
Umas horas de paz nas que no tinha visto o rosto de um menino confundido com o de um monstro.
     Agora havia trabalho a fazer. Os meses de preparao se reduziram a dias que podiam contar-se por horas. Enquanto a rainha dos vampiros chorava sua perda, a 
rainha de Geall faria tudo o que fosse necessrio fazer em cada momento.
     Se espreguiou e se sentou na cama. E viu Cian sentado na poltrona, junto ao fogo que ardia lentamente.
     -Ainda no amanheceu -disse ele.- Poderia dormir um pouco mais.
     -J dormi o suficiente. Quanto tempo levas aqui?
     -No levo a conta do tempo.
     Ela tinha dormido como os mortos, pensou. Ele no tinha levado a conta do tempo transcorrido, mas sim a dos batimentos de seu corao.
     -E suas feridas?
     -Curando-se.
     -Poderia ter recebido menos, mas fui dbil. No voltar a acontecer.
     -Disse-te que te fostes. No confiava em que fosse capaz de me enfrentar a dois deles, especialmente quando um era da metade de meu tamanho? Menos ainda.
     Ela se apoiou no respaldo da cama.
     -Muito inteligente de sua parte tratar de converter isto em uma questo de falta de confiana minha em suas habilidades para o combate em lugar de falta de 
domnio por minha parte.
     -Se tivesse tido menos domnio e mais juzo, teria-te partido quando te disse que o fizesse.
     -E uma merda. O tempo de fugir j passou, e eu jamais te teria deixado sozinho. Amo-te. Teria que ter acabado com esse menino vampiro com a espada, rapidamente. 
Em troca, tive um momento de vacilao e tratei de encontrar alguma maneira de afugent-lo para no ter que ser eu quem o matasse. Esse momento de debilidade poderia 
nos haver custado a vida. Pode me acreditar quando te digo que isso me consome.
     -E a culpa equivocada que acompanha essa morte?
     -Isso pode ser que me leve um pouco mais de tempo, mas no interferir no que deva fazer. S ficam dois dias. Dois dias. -Olhou para a janela.- Tudo est em 
silncio. Neste momento, justo antes da alvorada, tudo est em silncio. Lilith matou a um menino e chegou a amar aquilo no que o tinha convertido.
     -Sim, mas isso no faz que sejam menos monstruosos.
     -Dois dias -repetiu ela, quase em um sussurro. Algo em seu interior j tinha comeado a morrer.- Se ganharmos, partirs quando tudo isto tenha terminado, se 
no o fizermos, voltar a atravessar o Baile dos Deuses. Nunca voltarei a ver-te, a te tocar, ou a despertar e ver que estiveste me velando na escurido.
     -Partirei-me -foi tudo o que Cian disse.
     -Te vais aproximar, me abraar agora, antes que saia o sol?
     Cian se levantou e se aproximou da cama. Sentou-se junto  Moira e a agarrou entre seus braos de modo que sua cabea ficou apoiada em seu ombro.
     -Me diga que me ama.
     -Como no amei nunca a ningum. -Quando Moira elevou a cabea, ele a beijou nos lbios.
     -Me toque. Me saboreie. -Mudou de posio de modo que ficou em cima dele, com o corpo estremecido e os lbios buscando-o.- Me tome.
     Como podia no faz-lo? Ela o estava envolvendo, saturando seus sentidos, atiando suas necessidades at fazer que ardessem. Oferecendo tanto como pedia enquanto 
apertava os lbios dele contra seus peitos.
     -Toma mais. Mais e mais.
     Sentia a boca dela quente e desesperada enquanto tirava a roupa, seus dentes mordiscando seu queixo com dentadas rpidas e afiadas enquanto seu flego se estremecia.
     Agora estava viva, ardendo e viva, com tudo o que crescia em seu interior e a machucava. Como podia afastar-se daquilo? Do amor, do calor, da vida?
     Se estava destinada a morrer na batalha o aceitaria. Mas como poderia viver, dia ps dia, noite aps noite, sem corao?
     Colocou-se escarranchada sobre Cian, tomando-o dentro dela, com os quadris agitando-se violentamente enquanto tratava de sentir mais, de tomar mais. De saber 
mais.
     Seus olhos brilharam intensamente, quase com loucura, e permaneceram fixos nos de Cian. Logo se inclinou sobre ele e seu cabelo caiu, cobrindo a ambos, apanhando 
a ele em sua textura e fragrncia.
     -Me ame.
     -Fao-o.
     Seus dedos se afundaram em seus quadris enquanto ela o conduzia para a borda denteada do cume.
     -Me toques, me saboreies, me tomes. -Com um grito, ela baixou a garganta para seus lbios, apertou aquela carne suave e branda, com seu sangue palpitando contra 
ele.- Me transforme.
     Estava alm de seu controle deter a mar que surgia a jorros atravs dele, quente, intensa, turbulenta... e tambm atravs de Moira; ele sabia enquanto o corpo 
dela se agitava e estremecia. E, tremendo, ela esfregou esse pulso palpitante contra seus lbios.
     -Me converta no que . Me d a eternidade contigo.
     -Basta. -Enquanto seu corpo tambm se estremecia, separou-a dele com suficiente fora como para quase lan-la ao solo.- Usaria o que sou contra mim?
     -Sim. -Seu peito ardia com as lgrimas que se derramavam atravs de sua voz.- Qualquer coisa, a qualquer. Por que devamos encontrar isto s para perd-lo? 
Dois dias, s ficam dois dias. Quero mais.
     -No podemos ter mais.
     -Poderamos ter. Lilith amava o que tinha criado, eu o vi. Voc me ama agora, e eu te amo. Isso no deixar de ser assim com a transformao.
     -Voc no sabe nada disso.
     -Sim, sim eu sei. -Ela agarrou a mo de Cian quando este saa da cama.- No h nada que eu no tenha lido. Como podemos simplesmente nos separar e seguir adiante? 
Por que deveria escolher a morte no campo de batalha em lugar de por sua mo? No seria uma verdadeira morte se voc me transformar.
     Cian se libertou de sua mo e logo pareceu suspirar. Com uma ternura que ela no podia ver em seus olhos, lhe agarrou o rosto entre as mos.
     -Por nada do mundo.
     -Se me amasse...
     -Essa frase  um pobre truque feminino. No  digno de ti. Se te amasse menos, poderia fazer exatamente o que me pede. Tenho-o feito antes.
     Cian se aproximou da janela. O amanhecer estava sobre eles, mas no havia necessidade de correr as cortinas, pois tinha chegado acompanhado de chuva.
     -Uma vez, faz muito tempo, houve uma mulher que me importava. Ela me amava, ou amava o que acreditava que eu era. Eu a mudei porque queria conserv-la ao meu 
lado. -voltou-se para onde Moira estava ajoelhada na cama, chorando em silncio.- Era inteligente, divertida e bonita. Pensei que seramos uns bons companheiros. 
E fomos durante quase uma dcada, at que ela se topou com uma tocha certeira.
     -No seria assim.
     -Ela era o dobro de assassina que eu. Gostava sobretudo de crianas. Era inteligente, divertida e bonita... e a transformao no tinha mudado um pice essas 
caractersticas. S que, uma vez que foi igual ao que eu era, utilizou essas qualidades para atrair as crianas.
     -Eu nunca poderia...
     -Sim poderia -disse ele categoricamente.- E sem dvida o faria. No converterei em um monstro  luz mais radiante de minha vida. No, nunca te verei como eu 
sou.
     -Eu no vejo nenhum monstro quando te olho.
     -Voltaria a s-lo se fizesse o que me pede. No seria s voc quem mudaria, Moira. Acaso quer voltar a me condenar?
     Ela apertou as mos contra seus olhos.
     -No. No. Fique ento. -Deixou cair as mos.- Fique comigo, tal como somos. Ou me leve contigo. Uma vez que Geall esteja a salvo, posso deix-lo nas mos de 
meu tio, O...
     -E o que? Viver comigo nas sombras? No posso te dar filhos. No posso te dar nenhuma classe de autntica vida. Como se sentir dentro de dez, vinte anos, quando 
tiver envelhecido e eu no? Quando te olhar no espelho e ver em sua natureza o que alguma vez poder ver na minha? J roubamos estas semanas. Tero que ser suficientes 
para ti.
     -Podem ser para ti?
     -Estas semanas foram mais do que nunca tive ou sonhei ter. No posso ser um homem, Moira, nem sequer para ti. Mas posso sentir quando me machucam, e agora voc 
o est fazendo. 
     -Sinto muito, sinto muito.  como se estivessem oprimindo tudo o que h em meu interior. Meu corao, meus pulmes. No tinha direito a te pedir isso, eu sei. 
Sabia inclusive enquanto o fazia, quando o fiz. Sabia que era algo egosta e equivocado. E dbil -acrescentou-, quando tinha jurado que no voltaria a ser dbil. 
Sei que no pode ser. Sei que no  possvel. O que no sei  se pode me perdoar.
     Cian se aproximou e se sentou junto a ela.
     -A mulher a que transformei no sabia o que eu era at aquele momento. Se o tivesse sabido, teria fugido lanando alaridos de terror. Voc sabe o que sou. Pediste-me 
isso porque s humana. Eu no preciso te pedir que me perdoe por ser o que sou, portanto, voc no precisa me pedir que te perdoe por ser o que .
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 19
      
      
     
     Moira passou com Glenna a maior parte do dia, fabricando e encantando as bolas de fogo. Aproximadamente cada hora, dois ou trs homens subiam  torre e levavam 
o que j estava feito para empilh-lo fora.
     -Nunca pensei que diria isto -comentou Moira depois da quarta hora de trabalho ininterrupto-, mas a magia pode ser muito aborrecida.
     -Hoyt diria que o que estamos fazendo aqui  quase tanto cincia como magia. -Glenna secou o suor do rosto com o brao.- E sim, ambas as coisas podem ser malditamente 
aborrecidas. Entretanto, ao me ajudar a fazer isto, reduz-se o tempo e se aumenta a carga explosiva. Hoyt leva todo o dia encerrado com Cian, estudando mapas e decidindo 
estratgias.
     -Algo que provavelmente  igualmente aborrecido.
     -Aposto a que mais.
     Glenna percorreu novamente a fila de bolas endurecidas que ambas tinham fabricado, com as mos estendidas e os olhos fixos, ao tempo que recitava o feitio. 
Moira podia ver como o uso constante de poder estava cobrando seu preo em sua amiga.
     As sombras que havia debaixo dos olhos verdes de Glenna pareciam fazer-se mais profundas a cada hora que passava. E cada vez que desaparecia o rubor que o escasso 
calor levava a suas bochechas, sua pele parecia mais plida, mais esgotada.
     -Deveria deix-lo durante um momento -disse Moira quando Glenna terminou de encantar a ltima bola.- Tomar um pouco de ar, comer um bocado.
     -Quero acabar este lote, mas primeiro tomarei um minuto. Aqui fede a enxofre. -Foi at a janela e se inclinou para fora para respirar o ar fresco e puro.- Oh. 
Isto  um verdadeiro espetculo. Moira, vem ver isto. Os drages voam ao redor das tendas de campanha.
     Moira se aproximou da janela para contemplar o vo dos drages, a maioria deles montados por cavaleiros que os treinavam para descer ou girar quando o ordenassem. 
Os drages aprendiam rapidamente, pensou ela, e constituam um brilhante espetculo contra o cu plmbeo.
     -Aposto que est desejando poder tirar uma fotografia ou, ao menos, fazer um esboo.
     -Passarei os prximos dez anos fazendo esboos e ilustraes de tudo o que vi nestes ltimos meses -respondeu Glenna.
     -Sentirei terrivelmente a sua falta quando tudo isto tenha acabado e j no esteja aqui.
     Glenna, pormenorizada, rodeou os ombros de Moira e logo lhe beijou o cabelo.
     -Sabe que se existir alguma forma de vir, faremos. Te visitaremos. Temos a chave, temos o portal, e se o que temos feito aqui no merea a bno dos deuses, 
no sei o que poderia merec-la.
     -Eu sei. Apesar dos horrveis que foram estes ltimos meses, em muitos sentidos, deram-me muito. Voc e Hoyt, e Blair. E...
     -Cian.
     Moira manteve o olhar fixo nos drages.
     -Cian no voltar a me visitar, com ou sem a bno dos deuses.
     -No sei.
     -No o far, embora fosse possvel para ele, no retornar para mim. -Pequenas mortes, pensou Moira, cada hora, cada dia.- Sempre o soube. Querer que seja diferente 
no muda o que , ou o que no pode ser.  uma das coisas que Morrigan me dizia, sobre o tempo da certeza. Usar meu corao e minha cabea juntos. Tanto meu corao 
como minha cabea sabem que no podemos estar juntos. Se o tentssemos nos rasgaria at o ponto de que nenhum dos dois seria capaz de sobreviver. Eu tentei negar 
isso, me degradando, machucando-o.
     -Como?
     Antes que Moira pudesse responder, Blair irrompeu na sala.
     -O que ocorre? Uma pequena pausa feminina? Qual  o assunto? Moda, comida ou homens? Oh-Oh -acrescentou quando elas se voltaram e Blair viu seus rostos-, o 
assunto devem ser os homens, e eu sem chocolate para repartir. Me escutem, irei dentro de um momento, s queria lhes dizer que foram avistadas as ltimas tropas 
que saram do castelo. Estaro aqui dentro de uma hora. 
     - uma boa notcia. No, ficas um momento, queres? -pediu-lhe Moira.- Deveria saber o que estava a ponto de confessar. Ambas puseram o corao e o sangue em 
tudo isto. Fostes as melhores amigas que tive nunca, ou que terei.
     -O tom de sua voz  muito srio, Moira. O que fez? Decidiste passares ao lado escuro e sair de passeio com Lilith?
     -No vas muito desencaminhada. Pedi a Cian que me transformasse.
     Blair assentiu enquanto se aproximava dela.
     -No vejo nenhuma mordida em seu pescoo.
     -Por que no esto zangadas ou ao menos surpreendidas? Nenhuma das duas.
     -Eu acredito -disse Glenna lentamente- que em seu lugar eu teria feito o mesmo. Sei que o teria desejado. Se sairmos com vida disto, Blair e eu vamos embora 
com nossos homens. Voc no pode fazer o mesmo. E achas que vamos te julgar por tratar de encontrar alguma maneira de mudar isso?
     -No sei. Poderia ser mais fcil se o fizessem. Utilizei seus sentimentos para mim como se fossem armas. Pedi-lhe... aparentemente lhe supliquei que me fizesse 
como ele quando estvamos num momento muito ntimo.
     -Debaixo do cinturo -afirmou Blair.- Se eu fosse fazer o mesmo, esse seria o mtodo que teria escolhido. E ele te rechaou, uma atitude que me confirma que 
no h nenhuma dvida sobre o que voc significa para ele. Voltando para mim, sentiria-me melhor sabendo que ele ia estar to s e triste como o estaria eu depois 
de que ele partisse.
     Moira deixou escapar uma breve risada surpreendida.
     -No fala a srio.
     -Hei-o dito para alegrar um pouco o ambiente, mas quer que te diga a verdade? No sei. Talvez sim. Lamento que vocs sejam quem leve a pior parte nisto. Sinceramente.
     -Ah, bom, possivelmente tenha um pouco de sorte e morra na batalha amanh de noite. Depois de tudo, desse modo no ficaria triste e sozinha.
     -Pensamento positivo. Isso  o que falta.
     Em lugar de chocolate, Blair lhe deu um abrao. E olhou a Glenna por cima do ombro de Moira.
     
     
     Era importante, e Moira sabia, que as ltimas tropas que chegavam fossem recebidas por sua rainha, e mostrar-se ante a maior quantidade delas nas ltimas horas 
antes da marcha final. Caminhou entre as tendas de campanha junto a outros membros da famlia real enquanto avanava o crepsculo. Falou com todos os que pde. Ia 
vestida como um guerreiro, com a capa sujeita com um simples broche claddaugh e a espada de Geall a um flanco.
     J tinha cado a noite quando retornou finalmente  casa, e ao que ela sabia que seria a ltima reunio com seu crculo para planejar a estratgia.
     Eles j estavam reunidos ao redor da grande mesa, e s Larkin estava de p, olhando o fogo com o cenho franzido. Algo novo, pensou ela com um ligeiro tremor 
no estmago. Algo mais.
     Tirou-se a capa enquanto estudava os rostos daqueles a quem tinha chegado a conhecer to bem.
     -Que planos esto fazendo que tm to preocupado a Larkin?
     -Sente-se -disse Glenna.- Hoyt e eu temos algo. Se funciona -continuou dizendo enquanto Moira se aproximava da mesa- podemos ganhar esta batalha.
     O ligeiro tremor de seu estmago se converteu em um n gelado enquanto Moira escutava. Tantos riscos, pensou, tantas contingncias e tantas maneiras de fracassar. 
Sobretudo para Cian.
     Mas quando o olhou aos olhos, compreendeu que ele j tinha tomado sua deciso.
     -Depende sobretudo de ti -disse Glenna a Cian.- Escolher o momento oportuno... se falha por um segundo...
     -Depende de todos ns. Todos sabamos ao que nos enfrentvamos quando comeamos isto.
     -Nenhum de ns deveria arriscar-se mais que outros -interrompeu Larkin.- Podemos sacrificar a um de ns sem necessidade, sem...?
     -Achas que exponho esta questo sem pensar? -Hoyt falou com voz acalmada.- J perdi a meu irmo uma vez, logo voltei a lhe encontrar. Encontrei mais, acredito, 
do que ambos tnhamos antes. E agora, ao fazer isto, ao fazer o que me encarregaram os deuses, posso voltar a perd-lo.
     -No percebo uma sensao de confiana em minhas capacidades. -Em cima da mesa havia uma jarra, e Cian a agarrou para servir-se cerveja amarga.- Aparentemente, 
o fato de ter conseguido sobreviver durante novecentos anos no se considera um ponto forte em meu currculo.
     -Eu te contrataria --disse Blair, e levantou sua taa.- Sim,  uma negcio arriscado, um monto de passos, muitas variveis, mas se funciona ser fantstico. 
Estou segura de que o conseguir. De modo que o plano conta com meu voto.
     -No sou uma estrategista -comeou a dizer Moira.- E minha magia  limitada. Pode faz-lo? -perguntou a Hoyt.
     -Acredito que pode fazer-se.
     Procurou a mo de Glenna.
     -De fato, tiramos a idia de algo que disse quando estvamos no castelo -lhe explicou Glenna.- E estaramos utilizando os smbolos de Geall. Todos eles. Seria 
uma magia muito poderosa, e acredito que pura, embora necessite sangue para lig-la.
     -Por outra parte, parece-me que temos mais verdadeiro poder que Midir. -Hoyt estudou os rostos de seus companheiros.- Juntos o esmagaremos, a ele e a outros.
     Moira se voltou para Cian.
     -Se voc ficavas para trs? Um sinal dirigido a ti, a todos ns uma vez que se deram todos os passos...
     -O sangue de Lilith no campo de batalha  essencial. Ela tem que ser ferida ao menos por um de ns seis. E Lilith  minha -disse Cian categoricamente.- O consiga 
ou no, ela  minha. Por King.
     Por King, pensou Moira, e tambm por ele. Em outro tempo, ele tambm tinha sido inocente. Em outro tempo, ele tinha sido uma vtima e lhe tinham arrebatado 
a vida. Lilith tinha derramado seu sangue, tinha-o alimentado com o seu. Agora, o que ambos compartilhavam podia ser vital para a sobrevivncia da humanidade.
     Levantou-se, com o peso de tudo isso sobre seus ombros, e se aproximou de Larkin.
     -J o decidistes. -Voltou a vista por volta dos quatro que estavam sentados  mesa.- Quatro de seis, de modo que o faremos como planejastes, no importa o que 
Larkin e eu votemos. Mas  melhor se estivermos juntos. Se o crculo estiver de acordo, sem divergncias, sem dvidas. -Agarrou a mo de Larkin.-  o melhor.
     -De acordo. De acordo. -Larkin assentiu.- Ento estamos juntos.
     -Repassemos uma vez mais. -Moira retornou  mesa.- Os detalhes e os movimentos, logo comunicaremos o plano aos chefes de esquadro.
     Seria como um baile sangrento e brutal, pensou Moira. Espada, sacrifcio e magia levando o ritmo. E o sangue,  obvio. 
     Sempre tinha que haver sangue.
     -Os primeiros preparativos durante a manh, ento. -Levantou-se para servir e repartir a todos pequenos copos de usque.- Logo, cada um de ns far sua parte 
e, se os deuses quiserem, acabaremos com isto. E o acabaremos, apropriadamente penso, com os smbolos de Geall. Muito bem, por ns e ao inferno com eles.
     Quando todos tinham bebido, Moira se aproximou do instrumento que havia trazido com ela do castelo.
     -Gostarias de tocar para ns? -perguntou-lhe a Cian.- Deveramos ter msica. Toquemos msica e faamos que se oua atravs da noite. Espero que Lilith possa 
ouvi-la e trema.
     -Mas voc no tocava nenhum instrumento, Cian -comentou Hoyt.
     -Em uma poca, tampouco falava chins cantes. As coisas mudam.
     No obstante, Cian se sentia um tanto estranho, sentado ali com aquela espcie de violino, provando as cordas para as afinar.
     -O que  essa coisa? -perguntou Blair.- Como um violino com gota?
     -Bom, seria seu antecessor.
     Cian comeou a tocar, lentamente, sentindo que retrocedia da guerra  msica. A sensao de estranheza se dissipou com as notas aprazveis e persistentes.
     - bonito -disse Glenna.- Embora um tanto dilacerador. 
     No pde evit-lo, e foi em busca de papel e lpis-carvo para fazer um esboo de Cian enquanto tocava.
     De fora, comearam a soar flautins e harpas, unindo suas notas s de Cian.
     Cada nota como se fosse uma lgrima, pensou Moira.
     -Tem talento para isso -lhe disse Larkin quando as notas se extinguiram.- E muito sentimento para a msica, essa  a verdade. Mas poderia tocar algo que fosse 
um pouco mais animado? J sabe, com um pouco de fasca?
     Larkin levou a flauta aos lbios e soprou umas quantas notas rpidas e alegres, de modo que os ecos melanclicos da msica de Cian foram varridos pela alegria. 
Do exterior, voltaram a unir-se flautins e harpas, ao tempo que Cian acompanhava o ritmo e a melodia. Com uma exclamao de aprovao, Larkin comeou a sapatear, 
seus joelhos como dobradias soltas, enquanto Moira seguia o ritmo com as palmas.
     -Vem. -Larkin lanou a flauta a Blair e agarrou as mos de Moira.- Vamos ensinar-lhes como se dana em Geall.
     Moira se ps a rir e comeou a girar com Larkin no que Cian considerou que era uma dana prxima ao step dance irlands. Ps rpidos, ombros quietos, todo energia. 
Inclinou-se sobre seu instrumento, sorrindo ligeiramente ante a persistncia do corao humano, enquanto as sombras e a luz do fogo jogavam sobre seu rosto.
     -No permitiremos que eles ganhem.
     Hoyt agarrou a Glenna, obrigando-a a levantar-se.
     -No posso danar isso -protestou ela.
     - obvio que pode. Leva-se no sangue.
     As pranchas do solo ressonaram sob as botas e o baile, a melodia e as risadas fluram para a noite. Era to prprio dos humanos, pensou Cian; levar a alegria. 
No s us-la, mas tambm esprem-la at a ltima gota.
     Ali estava seu irmo, o feiticeiro, que estimava sua dignidade tanto como seu poder, girando pelo salo com sua bruxa ruiva e sensual que ria como uma menina 
enquanto tentava seguir os passos.
     A caadora de vampiros te-chuto-a-cara-e-o-traseiro danava mesclando um pouco de hip-hop do sculo XXI com a dana tradicional para fazer rir a seu vaqueiro, 
o shifter.
     E a rainha de Geall, fiel, devota e levando o peso de seu mundo sobre os ombros, com o rosto aceso e resplandecente pelo simples prazer da msica.
     Podiam morrer amanh, todos eles, mas nessa noite estavam danando. Lilith jamais poderia entend-los apesar de todos seus ens, todo seu poder e sua ambio. 
E a magia deles, a luz deles, possivelmente pudesse triunfar.
     Pela primeira vez acreditou -sobrevivesse ele ou no- que a humanidade triunfaria. No podia ser extinta, nem sequer por si mesma. Embora ele tinha visto, com 
muita freqncia, que o tinha tentado.
     Havia muitos outros como aqueles cinco, que lutariam e suariam e sangrariam. E danariam.
     Continuou tocando quando Hoyt fez uma larga pausa para beber uma jarra de cerveja.
     -A envia a ela -murmurou Cian.
     -Olhe a minha Glenna, danando como se o tivesse feito toda a vida. -Hoyt franziu o cenho.- O que h dito?
     Cian elevou a vista e j no sorria, apesar de que a msica que estava tocando era to alegre como um globo vermelho.
     -Envia a msica a Lilith, envia-a para a noite, como h dito Moira. Pode faz-lo. Lhe esfreguemos a msica pela cara.
     -O faremos. -Hoyt apoiou uma mo no ombro de Cian.- Podem estar seguro de que o faremos.
     O poder se agitou esquentando o ombro de Cian enquanto tocava e tocava.
     Na escurido, Lilith observava a suas tropas enquanto lideravam outra batalha de treinamento. At onde podia ver -e seus olhos eram muito agudos- vampiros, 
meio vampiros e criados humanos estavam repartidos em um exrcito que ela tinha construdo ao longo de centenas de anos.
     Ao dia seguinte cairia sobre os humanos como uma praga at que o vale se convertesse em um lago de sangue.
     E nele afogaria a essa puta que se chamava a si mesma de rainha, por isso tinha feito a Davey.
     Quando Lora se reuniu com ela, enlaaram-se a cintura com os braos.
     -Os exploradores j voltaram -disse Lora.- Superamos em nmero ao inimigo em uma proporo de trs para um. Midir est a caminho, como ordenou.
     - uma boa vista a que se desfruta daqui. Davey teria desfrutado vendo isto.
     -Amanh, a esta hora ou pouco depois, ser vingado.
     -Oh, sim. Mas no acabar a. -Sentiu a presena de Midir enquanto subia para onde se encontravam Lora e ela.- Comea o antes possvel -ordenou Lilith sem voltar-se.- 
Se me falha, cortarei-te pessoalmente a garganta.
     -No falharei.
     -Amanh, quando comear, estar em sua posio. Quero que te situes nas terras altas que se elevam para o oeste, onde todos possam ver-te.
     -Majestade...
     Lilith se voltou para ele, com os olhos azuis e gelados.
     -Pensava acaso que permitiria que ficasse aqui, encerrado e protegido por este escudo? Estar onde eu digo, Midir. E estar nessas colinas para que nossas tropas 
e as deles possam ver seu poder. Um incentivo para eles e para ti -acrescentou.- Te assegures de que sua magia seja poderosa ou pagar o preo por isso durante a 
batalha ou depois de que tenha terminado.
     -Servi-lhes fielmente durante sculos e ainda no confiam em mim.
     -No h confiana entre ns, Midir. S ambio. Prefiro que vivas,  obvio. -Lilith sorriu agora, fracamente.- Tenho trabalho para ti inclusive depois de minha 
vitria. No castelo de Geall h crianas. Quando tiver cado a noite, quero-os ver todos. Dentre eles escolherei ao prximo prncipe. Os outros serviro para um 
apetitoso banquete. Voc estar nessa colina -acrescentou enquanto se voltava outra vez.- E projetar sua escura sombra. No h motivo para preocupar-se. Depois 
de tudo, j viu o resultado desta batalha na fumaa. E assim me explicaste isso milhares de vezes.
     -Seria-lhes de maior utilidade aqui, com mi...
     -Silncio! -replicou Lilith com tom cortante, e elevou uma mo.- O que  esse som? Ouvem-no?
     -Soa como se fosse... -Lora franziu o cenho olhando para a escurido.- Msica?
     -Seu feiticeiro a envia. -Midir levantou o rosto e as mos.- Posso lhe sentir estendendo seu pequeno e plido poder atravs da noite.
     -Faa que pare! No quero que se burlem de mim em vsperas da batalha. No o aceitarei. Msica -disse, cuspindo as palavras.- Lixo humano.
     Midir baixou os braos e cruzou as mos.
     -Posso fazer tudo o que desejem, minha rainha, mas eles esto fazendo um intento pequeno e ridculo para lhe enfurecer. Observem a suas prprias tropas, treinando, 
empunhando as armas, preparando-se para a batalha. E o que faz seu inimigo nestas horas finais? -Fez um gesto depreciativo com os dedos, que chisparam no ar.- Brincam 
como crianas imprudentes. Desperdiando o pouco tempo que ainda fica, com msica e bailes antes da matana. Mas se o desejam...
     -Espera. -Voltou a elevar a mo.- Deixemos que desfrutem de sua msica e que se dirijam danando para a morte. Retorna a sua fumaa e seu caldeiro. E quero 
que estejas preparado para ocupar amanh seu lugar e mant-lo. Ou brindarei por minha vitria com seu sangue.
     -Como voc diga, majestade.
     -Pergunto-me se Midir h dito a verdade -comentou Lora quando estiveram novamente a ss.- Ou se no se atreveu a enfrentar seu poder com o deles.
     -No tem importncia. -Lilith no podia permitir que isso lhe preocupasse, no quando estava to perto da concluso de tudo o que ela tinha desejado.- Quando 
tudo for como quero, quando esmagar a esses humanos e beber o sangue de seus filhos, Midir ter acabado seu servio.
     -Certainement. E uma vez tenha o que quer, seu poder poderia voltar-se contra ti. O que prope que faamos com Midir?
     -Prepararei uma comida com ele.
     -A compartilhar?
     -S contigo.
     Lilith continuou junto  janela observando o treinamento de suas tropas. Mas a msica, aquela maldita msica, tinha a deprimido o nimo.
     
     
     J era tarde enquanto Cian jazia junto  Moira. Naquelas ltimas horas, o crculo se dividiu em trs partes. Ele tinha visto avivar o fogo e chispar as velas, 
e soube que Hoyt e Glenna estavam fundidos um com o outro.
     Como o tinha estado ele com Moira. Como imaginou que o estaria Larkin com Blair.
     -Sempre estava destinado a ser desta maneira -comentou Moira com voz suave.- Ns seis formando o crculo, e cada um de ns estabelecendo um vnculo mais forte 
com outro. Para estar juntos, para aprender. Para conhecer o amor. E esta noite, a casa resplandece de amor.  uma forma de magia, e to poderosa como qualquer outra. 
Ns a temos, e no importa o que acontea. -Moira elevou a cabea para olh-lo -o que te pedi que fizesse era uma traio.
     -No h necessidade de falar disso.
     -No, lhe quero dizer isso. Foi uma traio para ti, para mim, para outros e para tudo o que temos feito juntos. Voc foi mais forte, agora eu tambm o sou. 
Amo-te com todo meu ser. Isso  um presente para os dois. Nada pode destru-lo ou mud-lo.
     Ela levantou o relicrio que Cian levava ao pescoo. Continha algo mais que uma mecha de seu cabelo, pensou. Continha seu amor.
     -No o deixe para trs quando partires. Quero saber que o leva contigo, sempre.
     -Sempre ir aonde eu v. Tem minha palavra. Amo-te com tudo o que sou, e tudo o que posso ser.
     Ela voltou a deixar o relicrio sobre o corao de Cian e logo apoiou uma mo sobre o silncio de seu peito. Seus olhos se encheram de lgrimas, mas lutou para 
reprimi-las.
     -Arrepende-te de algo?
     -De nada.
     -Pelos dois. Faa amor comigo. Faa amor comigo pela ltima vez antes de que amanhea.
     Foi tenro e lento, saboreando cada carcia, cada gosto. Os beijos longos e suaves eram uma espcie de droga contra qualquer dor, as carcias um blsamo sobre 
as feridas que deveriam suportar. Ela se disse que agora seu corao pulsava com suficiente fora para os dois, essa ltima vez.
     Seus olhos permaneceram abertos e fixos nos de Cian de modo que, no clmax, viu como ele se deslizava junto a ela.
     -Diga-me isso outra vez -murmurou ela.- Uma vez mais.
     -Te amo. Eternamente.
     Logo permaneceram deitados no meio do silncio. Todas as palavras tinham sido ditas.
     Na ltima hora antes do amanhecer, os seis se levantaram a fim de preparar-se para a marcha final para a batalha.
     Viajaram a cavalo, em drago, a p, em carroas e carrinhos de mo. Em cima deles, as nuvens se deslocavam pelo cu, mas no bloqueavam a luz. O sol brilhava 
atravs delas com dedos que resplandeciam fracamente e sbitas chamas que iluminavam o caminho para o Vale do Silncio.
     Os primeiros chegaram ali para colocar armadilhas em meio das sombras e nas covas, enquanto os guardas voavam ou cavalgavam sobre e ao redor do vale com seus 
olhos alertas para antecipar qualquer ataque.
     E tambm encontraram armadilhas que tinham sido colocadas para eles. Debaixo dos ps de um homem aparecia subitamente um charco de sangue que o tragava. A lama, 
negra como o breu, borbulhava fervendo e queimava a carne atravs das botas.
     -Isto  obra de Midir -disse Hoyt enquanto outros corriam para tratar de salvar aos que pudessem.
     -Bloqueie seu poder-ordenou Cian.- Ou teremos uma quebra de onda de pnico entre mos antes de comear.
     -Meio vampiros. -Blair gritou a advertncia do lombo de um drago.- Ao redor de cinqenta. Primeira linha, adiante.
     Lanou-se com o drago em picado para dirigir o ataque.
     As flechas atravessaram o ar e as espadas cruzaram seus aos. Na primeira hora, as foras de Geall perderam quinze homens, mas mantiveram suas posies.
     -S queriam que provssemos um pouco. -Blair desmontou com o rosto salpicado de sangue.- Lhes demos um pouco de seu prprio remdio.
     -Os mortos e os feridos tambm tm que ser atendidos. -Endurecendo-se, Moira olhou aos cados e logo afastou a vista.- Hoyt est rechaando o feitio de Midir. 
Quanto lhe est custando faz-lo?
     -Hoyt ter tudo o que precise ter. Vou me elevar outra vez no drago e darei um par de voltas. Verei se ela nos tem preparadas mais surpresas. -Blair montou 
de um salto no drago.- Mantenham a linha.
     -No estvamos to preparados para as armadilhas, para um ataque  luz do dia, como deveramos. -Larkin embainhou sua espada manchada de sangue e se aproximou 
de Moira.- Mas temos feito um bom trabalho. E o faremos melhor ainda.
     Apoiou a mo sobre o brao de sua prima e a levou  parte para que s ela pudesse ouvir o que tinha que lhe dizer.
     -Glenna diz que alguns deles j esto aqui, sob a terra. Hoyt no pode trabalhar com ela agora, mas Glenna acredita que entre Cian e ela poderiam encontrar 
ao menos a alguns deles e se encarregar do problema.
     -Bem. Embora s seja um punhado, ser uma vitria. Preciso reforar aos arqueiros.
     O sol subiu por volta do meio-dia, e logo continuou sua viagem. Em duas ocasies, viu como a terra se abria onde Glenna sustentava uma enxada. Logo, o resplendor 
de fogo quando o demnio que se escondia clandestinamente recebia a luz do sol e ardia.
     "Quantos mais? -perguntou-se.- Uma centena? Quinhentos?"
     -Est bloqueado. -Hoyt se enxugou o suor que salpicava sua testa ao reunir-se com ela.- As armadilhas de Midir esto fechadas.
     -Obrigaste-o a retroceder.
     -No estou seguro. Talvez tenha comeado a trabalhar em outra coisa. Mas no momento est bloqueado. Esta terra faz que se estremea a alma de um homem. Goteja 
maldade e te afoga. Irei ajudar a Cian e Glenna.
     -No, precisa descansar um momento, reservar suas energias. Eu os ajudarei.
     Hoyt assentiu sabendo que precisava repor-se. Mas seu olhar era sombrio enquanto estudava o vale e se detinha onde Glenna e Cian estavam trabalhando.
     -No podero encontrar a todos. No neste terreno.
     -No. Mas cada um  um a menos.
     No obstante, quando chegou onde estava Glenna, Moira viu que o trabalho estava deixando seus rastros. Glenna estava plida e tinha a pele mida e fria como 
a de Hoyt.
     - hora de descansar -lhe disse Moira.- Deve recuperar as foras. Eu seguirei trabalhando um momento.
     -Isto est alm de seu poder. Est no limite do meu. -Glenna aceitou agradecida o odre com gua que lhe oferecia Moira.- S conseguimos desenterrar a uma dzia 
deles. Um par de horas mais e...
     -Ela precisa parar. Voc precisa parar. -Cian agarrou a Glenna pelo brao.- Est quase a borda de suas foras e sabe. Se estiver exausta quando se pr o sol, 
do que ter servido isto? 
     -Sei que h mais. Muitos mais.
     -Ento estaremos preparados quando esta terra os cuspa fora de seus esconderijos. V. Hoyt te necessita. Parece p.
     -Uma boa estratgia -lhe disse Cian a Moira quando Glenna se afastou.- Usar a Hoyt.
     -Sim, mas tambm  verdade. Estamos esgotando aos dois. E a ti tambm -acrescentou.- Posso ouvir em sua voz quo cansado est. De modo que te direi o mesmo 
que hei dito a Glenna: se estiver exausto quando se pr o sol, do que ter servido isto?
     -A fodida capa me sufoca. Por outra parte, a alternativa no  muito agradvel. Preciso me alimentar -admitiu.
     -V ento s terra altas e te ocupe disso. J temos feito quase tudo o que estava em nosso poder, tudo o que tnhamos inteno de fazer at agora.
     Moira viu que Blair e Larkin se reuniram com Glenna e Hoyt. Os seis juntos, enquanto o sol se ocultava lentamente no horizonte, poderiam voltar a renovar suas 
foras. Atravessaram o acidentado terreno, superaram uma ilhota de rocha furada e iniciaram a ascenso pela levantada ladeira.
     Tudo nela se estremeceu quando alcanaram o topo. Inclusive sem o feitio de Midir, a terra parecia puxar a ela para baixo.
     Cian agarrou um odre de gua que ela sabia que continha sangue.
     -Esperam a ti -disse Blair.- Muitos de seus soldados esto mortos de medos.
     -Se quer dizer que no mantero suas posies e lutaro...
     -No derrube sobre mim todo o orgulho de Geall. -Blair elevou uma mo em som de paz.- O que eles precisam  saber de ti, que os animem. Necessitam seu discurso 
do Dia de So Crispn.
     -O que  isso?
     Blair olhou a Cian e arqueou as sobrancelhas.
     -Suponho que passou por cima Enrique V quando regou a biblioteca de Cian.
     -Depois de tudo, havia muitos livros.
     -Trata-se de lhes levantar o nimo -lhe explicou Glenna.- De prepar-los para o combate, inclusive para a morte. De lhes inspirar e lhes recordar a razo de 
que estejam aqui.
     -Devo fazer tudo isso?
     -Ningum mais teria o mesmo impacto. -Cian fechou o odre.- Voc  a rainha, e embora o resto de ns possamos ser generais, por diz-lo de algum modo,  a ti 
a quem procuram.
     -Eu no saberia o que lhes dizer.
     -J te ocorrer algo. Enquanto te encarrega disso, Larkin e eu reuniremos a suas tropas. Acrescentaremos um pouco de Braveheart a Enrique V -disse a Blair.- 
Subam a um cavalo.
     -Excelente idia.
     Blair foi em busca do cavalo de Cian.
     -O que foi que disse esse Enrique? -perguntou Moira.
     -O que seus homens precisavam ouvir. -Glenna apertou a mo de Moira.- E voc tambm o far.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 20
      
      
     
     -No tenho nada na cabea.
     -No vir dali. Ou no s dali. -Glenna alcanou a Moira sua pequena coroa.- Cabea e corao, recorda? Escute a ambos e, digas o que digas, ser o correto.
     -Ento eu gostaria que fosse voc quem o dissesse em meu lugar.  uma tolice ter medo de falar com eles -disse Moira com um dbil sorriso.- E no ter medo de 
morrer com eles.
     -Ponha isto. -Blair sustentou a capa da Moira.- Uma boa vista, a capa agitando-se ao vento. E fala alta e clara, pequena. Tem que projetar a voz para os que 
ocupam o galinheiro.
     -Perguntarei-te mais tarde o que significa isso. -Moira respirou profundamente e logo montou em Vlad.- L vamos ento.
     Avanou uns metros e o corao lhe deu um tombo. Ali estava seu povo, mais de mil soldados, de p, com o vale a suas costas. Enquanto o sol se afundava cada 
vez mais no cu, seus raios arrancavam brilhos de espadas, escudos e lanas. A luz banhava seus rostos, os de todos os que tinham ido at aqui dispostos a darem 
suas vidas.
     E sua cabea entendeu as palavras que aninhavam em seu corao.
     -Povo de Geall!
     Todos a aclamaram enquanto fazia trotar o cavalo pela frente de suas linhas. Inclusive aqueles homens que j tinham sido feridos gritaram seu nome.
     -Povo de Geall, sou Moira, rainha guerreira. Sou sua irm; sou sua servidora. Viemos a este lugar e neste momento por ordem dos deuses e para servir aos deuses. 
No conheo todos seus rostos, todos seus nomes, mas so meus, cada homem e mulher que est aqui. -O vento agitou sua capa enquanto ela olhava os rostos.- Esta noite, 
enquanto o sol se oculta, peo-lhes que lutem, que defendam esta terra amarga que hoje j provou seu sangue. Peo-lhes isto, mas no luteis por mim. vocs no lutem 
pela rainha de Geall.
     -Ns lutamos por Moira, rainha! -gritou algum. E, novamente, seu nome se elevou por cima do vento em aclamaes e cnticos.
     -No, no, vocs no lutem por mim! No lutem pelos deuses. No lutem por Geall, esta noite no. No luteis por vocs, nem sequer por seus filhos. No luteis 
por seus maridos ou esposas. Seus pais e mes.
     As tropas guardaram silncio enquanto Moira continuava revistando as linhas, olhando os rostos, encontrando os olhos.
     -No  por eles por quem tm vindo a este amargo vale, sabendo que seu sangue pode ficar derramado neste cho. Viestes aqui por toda a humanidade. Vocs so 
os escolhidos. Vocs so os abenoados. Todos os mundos e cada corao que pulsa neles  agora seu corao, seu mundo. Ns, os escolhidos, somos um s mundo, um 
s corao, um s propsito.
     Sua capa se sacudiu ao vento enquanto o cavalo se empenava e o sol agonizante refulgia sobre o ouro de sua coroa e o ao de sua espada.
     -Esta noite no fracassaremos. No podemos fracassar. Porque quando um de ns caia, haver outro que recolha sua espada, sua lana, para lutar com estacas e 
punhos contra a pestilncia que ameaa  humanidade e tudo o que existe. E se o seguinte de ns tambm casse, vir outro e outro mais, e muitos mais, porque ns 
somos o mundo aqui, e o inimigo jamais conheceu a ningum igual.
     Seus olhos eram como a fumaa do inferno em um rosto iluminado pela paixo. Sua voz se elevava no ar de modo que as palavras ressonavam fortes e claras.
     -Aqui, neste cho, os empurraremos at mais  frente do inferno. -Moira continuou gritando por cima das aclamaes que proferiam homens e mulheres e que se 
propagavam como uma onda.- Esta noite no saquearemos, esta noite no falharemos, esta noite no cederemos at conseguir a vitria. Vocs so o corao que eles 
nunca podero ter. Vocs so o flego e a luz que eles jamais voltaro a conhecer. Cantar-se a respeito deste Samhain, a respeito da Batalha do Silncio em cada 
gerao futura. As pessoas se sentaro junto a suas fogueiras e falaro da glria que ns conseguimos aqui. Esta noite. O sol j se oculta.
     Moira desembainhou sua espada e apontou para o oeste, onde o sol tinha comeado a tingir-se de vermelho.
     -Quando chegar a escurido, elevaremos a espada, o corao e a mente contra eles. E quando os deuses virem isto, juro-o, faremos que o sol volte a sair.
     Moira lanou uma lngua de fogo atravs de sua espada e a dirigiu para o cu.
     -No muito comum -disse Blair enquanto as tropas estalavam novamente em gritos e vivas.- Sua garota sabe manejar as palavras.
     -Ela ... brilhante. -Cian no podia afastar os olhos dela.- Como podero os vampiros resistir a tanta luz?
     -Ela diz a verdade -disse Hoyt.- Eles nunca viram a ningum como ns.
     Os chefes de esquadro separaram s tropas para que pudessem comear a ocupar suas posies. Moira cavalgou de volta e desmontou.
     - a hora -disse, estendendo as mos.
     Os seis formaram um crculo para forjar aquele ltimo vnculo. Logo se soltaram.
     -Verei-lhes na contracapa do disco -disse Blair com um sorriso luminoso.- Atrs deles, vaqueiro. 
     Saltou sobre o drago e se elevaram para o cu.
     Larkin montou no seu.
     -O ltimo a chegar ao pub quando tudo isto tiver terminado paga as rondas.
     E se elevou afastando-se de Blair.
     -Benditos sejam. E agora vamos chutar uns quantos traseiros.
     Glenna se afastou em companhia de Hoyt para seus postos, mas tinha visto o olhar que tinham cruzado ambos os irmos.
     -O que ocorre com Cian? No minta pra mim agora que poderamos estar to perto da fodida morte.
     -Cian me pediu que lhe desse minha palavra. Se formos capazes de fazer funcionar o feitio, tem-me feito prometer que no o esperaremos.
     -Mas no podemos...
     -Foi a ltima coisa que me pediu. Reze para que no tenhamos que escolher.
     Atrs deles, Moira estava junto a Cian.
     -Luta bem -lhe disse ela- e vive outros mil anos.
     - minha maior esperana. -Ele cobriu sua mentira agarrando suas mos uma ltima vez e levando-lhe aos lbios.- Lute bem, mo chroi, e viva. 
     Antes que Moira pudesse dizer nada mais, Cian montou em seu cavalo e se afastou a galope.
     
     
     Do ar, Blair repartia ordens, dirigindo a seu drago com as pernas e examinando o terreno em busca do que pudesse surgir da escurido. O sol se ocultou, sumindo 
o vale na noite, e nessa noite a terra se abriu. Eles surgiram de todas partes, de debaixo da terra, das rochas, das gretas, em quantidades inumerveis.
     -Comea o espetculo -sussurrou Blair para si, girando para o sul enquanto as flechas lanadas por Moira e seus arqueiros caam como uma chuva sobre o inimigo.- 
Esperem, esperem.
     Um rpido olhar para onde as vozes dos soldados de Niall se elevavam como cantos, confirmou-lhe que Niall estava esperando o sinal.
     Um pouco mais, um pouco mais, pensou enquanto os vampiros alagavam o vale, e as flechas atravessavam a alguns deles enquanto outras falhavam o alvo.
     Blair agitou sua espada flamejante e se lanou para baixo. Quando os homens atacaram, ela puxou a corda de seu arns e deixou cair a primeira bomba.
     O fogo e a metralha ardendo se pulverizaram pelo terreno e se ouviram os gritos dos vampiros calcinados pelas chamas. E mesmo assim, seguiam brotando da terra 
e avanando suas linhas para os soldados de Geall.
     Cian, despojado j de sua capa protetora, freou seu cavalo e elevou a espada para deter os homens que o seguiam. As bombas seguiam estalando, queimando o cho 
e s foras inimigas. Mas os vampiros seguiam avanando, escapulindo-se e rodando, saltando e rasgando. Lanando um grito de guerra, Cian agitou a espada e guiou 
a suas tropas para a tormenta de fogo.
     Com os cascos de seu cavalo e o ao de sua espada, conseguiu abrir uma brecha na linha de vanguarda do inimigo. Mas esta voltou a fechar-se, rodeando a ele 
e a seus homens.
     Os gritos se converteram em uma corrente.
     Em seu patamar inclinado, Moira colheu com fora seu machado de armas. O corao lhe golpeou a garganta quando viu que os vampiros conseguiam atravessar a linha 
para o este. Dirigiu o ataque ao tempo que Hoyt encabeava o seu, de modo que levaram a seus guerreiros em uma corrente de ao e estacas para flanquear as linhas 
inimigas.
     Por cima dos gritos, o choque do ao e o fogo, chegou a chamada de trombeta aos drages. A seguinte leva do exrcito de Lilith estava avanando.
     -Flechas! -gritou Moira enquanto esvaziava seu aljava e outra, cheia, era lanada a seus ps.
     Lanou uma flecha atrs da outra at que o ar esteve to saturado de fumaa que o arco era uma arma intil.
     Elevou sua espada e correu com seus homens ao centro do combate.
     De tudo o que tinha temido, de tudo o que tinha conhecido, de tudo o que tinha visto nas vises que os deuses lhe tinham enviado, o que vislumbrou atravs da 
fumaa e o fedor que lhe chegou, era pior. Homens e mulheres mortos em massa, cinzas dos inimigos destrudos cobrindo a terra como se fosse um manto de neve ftida. 
O sangue brotava como uma cascata pintando de vermelho a erva amarela.
     Chiados, humanos e dos vampiros, ressonavam na escurido debaixo da plida lua crescente.
     Bloqueou uma estocada e seu corpo se moveu com o instinto nascido do duro treinamento para girar, esquivar e bloquear o seguinte golpe. Quando saltou por cima 
de uma estocada baixa, sentiu o vento da espada debaixo das botas e, lanando um grito, cortou a garganta de seu inimigo.
     Agora, atravs da fumaa, viu que o drago que montava Blair descia em espiral para terra com o flanco atravessado pelas flechas. O solo estava coberto de estacas. 
Agarrou uma com sua mo livre, correu para frente e a cravou nas costas de um vampiro que atacava a Blair, lhe atravessando o corao.
     -Obrigada. Te agache. -Blair afastou a Moira de um tapa e cortou a outro vampiro o brao com que sustentava a espada.- Larkin?
     -No sei. Seguem vindo. 
     Blair saltou no ar, golpeando com os ps, e logo atravessou com uma estaca ao vampiro ao qual tinha chutado.
     Um momento depois, perdeu-se entre as ondas de fumaa, e Moira se encontrou lutando novamente por sua vida.
     Quando Blair abriu passo com sua espada atravs da linha inimiga, os vampiros a rodearam. Ela golpeou, utilizou a espada e a estaca, lutou para ganhar terreno. 
E, de repente, ficou empapada. Enquanto seus inimigos lanavam horrveis alaridos ao serem alcanados pela chuva de gua benta, Larkin apareceu voando atravs da 
fumaa e a agarrou pelo brao para elev-la do cho e sent-la atrs dele nos lombos do drago.
             -Bom trabalho -disse ela.- Volte a me baixar a terra. Ali, sobre essa grande pedra plana.
     -Voc me baixas.  meu turno de fazer algo por aqui. A gua benta acabou, mas ainda ficam duas bombas de fogo. Agora Lilith est empurrando com fora pelo sul. 
     -Darei-lhe um pouco de calor.
     Larkin saltou a terra e Blair voltou a elevar-se com o drago.
     Hoyt procurava com seus olhos e seu poder atravs da enorme confuso. Sentia o roce escuro de Midir, mas a escurido era to densa e fazia to frio, que no 
estava seguro da direo.
     Ento viu a Glenna que avanava para o alto de uma colina. E na cpula, erguido como um corvo negro, estava Midir. Horrorizado, viu tambm como uma mo surgia 
de uma dobra de terra e rocha e aferrava a perna de Glenna. Ouviu seu grito em sua mente enquanto ela chutava, enquanto cravava os dedos na terra para evitar ser 
arrastada para a greta. Ps-se a correr entre as espadas, at sabendo que se encontrava muito longe. E continuou sua carreira inclusive quando a lngua de fogo que 
Glenna disparou das pontas de seus dedos cobriu aquilo que a arrastava.
     Midir, percebendo o poder, lanou um raio, negro como o breu, e enviou a Glenna voando para trs.
     Enlouquecido pelo medo, Hoyt lutou como um possesso, ignorando os golpes e os cortes enquanto abria passo para ela. Pde ver o sangue em seu rosto enquanto 
Glenna respondia com fogo branco ao raio de Midir.
     
     
     A estaca no alcanou por um cabelo o corao de Cian e a dor lhe fez dobrar os joelhos. Enquanto caa, lanou um golpe para cima com a espada cortando a seu 
inimigo quase em dois antes de rodar pelo cho. Uma lana se cravou no cho pedregoso atrs dele. Agarrou-a e atravessou com ela o corao de outro vampiro. Logo, 
plantando-a com fora, elevou-se no ar e chutou a outro inimigo, jogando-o contra as estacas de madeira que os geallianos tinham afundado na terra.
     Viu Blair atravs da fumaa que se desprendia das bolas de fogo e as flechas ardentes. Ficou em p de um salto e agarrou o arns de seu drago para montar atrs 
dela um instante antes que lanasse outra bomba.
     -No te tinha visto -gritou Blair.
     -J me dei conta. E Moira?
     -No sei. Te encarregues do drago. Vou baixar. 
     Blair saltou  mesa de pedra. Cian a viu afastar-se lanando estacas com ambas as mos antes que a fumaa a tragasse. Fez girar ao drago, apontou com sua espada 
e lanou fogo atravs dela. A terra seguia puxando ele para baixo; seu embriagador aroma de sangue e terror lhe cravava o medo nas vsceras como se fosse uma estaca 
afiada.
     Ento viu a Glenna que subia pela ladeira de uma colina lutando contra uma candidata de inimigos que a superavam em uma proporo de trs a um. Sua tocha de 
armas lanava lnguas de fogo, mas cada vez que liquidava a um vampiro, outros avanavam se arrastando at ela.
     Quando viu a figura negra, de p no topo da colina, compreendeu por que tantos deles atacavam a uma s mulher.
     O poder do crculo o impulsionou enquanto atravessava o ar em direo  mulher de seu irmo.
     Enviou a trs vampiros rodando ladeira abaixo, para as armadilhas de estacas e poos de gua benta com um poderoso golpe proporcionado pela cauda do drago. 
Sua espada liquidou a outros dois ao tempo que a tocha flamejante de Glenna convertia a seus inimigos em p ardente.
     -Te levo?
     Desceu em picado, enlaou-lhe a cintura com o brao e a levantou no ar.
     -Midir. O muito safado.
     Cian voltou a elevar-se com o drago, mas quando golpeou novamente com a cauda do animal, esta ricocheteou como se tivesse se chocado contra uma rocha.
     -Est protegido por um escudo. Covarde.
     Com o flego entrecortado, Glenna procurou Hoyt no campo de batalha, e sentiu que se liberava do ferrolho que tinha nos pulmes, quando o viu abrindo passo 
com sua espada colina acima.
     -Me deixe no topo da colina e vai.
     -E uma merda -disse Cian.
     -Isso  o que se necessita aqui, Cian.  uma questo de magia contra magia. Por isso estou aqui. Procura aos outros e os prepare, porque te juro por todos os 
deuses e deusas que vamos fazer isto.
     -De acordo, ruiva. Aposto todo meu dinheiro em ti.
     Cian voou com o drago por cima da colina e se deteve brevemente para que Glenna pudesse apear-se. Deixou-a ali para que se enfrentasse ao feiticeiro negro.
     -Muito bem, a bruxa ruiva veio at aqui para morrer.
     -No, vim pelo ambiente.
     Glenna elevou uma mo e atacou agitando seu machado de armas. Os olhos muito abertos de Midir indicaram a Glenna que seu movimento o tinha surpreendido. O fio 
em chamas do machado atravessou o escudo, mas a lmina errou o alvo. Foi lanada para trs e elevada no ar para logo cair violentamente ao cho.
     Embora ela contra-atacou com seu prprio poder, o calor ardente do raio negro lhe queimou as palmas das mos. Manteve-as estendidas, com o poder contido nelas, 
enquanto ficava dolorosamente de p.
     -No pode ganhar este combate -disse Midir enquanto a escurido brilhava tnuamente ao seu redor.- Vi o fim, e tambm sua morte.
     -Voc viu o que o demnio a quem te vendeu quer que veja. -Lanou um jorro de fogo e, embora o mago o desviou com um giro da munheca, soube que havia sentido 
a queimadura o mesmo que ela.- O fim o fazemos ns.
     Com uma fria gelada no rosto, Midir levantou um vento cortante que enviesou sua pele como se fosse uma faca.
     Os vampiros resistiam, pensou Blair. Ela acreditava que estavam conservando suas posies, mas por cada metro que os geallianos conseguiam manter, mais vampiros 
avanavam sobre ele atravs da noite.
     J tinha perdido a conta dos inimigos que tinha matado. Uma dzia ao menos com a espada e a estaca, e como mnimo uma quantidade similar com os ataques do ar. 
Mas no era suficiente. Os cadveres cobriam o horrvel terreno e suas foras estavam quase ao limite.
     Precisavam tirar o coelho da cartola, e gritou sua vingana enquanto atirava um golpe com sua espada a um vampiro que tinha feito uma parada para alimentar-se 
de um dos cados.
     Girou rapidamente, alcanou com o fio a outros vampiros e viu a Glenna e Midir no alto da colina, e o terrvel combate do poder negro contra o branco.
     Agarrou uma lana de uma mo morta e a lanou como se fosse uma javali. A ponta da lana atravessou a dois vampiros que lutavam costas contra costas, a haste 
de madeira penetrando em seus coraes.
     Algo saltou por cima de sua cabea. Seus sentidos captaram s um fragmento, e seus instintos fizeram que executasse um salto mortal. Lanou um golpe com a espada 
ao tocar terra e seu ao se chocou contra o de Lora.
     -Aqui est. -Lora deslizou a folha de sua espada para baixo at formar uma V com a de Blair.- Estive te procurando.
     -Estava por aqui. Tem algo na cara. Oh, v!  uma cicatriz? Eu te fiz isso? Que lstima!
     -Logo estarei comendo sua cara.
     -Voc sabe que isso no  mais que uma formulao de desejos, certo? Alm de ser algo repugnante. J est bem de conversa para ti?
     -Mais que suficiente.
     As espadas cantaram ao separar os aos. Logo, a msica foi aumentando quando as lminas voltaram a chocar.
     Um momento depois, Blair se deu conta de que estava enfrentando ao inimigo mais formidvel de sua carreira. Lora podia parecer uma dominadora de filmes de srie 
B, embainhada em couro negro, mas a cachorra francesa sabia brigar.
     E encaixar os golpes, pensou, quando finalmente conseguiu superar a guarda de Lora e estelar o punho contra seu rosto. Blair sentiu que a queimadura riscava 
uma linha atravs de seus ndulos quando as presas lhe cortaram a carne.
     Blair saltou sobre uma rocha de bordas dentadas e lanou uma estocada para baixo, que encontrou s o ar quando Lora se elevou do cho como se tivesse asas. 
A espada de Lora passou roando o rosto de Blair e com a ponta lhe fez um corte na bochecha.
     -Oh, te deixar isso uma cicatriz? -Lora aterrissou sobre a rocha junto a ela.- Que lstima!
     -Curar-se. Nada teu durar muito mais.
     Ela respondeu  primeiro sangue com um golpe de espada que feriu a Lora no brao, seguido de um jorro de fogo atravs da lmina.
     Mas a espada de Lora desviou a lmina, e seu ao se voltou negro ao conter a chama vermelha. O fogo lanou um brilho e se extinguiu.
     -Acreditava que no estvamos preparados para isto? -Lora despiu suas presas enquanto ambas golpeavam e giravam e tratavam de ferir-se mutuamente.- A magia 
de Midir  muito mais poderosa do que nunca conseguiro seus magos.
     -Ento, por que todos seus soldados no tm espadas como a tua? Midir no foi capaz de consegui-lo.
     Blair deu um novo salto, e lanou um golpe a Lora com os ps. Sua inimiga aproveitou o impulso para elevar-se e lanar logo um golpe com a espada ao descer.
     Blair levantou a sua para bloquear o golpe, e no viu a adaga que Lora empunhava na outra mo. Cambaleou-se pela surpresa e a dor quando a lmina penetrou em 
seu flanco.
     -Olhe todo esse sangue. Est emanando de seu corpo. Uau! 
     Quando Blair caiu ao cho de joelhos, Lora se ps a rir, um tilintante som de alegria. E seus olhos se tingiram de vermelho quando levantou a espada para atirar 
o golpe mortal.
     Com um uivo selvagem, um lobo dourado atacou de cima. Garras e presas rasgaram o ar quando saltou sobre a espada, investindo e lanando dentadas. Quando se 
dispunha a saltar a Lora  garganta, Blair amaldioou.
     -No! Ela  minha. Deu-me sua palavra. -Sua respirao era um assobio enquanto permanecia de joelhos, com a adaga ainda cravada em um flanco.- Se afaste, menino-lobo. 
Para trs! 
     O lobo se transformou em homem quando Larkin retrocedeu.
     -Acabe com ela ento -disse com expresso carrancuda.- E te deixe j de tolices.
     - o molenga de sua cachorra, verdade? -Lora se moveu em crculos, tentando ter a ambos em seu campo visual, a mulher ferida e o homem desarmado.- Mas tem razo, 
realmente deveramos deixar de tolices. Tenho um programa muito apertado.
     Lanou um golpe com a espada e Blair elevou a sua para bloque-lo. Os msculos dos braos lhe esticaram dolorosamente, e da ferida do flanco lhe brotou mais 
sangue.
     -No sou nenhuma cachorra -ofegou Blair.- Ele no  um molenga. E voc est acabada.
     Extraiu-se a adaga do flanco e o cravou at o cabo em Loira no estmago.
     -Di, mas s  ao.
     -E este tambm.
     Com as poucas foras que ficavam, Blair afastou a espada de Lora e cravou a sua no peito.
     -Est comeando a me chatear. -Lora levantou sua espada e apontou para baixo.- Quem est acabada agora?
     -Voc -respondeu Blair, enquanto as chamas surgiam da lmina que Lora tinha cravada no peito.
     Enquanto se queimava e lanava uns horrveis alaridos, Lora se cambaleou e caiu da rocha. Blair lhe extraiu a espada do peito, fez ela girar e cortou a cabea 
em chamas.
     -Isso esteve fodidamente bem.
     Blair gaguejou, inclinou-se, e teria cado ao cho se Larkin no tivesse saltado para frente para agarr-la.
     - muito grave?
     Apertou a mo contra a ferida do flanco de Blair.
     -De lado a lado, acredito. No afetou nenhum rgo. Uma bandagem rpida para parar a hemorragia e voltarei para campo de batalha.
     -Isso j o veremos. Suba.
     Quando Larkin se transformou em drago, Blair montou trabalhosamente sobre seu lombo. Ao elevar-se, viu Glenna lutando contra Midir no topo da colina. E viu 
como sua amiga caa a terra.
     -Oh, Deus, est ferida. Glenna est acabada. Em quanto tempo pode chegar ali?
     No interior do drago, Larkin pensou: "No o bastante depressa".
     
     
     Glenna sentiu o sangue na boca. E havia mais emanando da dzia de cortes superficiais que tinha na pele. Sabia que tinha ferido a Midir, sabia que tinha conseguido 
alcanar seu escudo, seu corpo, inclusive seu poder.
     Mas podia sentir que seu prprio poder a abandonava junto com seu sangue.
     Fazia todo o possvel, mas no tinha sido suficiente.
     -Seu fogo se est esfriando. Apenas fica um rescaldo. -Agora Midir se aproximou do lugar onde ela jazia, sobre a terra queimada e coberta de sangue.- Mesmo 
assim, poderia ser suficiente para que tenha o trabalho de lev-lo comigo, junto com o que fica de vida.
     -Te asfixiar. -Glenna balbuciou as palavras. Ele sangraria, pensou. Lhe faria sangrar sobre a terra.- Juro que o far.
     -O Absorverei tudo. Depois de tudo,  to pequeno... Pode ver o que ocorre abaixo, verdade? Ali onde o que eu ajudei a forjar passa sobre vocs como lagostas. 
 como o vaticinei. Nada poder det-lo.
     -Eu o farei.
     Hoyt apareceu no topo da colina, golpeado e ensangentado.
     -Esse  meu homem -conseguiu dizer Glenna, apertando os dentes para suportar a dor.- O abrandei um pouco para ti. 
     -V, aqui h algo mais ao que lhe fincar o dente.
     Midir se voltou e lanou um raio negro.
     O raio se chocou contra o raio branco cegante de Hoyt, chispando e cuspindo chamas vermelhas. A fora lanou a ambos para trs, cortando o ar entre os dois. 
Glenna rodou pelo cho para evitar uma labareda e logo se firmou com mos e joelhos.
     Fez proviso de todo o poder que ainda ficava e o enviou a Hoyt. Fechou uma mo tremente ao redor da cruz que tinha pendurada no pescoo e concentrou seu poder 
nela e na cruz gmea que levava Hoyt.
     Enquanto ela realizava o feitio, os dois feiticeiros -negro e branco- lutavam na colina coberta pela fumaa e no ar pestilento que soprava sobre ela.
     O fogo que alcanou a Hoyt levava a queimadura do gelo. Procurava seu sangue... o qual estava derramado, o qual pretendia derramar, para lhe tirar o poder.
     Arranhou-lhe e lhe cortou enquanto o ar refulgia e ressonava com os conjuros mgicos, enviando redemoinhos de fumaa que ocultavam a lua. Sob seus ps, a terra 
se rachou, abrindo fissuras sob a enormidade da presso.
     Enquanto seus pulmes trabalhavam com dificuldade e o corao lhe golpeava contra o peito, Hoyt ignorou essas exigncias terrestres de seu corpo, ignorou a 
dor de suas feridas e o suor que se vertia sal nelas.
     Ele era agora o poder. Alm daquele momento, no comeo da viagem, quando ele tinha vacilado durante um instante sobre o negro. Agora, no topo daquela colina, 
por cima do sangue e da morte, por cima da coragem do homem, do sacrifcio e da fria, ele era a chama incandescente do poder.
     A cruz que levava lanou brilhos chapeados e brilhantes quando Glenna uniu sua magia  dele. Com uma mo, agarrou a dela, aferrando-a com fora quando seus 
dedos se entrelaaram, e a ajudou a levantar-se. Com a outra, agarrou uma espada, e o fogo que se desprendeu dela era de um branco puro.
     -Somos ns os que tomamos a ti -disse Hoyt, e lanou um poderoso raio com sua espada.- Ns que lutamos pela pureza da magia, pelo corao da humanidade. Somos 
ns quem lhe derrotamos, quem lhe destrumos, quem lhe enviamos para sempre s chamas.
     -Malditos sejam! -gritou Midir, e elevando ambos os braos, lanou seus raios para Hoyt e Glenna. O medo apareceu em seu rosto quando Glenna agitou uma mo 
no ar e os converteu em cinzas.
     -No. Maldito seja voc.
     Hoyt dirigiu a espada para Midir. O fogo branco saltou da lmina para lhe atravessar o corao como se fosse ao. 
     No lugar onde caiu e morreu, a terra se tornou negra.
     
     
     Terreno elevado, pensou Moira. Tinha que retornar ao terreno elevado e reagrupar aos arqueiros. Ela tinha ouvido claramente os gritos que advertiam que sua 
linha de defesa havia tornado a romper-se no norte. As flechas ardentes obrigariam a retroceder quela fora invasora e dariam tempo a suas tropas para recompor 
suas linhas outra vez. Atravs da confuso, procurou um cavalo ou um drago que pudesse lev-la at o lugar onde sabia que mais a necessitavam. E ao elevar a vista, 
pde ver Hoyt e Glenna banhados por uma luz branca e pura e enfrentando-se a Midir. Um indcio de esperana renovada fez que se pusesse a correr para eles. Embora 
a terra parecia aferrar-se a seus ps, agitou a espada contra um inimigo que se cruzou em seu caminho. O corte que lhe fez serviu para frear sua carreira e, quando 
se dispunha a golpear outra vez, Riddock acabou com ele de atrs.
     Com uma careta selvagem, Riddock avanou com um punhado de homens para a linha quebrada. Ele vivia, pensou ela. Seu tio estava vivo. Quando correu para reunir-se 
com ele, a terra se agitou sob seus ps e a fez cair.
     Quando se estava levantando, seu olhar se encontrou com os olhos abertos e sem vida de Isleen.
     -No. No. No.
     Isleen tinha um profundo corte na garganta, a fina tira de couro da qual Moira sabia que lhe pendurava uma cruz de madeira, estava quebrada e empapada de sangue. 
A dor foi to forte, golpeou-a de um modo to profundo, que se aferrou a seu corpo.
     Ainda estava morna, pensou enquanto a embalava entre seus braos. Ainda morna. Se tivesse sido mais veloz, poderia ter salvado a Isleen.
     -Isleen. Isleen.
     As palavras eram uma imitao zombadora quando Lilith surgiu da densa fumaa.
     Ia vestida para a batalha, em vermelho e prata, e na cabea luzia uma coroa igual a de Moira. Sua espada estava coberta de sangue at o enfeitado punho. Ao 
v-la, Moira sentiu que ondas de fria e medo chocavam dentro dela fazendo que se levantasse de um salto.
     -Te olhe. -A elegncia e destreza com que Lilith movia a espada enquanto girava a seu redor, advertiram a Moira que a rainha dos vampiros conhecia muito bem 
a arte da esgrima.- Pequena e insignificante, coberta de barro e lgrimas. Assombra-me ter perdido tanto tempo planejando sua morte quando tudo  to simples.
     -No conseguir a vitria. -Rainha contra rainha, pensou Moira ao tempo que bloqueava o primeiro golpe arrojado por Lilith. A vida contra a morte.- Lhes estamos 
fazendo retroceder. Nunca nos deteremos.
     -Oh, por favor. -Lilith fez um gesto depreciativo com a mo.- Suas linhas se esto derrubando como se fossem de argila, e ainda tenho duzentos soldados na reserva. 
Mas isto no se trata de vencer aqui ou l. Isto  entre voc e eu.
     Quase sem pestanejar, Lilith agarrou pela garganta ao soldado que a atacava e lhe rompeu o pescoo. Lanou-o a terra com um gesto de indiferena enquanto golpeava 
a espada flamejante de Moira.
     -Midir tem suas habilidades -disse Lilith quando obteve que o fogo se extinguisse.- Quero perder meu tempo contigo, cadela humana. Voc matou a meu Davey.
     -No, voc o fez. E uma vez destrudo aquilo no que o converteu, espero que o que Davey foi alguma vez, a inocncia que teve, esteja te amaldioando.
     A mo de Lilith saiu disparada para frente, relampejando como as presas de uma cobra. Suas unhas arranharam a bochecha de Moira.
     -Mil cortes. -Lambeu o sangue que manchava seus dedos -Isso  o que te darei. Milhares de cortes enquanto meu exrcito enche o estmago com os seus.
     -No voltar a toc-la. -Montado em seu corcel negro, Cian se aproximou lentamente, como se o tempo se deteve.- No voltar a toc-la nunca mais.
     -Vens a salvar a sua puta? -Lilith tirou de seu cinturo uma estaca de ouro.- Madeira de carvalho dourada. Ordenei que a fizessem especialmente para ti, para 
o momento em que acabe contigo do mesmo modo em que te criei. Me diga, no te excita todo este sangue? Atoleiros quentes dele, cadveres que ainda no se esfriaram 
esperando para serem esvaziados. Sei que o que h em ti nsia esse sabor. Eu pus isso em seu interior e o conheo tanto como conheo eu mesma.
     -Voc nunca me conheceu. V embora -disse a Moira desmontando.
     -Sim, pode pr-se a correr. J te encontrarei mais tarde.
     Lilith voou para Cian, logo girou sobre sua cabea agitando a espada. Quando lanou o ao para baixo, sua estaca encontrou o ar enquanto Cian movia o corpo 
para cima e para trs, com os saltos das botas roando o rosto de Lilith.
     Ambos se moviam to depressa, a uma velocidade to pavorosa, que Moira nem alcanou a ver algo mais que uma mancha imprecisa, para ouvir os aos que chocavam 
como um trovo de prata. Aquela seria a batalha de Cian, ela sabia, a qual somente ele podia liderar. Mas no lhe abandonaria.
     Montou no cavalo e levou a Vlad colina acima atravs das pedras cobertas de sangue, at colocar-se por cima de suas cabeas. Dali lanou jorros de fogo com 
sua espada para conter o avano dos soldados de Lilith que pretendiam chegar aonde estava sua rainha. Jurou que ela e a espada de Geall defenderiam a seu amado at 
o final.
     Lilith era muito hbil, e Cian sabia. Depois de tudo, ela tinha tido centenas de anos para aprender a arte da guerra, assim como ele. Sua fora e velocidade 
eram to grandes como as dele. Talvez mais. Ela bloqueava seus golpes, o fazia retroceder, escapulia-se da fora de seu ataque.
     Aquele lugar ainda era de Lilith, era consciente disso. Aquele reduto de negrume. Ela se alimentava daquele lugar enquanto ele no se atrevia a faz-lo. Ela 
se alimentava dos gritos que ressonavam no ar e do sangue que parecia empap-lo como uma chuva.
     Cian lutava contra Lilith, e contra a guerra que havia em seu interior; essa coisa que pugnava por libertar-se e revelar o que era. Aquilo no que Lilith o tinha 
convertido. Aproveitando sua vantagem, ela separou de um golpe a espada de Cian e, no instante em que ele ficou descoberto, lanou a estaca contra seu corao.
     A fora do golpe o fez retroceder, cambaleando-se. Mas quando o grito de triunfo de Lilith se apagava, ele seguia de p, ileso.
     -Como? -Foi tudo o que Lilith conseguiu a dizer enquanto lhe olhava fixamente.
      Cian sentia a marca do relicrio de Moira contra seu corao, e a dor era leve e doce.
     -Uma magia que voc jamais conhecer.
     Cian se lanou para frente com a espada, e afundou a afiada ponta na cicatriz do pentculo. O sangue que comeou a brotar da ferida era negra e espessa como 
o breu.
     A dor e a fria fizeram que surgisse o demnio em seus olhos, o vermelho assassino. Agora os gritos de Lilith ressonaram em todo o vale quando se lanou para 
ele com uma fora nova e selvagem. Cian repeliu o ataque e derramou mais sangue enquanto o relicrio parecia pulsar como um corao em seu peito.
     A espada de Lilith lhe alcanou no brao, e fez que a sua casse tilintando entre as pedras.
     -Agora voc! Logo sua puta!
     Quando Lilith atacou, Cian colheu com fora a munheca da mo que sustentava a espada. Ela lhe sorriu. 
     -Que seja deste modo ento.  mais potico.
     Ela despiu as presas para lhe morder o pescoo. Ento Cian lhe cravou no corao a estaca dourada que Lilith havia feito especialmente para ele.
     -Diria-te que fosse ao inferno, mas acredito que nem sequer ali lhe aceitariam.
     Os olhos de Lilith se abriram enormemente e se voltaram azuis. Cian sentiu como se dissolvia a munheca que aferrava em sua mo ensangentada, mas aqueles olhos 
ainda o olharam um instante mais.
     Logo s houve um monto de cinzas a seus ps.
     -Acabei contigo -disse- como voc acabaste comigo faz muito tempo. Isso sim  potico.
     A terra comeou a tremer sob seus ps. Bem, pensou Cian, j vem.
     O corcel negro saltou das rochas pulverizando as cinzas com os cascos.
     -Conseguiste. -Moira desceu de Vlad e se jogou em seus braos.- A derrotaste. Ganhaste.
     -Isto foi o que me salvou. -Tirou o relicrio que lhe tinha dado e lhe mostrou o profundo entalhe que apresentava a prata pela fora da estaca.- Voc me salvou.
     -Cian. -Quando a rocha atrs dela se abriu como um ovo, Moira saltou e seu rosto voltou a empalidecer.- Depressa. V, depressa. J comeou. O sangue de Lilith, 
seu fim, era a ltima coisa. Eles comearam o feitio.
     -Voc a derrotou, voc ganhou. Recorda sempre disso, Moira.
     Atraiu-a para ele e esmagou sua boca com a sua. Logo montou em seu cavalo e partiu a todo galope.
     Ao redor dela tudo era um caos. Gritos e chiados atravs da fumaa, os gemidos dos feridos, a fuga desesperada do inimigo.
     Um drago dourado apareceu em meio desse caos com Blair sobre seu lombo. Com a terra ondulando-se sob seus ps, Moira elevou os braos para que Larkin pudesse 
segur-la entre suas garras. Logo voou com ele para o topo da colina, sobre a terra trmula.
     Ali acima, Hoyt colheu com fora a mo de Moira.
     -Tem que ser agora.
     -Cian. No podemos estar seguros de...
     -Dei-lhe minha palavra. Deve ser agora.
     Elevou as mos juntas e todos elevaram seus rostos e suas vozes para o cu negro.
     -Neste lugar uma vez maldito, conservamos o poder, e o exercemos nesta hora final. Sobre esta terra se derramou o sangue na mais negra das noites, a deles pela 
escurido e a nossa pela luz. A magia negra e os demnios foram derrotados aqui por nossa mo, e agora reclamamos esta terra ensangentada. Agora convocamos tudo 
o que temos feito. Agora, atravs da escurido, elevamos o sol. Sua luz golpear a nosso inimigo. Que assim seja!
     A terra tremeu e o vento comeou a soprar com fria.
     -Chamamos o sol! -gritou Hoyt.- Chamamos  luz!
     -Chamamos o amanhecer! -A voz de Glenna se elevou junto  de Hoyt, e o poder aumentou quando Moira agarrou sua mo livre.- Que se queime a noite.
     -Eleva-se pelo leste -cantou Moira, olhando atravs da fumaa que formava redemoinhos ao seu redor, enquanto Larkin e Blair completavam o crculo.- Se estende 
para o oeste.
     -J vem -gritou Blair.- Olhem. Olhem para o leste.
     O cu se iluminou por cima das sombras das montanhas, e a luz se estendeu e cresceu at que tudo se tornou brilhante como se fosse meio-dia.
     No vale, os vampiros se queimavam at ficarem convertidos em nada.
     No terreno rochoso e quebrado, as flores comearam a abrir-se.
     -Viu isso? -A mo de Larkin aferrou com fora a de Moira, e sua voz era rouca e reverente.- A erva est se tornando verde.
     Moira o viu e tambm o doce feitio das flores brancas e amarelas que se estendiam sobre aquele tapete verde. Viu os corpos dos que tinham cado na pradaria 
de um vale prdigo e banhado pelo sol.
     Mas no viu Cian por nenhuma parte.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     CAPTULO 21
      
     
      
     Embora a batalha se havia ganho, ainda se tinha trabalho a fazer.
     Moira ajudou Glenna no atendimento aos feridos. Blair e Larkin tinham sado com um grupo para caar aos vampiros que pudessem volta a uma das bases aos homens 
cujas feridas no eram to graves.
     Depois de limpar-se uma vez mais o sangue das mos, Moira endireitou as costas e, ao ver que Ceara vagava pelo lugar como aturdida, correu para ela.
     -Vem, vem, ests ferida. -Moira apertou uma mo sobre a ferida que Ceara tinha no ombro.- Deixa que te cubra essa ferida.
     -Meu marido. -Seu olhar foi de um colcho a outro, enquanto se apoiava pesadamente sobre Moira.- Eogan. No posso encontrar a meu marido. Ele...
     -Aqui. Eogan est aqui. Levarei-te at ele. Esteve perguntando por ti.
     -Est ferido? -Ceara se cambaleou.- Ele...
     -No  uma ferida mortal, juro. E, quando te ver, a ferida curar mais rpido. Ali est, v? Ele...
     Moira se interrompeu enquanto Ceara lanava um grito e corria at cair de joelhos junto ao colcho onde estava seu marido.
     - bom ver isso,  bom para o corao.
     Moira se voltou e sorriu a seu tio. Riddock, com o brao e a perna enfaixados, estava sentado sobre um canastro de fornecimentos.
     -Eu gostaria que todos os amantes pudessem voltar a reunir-se como eles. Mas... perdemos a tantos... mais de trezentos mortos, e a recontagem no acabou.
     -E quantos vivem, Moira? -Riddock viu as feridas que sua sobrinha tinha no corpo, e em seus olhos viu as feridas que tinha no corao.- Ter que honrar aos 
mortos, mas alegrar-se pelos vivos.
     -Farei-o. Farei-o. -Ela seguiu percorrendo com o olhar aos feridos e a quem atendia, e temia s por um.- Se sente com foras para viajar de retorno para casa?
     -Partirei-me com os ltimos. Eu levarei a nossos mortos de volta para casa, Moira. Me deixe essa tarefa.
     Ela assentiu e, depois de abraar a Riddock, voltou para sua ocupao. Estava ajudando a um soldado a beber um pouco de gua quando Ceara voltou a procur-la.
     -Sua perna. A perna de Eogan... Glenna diz que no a perder, mas...
     -Ento no a perder. Glenna no mentiria a nenhum dos dois.
     Ceara assentiu com a respirao mais relaxada.
     -Posso ajudar. Quero ajudar. -Ceara se tocou o ombro enfaixado.- Glenna me tem feito uma cura e disse que logo estarei bem. Tambm vi a Dervil. Ela saiu bastante 
bem machucada. Corte e machucados em sua maior parte.
     -Eu sei.
     -Vi a seu primo Oran, e me h dito que Phelan, o marido de Sinann, j se encontra de caminho ao castelo. Mas ainda no pude encontrar a Isleen. Viram-na?
     Moira baixou a cabea do soldado e logo se levantou.
     -Ela no o conseguiu.
     -No, minha senhora, ela tem que hav-lo conseguido. Vocs no a virais. -Ceara voltou a inspecionar os colches que se estendiam sobre o vasto terreno.- H 
tantos feridos...
     -Vi-a. Isleen caiu no campo de batalha.
     -No. Oh, no. -Ceara se cobriu o rosto com as mos.- Vou dizer a Dervil. -As lgrimas caam por suas bochechas quando baixou as mos.- Est tratando de encontrar 
a Isleen. O direi e ns... No posso entend-lo, minha senhora. No posso.
     -Moira! -Glenna a chamou atravs do campo.- Te necessito aqui.
     -O direi a Dervil -repetiu Ceara, e se afastou correndo.
     Moira trabalhou at que o sol comeou a ocultar-se outra vez, logo, exausta e doente de preocupao, voou nos lombos de Larkin at a granja onde passaria a 
ltima noite.
     Ele estaria ali, disse-se. Ali seria onde estaria. Protegido da luz do sol e ajudando a organizar os fornecimentos, o transporte e aos feridos.  obvio, ele 
estaria ali.
     -J quase  de noite -disse Larkin quando se transformou.- E no haver nada que saia a caar em Geall esta noite salvo aquilo que tem feito a natureza.
     -No encontraste a ningum, nenhum sobrevivente inimigo?
     -Cinzas, s cinzas. Inclusive nas covas e na profundidade do bosque s havia cinzas. Como se o sol que trouxemos tivesse queimado tudo, e nenhum deles tivesse 
podido sobreviver, no importa onde se ocultou.
     O rosto de Moira, j plido, voltou-se cinza, e Larkin a agarrou pelo brao.
     - diferente para ele, voc sabe. Cian ter posto a capa. Deve t-la conseguido a tempo. No pode acreditar que a magia que criamos pudesse fazer mal a um dos 
nossos.
     -No,  obvio.  obvio, tem razo. Estou cansada, isso  tudo.
     -Agora colocar algo em seu estmago e logo te deitar.
     Larkin a acompanhou at a casa.
     Ali estava Hoyt em companhia de Blair e Glenna. A expresso de seus rostos fez que a Moira lhe dobrassem os joelhos. 
     -Est morto.
     -No. -Hoyt se adiantou para lhe agarrar as mos.- No, Cian sobreviveu.
     As lgrimas que Moira tinha estado contendo durante horas, brotaram de seus olhos e banharam suas bochechas.
     -Jura-o? Cian no est morto? Viu-o, falaste com ele?
     -Juro-o.
     -Moira, sente-se, est esgotada.
     Mas ela sacudiu a cabea ante as palavras de Glenna e manteve o olhar fixo nos olhos de Hoyt.
     -Acima? Est acima? -Um estremecimento lhe sacudiu todo o corpo ao compreender o que tinha visto nos olhos de Hoyt.
     -No -respondeu ele lentamente.- No est acima. Nem na casa, nem em Geall. Cian se foi. Retornou.
     "Ele o sentia... " Maldio! Sinto muito, Moira. Estava decidido a partir imediatamente. Eu lhe dei minha chave e Cian partiu ao Baile dos Deuses voando em 
um drago. H dito... -Hoyt agarrou um papel lacrado que havia em cima da mesa.- Me pediu que te desse isto.
     Moira olhou o papel e, finalmente, assentiu.
     -Obrigada.
     Ningum disse nada quando Moira agarrou o papel e subiu sozinha a seu quarto.
     Encerrou-se no quarto que tinha compartilhado com Cian e acendeu as velas. Logo se sentou e sustentou a carta contra seu corao at que teve o valor suficiente 
para romper o selo.
     E leu.
     
     Moira.
     Isto  o melhor. Essa parte razovel de ti o entende. Se ficasse mais tempo no teria feito mais que prolongar a dor, e j houve suficiente dor para uma dzia 
de vidas. Te deixar  um ato de amor. Espero que tambm entenda isso.
     Tenho tantas imagens de ti em minha cabea. De ti sentada no cho de minha biblioteca, rodeada de livros, absorta em sua leitura. De ti rindo com King ou Earkin 
como raramente te ria comigo durante aquelas primeiras semanas. Valente na batalha ou perdida em seus pensamentos. Nunca soube quantas vezes te olhei, e te quis.
     Verei-te na neblina do amanhecer, extraindo da pedra uma espada brilhante, e voando em um drago enquanto as flechas saem cantando de seu arco.
     Verei-te  luz das velas, estendendo os braos para mim, me levando para uma luz que no tinha conhecido antes e que no voltarei a conhecer.
     Voc salvou seu mundo e o meu e todos os outros que pudessem haver. Acredito que tinha razo quando disse que estvamos destinados a nos encontrar, a estarmos 
juntos para forjar a fora, o poder necessrio para salvar esses mundos.
     Agora chegou o momento de dar um passo a um lado.
     Peo-te que seja feliz, que reconstrua seu mundo, sua vida, e que abrace ambos. Fazer menos que isso seria uma desonra para o que tivemos voc e eu. Para o 
que voc me deu.
     De algum jeito contigo, voltei a ser um homem.
     Esse homem te amou alm de toda medida. O que sou que no  um homem tambm te amou, apesar de tudo. Sempre te amei. Se voc me amou, far o que te peo.
     Vive por mim, Moira. Inclusive separados por um mundo, eu saberei que o faz e serei feliz.
     
      Cian
     
     
     Moira chorou. Um corao humano precisava derramar esse profundo poo de lgrimas. Deitada na cama onde se amaram pela ltima vez, ela apertou a carta contra 
seu corao e o deixou vazio.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     Cidade de Nova Iorque
     Oito semanas mais tarde
     
     
     
     Passava muito tempo na escurido e muito tempo com o usque. Quando um homem dispunha da eternidade, Cian supunha que podia levar uma ou duas dcadas para ruminar 
amargamente. Possivelmente inclusive todo um sculo, tendo em conta que tinha renunciado ao amor de sua fodida e eterna vida.
     Superaria-o,  obvio.  obvio que o faria. Voltaria a encarregar-se de seus negcios. Viajaria durante um tempo. Primeiro beberia um pouco mais. Um ou dois 
anos de fodida bebedeira nunca tinham feito mal a um morto vivo.
     Ele sabia que Moira estava bem, ajudando a que seu povo se recuperasse da terrvel experincia pela qual tinham passado, planejando o monumento que levantariam 
no vale na prxima primavera. Tinham enterrado a seus mortos e ela tinha lido cada um dos nomes -quase quinhentos deles- durante a cerimnia.
     Sabia porque outros j tinham retornado tambm e tinham insistido em lhe dar detalhes que ele no lhes tinha pedido.
     Ao menos, Blair e Larkin estavam agora em Chicago, e no estariam lhe chateando todo o dia para falar ou reunir-se. Cabia pensar que os humanos, depois de ter 
passado todo esse tempo com ele, saberiam que seu estado de nimo no era precisamente socivel.
     Ele ia derrubar-se na depresso, porra. E todos eles, segundo seus clculos, estariam mortos antes que ele sasse desse poo depressivo.
     Serviu-se outra generosa quantidade de usque. Disse-se que, ao menos, ainda conservava alguns princpios que impediam que bebesse diretamente da garrafa.
     E ali estavam Hoyt e Glenna, insistindo para que passasse o Natal com eles. Natal, pelo maldito Judas! O que podia lhe importar o Natal? Quem dera retornassem 
a Irlanda e  casa que lhes tinha dado e o deixassem em paz.
     Celebrariam o Natal em Geall? Perguntou-se, deslizando os dedos sobre o relicrio de prata amolgado que jamais se tirava do pescoo. Nunca tinha perguntado 
a respeito desse costume em particular... mas por que deveria hav-lo feito? Provavelmente ali fosse Natal, com msica e lenhos ardendo nos lares. De todos os modos, 
isso no tinha nada a ver com ele.
     Moira o devia celebrar, acendendo mil velas e fazendo que o castelo de Geall resplandecesse. Pendurando os visqueiros e pedindo aos msicos que tocassem.
     Quando demnios lhe passaria essa dor? Quantos oceanos de usque necessitaria para aplac-la?
     Ouviu o zumbido do elevador e franziu o cenho. Havia dito claramente ao tosco porteiro que no deixasse subir ningum, certo? Teria que lhe romper o pescoo 
desse idiota como se fosse um palito chins usado.
     Mas no importava, disse-se, j que tinha ativado o mecanismo de trava de dentro como uma segunda linha de defesa.
     Podiam subir, mas no podiam entrar.
     Logo que pde reprimir um insulto quando a porta se abriu e viu a Glenna entrando na escurido.
     -Oh, pelo amor de Deus!
     A voz dela denotava impacincia e, um instante depois, as luzes se acenderam.
     A sbita luminosidade lhe feriu os olhos, e desta vez os insultos foram estridentes e autnticos.
     -Te olhe. -Ela deixou sobre uma mesa a grande caixa embrulhada com elegncia que havia trazido.- Sentado na escurido, como um...
     -Vampiro. Vai embora.
     -Aqui fede a usque.
     Como se fosse a proprietria do apartamento, Glenna foi  cozinha e comeou a preparar caf. Enquanto deixava a cafeteira no fogo, retornou  sala de estar, 
onde Cian seguia exatamente no mesmo lugar.
     -Feliz Natal tambm para ti. -Ela inclinou a cabea.- Precisa te barbear e um corte de cabelo. E um dia, quando no estiver de um humor de ces, perguntarei-te 
como faz esse tipo de coisas. Te barbear -repetiu-, te cortar o cabelo e, posto que aqui no s fede a usque, te tomar um banho.
     Os olhos de Cian permaneceram entrecerrados e seus lbios se curvaram sem pingo de humor.
     -Vais banhar-me voc, ruiva?
     -Se tiver que faz-lo... por que no te lava um pouco, Cian, e volta ao apartamento comigo? Ficou-nos um monto de comida do jantar de Natal. Hoje  o dia de 
Natal -disse ante seu olhar inexpressivo.- Quase as nove da noite do dia de Natal, em realidade; e deixei a meu marido s em casa porque  to obstinado como voc, 
e no viria nunca sem ter sido convidado.
     -Isso j  algo. No quero as sobras do jantar de Natal. E tampouco esse caf que est preparando na cozinha. -Levantou o copo.- J tenho o que necessito.
     -Muito bem. Pode ficar aqui bbado, fedido e deprimido. Mas possivelmente queira ter isto.
     Glenna foi at a mesa onde tinha deixado a caixa, agarrou-a e a deixou cair no colo de Cian.
     -Abre-a.
     Ele a estudou sem interesse.
     -Mas eu no tenho nada para ti.
     Glenna se ajoelhou a seus ps.
     -Considerarei que o abra como meu presente. Por favor.  importante para mim.
     -Ir-te daqui se o fizer?
     -Logo.
     Para agrad-la, Cian levantou a tampa com seu papel prateado e seu elaborado lao e afastou a capa superior de brilhante papel de seda.
     E Moira lhe olhou.
     -Ah, mas que merda, mas que merda, Glenna. -Nem o usque nem a vontade podiam resistir a imagem dela. A emoo lhe fez tremer a voz quando levantou o retrato 
emoldurado.-  lindo. Ela  linda.
     Glenna a tinha pintado no momento em que Moira tinha extrado a espada da pedra. O poder e o ar de irrealidade desse instante, com sombras verdes, nvoas chapeadas 
e a flamejante rainha de p, com a espada brilhante apontada para o cu.
     -Pensava, esperava, que ter esse retrato te recordaria o que ajudou a dar a Moira. Ela no teria podido consegui-lo sem ti. No haveria Geall sem ti. Eu no 
estaria aqui se no tivesse sido por ti. Nenhum de ns teria conseguido sobreviver sem cada um dos outros. -Apoiou uma mo sobre a de Cian.- Ainda somos um crculo, 
Cian. Sempre o seremos.
     -Fiz o correto para ela partindo. Fiz o que tinha que fazer.
     -Sim. -Glenna lhe apertou a mo.- Fez o correto, um ato de amor enorme e puro. Mas o fato de saber o que fez o correto por todas as razes justas no alivia 
a dor. 
     -Nada o faz. Nada.
     -Eu diria que o tempo o consegue, mas no sei se  verdade. -A compaixo se refletia em sua voz, em seus olhos.- Direi, em troca, que tem uma famlia e amigos 
que te amam e que esto disponveis para ti. Tem gente que te ama, Cian, que sofre por ti.
     -No sei como lidar com o que quer me dar, ainda no. Exceto isto. -Acariciou o marco com o dedo.- Obrigado por isso.
     -De nada. Tambm h fotografias. Umas que tirei quando estvamos na Irlanda. Pensei que possivelmente voc gostaria de t-las.
     Cian comeou a levantar as outras capas de papel e logo se deteve.
     -Necessito um momento.
     - obvio. Irei terminar de preparar o caf.
     Quando ficou sozinho, Cian desembrulhou o grande envelope de papel Manila e o abriu.
     Havia dzias delas. Uma da Moira e seus livros, e com Larkin fora da casa. Uma de King reinando sobre os foges da cozinha; de Blair, com o olhar intenso e 
o suor fazendo brilhar sua pele enquanto sustentava uma espada na posio de guerreiro.
     Tambm havia uma dele e de Hoyt que no sabia que Glenna lhes tivesse feito.
     Enquanto estudava cada uma das fotografias, seus sentimentos se agitavam e mesclavam, tristeza e prazer.
     Quando finalmente elevou a vista, Glenna estava apoiada no marco da porta com uma jarra de caf na mo.
     -Devo-te algo mais que um presente.
     -No, no me deve nada, Cian. Retornaremos a Geall para o Ano Novo. Todos ns.
     -Eu no posso.
     -No -disse ela depois de um momento, e a compreenso que refletiam seus olhos quase lhe faz pedaos.- Sei que no pode. Mas se houver alguma mensagem que...
     -No pode haver nenhuma. H muito para dizer, Glenna, e nada que dizer. Esto seguros de que podero retornar?
     -Sim, temos a chave de Moira e a garantia da prpria Morrigan. No ficou o tempo suficiente para receber o agradecimento dos deuses.
     Glenna se aproximou e deixou o caf em uma mesa junto a ele.
     -Se mudar de idia, no iremos at o meio-dia, a vspera de Ano Novo. Se no o fizer, depois da viagem, Hoyt e eu estaremos na Irlanda. Esperamos que venha 
a nos visitar. Blair e Larkin ficaro em meu apartamento.
     -Vampiros de Nova Iorque, cuidado!
     -Assim . -inclinou-se e o beijou na bochecha.- Feliz Natal.
     Cian no bebeu o caf, mas tampouco bebeu mais usque. Certamente aquele era um passo para alguma parte. Em troca, ficou sentado e estudou o retrato de Moira, 
e as horas passaram assim at a meia-noite.
     Um redemoinho de luz o obrigou a levantar da poltrona. Posto que era a arma que tinha mais perto, agarrou a garrafa de usque pelo pescoo. Como no estava 
to bbado para sofrer alucinaes, decidiu finalmente que a deusa que tinha aparecido subitamente em seu apartamento era real.
     -Certo, este  um dia memorvel. Pergunto-me se algum como vocs tinha visitado alguma vez a algum como eu.
     - parte dos seis -disse Morrigan.
     -Era.
     -. Entretanto, volta a te manter afastado deles. Me diga, vampiro, por que lutou? No por mim ou os meus.
     -No, no o fiz pelos deuses. Por que? -Cian se deu de ombros, e agora sim bebeu diretamente da garrafa em uma espcie de desafio ou de falta de respeito.- 
Era algo a fazer.
     - uma estupidez que algum como voc queira simular com algum como eu. Voc acreditava que era justo, que merecia a pena lutar por isso, inclusive entregar 
sua vida por essa causa. Conheci a sua espcie desde que comearam a arrastar-se atravs do sangue. Nenhum deles teria feito o que fez voc.
     -Enviastes a meu irmo aqui para se assegurar de que eu no me separasse do caminho correto.
     A deusa arqueou uma sobrancelha ante o tom empregado por Cian e logo inclinou a cabea.
     -Enviei a seu irmo para que te encontrasse. A vontade de faz-lo foi tua. Sente amor por esta mulher. -Assinalou o retrato de Moira.- Por essa humana.
     -Achas que no podemos amar? -A voz de Cian tremeu de raiva e de dor.- Achas que no somos capazes de amar?
     -Sei que voc  capaz de amar, e embora o amor possa impregnar fundo nos de sua espcie, o egosmo  igualmente forte. Mas no  seu caso. -Com a tnica agitada 
pelo vento, Morrigan se aproximou do retrato de Moira.- Ela te pediu que a transformasse em um dos seus, mas te negou a faz-lo. Se tivesse feito o que te pedia, 
poderia hav-la conservado ao seu lado.
     -Como uma fodida mascote? Conserv-la? Conden-la  o que teria feito, mat-la, destruir essa luz que h nela.
     -Teria-lhe dado a eternidade.
     -Da escurido, de um desejo pelo sangue do que tinha sido. Condenada a uma vida que no  vida. Ela no sabia o que estava me pedindo.
     -Ela sabia. Com um corao e uma mente to fortes como os que tem, e com essa coragem, ela sabia e, entretanto, te teria entregado sua vida. Te foi bom, verdade? 
Tem cultura e riqueza, habilidades. Lares luxuosos.
     -Assim . Fiz algo com meu ser morto. Por que no deveria hav-lo feito?
     -E desfruta disso... quando no est sentado na escurido, ruminando tristemente sobre aquilo que no pode ser. Sobre o que no pode ter. Desfrutas de sua eternidade, 
sua juventude, sua fora e seu conhecimento.
     Agora Cian sorriu depressivamente, amaldioando aos deuses.
     -Prefeririam que me golpeasse o peito pelo destino que me h tocado? Que lamentasse eternamente minha prpria morte?  isso o que exigem os deuses?
     -No exigimos nada. Ns pedimos e voc deu. Deu muito mais do que pensamos que daria. Se fosse de outro modo, eu no estaria aqui.
     -Bem. Agora podeis voltar a partir.
     -E tampouco -continuou dizendo a deusa no mesmo tom tranqilo- te daria esta alternativa. Continuar vivendo, ser ainda mais rico, sculo ps sculo, sem envelhecer, 
sem sofrer enfermidades e contando com a bno dos deuses.
     -J tenho tudo isso sem suas bnes.
     Os olhos de Morrigan cintilaram fugazmente, mas Cian no podia dizer -no lhe importava tampouco- se era um gesto de diverso ou de aborrecimento.
     -Mas agora so concedidas a ti, o nico de sua espcie que as tem. Voc e eu sabemos mais a respeito da morte que qualquer humano. E a tememos mais. No  necessrio 
que haja um final para ti. Ou pode ter um final.
     -O que? Estacado pelos deuses? -Soltou uma gargalhada e bebeu outro comprido trago diretamente da garrafa.- Queimado no fogo sagrado? Uma purificao de minha 
alma condenada?
     -Podes voltar a ser o que foi e ter uma vida que se acabe, como a de todos os mortais. Pode voltar a estar vivo e, desse modo, envelhecer e adoecer e, um dia, 
conhecer a morte como a conhece um homem.
     A garrafa se deslizou de seus dedos e se chocou contra o cho.
     -O que?
     -Esta  sua alternativa -disse Morrigan, elevando ambas as mos com as palmas para cima.- A eternidade, com nossas bnes para que a desfrutes. Ou um punhado 
de anos humanos. O que decide, vampiro?
     
     
     Em Geall tinha cado uma silenciosa nevada, e uma fina capa branca cobria a terra. A luz da manh brilhava sobre ela e arrancava brilhos do gelo que adornava 
as rvores.
     Moira devolveu a Sinann sua filha.
     -Est mais bonita a cada dia que passa, e poderia passar horas olhando-a. Mas nossa companhia chega depois do meio-dia e ainda no terminei os preparativos.
     -Trouxe-os de volta para casa comigo. -Sinann acariciou a sua filha.- Tudo o que eu amo. Eu gostaria que voc tambm pudesse ser feliz, Moira.
     -Vivi toda uma vida em umas poucas semanas.
     Moira deu um ltimo beijo  menina e logo voltou a vista com surpresa quando Ceara irrompeu na sala.
     -Majestade. H algum... abaixo, h algum que deseja falar com voc.
     -Quem?
     -Eu... s me ho dito que h um visitante que viajou de muito longe para falar com voc.
     Moira arqueou as sobrancelhas quando Ceara abandonou rapidamente a sala.
     -Bem, quem quer que seja esse visitante, no cabe dvida de que alterou a Ceara. Voltarei mais tarde.
     Saiu da sala alisando as calas. Tinham estado limpando durante dias para preparar o novo ano e a chegada de seus convidados mais esperados por ela. Para lhes 
ver outra vez, pensou, para falar com eles. Para ver o sorriso de Larkin ao conhecer sua nova sobrinha.
     Trariam-lhe alguma notcia de Cian?
     Apertou os lbios com fora, recordando-se uma vez mais que no devia permitir que se visse a pena que sentia por dentro. Era um tempo de celebrao, de festividade. 
Ela no colocaria um pano morturio sobre Geall depois de tudo o que tinham lutado para conservar seu mundo.
     Um tremor lhe percorreu a pele quando comeou a baixar a escada. Sentiu que o tremor subia por sua coluna vertebral e alcanava a base de seu pescoo, esse 
lugar onde a seu amante gostava de posar os lbios.
     Logo, o tremor lhe alcanou o corao, e ps-se a correr. Esse corao trmulo comeou a acelerar seus batimentos do corao. E logo a remontar-se.
     O que ela acreditava que nunca poderia ser, era; e ali estava ele, olhando-a.
     - Cian. -A alegria brotou de seu interior como uma msica.- Voltaste. -Ela teria se jogado em seus braos, mas ele a estava olhando com tanta intensidade, de 
um modo to estranho, que no estava segura de ser bem recebida.- Voltaste -repetiu.
     -Perguntava-me o que veria em seu rosto. Perguntava-me. Podemos falar em privado?
     - obvio. Sim, ns... -Moira, turvada, olhou a seu redor.- Parece que estamos sozinhos. Todos se foram. -O que podia fazer com suas mos para impedir que lhe 
tocassem?.- Como vieste? Como...?
     - a vspera de Ano Novo -disse Cian sem deixar de olh-la.- O final do velho, o comeo do novo. Queria ver-te no limite dessa mudana.
     -Eu queria ver-te, no importa quando ou onde. Outros chegaro em poucas horas. Ficars? Por favor, me diga que ficars  celebrao.
     -Isso depende.
     Lhe queimava a garganta como se tivesse tragado fogo.
     -Cian, sei que o que disse em sua carta era verdade, mas era duro, muito duro no voltar a ver-te. Conservar no sangue nosso ltimo momento juntos. Eu queria... 
-As lgrimas alagaram seus olhos, e esteve a ponto de perder a batalha para reprimi-las .- S queria um momento mais. Agora o tenho.
     -Aceitaria mais de um momento se eu pudesse te oferecer isso? 
     -No entendo. -Logo sorriu e reprimiu um soluo quando Cian tirou de baixo da camisa o relicrio que lhe tinha dado.- Ainda o levas.
     -Sim, ainda o levo.  uma de minhas posses mais preciosas. Eu no deixei nada atrs de mim para ti. Agora te pergunto, aceitaria mais que esse momento, Moira? 
Aceitaria isto?
     Ele lhe agarrou a mo e a apertou contra seu corao.
     -Oh, temia que no quisesse me tocar. -Deixou escapar o flego com um ligeiro tremor.- Cian, voc sabe, tem que saber, que eu...
     Sua mo tremeu debaixo da dele e seus olhos se arregalaram.
     -Seu corao. Seu corao pulsa.
     -Uma vez te disse que se podia pulsar, faria-o por ti. Pois o faz.
     -Est pulsando debaixo de minha mo -sussurrou ela.- Como?
     -Um presente dos deuses nos ltimos instantes do Natal. Eles me devolveram aquilo que me tinha sido arrebatado. -Mostrou-lhe a cruz de prata que pendurava de 
seu pescoo junto ao relicrio.-  um homem o que est frente a ti, Moira.
     -Humano -sussurrou ela.- Ests vivo.
     - um homem o que te ama.
     Cian a levou at as portas e as abriu de par em par, deixando que o sol se derramasse sobre ambos. E diante de algo to milagroso, elevou a cara, fechou os 
olhos, e deixou que a luz banhasse seu rosto.
     Moira j no pde seguir contendo as lgrimas nem os soluos que as acompanhavam.
     -Ests vivo. Retornaste para mim e est vivo.
     - um homem o que est frente a ti, Moira -repetiu ele.-  um homem o que te ama.  um homem o que te pergunta se compartilhar com ele a vida que lhe ho devolvido, 
se viver com ele. Se me tomars como sou e construir uma vida comigo. Geall ser meu mundo como voc  meu mundo. Ser meu corao como voc  meu corao. Se 
me aceitar.
     -Fui tua desde o primeiro momento, e serei tua at o ltimo. Voltaste para mi. -Moira apoiou uma mo no corao de Cian e a outra sobre o seu.- E meu corao 
pulsa outra vez.
     Ela lhe enlaou o pescoo com os braos, e aqueles que se congregaram no ptio e na escada lanaram vivas de jbilo enquanto a rainha de Geall beijava a seu 
amado sob o sol do inverno.
     
     
     -De modo que viveram -disse o ancio- e se amaram. E assim o crculo se voltou mais forte e formou novos crculos, do mesmo modo que se formam as ondas que 
se estendem pelas guas de um lago. O vale que uma vez tinha estado silencioso cantou com a msica da brisa do vero atravs da erva verde e com o mugido do gado. 
Com as flautas e as harpas e as risadas das crianas.
     O ancio acariciou o cabelo de um pequeno que subiu em seu colo.
     -Geall prosperou sob o reinado de Moira, a rainha guerreira, e seu cavalheiro. Para eles sempre brilhou uma luz, inclusive na escurido da noite. E isto leva 
a histria do feiticeiro, da bruxa, da guerreira, da erudita, do shifter e do vampiro a seu prprio crculo.
     Deu umas palmadas na cabea do menino que se instalou em seu colo.
     -E agora saiam todos pra fora enquanto ainda brilha o sol.
     Houve gritos e vivas e o ancio sorriu para ouvir as discusses que j tinham comeado a surgir para ver quem seria o feiticeiro e quem a rainha.
     Como seus sentidos ainda conservavam parte de sua acuidade, Cian levantou a mo para o respaldo da poltrona e cobriu a de Moira.
     -O contas bem.
     - fcil contar o que h vivido.
     - fcil melhorar o que aconteceu -o corrigiu ela, rodeando a poltrona.- Mas te rodeaste  verdade.
     -No era a verdade o bastante estranha e mgica?
     O cabelo dela era branco puro e, quando sorria, seu rosto mostrava as rugas que tinha deixado o passar dos anos. E era mais bonito que qualquer outro que tinha 
conhecido.
     -Sai comigo para dar um passeio antes que escurea. -Lhe ajudou a levantar-se e enlaou seu brao com o dele.- E est preparado para a invaso? -perguntou, 
inclinando a cabea para seu ombro.
     -Quando chegar, ao menos deixar de preocupar-se.
     -Estou to ansiosa por voltar a v-los. Nosso primeiro crculo e os crculos que eles formaram. Uma vez ao ano para todos eles  muita espera, inclusive com 
as breves visitas do meio. E escutar os pequenos fragmentos da histria faz que tudo volte de um modo muito claro, verdade?
     -Assim . Arrepende-te de algo?
     -Nunca me arrependi de nada tratando-se de ti. Que formosa vida tivemos, Cian. Sei que estamos no inverno dela, mas no sinto o frio.
     -Bom, eu sim o sinto, quando apia os ps em minhas ndegas de noite.
     Moira se ps a rir e se voltou para beij-lo com todo o calor, todo o amor de sessenta anos de matrimnio.
     -A est nossa eternidade, Moira -disse ele, assinalando a seus netos e bisnetos.- A est nosso "para sempre".
     Agarrados pela mo, os dois caminharam sob a morna luz do sol. Embora seus passos fossem lentos e mesurados pela idade, Cian e Moira continuaram seu passeio 
atravs dos ptios e dos jardins e saram atravs das portas enquanto o som das crianas brincando se ouvia atrs deles.
     Acima, no alto dos parapeitos do castelo, ondeavam os trs smbolos de Geall, o claddaugh, o drago e o sol... ouro sobre branco.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     GLOSSRIO DE TERMOS, PERSONAGENS E LUGARES IRLANDESES
     
     
      A chroi (ah-REE), termo carinhoso galico que significa "meu corao", "amado de meu corao", "querido meu".
     A ghr (ah-GHRA), termo carinhoso galico que significa, "meu amor", "querido".
     A str (ah-STOR), termo carinhoso galico que significa "querido meu".
     Aideen (Ae-DEEN), jovem prima de Moira.
     Alice McKenna, descendente de Cian e Hoyt Mac Cionaoith.
     An Ciar (Ahn-CLAR), o atual condado de Clare.
     Baile dos Deuses, o Baile, lugar de onde o crculo dos seis passam do mundo real ao mundo fantstico de Geall.
     Ballycloon (b-lu-klun).
     Blair Nola Bridgit Murphy, um dos membros do crculo dos seis, a "guerreira"; uma assassina de vampiros, descendente da Nola Mac Cionaoith (a irm mais nova 
de Cian e Hoyt).
     Burren, uma regio rochosa de pedra calcria no condado de Clare, com covas e correntes de gua subterrneas.
     Cara (caru), termo galico para "amigo, parente".
     Ceara, uma das mulheres da aldeia.
     Cian (KEI-an) Mac Cionaoith / McKenna, irmo gmeo de Hoyt, um vampiro, Lorde de Oiche, um dos membros do crculo dos seis, "o que se perdeu".
     Cirio, o amante humano de Lilith.
     Ciunas (CYOON-s), termo galico para "silncio"; a batalha se livra no Vale de Ciunas, o Vale do Silncio.
     Claddaugh, o smbolo celta do amor, a amizade e a lealdade.
     Conn, cachorrinho de Larkin quando este era pequeno.
     Davey, o filho de Lilith, a rainha dos vampiros, um menino vampiro.
     Deirdre (DAIR-dhra) Riddock, me de Larkin.
     Dervil (DAR-vel), uma das mulheres da aldeia.
     Eire (AIR-reh), termo galico para "a Irlanda".
     Eogan (O-en), marido de Ceara.
     Eoin (OAN), cunhado de Hoyt.
     Eternity, nome do clube noturno de Cian na cidade de Nova Iorque.
     Faerie Falls, lugar imaginrio em Geall.
     Failte-a Geall (FALL-che ah GY-ao), expresso galica que significa "Bem-vindo a Geall".
     Fearghus (FARE-gus), cunhado de Hoyt.
     Gaillimh (GALL-yuv), a atual cidade de Galway, capital da Irlanda ocidental.
     Geall (GY-alI), em galico significa "promessa"; a terra de onde procedem Moira e Larkin; a cidade em que um dia reinar Moira.
     Glenna Ward, um dos membros do crculo dos seis a "bruxa"; vive na atual cidade de Nova Iorque.
     Hoyt Mac Cionaoith / McKenna (Mac KHEE-nee), um dos membros do crculo dos seis, o "feiticeiro".
     Isleen (Is-leen), uma donzela do castelo de Geall.
     Jarl (Yarl), o amo de Lilith, o vampiro que a converteu em vampira.
     Jeremy Hilton, ex-noivo de Blair Murphy.
     King, nome do melhor amigo de Cian, a quem este protegeu quando era um menino; o gerente do Eternity.
     Larkin Riddock, um dos membros do crculo dos seis, "o shifter"; primo de Moira, rainha de Geall.
     Lilith, a rainha dos vampiros, alis a rainha dos demnios; lder da guerra contra a humanidade; amante de Cian, a vampira que converteu a este em vampiro.
     Lora, uma vampira; a amante de Lilith.
     Lucio, o vampiro masculino amante de Lora.
     Mac Dar, sobrenome; parte de um dos ttulos de Larkin.
     Malvin, aldeo, soldado no exrcito de Geall.
     Maniatan, distrito da cidade de Nova Iorque, onde vivem Cian McKenna e Glenna Ward.
     Mathair (maahir), termo galico para "me".
     Michael Thomas McKenna, descendente de Cian e Hoyt Mac Cionaoith.
     Mick Murphy, irmo pequeno de Blair Murphy.
     Midir (mije-deer), mago vampiro do Lilith, a rainha dos vampiros.
     Miurnin (tambm miurneach [mournukh]), palavra carinhosa galica para "amor/querido/querida".
     Moira (MWA-ra), um dos membros do crculo dos seis, a "erudita"; princesa e futura rainha de Geall.
     Morrigan (Mo-ree-ghan), deusa da Batalha.
     Niall (nile), um membro do guarda de Geall.
     Nola Mac Cionaoith, irm mais nova de Cian e Hoyt.
     Ogham (-gem) (tambm ogam), alfabeto irlands dos sculos V e VI.
     Oiche (EE-heh), termo galico para "noite".
     Oran (Ou-ren), filho menor de Riddock, irmo pequeno de Larkin.
     Phelan (FA-len), cunhado de Larkin.
     Poo do Bridget, cemitrio do condado de Clare, chamado assim por Santa Bridget.
     Prncipe Riddock, pai de Larkin, regente de Geall, tio materno de Moira.
     Regio de Chiarrai (kee-U-ree), o atual condado de Kerry, situado no extremo sul-ocidental da Irlanda, chamado s vezes "o Reino".
     Penhascos de Mohr (tambm Moher), nome dado s runas dos fortes do sul da Irlanda; sobre um penhasco prximo a Hag's Head "Moher O'Ruan".
     Samhain (SAM-em), final do vero (festival celta); a batalha tem lugar durante a festividade do Samhain, a celebrao do final do vero.
     Sean (Shawn) Murphy, pai de Blair Murphy, um caador de vampiros.
     Shop Street, centro cultural de Galway. 
     Sinann (shih-NAWN), irm do Larkin. 
     Slinte (slawn-che), termo galico que significa "sade!". 
     Sldn agat (shlahn u-gut), termo galico que significa "adeus" e que se diz  pessoa que fica. 
     Sldn leat (shlahn ly-aht), termo galico que significa "adeus" e que se diz  pessoa que se vai.
     Tuatha de Danaan (TOO-aha dai DON-nan), deuses galeses.
     Tynan (Ti-nin), guardio do castelo de Geall.
     Vlad, cavalo de Cian.
     
      
     
     
     
     
     
      
1 Prato escocs feito com midos de cordeiro. (N. delt.)
         2TiVo  uma tecnologia que permite gravar o contedo da televiso, mas diferentemente dos clssicos vdeos, grava-o em um disco rgido que permite armazenar 
entre 80 e 300 horas de programao recebida atravs do cabo, a televiso digital ou uma transmisso via satlite. (N. do T.)

3 Expresso em Galico Irlands que significa tchau. (N.R.F)
4 Expresso em Galico Irlands que significa adeus.(N.R.F)
5 Expresso em Galico irlands que significa meu corao.
6 *Faz aluso  novela do Erich Mara Remarque, Sem novidade no fronte. (N.T.)
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Nora Roberts - Trilogia do Crculo - Livro III - O Vale do Silncio



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